Quem sou eu além do algoritmo?

Coluna

Digital

10 de agosto de 2026

Quem sou eu além do algoritmo?

Construção de identidade e posicionamento depende de processos que envolvem repertório, interpretação e experiência

Essa é uma pergunta que tem se tornado cada vez mais recorrente na minha prática como criadora de conteúdo e consultora. Em um ambiente digital altamente mediado por sistemas de distribuição, passamos grande parte do tempo ajustando linguagem, formato e timing para atender às dinâmicas das plataformas. Nesse processo, há um deslocamento quase imperceptível, mas significativo: a atenção deixa de estar centrada na construção da mensagem e passa a ser orientada pela expectativa de desempenho.

Não há equívoco em reconhecer a importância do algoritmo. Ele estrutura o fluxo de informações, influencia diretamente o alcance e, em muitos casos, determina a visibilidade de um conteúdo. Ignorar esse funcionamento seria uma decisão pouco estratégica. No entanto, a compreensão técnica não pode suprimir a criatividade e a autenticidade. O que observo, tanto na minha experiência quanto na análise do comportamento de mercado, é um tipo de esgotamento que não está necessariamente ligado ao volume de produção, mas à tentativa constante de adaptar a complexidade do pensamento humano a padrões de performance.

Esse movimento de adaptação contínua, quando não é equilibrado por uma reflexão crítica, tende a produzir um efeito colateral relevante: a terceirização do pensamento. O algoritmo opera a partir de padrões identificáveis, replicáveis e previsíveis. Já a construção de identidade e posicionamento depende de processos menos lineares, que envolvem repertório, interpretação e experiência. Quando a criação de conteúdo passa a responder prioritariamente (reforço: prioritariamente) ao que é premiado pelo sistema, há um risco de deslocamento dessa identidade. O conteúdo deixa de emergir de uma visão própria e passa a ser uma resposta ao ambiente.

A questão central, portanto, não está na adaptação em si, mas no grau de dependência que se estabelece em relação a esses mecanismos. Adaptar-se é parte do jogo. Tornar-se refém da lógica de distribuição é o que fragiliza a consistência de longo prazo. Nesse contexto, o risco mais significativo não é a perda pontual de alcance, mas a diluição da identidade.

Um conteúdo pode performar bem em determinados momentos e, ainda assim, não contribuir para a construção de um posicionamento sólido. Algoritmo não forma quem nós somos, ele só organiza o que vemos. Ele responde a padrões de comportamento e entrega aquilo que maximiza retenção e não necessariamente aquilo que faz sentido para nós. Quando confundimos essas duas coisas, estamos abrindo mão da nossa autonomia. E isso também impacta nosso nível de autenticidade e nossa identidade.

Essa percepção me levou a revisitar os critérios que orientam minha própria produção. Ao longo do tempo, fui deslocando o foco de métricas de vaidade para elementos mais estruturais, como intenção e utilidade. Isso não significa desconsiderar dados ou ignorar indicadores de desempenho, mas reposicioná-los como ferramentas de leitura, e não como direcionadores absolutos da criação. Esse ajuste de perspectiva trouxe uma mudança relevante na forma como penso e produzo conteúdo.

Foi nesse processo que algumas perguntas passaram a orientar minhas decisões de maneira mais consistente. Questionar se o conteúdo sustenta o posicionamento que desejo construir, se ele de fato me representa ou apenas responde ao que tende a performar melhor, e se continuaria fazendo sentido produzi-lo diante de uma eventual mudança nas regras do algoritmo tornou-se parte do meu processo. Essas questões não oferecem respostas imediatas, mas ajudam a me localizar no processo de criação, reduzindo a dependência de estímulos externos.

Outro ponto que considero central nessa discussão é a relação entre identidade e repertório. Um conteúdo que se sustenta ao longo do tempo não se apoia exclusivamente em técnica ou formato. Ele é resultado da forma como o profissional observa o mundo, organiza referências e constrói conexões. Quando esse repertório não é continuamente alimentado, a tendência é a repetição de ideias e abordagens, o que compromete tanto a qualidade quanto a capacidade de gerar impacto.

Esse padrão de repetição, quando orientado apenas por performance, contribui para um ambiente cada vez mais homogêneo. Diferentes perfis passam a adotar estruturas semelhantes, abordagens previsíveis e narrativas pouco diferenciadas. Nesse cenário, a distinção deixa de estar no conteúdo em si e passa a depender de fatores externos, como distribuição e frequência. No entanto, em um contexto de excesso de informação, a diferenciação se torna um ativo essencial para a construção de relevância.

Tenho observado também uma mudança no comportamento do público, especialmente entre aqueles que buscam conteúdo com maior profundidade. Existe uma percepção mais apurada em relação ao que é produzido exclusivamente para retenção e ao que carrega uma construção de pensamento mais consistente (isso explica o sucesso e ascensão do Substack). Esse filtro, ainda que não explícito, influencia diretamente a forma como o conteúdo é recebido e, principalmente, se ele gera conexão ou apenas consumo momentâneo.

Nesse sentido, a distribuição técnica pode até definir quem será impactado inicialmente por uma mensagem, mas não é suficiente para sustentar a permanência. O que mantém a atenção ao longo do tempo é a consistência da voz, a coerência das ideias e a capacidade de entregar valor que vai além da forma. Esse é um ponto que, na minha visão, deveria ocupar um espaço mais central nas discussões sobre produção de conteúdo.

A construção de identidade em ambientes digitais exige, portanto, um equilíbrio entre adaptação e autonomia. Exige a capacidade de compreender o funcionamento das plataformas sem abrir mão da própria perspectiva. Mais do que seguir tendências ou replicar formatos, trata-se de desenvolver um olhar próprio sobre os temas que se escolhe abordar.

Por fim, a pergunta que tenho buscado responder não está relacionada exclusivamente à performance ou ao alcance. Ela se coloca em um nível mais estrutural, mais desafiador e até mais íntimo: quem sou eu além do algoritmo?

Essa não é uma resposta simples, especialmente em tempos de redes sociais e plataformas de mídia. Mas é uma pergunta que me direciona para algo muito maior: a minha identidade fora das telas, a autenticidade do meu conteúdo e o limite entre adaptar minha comunicação ao algoritmo e perder minha própria referência, não apenas diante de mim mesma, mas diante do meu público.

Quem publicou esta coluna

Silmara Regina de Souza

Mestre em Administração, consultora pelo Sebrae SP. Palestrante, conteudista, especialista em marketing e comunicação digital. Entusiasta da produção de conteúdo e do uso estratégico das redes sociais como canais de relacionamento e comunicação.

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