Gestão Escolar
09 de setembro de 2026
O Problema da Indisciplina no Ensino Preparatório: Mapeamento, Análise e Estratégias de Redução
Emmily Beatriz Gomes Atayde; Rafael Augusto Nakayama Rufino
DOI: 10.22167/2675-6528-202602207
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Este estudo analisou a indisciplina em um curso preparatório gratuito destinado a estudantes da rede pública em Manaus, com o objetivo de mapear ocorrências, compreender suas causas e propor estratégias de redução. A pesquisa foi motivada pelo aumento significativo dos registros, que passaram de 223 em 2024 para 525 em 2025, evidenciando a necessidade de intervenção. A metodologia baseou-se em pesquisa documental, com análise de registros institucionais ao longo do ano letivo de 2025, seguida da elaboração de um plano de ação estruturado pela ferramenta 5W2H. Os resultados indicaram maior incidência de ocorrências relacionadas ao uso inadequado do fardamento e atrasos, além de casos de comportamento inadequado em sala, uso de celular e desrespeito a funcionários. A análise qualitativa apontou que parte dessas ocorrências está associada a fatores internos, como fragilidades na comunicação das normas institucionais e à necessidade de maior articulação entre escola e família, aspectos que impactam diretamente a compreensão das regras e a adesão às orientações estabelecidas. Como resposta, foram propostas ações voltadas ao fortalecimento da comunicação institucional, à orientação sistemática de alunos e responsáveis, ao alinhamento da equipe e à formalização dos processos disciplinares, incluindo a criação de ficha de advertência. Conclui-se que a indisciplina está relacionada não apenas ao comportamento discente, mas também às práticas institucionais, sendo essencial a adoção de estratégias preventivas e integradas para a melhoria do clima escolar e da organização pedagógica.
Palavras-chave: comportamento escolar; gestão escolar; normas institucionais.
1. Introdução
A disciplina, em seu sentido mais amplo, é compreendida como um conjunto de valores e expectativas que se transformam conforme o tempo, a classe social e a cultura (Parrat-Dayan, 2008). Etimologicamente, o termo deriva do latim “discipulus”, que significa “aquele que aprende”, indicando uma característica inerente ao ser humano, construída e moldada ao longo da existência (Houaiss, Villar e Franco, 2009).
Essa compreensão se estende ao conjunto de normas e regras estabelecidas em um grupo social, as quais visam assegurar a ordem e o desenvolvimento adequado das atividades (Parrat-Dayan, 2008). Comportamentos que desrespeitam essas normas, por sua vez, configuram a indisciplina e frequentemente resultam em sanções ou medidas corretivas.
No contexto escolar, a indisciplina é entendida como a violação de princípios que regem tanto o desenvolvimento das atividades pedagógicas quanto as relações interpessoais entre alunos, professores e demais profissionais. Esses princípios incluem regras formais, presentes em regulamentos institucionais, e valores éticos que se conectam à cultura e à identidade da instituição (Carvalho, 2012).
As manifestações de indisciplina podem ter origens diversas, tanto externas quanto internas ao ambiente educacional. Fatores externos, como a violência social, a ausência de acompanhamento familiar nos processos educacionais, problemas domésticos e a influência da mídia, contribuem para o cenário. Internamente, a indisciplina pode ser uma resposta do aluno ao insucesso escolar, à falta de reconhecimento de valores ou à ausência de clareza nas normas de convivência (Souza, 2021; Costa et al., 2019).
A família e a escola são instituições cruciais no desenvolvimento dos estudantes. Enquanto a família atua como espaço primário de socialização, transmitindo valores e ensinando a lidar com conflitos, a escola oferece educação formal e aprimoramento de habilidades (Dessen & Polonia, 2007; Santana et al., 2024). A articulação entre essas duas esferas é fundamental para a construção de um ambiente educativo que promova o bem-estar e o aprendizado.
Nesse cenário, a gestão escolar assume um papel central na promoção de normas de convivência, buscando valorizar o estudante e construir ações colaborativas com a família e os professores para minimizar os efeitos da indisciplina (Souza, 2021). A transgressão escolar é um desafio global, exacerbado em regiões com maiores índices de pobreza, impactando diretamente a vida acadêmica e o processo de aprendizagem (Parrat-Dayan, 2008; Videira & Albuquerque, 2017).
Tal desafio foi observado em um curso preparatório gratuito, instituído por uma escola de ensino médio-técnico em Manaus, que visa preparar candidatos para o vestibular e para as rotinas institucionais. Nesse ambiente, constatou-se um aumento significativo nos registros de ocorrências disciplinares, que passaram de 223 em 2024 para 525 em 2025. Esse crescimento evidenciou a necessidade urgente de intervenção e gerou preocupação na gestão do curso.
Diante desse contexto, o objetivo deste trabalho foi compreender os fatores relacionados ao aumento dos registros de indisciplina, com ênfase nas causas internas, além de propor ações de enfrentamento, cujos resultados poderão subsidiar a tomada de decisão de outras equipes gestoras, no planejamento de estratégias mais eficazes de acompanhamento e orientação de estudantes em cursos preparatórios.
2. Material e Métodos
A metodologia da pesquisa foi estruturada em subtópicos, abordando a caracterização do ambiente de estudo, os procedimentos de coleta e análise de dados, e a elaboração do plano de ação. Por ser uma pesquisa baseada exclusivamente em análise documental institucional, sem envolvimento direto de participantes, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
Caracterização do ambiente de estudo
O estudo foi realizado em um curso preparatório gratuito em Manaus, destinado a estudantes da rede pública do 9º ano do ensino fundamental, com 14 a 15 anos e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O curso, ofertado por uma instituição filantrópica, visa preparar os jovens para o processo seletivo de ingresso no ensino médio-técnico e para as normas escolares. As atividades ocorrem aos sábados, das 7h00min às 11h40min, e abrangem Língua Portuguesa, Matemática e Ciências da Natureza. A equipe é composta por 48 professores-tutores (ex-alunos e bolsistas), três coordenadores de área, uma coordenação geral e uma assistente pedagógica. Criado em 2017 com 300 estudantes, o projeto atualmente atende 1.440 alunos matriculados, o que ampliou a complexidade de sua gestão.
Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa documental, utilizando registros de ocorrências indisciplinares armazenados digitalmente em uma planilha institucional (Google Planilhas). O período analisado foi de 8 de março a 22 de novembro de 2025. O acesso ao material foi concedido mediante autorização formal da instituição, exclusivamente para fins desta pesquisa (Apêndice A). A primeira etapa consistiu no estudo descritivo das ocorrências, categorizando-as conforme a natureza da indisciplina, respeitando os critérios de exaustividade, mútua exclusividade, homogeneidade e objetividade (Gil, 2017), e evidenciando sua frequência ao longo do período letivo.
Elaboração do plano de ação
Para propor estratégias de redução das ocorrências, utilizou-se a pesquisa-ação (Thiollent, 2022). Esta etapa envolveu a construção de hipóteses e a identificação de problemas internos a partir dos dados documentais, orientando a elaboração das estratégias. As definições para o plano de ação foram estabelecidas em conjunto com a equipe de coordenação do projeto, por meio de reuniões. Para sistematizar o plano de ação, adotou-se a ferramenta 5W2H, que orienta o planejamento por meio das perguntas: What (o que?), Why (por quê?), Where (onde?), Who (quem?), When (quando?), How (como?) e How much (quanto?) (Pereira, 2020).
Sistematização de planos de ação
Com o objetivo de reduzir os registros de ocorrências em 2026, foram elaborados planos de ação preventivos, baseados na análise dos focos identificados. Para abordar a insuficiente compreensão dos pais e responsáveis sobre as normas institucionais, foi estruturada uma ação para evidenciar o papel da família no acompanhamento escolar.
Tabela 1. Plano de ação para prevenção de ocorrências disciplinares por meio da orientação familiar
| Direcionador | Descrição |
|---|---|
| O que? | Realizar reunião de pais e responsáveis |
| Por que? | Garantir que os responsáveis estejam alinhados quanto às normas institucionais |
| Onde? | Online – Transmissão via YouTube |
| Quem? | Coordenação do curso preparatório |
| Quando? | Março/2026 |
| Como? | Convocar os pais e responsáveis através de e-mail e comunicado nas redes sociais; Elaboração de apresentação institucional direcionada ao público, contemplando o Manual do Aluno e a explicação das normas relacionadas aos principais grupos focais geradores de ocorrências disciplinares; Explicar qual o papel dos pais e responsáveis no bom desenvolvimento acadêmico dos discentes e como podem ser nossos aliados no processo de ensino-aprendizagem. |
| Quanto? | Sem custos adicionais |
Fonte: Resultado original da pesquisa
Para promover um alinhamento mais consistente dos estudantes com a proposta, objetivos e metodologias do curso, e apresentar seus deveres e direitos conforme o Manual do Aluno, foram delineadas duas ações para o primeiro dia de aula. A primeira ação propõe a redistribuição das orientações e explicações sobre o projeto ao longo de todo o período de aula do primeiro dia, com cada professor abordando um tópico específico do Manual do Aluno e da metodologia do curso, visando maior diálogo e compreensão.
Tabela 2. Plano de ação para prevenção de ocorrências disciplinares por meio da orientação aos discentes
| Direcionador | Descrição |
|---|---|
| O que? | Apresentar o projeto para os discentes |
| Por que? | Promover a compreensão dos estudantes acerca da proposta do curso preparatório, de sua organização pedagógica e das normas institucionais |
| Onde? | Em sala de aula |
| Quem? | Professores – tutores e coordenação do curso |
| Quando? | Primeiro dia de aula |
| Como? | Elaboração de apresentação institucional direcionada ao público-alvo; Distribuição da apresentação ao longo dos cinco tempos de aula do primeiro sábado letivo, com divisão dos tópicos entre os professores-tutores, contemplando: i) apresentação do curso preparatório; ii) metodologia de ensino adotada; iii) resultados alcançados pelo curso; iv) benefícios da instituição de ensino médio-técnico; v) Manual do Aluno. |
| Quanto? | Sem custos adicionais |
Fonte: Resultado original da pesquisa
A segunda ação consiste na atividade pedagógica Cápsula do Tempo, para estimular os estudantes a refletirem sobre seu percurso acadêmico e projetarem perspectivas futuras, registrando expectativas, metas e reflexões sobre sua trajetória escolar.
Tabela 3. Plano de ação para desenvolvimento de perspectivas futuras dos estudantes
| Direcionador | Descrição |
|---|---|
| O que? | Implementar a atividade pedagógica Cápsula do Tempo com os discentes. |
| Por que? | Estimular os estudantes a refletirem sobre os próximos passos de sua trajetória acadêmica e sobre suas perspectivas de futuro. |
| Onde? | Em sala de aula |
| Quem? | Professores – tutores |
| Quando? | Primeiro dia de aula |
| Como? | Orientar os estudantes quanto aos objetivos da atividade; Propor o registro individual de expectativas, metas e percepções sobre o momento atual da trajetória escolar; Organizar o material produzido (em formato físico ou digital) para armazenamento e posterior devolutiva em momento oportuno. |
| Quanto? | Sem custos adicionais |
Fonte: Resultado original da pesquisa
Para alinhar a equipe de inspetoria, responsável por monitorar as normativas, foi realizada uma reunião antes do início do período letivo, visando garantir segurança na orientação e cobrança dos discentes.
Tabela 4. Plano de ação para alinhamento da equipe de inspetoria
| Direcionador | Descrição |
|---|---|
| O que? | Reunião de alinhamento com equipe de inspetoria |
| Por que? | Garantir que a equipe esteja segura sobre como orientar e cobrar |
| Onde? | Em uma sala de aula |
| Quem? | Equipe de coordenação do projeto e inspetoria |
| Quando? | Antes do começo das aulas |
| Como? | Por meio de reunião formativa, na qual a equipe de inspetoria recebeu orientações claras sobre como abordar os alunos de forma adequada, padronizada e respeitosa, além de estratégias para comunicar e reforçar as regras institucionais no dia a dia |
| Quanto? | Sem custos adicionais |
Fonte: Resultado original da pesquisa
Como última ação, implementou-se a criação de uma ficha física de advertência para registro formal de ocorrências, com o motivo claro, assinada pela coordenação e pelo aluno no momento do registro, e posteriormente pelo responsável, convocado presencialmente. Esta medida visa fortalecer a conscientização e o senso de responsabilidade dos alunos.
Tabela 5. Plano de ação para elaboração de ficha de advertência
| Direcionador | Descrição |
|---|---|
| O que? | Elaboração e implementação de um modelo padrão de ficha física de advertência para registro formal de ocorrências disciplinares. |
| Por que? | Para padronizar os registros de advertência, garantir clareza nas informações, dar respaldo institucional às ações da coordenação e contribuir para o aumento da conscientização e responsabilidade dos alunos e responsáveis. |
| Onde? | Na instituição de ensino, com uso pela coordenação e setor de atendimento |
| Quem? | Equipe de coordenação do projeto |
| Quando? | Antes do começo das aulas |
| Como? | Será desenvolvido um documento padrão contendo campos como: identificação do aluno, data, descrição da ocorrência e espaço para assinaturas (coordenação, aluno e responsável). Após elaboração, o modelo será revisado e aprovado internamente, impresso e disponibilizado para uso |
| Quanto? | Sem custos adicionais |
Fonte: Resultado original da pesquisa
3. Resultados e Discussão
A seção apresenta os resultados e discussões organizados em subtópicos. Inicialmente, expõe-se a análise quantitativa e qualitativa das ocorrências disciplinares, evidenciando sua distribuição e características. Em seguida, são desenvolvidas reflexões pedagógicas sobre os dados, buscando interpretar os fatores associados. Por fim, são apresentadas as práticas institucionais observadas e a sistematização dos planos de ação propostos, conduzindo da descrição dos dados à interpretação e às proposições de intervenção.
Análise quantitativa e qualitativa das ocorrências disciplinares
Os dados foram coletados de uma planilha institucional do curso preparatório, que registrava ocorrências disciplinares ao longo do período letivo. A ausência de um padrão na identificação dos motivos exigiu a classificação dos registros em categorias para sistematização e visualização dos dados.
Foram identificados 525 registros de ocorrências disciplinares, categorizados como fardamento inadequado (247 registros), atraso (208 ocorrências), comportamento inadequado em sala de aula (35), uso de celular durante as aulas (32) e desrespeito a funcionários (3). A Figura 1 ilustra essa distribuição.
Figura 1. Quantitativo de cada grupo de ocorrências

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise qualitativa das ocorrências de fardamento inadequado revelou que a maioria dos registros se referia ao uso de sandálias, calças com detalhes rasgados, e blusas com decotes, sem manga ou de cor diferente do padrão institucional (camisa escolar branca, calça jeans preta ou azul sem detalhes e tênis). Os atrasos foram frequentemente justificados por pais que não acordaram no horário, trânsito ou dificuldade com transporte coletivo.
O comportamento inadequado em sala de aula incluiu conversas paralelas excessivas, confrontos com docentes e manifestações verbais inadequadas, como comentários de cunho sexual, racista ou com alusões ao nazismo. O uso de celular em aula esteve associado à comunicação com responsáveis sobre a saída escolar e ao acesso a redes sociais e jogos eletrônicos.
O desrespeito a funcionários ocorreu fora da sala de aula, envolvendo condutas vexatórias quando servidores não docentes tentavam orientar os discentes sobre normas de retorno pós-intervalo e comportamento nos corredores.
Comparando 2024 e 2025, houve um aumento de 42% no total de registros de ocorrências. Em 2025, 387 alunos (34% do contingente) tiveram seus nomes vinculados a ocorrências disciplinares. A distribuição temporal das ocorrências ao longo do ano letivo de 2025 indicou 38 registros em março, 61 em abril, 195 em maio, 24 em junho, 36 em julho, 90 em agosto, 37 em setembro, 33 em outubro e 12 no último mês analisado. Esses dados são detalhados na Figura 2.
Figura 2. Variação do quantitativo de ocorrências por mês durante o período letivo

Fonte: Resultados originais da pesquisa
A alta incidência de ocorrências em maio pode ser explicada pela priorização da coordenação, nos meses iniciais (março e abril), em adaptar os discentes ao ambiente escolar, focando em rotinas acadêmicas, horários e normas de fardamento. Nesse período inicial, os registros concentraram-se em situações mais graves, como desrespeito a funcionários, comportamento inadequado em sala, uso indevido de celulares e fardamento muito destoante.
Reflexões pedagógicas sobre as ocorrências disciplinares
A coordenação do curso preparatório identificou, por meio de diálogos com os discentes, que parte dos alunos desconhecia as normas institucionais e demonstrava baixa identificação com o ambiente escolar. Muitos relataram participar do curso por imposição dos responsáveis, sem reconhecer a relevância das atividades ou exigências.
A falta de envolvimento dos estudantes no processo de ensino-aprendizagem, com enfraquecimento do protagonismo e do sentimento de pertencimento, pode contribuir para o aumento da indisciplina e conflitos (Santos & Queiroz, 2021). Essa visão se alinha à concepção de Parrat-Dayan (2008), que entende a indisciplina como um fenômeno construído nas interações institucionais e influenciado pela apropriação das normas pelos discentes. Desse modo, práticas pedagógicas que promovam participação ativa e significado tendem a favorecer a adesão às regras escolares.
Estimular o interesse dos estudantes pelas atividades escolares é decisivo para reduzir a indisciplina, embora seja um desafio complexo para a prática docente e a organização escolar (Eccheli, 2008). No contexto atual, as práticas pedagógicas devem ser revistas para dialogar com a realidade dos discentes, promovendo metodologias dinâmicas e participativas que favoreçam o engajamento e a construção do conhecimento (Silva & Bueno, 2007).
O papel da família é fundamental na redução das ocorrências disciplinares, exigindo articulação entre escola e família para o desenvolvimento acadêmico e comportamental dos estudantes. A ausência de acompanhamento familiar e a superproteção podem comprometer a construção de limites, levando à transferência de demandas não atendidas para o ambiente escolar (Oliveira, 2009).
Nos contatos da coordenação com pais e responsáveis sobre ocorrências, observou-se desconhecimento das normas institucionais e a tendência de atribuir à instituição a responsabilidade. Justificativas comuns incluíam o uso do celular como direito de comunicação e questionamentos sobre advertências por fardamento inadequado, alegando falta de orientação inicial.
O uso inadequado de smartphones em aula prejudica o ensino-aprendizagem, interferindo nas funções cognitivas dos estudantes, como atenção, memória, linguagem e raciocínio, dificultando o foco nas atividades e comprometendo a participação e compreensão dos conteúdos (Oliveira, 2025).
A Lei Federal nº 15.100/2025, em vigor desde 13 de janeiro de 2025, regulamenta o uso de dispositivos eletrônicos pessoais por estudantes da educação básica, permitindo-o apenas para fins pedagógicos ou didáticos, sob orientação e mediação de profissionais da educação, visando um uso consciente e educativo da tecnologia.
A escola deve assumir um papel formativo na orientação do uso pedagógico das tecnologias, direcionando o tempo de tela para experiências de aprendizagem que promovam pensamento crítico e uso consciente dos recursos digitais. A participação da família é fundamental para fortalecer as ações educativas, e a instituição deve ver a tecnologia como aliada para engajar os alunos no ensino-aprendizagem.
Práticas Atuais da Coordenação Pedagógica na Comunicação e Orientação Normativa
A análise das ocorrências disciplinares revelou a necessidade de fortalecer a articulação interna entre equipe pedagógica, famílias e discentes. O gestor educacional desempenha um papel crucial na mediação de conflitos, promovendo comunicação clara para melhorar a convivência escolar.
Atualmente, as orientações sobre horários e fardamento são divulgadas no edital de inscrições, em fevereiro. No primeiro dia de aula, os professores apresentam o Manual do Aluno, que detalha direitos e deveres dos discentes.
Nos dois primeiros meses, as informações sobre horários e fardamento são reforçadas via redes sociais e WhatsApp. Alunos que não cumprem as normas são encaminhados ao auditório para orientações específicas no mesmo dia.
Após o período inicial de adaptação, a equipe de inspetoria encaminha os alunos à coordenação pedagógica para aplicação de advertências por escrito. Pais e responsáveis são comunicados via WhatsApp e convocados à instituição em caso de incidências.
As aulas são predominantemente expositivas, utilizando apresentações digitais e videoaulas de docentes da instituição de ensino médio. Os professores-tutores atuam como mediadores, auxiliando na compreensão de conteúdos, esclarecimento de dúvidas, resolução de exercícios e organização de materiais de estudo.
O material didático e o Manual do Aluno são acessados via plataforma Google Classroom, com acesso disponibilizado no primeiro dia de aula.
Sistematização de planos de ação
Para reduzir o índice de ocorrências em 2026, foram elaborados planos de ação preventivos, focando nos meses iniciais para evitar o aumento de registros após o período de verificações mais rigorosas. As estratégias basearam-se nos focos identificados, abordando a insuficiente compreensão dos pais e responsáveis sobre as normas e processos institucionais, e visando fortalecer o papel da família no acompanhamento escolar.
Para alinhar os estudantes à proposta do curso, seus objetivos e metodologias, e incentivá-los ao protagonismo, foram delineadas duas ações para o primeiro dia de aula. É fundamental apresentar os deveres e direitos dos discentes, conforme o Manual do Aluno.
Anteriormente, as orientações institucionais no primeiro dia de aula eram superficiais e concentradas em um único docente. Como primeira ação, propõe-se a redistribuição das orientações e explicações sobre o projeto ao longo de todo o primeiro dia de aula, com cada professor abordando um tópico específico do Manual do Aluno e da metodologia. Essa estratégia visa ampliar o diálogo e a compreensão dos estudantes.
A segunda ação proposta é a atividade da Cápsula do Tempo, que visa estimular os estudantes a refletir sobre seu percurso acadêmico e projetar perspectivas futuras. Os alunos registrarão expectativas, metas e reflexões sobre sua trajetória escolar, promovendo autonomia, pensamento crítico e planejamento a médio prazo.
Para alinhar a equipe de inspetoria, responsável pelo monitoramento das normativas, realizou-se uma reunião antes do início do período letivo. Isso visou garantir que a equipe estivesse segura sobre como orientar e cobrar os discentes.
A orientação ampla aos alunos desde o início contribui para maior conscientização e redução de ocorrências causadas pelo desconhecimento das regras.
Como última ação, implementou-se a criação de uma ficha física de advertência para registrar claramente o motivo da ocorrência. O documento é assinado pela coordenação e pelo aluno no momento do registro, e posteriormente encaminhado para assinatura do responsável, que é convocado presencialmente.
Essa iniciativa visa fortalecer a conscientização dos alunos, pois a assinatura de um documento formal tende a gerar maior senso de responsabilidade e compromisso com as normas institucionais.
Em síntese, os resultados indicaram um aumento expressivo nas ocorrências disciplinares, com destaque para fardamento inadequado e atrasos, e revelaram que a indisciplina está associada ao desconhecimento das normas institucionais pelos alunos e responsáveis, bem como à baixa identificação discente com o ambiente escolar. As reflexões pedagógicas apontaram a necessidade de práticas mais engajadoras e a importância da parceria família-escola. As ações propostas visam fortalecer a comunicação, a orientação e a conscientização, buscando uma abordagem mais preventiva e integrada para a gestão da disciplina no curso preparatório.
4. Conclusão
Este estudo buscou mapear as ocorrências de indisciplina, compreender suas causas internas e propor estratégias de redução em um curso preparatório gratuito destinado a estudantes da rede pública em Manaus. Verificou-se um aumento expressivo nos registros disciplinares, com maior incidência de casos relacionados ao uso inadequado do fardamento e atrasos. Observou-se também a ocorrência de comportamentos inadequados em sala de aula, uso de celular e desrespeito a funcionários. A análise qualitativa indicou que a indisciplina estava associada ao desconhecimento das normas institucionais por parte dos alunos e seus responsáveis, bem como à baixa identificação dos discentes com o ambiente escolar. Identificou-se, ainda, fragilidades na comunicação das regras e a necessidade de uma maior articulação entre a instituição e as famílias, aspectos que impactam diretamente a compreensão das orientações estabelecidas. Em resposta a esses achados, elaborou-se um plano de ação estruturado para enfrentar as causas internas da indisciplina.
O plano de ação proposto visa fortalecer a comunicação institucional, promover a orientação sistemática de alunos e responsáveis, alinhar a equipe de inspetoria e formalizar os processos disciplinares, incluindo a criação de uma ficha de advertência. A principal contribuição deste trabalho reside na oferta de um modelo de intervenção preventiva e integrada, que transcende a visão da indisciplina como um problema meramente individual, posicionando-a como um fenômeno multifatorial que exige a reorganização das práticas institucionais. Contudo, as estratégias apresentadas representam um ponto de partida para um processo contínuo de aprimoramento institucional. Sugere-se que futuras investigações avaliem a efetividade dessas ações ao longo do tempo e explorem outros fatores que possam influenciar a dinâmica da disciplina escolar, permitindo ajustes e aprofundamentos na gestão da convivência.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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