Resumo Executivo

08 de abril de 2026

A Nova Dinâmica do Consumo de Cerveja no Lar no Brasil

Caroline Silva Soares de Carvalho; Marina Haber de Figueiredo

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Nas últimas décadas, o consumo de cerveja no Brasil consolidou-se como um componente essencial nos estudos de mercado e na análise do comportamento do consumidor, apresentando transformações estruturais significativas. Dados da Kantar revelam que a proporção de domicílios brasileiros que incluíram a bebida em sua cesta de compras apresentou uma trajetória ascendente, passando de 62,3% em 2016 para 63,4% em 2018, o que representou a entrada de mais de 500 mil novos lares nesse mercado em apenas dois anos. Esse movimento de expansão ganhou uma escala sem precedentes em 2022, quando mais de 5,1 milhões de novos domicílios passaram a consumir cerveja no ambiente residencial em comparação ao período anterior, atingindo volumes recordes para o setor. A tendência de migração para o lar intensificou-se em 2023, com destaque para o segmento de consumidores com mais de 50 anos, que reduziu o consumo em estabelecimentos comerciais em 11% e elevou o consumo domiciliar em 8%.

A pandemia de COVID-19 atuou como um catalisador determinante nesse processo, impondo restrições severas de circulação e socialização que deslocaram compulsoriamente o consumo de bebidas alcoólicas para o ambiente doméstico. Esse fenômeno promoveu uma ressignificação profunda dos hábitos de compra e uso, transformando a residência no principal palco de lazer. Embora a literatura acadêmica explore os efeitos da crise sanitária global, os estudos que sistematizam esse fenômeno com foco específico no mercado brasileiro e no intervalo dos últimos cinco anos ainda são necessários para compreender as variáveis culturais, sociais e econômicas que moldam o novo perfil do consumidor. O cenário atual exige uma investigação detalhada sobre as transformações ocorridas entre 2020 e 2025, visando fornecer subsídios para as estratégias de marketing da indústria cervejeira.

A relevância dessa análise fundamenta-se na capacidade de oferecer uma visão integrada sobre as novas dinâmicas, incluindo a ascensão meteórica das categorias premium e as mudanças qualitativas nas preferências. Projeções da Euromonitor e da Associação Brasileira de Supermercados indicam que o mercado de cervejas premium deve movimentar mais de R$ 80 bilhões em 2025, o que representa um crescimento de aproximadamente 50% em um intervalo de cinco anos. Paralelamente, observa-se uma mudança cultural voltada para a saúde e a moderação, evidenciada pelo fato de o volume de cerveja sem álcool ter quintuplicado entre 2018 e 2023. A projeção de ultrapassar 780 milhões de litros dessa categoria em 2025 reflete uma preocupação crescente com o bem-estar, influenciando diretamente o portfólio das empresas e o comportamento de compra no varejo.

Para investigar essas transformações de forma profunda, adotou-se uma abordagem analítica que transcende a observação superficial de tendências, focando em um fenômeno multifacetado impulsionado por fatores estruturais e conjunturais. A investigação foi estruturada em duas etapas complementares, utilizando uma estratégia de métodos mistos para captar diferentes dimensões do comportamento humano e fortalecer a consistência dos achados. A primeira fase consistiu em uma revisão sistemática e qualitativa de dados secundários obtidos por meio de pesquisa documental exaustiva. Foram consultadas fontes de alta credibilidade no setor, incluindo relatórios de mercado da Kantar, NielsenIQ e Euromonitor, além de publicações técnicas da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja e do Centro de Estudos do Varejo da Fundação Getulio Vargas. Essa etapa permitiu contextualizar o objeto de estudo, mapear as variações nos perfis dos consumidores e orientar a construção do instrumento de coleta de dados subsequente.

A pesquisa documental permitiu a análise sistemática de registros históricos e evidências empíricas, essencial para ampliar o entendimento sobre o consumo no lar sob as perspectivas mercadológica e cultural. Na segunda etapa, conduziu-se uma investigação quantitativa mediante a aplicação de um questionário estruturado, elaborado com base nas evidências identificadas na fase documental. O instrumento foi disponibilizado via plataforma digital e composto por 10 questões estrategicamente desenhadas, sendo nove fechadas de múltipla escolha e uma aberta, destinada a captar percepções individuais e nuances qualitativas que enriquecessem a análise estatística. A amostra foi constituída por consumidores brasileiros com 18 anos ou mais, residentes em diversas regiões do país, selecionados por conveniência por meio de divulgação em redes sociais e contatos diretos, buscando garantir a diversidade sociodemográfica necessária para a validade do estudo.

O uso de questionários estruturados é uma prática consolidada em estudos de marketing por permitir a coleta padronizada de informações, facilitando a identificação de padrões comportamentais e a quantificação de tendências. A combinação de perguntas fechadas e abertas proporcionou tanto a robustez estatística quanto uma leitura interpretativa complementar, favorecendo a triangulação dos dados. A integração entre as abordagens qualitativa e quantitativa é fundamental em estudos que envolvem fenômenos sociais complexos, pois amplia a validade dos resultados e permite uma compreensão mais holística das motivações humanas. O procedimento seguiu rigorosamente as normas éticas vigentes, utilizando exclusivamente dados secundários de acesso público na fase qualitativa e garantindo o anonimato dos participantes na fase quantitativa, enquadrando-se nas resoluções que isentam de avaliação ética pesquisas de opinião pública sem identificação dos respondentes.

A compreensão aprofundada das mudanças no consumo doméstico é estratégica para o desenvolvimento de ações de marketing orientadas por dados. O deslocamento do consumo para o lar exige que a indústria realize adaptações em suas campanhas publicitárias, canais de distribuição e segmentação de produtos. O marketing eficaz depende intrinsecamente da capacidade de entender as necessidades e desejos dos consumidores em contextos específicos, tornando os estudos comportamentais fundamentais para decisões de posicionamento e inovação. O crescimento das categorias premium e sem álcool, aliado à busca por conveniência e segurança, aponta para oportunidades claras de diferenciação. O comportamento do consumidor é influenciado por fatores simbólicos e o ambiente doméstico redefiniu o papel da cerveja como um elemento de socialização, relaxamento e ritual cotidiano.

A análise documental revela que o panorama do consumo de cerveja no Brasil, historicamente marcado pela forte presença em bares e eventos, sofreu uma ruptura e subsequente reconfiguração a partir de 2020. As restrições impostas pela crise sanitária aceleraram tendências que levariam anos para se consolidar em condições normais. O ambiente doméstico tornou-se o palco central, e a explosão das vendas no varejo físico e digital confirmou essa migração. Relatórios da NielsenIQ destacaram um aumento expressivo nas vendas em supermercados e atacadistas, evidenciando que a mudança rapidamente se estabeleceu como um novo padrão. A transição da necessidade inicial para a conveniência foi o fator decisivo para a manutenção desse hábito a longo prazo. A facilidade de adquirir o produto para consumo imediato em casa, impulsionada por plataformas de delivery e e-commerce, eliminou barreiras logísticas significativas.

A performance robusta do segmento off-trade manteve-se mesmo após a flexibilização das restrições sociais, enquanto o setor de bares e restaurantes enfrentava dificuldades de recuperação. Além da conveniência, a economia emergiu como um motivador relevante, visto que o custo por unidade no lar é, em regra, inferior ao praticado em estabelecimentos comerciais. Em um cenário de instabilidade econômica, o consumo em casa permitiu a preservação do hábito sem comprometer severamente o orçamento familiar. Observou-se um aumento na frequência de compra para o abastecimento doméstico, indicando uma internalização profunda desse comportamento. Essa mudança não se restringiu a um único perfil, ocorrendo uma democratização que abrangeu diferentes faixas etárias e classes sociais. Jovens adultos passaram a socializar em grupos menores nas residências, enquanto famílias adotaram a bebida como um componente de celebração privada.

A diversificação da cesta de produtos consumidos em casa é outro ponto de destaque na análise documental. Embora as cervejas do tipo lager de massa continuem dominantes, há um crescimento expressivo no interesse por rótulos artesanais, especiais e importados. Isso revela um consumidor mais exigente, que busca qualidade, variedade e experiências de harmonização com alimentos, facilitadas pelo acesso a portfólios amplos em canais digitais. A digitalização das compras foi uma das transformações mais profundas; o e-commerce de bebidas, antes um nicho, tornou-se um canal indispensável para grandes indústrias e pequenos produtores. A praticidade e a agilidade na entrega transformaram a experiência de compra, tornando-a mais planejada e frequente.

Outro reflexo importante identificado nos documentos setoriais foi o aumento da atenção à saúde, com a demanda por cervejas sem álcool ou de baixo teor alcoólico deixando de ser marginal para representar uma escolha consciente. Para o período que se estende até 2025, a expectativa é que o consumo doméstico permaneça em patamares elevados, consolidando um modelo híbrido de consumo onde o lar mantém sua relevância mesmo com o retorno das atividades externas. As empresas do setor têm respondido com investimentos pesados em embalagens do tipo multi-packs, formatos menores e campanhas que valorizam o momento de consumo residencial. A análise preliminar indica que as motivações migraram da necessidade para a conveniência, segurança e busca por bem-estar, consolidando a digitalização como um pilar do mercado.

Os dados quantitativos coletados corroboram as tendências identificadas na literatura e nos relatórios de mercado. A pesquisa revelou que 96% dos respondentes consomem cerveja em casa, sendo que 40% o fazem com frequência semanal. Esse dado quantifica o grau em que o ambiente doméstico se estabeleceu como o local preferencial. Além disso, 38% dos participantes indicaram um aumento na frequência de consumo residencial após o ano de 2020, o que sugere uma internalização duradoura do hábito, mesmo após o fim das restrições sanitárias. Tal fenômeno reforça a perspectiva de que crises globais aceleram megatendências, resultando em um novo normal onde comportamentos temporários se tornam estruturais.

Quanto aos locais de consumo, mais de 80 respostas indicaram o lar como o espaço principal, superando bares e restaurantes. Isso demonstra que, apesar da reabertura dos estabelecimentos comerciais, a residência manteve sua posição proeminente. O lar tornou-se um espaço versátil para diferentes formatos de socialização, desde momentos de relaxamento individual até pequenos encontros com amigos e familiares, adaptando-se às novas realidades de convivência. A preferência por tipos de embalagem também oferece insights valiosos sobre as motivações de compra. O consumo de latas atingiu 59%, enquanto garrafas menores representaram 35%, sugerindo uma busca por praticidade, conveniência e redução de desperdício no consumo individual ou em pequenos grupos. Essas escolhas refletem a adaptação da indústria às demandas por comodidade e melhor custo-benefício.

A distribuição por faixa etária mostrou que o consumo no lar é abrangente, com 60% dos respondentes tendo até 34 anos, 27% entre 35 e 50 anos e 13% acima de 50 anos. A presença significativa de jovens adultos, que tradicionalmente frequentavam mais os canais on-trade, comprova a quebra de paradigmas e a democratização do consumo doméstico. Entre os fatores que mais impactam esse comportamento, a comodidade e a segurança foram citadas por 53% dos participantes, reforçando a ideia do lar como um refúgio e um espaço de lazer controlado. A mudança de hábito após a pandemia foi mencionada por 23%, enquanto a economia em relação ao consumo fora de casa foi o driver para 16% da amostra.

A premiunização e a diversidade do mercado também foram validadas pelos dados empíricos. O interesse por cervejas puro malte alcançou 36%, enquanto as artesanais representaram 20% das preferências, indicando que o consumidor doméstico busca maior variedade e qualidade. Apenas 10% dos respondentes afirmaram não ter uma preferência específica por estilos, o que demonstra a maturidade do paladar e a busca por experiências sensoriais mais ricas no ambiente privado. Ao comparar o consumo dentro e fora do lar, observou-se que 40% dos participantes consomem frequentemente em casa, contra apenas 22% que mantêm a mesma frequência em estabelecimentos externos. Quase 60% afirmaram que o consumo fora de casa ocorre apenas ocasionalmente, o que reforça a hibridização do mercado com predominância do ambiente doméstico.

A percepção de um consumo mais consciente e planejado foi confirmada por 88% dos respondentes, alinhando-se às tendências globais de moderação e bem-estar. Esse planejamento está diretamente ligado à digitalização e à possibilidade de escolher produtos com calma em plataformas de e-commerce. Os depoimentos qualitativos coletados na pesquisa aberta trouxeram nuances emocionais a esses dados. Muitos consumidores destacaram que, com o passar do tempo, a residência tornou-se a opção mais acessível e confortável, proporcionando um espaço melhor para conversas e proximidade com pessoas queridas em detrimento de ambientes lotados como baladas. Outros mencionaram que a preocupação com a segurança, especificamente em relação à legislação de trânsito e ao uso do bafômetro, tornou o consumo em casa muito mais atraente e responsável.

A valorização da qualidade sobre a quantidade também apareceu de forma recorrente nos relatos, com consumidores afirmando que preferem investir em menores volumes de cervejas superiores para degustar no conforto do lar. O estresse do cotidiano e do trabalho também foi citado como um motivador para o consumo residencial, funcionando como um mecanismo de relaxamento e recompensa ao final do dia. A correlação entre essas variáveis permite traçar o perfil de um novo consumidor brasileiro de cerveja: mais consciente, orientado pela conveniência, atento à qualidade e que utiliza o espaço doméstico como seu principal centro de lazer e socialização.

A análise integrada dos dados demonstra que a migração para o lar não foi apenas um movimento reativo, mas uma transformação profunda na cultura de consumo. A indústria cervejeira, ao identificar esses perfis e motivações, ganha subsídios para estratégias de segmentação mais precisas, desenvolvimento de embalagens adequadas ao consumo individual e campanhas que valorizem atributos como autenticidade e bem-estar. O sucesso das marcas no cenário atual e futuro depende da capacidade de se alinharem a essas novas dinâmicas de estilo de vida, onde o lar é o centro das decisões de compra e das experiências de consumo.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a investigação demonstrou de forma clara e fundamentada que o consumo de cerveja no lar no Brasil passou por uma transformação estrutural entre 2020 e 2025. A pandemia de COVID-19 funcionou como o elemento deflagrador de uma mudança que evoluiu da necessidade para um comportamento regido pela praticidade, segurança e otimização financeira. Os dados confirmaram a consolidação de um modelo de consumo híbrido, com forte predominância do ambiente doméstico, impulsionado pela digitalização, pela busca por produtos premium e por uma maior consciência em relação à saúde e moderação. O lar consolidou-se como um cenário propício para a degustação e socialização, exigindo que o setor cervejeiro continue inovando em portfólios, embalagens e estratégias de comunicação que valorizem a experiência residencial do consumidor.

Referências Bibliográficas:

EUROMONITOR INTERNATIONAL. Alcoholic Drinks in Brazil: Country Report. Londres: Euromonitor International, 2023. Disponível em: https://www.euromonitor.com/alcoholic-drinks-in-brazil/report. Acesso em: 10 jun. 2025.

KANTAR. Cerveja chega a 63,4% dos lares brasileiros. São Paulo: Kantar Worldpanel, 2018. Disponível em: https://br.kantar.com. Acesso em: 09 jun. 2025.

KANTAR. Cerveja chega a 63,4% dos lares brasileiros. São Paulo: Kantar Worldpanel, 2018. Disponível em: https://br.kantar.com. Acesso em: 09 jun. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq

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