Entre Sísifo e o tonel das Danaides

Coluna

Direito Tributário

09 de setembro de 2026

Entre Sísifo e o tonel das Danaides

A cesta básica, o salário-mínimo e o verdadeiro preço das coisas

Na mitologia grega, alguns castigos não se distinguiam pela violência de um único sofrimento, mas pela condenação à repetição. Sísifo deveria conduzir uma enorme pedra até o alto de uma montanha e, quando o esforço parecia finalmente concluído, a pedra escapava e retornava ao ponto de partida, obrigando-o a recomeçar.

Por sua vez, as Danaides receberam destino semelhante, visto que foram condenadas a transportar água para encher um recipiente incapaz de retê-la; repetiam indefinidamente uma tarefa cujo resultado se perdia à medida que era realizado.

Há algo dessas duas imagens mitológicas que se associa à relação contemporânea entre trabalho, renda e custo de vida. Todos os meses, o trabalhador converte parte de seu tempo em remuneração e, com ela, precisa financiar alimentação, moradia, transporte, saúde e outras necessidades cotidianas. No mês seguinte, o movimento recomeça.

Para quem recebe o salário-mínimo, a dimensão desse esforço pode ser observada de maneira bastante concreta quando o preço das coisas deixa de ser medido apenas em reais e passa a ser convertido em horas de trabalho.

Em 2026, o salário-mínimo brasileiro foi fixado em R$ 1.621,00 por mês, correspondentes, de acordo com o decreto nº 12.797/2025, a R$ 54,04 por dia e R$ 7,37 por hora. A partir desse valor, a questão deixa de ser apenas quanto custam os bens que consumimos e passa a ser: em que medida o salário-mínimo é capaz de financiar, nas diferentes regiões do país, o conjunto de necessidades que a própria Constituição Federal (CF) associa a uma existência digna?

Uma forma de responder a essa questão é observar quanto da renda e do tempo de trabalho são destinados à alimentação. Segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, da Conab e do Dieese, em julho de 2026 um trabalhador remunerado pelo salário-mínimo precisou trabalhar, em média, 100 horas e 24 minutos para adquirir a cesta básica nas 27 capitais pesquisadas, que absorveu 49,34% do salário-mínimo líquido.

Os dados também revelam diferenças importantes entre as capitais. Em julho de 2026, as cinco cestas mais caras foram registradas em São Paulo, R$ 915,01, Cuiabá, R$ 881,27, Florianópolis, R$ 860,73, Rio de Janeiro, R$ 855,37 e Porto Alegre, R$ 841,94. As cinco de menor valor estavam em Salvador, R$ 650,32, João Pessoa, R$ 644,04, Natal, R$ 631,51, Maceió, R$ 618,60, e Aracaju, R$ 594,07.

Entre São Paulo e Aracaju, a diferença foi de R$ 320,94 e, em tempo de trabalho, correspondia a 124 horas e 11 minutos, contra 80 horas e 38 minutos, respectivamente. Contudo, a comparação exige cautela, pois a pesquisa adota composições diferentes para as cestas do Norte e do Nordeste e das demais regiões. Os valores não constituem, portanto, um ranking geral de custo de vida, mas refletem o conjunto de alimentos definido pela metodologia para cada grupo de capitais.

Ainda assim, o contraste é relevante. O salário-mínimo é nacionalmente unificado, mas seu poder de compra não é. Os mesmos R$ 1.621,00 representam esforços distintos conforme o lugar em que se vive, diferença que também aparece na evolução dos preços.

Entre junho e julho de 2026, a cesta ficou mais barata em 26 das 27 capitais, mas, em relação a julho de 2025, havia aumentado em 22 delas. No acumulado dos sete primeiros meses de 2026, houve alta em todas as capitais pesquisadas.

Essa relação entre salário e poder de compra não é apenas econômica. O artigo 7º da Constituição estabelece, no inciso IV, que o salário-mínimo deve ser capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família, incluindo moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes destinados à preservação de seu poder aquisitivo.

A enumeração mostra que o parâmetro constitucional não se limita à subsistência e que a alimentação é apenas uma das necessidades a serem financiadas. Quando quase metade da renda líquida é consumida pela cesta básica, o dado passa a revelar algo maior do que o próprio preço dos alimentos.

Essa previsão não está isolada no texto constitucional. A dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho figuram entre os fundamentos da República. No mesmo sentido, o artigo 170 estabelece que a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano, deve assegurar existência digna conforme os ditames da justiça social, enquanto o artigo 193 define o primado do trabalho como base da ordem social, voltada ao bem-estar e à justiça sociais. A capacidade material do salário aparece, portanto, como parte de uma concepção constitucional mais ampla sobre trabalho, dignidade e bem-estar.

Salário-mínimo

Uma forma de dimensionar esse parâmetro é o chamado salário-mínimo necessário, calculado mensalmente pelo Dieese. Em julho de 2026, para uma família de quatro pessoas, o instituto estimou em R$ 7.687,01 a renda necessária para atender às despesas previstas constitucionalmente, valor equivalente a 4,74 vezes o salário-mínimo oficial de R$ 1.621,00.

O indicador não constitui um segundo piso juridicamente exigível, mas oferece uma referência econômica para a distância entre o valor vigente e o custo estimado das necessidades que a Constituição atribui ao salário-mínimo.

Essa distância não depende apenas do valor da renda, mas também do poder de compra que ela preserva quando destinada ao consumo. A lei complementar nº 214/2025, que regulamentou o IBS e a CBS, incorporou essa preocupação ao reduzir a zero as alíquotas incidentes sobre os produtos da Cesta Básica Nacional de Alimentos e prever a devolução desses tributos para famílias de baixa renda.

O cashback, disciplinado nos artigos 112 e seguintes, terá como referência o consumo realizado a partir de janeiro de 2027 para a CBS e de janeiro de 2029 para o IBS, conforme o artigo 123, enquanto a alíquota zero da cesta básica está prevista no artigo 125. Embora a cesta tributária não se confunda com a pesquisada pelo Dieese e ainda não seja possível antecipar o efeito dessas medidas sobre os preços, elas mostram que a capacidade de o salário financiar as necessidades cotidianas também é influenciada pela tributação incidente sobre o consumo.

Os números deslocam a discussão do valor nominal do salário para aquilo que ele efetivamente permite financiar, já que renda, preços, localização e tributação se combinam para determinar quanto do trabalho se converte em consumo e quanto pode permanecer depois das despesas básicas.

É nesse sentido que as imagens do início recuperam sua força: Sísifo representa o esforço que precisa ser renovado a cada mês, enquanto o tonel das Danaides traduz a dificuldade de fazer com que a renda permaneça. Para quem vive do salário-mínimo, o preço das coisas deixa, assim, de ser apenas aquele indicado em reais e passa a refletir também o tempo de trabalho necessário para adquiri-las e aquilo que resta depois de satisfeitas as necessidades mais imediatas.

Essa experiência não é igual para todas as famílias, já que outros rendimentos, composição familiar, acesso a serviços públicos e condições de moradia alteram a organização do orçamento, e a própria cesta básica não pretende medir todas essas dimensões. Ainda assim, a comparação é reveladora: em julho de 2026, adquirir os alimentos pesquisados exigia 80 horas e 38 minutos de trabalho em Aracaju e 124 horas e 11 minutos em São Paulo, embora o salário-mínimo fosse o mesmo nas duas cidades. Talvez esteja justamente aí o verdadeiro preço das coisas, não apenas no valor indicado na etiqueta, mas no tempo necessário para pagá-lo e na parcela da renda que deixa de se transformar em reserva, patrimônio ou liberdade de escolha.

Entre Sísifo e o tonel das Danaides, o salário-mínimo revela, assim, uma tensão que vai além de seu valor nominal. De um lado, há um piso nacional concebido constitucionalmente para assegurar um conjunto amplo de necessidades. De outro, há preços que variam no território e uma renda que, em grande medida, se esgota antes de alcançá-las. O verdadeiro preço das coisas talvez esteja justamente nessa distância.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

Bruna Esteves

Advogada tributarista. Bacharela em Direito, mestra e doutoranda em Direito Econômico e Economia Política, todos na FD-USP. Possui MBA em Gestão Tributária, Investimentos e Banking e em Agronegócios pela USP/Esalq. Atua como professora de prática tributária do Curso de Especialização em Direito Tributário Brasileiro (IBDT) e como orientadora do MBA USP/Esalq.

Você também pode gostar

Economia, Investimentos E Banking

23 de outubro de 2026

Educação Financeira, Comportamentos e Vieses na Tomada de Decisão Financeira

A gestão financeira pessoal representa um desafio crescente, influenciada por vieses cognitivos que afetam a tomada de decisão, mesmo em indivíduos com alto conhecimento. O presente estudo analisou a relação entre o nível de educação financeira e a ocorrência de vieses comportamentais na tomada de decisão financeira de adultos residentes no Brasil. Realizou-se um levantamento de campo de natureza aplicada, quantitativa e descritivo-correlacional, por meio da aplicação de um questionário estruturado a 163 respondentes. O instrumento contemplou variáveis sociodemográficas, conhecimento e hábitos financeiros, e situações hipotéticas para identificar vieses cognitivos. Os resultados indicaram que níveis mais elevados de educação financeira associaram-se a melhores práticas de controle financeiro, poupança e investimento, com correlações significativas com renda e escolaridade. Contudo, a presença de vieses comportamentais (ancoragem, aversão à perda, escassez, otimismo/negatividade, viés do presente, status quo, excesso de confiança e contabilidade mental) persistiu mesmo entre indivíduos com maior escolaridade e renda, sem associação estatisticamente significativa com as variáveis sociodemográficas analisadas. Concluiu-se que a educação financeira, embora essencial para a organização e o controle financeiro, não foi suficiente para neutralizar a influência de vieses cognitivos. Sugere-se a incorporação de abordagens comportamentais aos programas de educação financeira.

Palavras-chave: Comportamento financeiro; Economia comportamental; Finanças pessoais; Heurísticas cognitivas; Vieses cognitivos.

22 de outubro de 2026

Jornada do Consumidor na Decisão de Compra de Infoprodutos no Ambiente Digital

A expansão do comércio eletrônico e a transformação tecnológica impulsionaram a necessidade de compreender o comportamento do consumidor de infoprodutos, cuja experiência percebida tornou-se crucial para o desenvolvimento profissional. O estudo objetivou analisar os fatores que influenciaram a decisão de compra de infoprodutos no ambiente digital, considerando as etapas da jornada do consumidor. Realizou-se uma pesquisa aplicada, quantitativa e descritiva, por meio de um levantamento de campo com 100 consumidores da Serra Gaúcha. A coleta de dados ocorreu via questionário estruturado, utilizando amostragem não probabilística. Os resultados revelaram um público qualificado e com forte comportamento “mobile-first”. Constatou-se que a disponibilidade de informações detalhadas e a aprovação social foram os principais gatilhos de atração na fase de pré-compra. Nas etapas transacionais e posteriores, a minimização de atritos operacionais, a agilidade do acesso imediato e a segurança sistêmica mostraram-se cruciais para a conversão e satisfação, embora lacunas na eficiência do suporte humano tenham sido identificadas. A retenção fundamentou-se na confiança gerada por experiências anteriores positivas, superando o fator preço. Concluiu-se que a jornada do consumidor de infoprodutos opera como um sistema integrado, exigindo alinhamento entre infraestrutura tecnológica, curadoria de conteúdo e humanização do suporte para assegurar o engajamento.

Palavras-chave: Comércio eletrônico; Comportamento do consumidor; Experiência do consumidor; Fidelização; Negócios virtuais.

22 de outubro de 2026

Observatório Digital da Amazônia: Ciência de Dados Aplicada à Análise de Indicadores Sociais, Econômicos, Ambientais e de Saúde

O estado do Amazonas enfrentou desafios históricos na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), decorrentes de barreiras geográficas, desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais. Descreveu-se, neste estudo, o desenvolvimento e a implementação de um geoportal de informações em saúde, concebido para apoiar o monitoramento, a avaliação e o planejamento no contexto amazônico. Adotou-se uma abordagem de estudo de caso descritivo, baseada em análise documental e dados secundários, abrangendo o mapeamento de funcionalidades, a infraestrutura técnica e as etapas de validação da ferramenta. O Portal foi desenvolvido com tecnologias abertas e integrou múltiplas bases de dados nacionais, oferecendo dashboards interativos, mapas temáticos e repositório digital de documentos. Entre os resultados, destacaram-se a visualização georreferenciada de indicadores-chave, a possibilidade de análises comparativas temporais e a utilização da plataforma na revisão de planos de saúde e no redirecionamento de ações estratégicas. O portal pode representar um avanço na governança digital e na gestão baseada em evidências, com potencial de replicabilidade para outros territórios de alta complexidade, desde que acompanhada de investimentos em infraestrutura tecnológica, capacitação profissional e articulação interinstitucional.

Palavras-chave: Amazônia; Avaliação em Saúde; Saúde Digital; Sistemas de Informação em Saúde.

22 de outubro de 2026

Aprendizado Contínuo como Fator de Crescimento Organizacional na Percepção dos Colaboradores

O impacto do aprendizado contínuo e da gestão do conhecimento no crescimento das organizações foi estudado em um cenário de globalização e constantes mudanças. O objetivo do estudo foi analisar a percepção dos colaboradores sobre a cultura de aprendizagem e sua importância para o desenvolvimento pessoal e profissional. Os dados foram obtidos por meio de uma pesquisa anônima, de abordagem quantitativa, utilizando um formulário com questões do tipo “survey” aplicado a 87 profissionais dos setores de tecnologia, saúde, educação, comércio e serviços. Os resultados indicaram que os colaboradores possuíam uma percepção positiva sobre a contribuição do aprendizado contínuo para o crescimento pessoal e organizacional, reconhecendo seus benefícios para o desenvolvimento de novas habilidades, inovação e competitividade. Contudo, observou-se que o incentivo à troca de conhecimento interno e a oferta de treinamentos práticos ainda apresentavam médias moderadas de concordância. Concluiu-se que o aprendizado contínuo contribui significativamente para o desenvolvimento individual e organizacional, sugerindo que as empresas devem desenvolver políticas estratégicas de aprendizado direcionado para novas habilidades, visando maior vantagem competitiva e inovação.

Palavras-chave: Aprendizagem contínua; Autodesenvolvimento; Crescimento organizacional; Gestão do conhecimento; Inovação.

22 de outubro de 2026

Previsão da Inadimplência Agregada no Sistema Financeiro Brasileiro por Modelo Sarimax com Variáveis Macroeconômicas

A inadimplência agregada no sistema financeiro brasileiro é um indicador crucial de risco de crédito, cuja previsão é regulamentada pelas Resoluções CMN n.° 4.557/2017 e 4.966/2021 para a mensuração prospectiva de perdas esperadas. Modelou-se e previu-se a inadimplência agregada por meio do modelo SARIMAX, projetando sua trajetória até dezembro de 2026 sob cenários otimista, base e pessimista. Utilizaram-se 164 observações mensais (julho/2012 a fevereiro/2026) e variáveis macroeconômicas como desemprego, Selic, IPCA, IBC-Br e endividamento das famílias. A especificação com variáveis contemporâneas foi selecionada com base em critérios de informação e estabilidade dos coeficientes, e o diagnóstico dos resíduos confirmou adequação estatística, com MAPE de 3,12%. A inadimplência histórica variou entre 4,33% e 7,64%. A estimação identificou o desemprego (β = 0,2534; p < 0,001) e a Selic (β = 0,2128; p < 0,001) como principais determinantes positivos, com forte persistência temporal (AR(1) = 0,8965). A Selic exibiu correlação crescente com a inadimplência (r = 0,62 no lag 12), enquanto o desemprego demonstrou efeito contemporâneo (r = 0,33). As projeções indicaram inadimplência entre 6,30% e 7,98% em dezembro de 2026, com uma amplitude de 1,68 ponto percentual, evidenciando implicações diretas para o dimensionamento de provisões nas instituições financeiras. Palavras-chave: Desemprego; Modelagem preditiva; Política monetária; Provisão de perdas; Séries temporais.

22 de outubro de 2026

Fatores de Engajamento das Partes Interessadas na Transferência Internacional de Tecnologia para um Hospital Público

Este estudo descreveu os fatores críticos percebidos para o engajamento das partes interessadas na transferência internacional de tecnologia em um hospital público, com foco no planejamento. O objetivo foi descrever esses fatores condicionantes, conforme a percepção de profissionais. Realizou-se um estudo de caso único, aplicando um questionário a 25 profissionais e utilizando análise de conteúdo, complementada por tabulações descritivas. Os principais obstáculos identificados foram resistência à mudança (72%), financiamento (64%), falta de comunicação (60%) e burocracia (40%). Apenas 28% dos respondentes reconheceram a existência de ferramentas adequadas para gestão de stakeholders, enquanto 48% negaram e 24% não souberam informar. Cruzamentos exploratórios indicaram variações na avaliação de influência conforme o tempo de atuação, mas não estabeleceram relações causais. A falta de engajamento foi associada a atrasos, baixa adesão, desperdício de recursos, falhas de comunicação, comprometimento da absorção de conhecimento e riscos à segurança do paciente. As conclusões restringiram-se às percepções do grupo pesquisado e fundamentaram recomendações preliminares para comunicação e coordenação intersetorial.

Palavras-chave: Estudo de caso; Gestão de projetos; Inovação em saúde; Partes interessadas; Setor público.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade