09 de setembro de 2026
Nível de Capacidade da Governança de Dados em uma Organização com Base no Cobit 2019
Erik Montenegro Wiesenhofer; Mônica Mancini
DOI: 10.22167/2675-6528-202602208
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A governança de dados tornou-se crucial para organizações que buscam confiabilidade e qualidade informacional, especialmente no setor de telecomunicações, devido ao volume de dados e à necessidade de tratamento estruturado. Avaliou-se a aderência das práticas de governança de dados associadas ao objetivo APO14 “Managed Data” do COBIT 2019 em uma organização de telecomunicações em São Paulo. O estudo foi descritivo, com abordagem qualitativa e estatística descritiva. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário aplicado a aproximadamente 25 profissionais das áreas de tecnologia da informação, analytics e operações, resultando em 15 respostas válidas. Os resultados indicaram predominância da classificação “Partially”, com média geral de 1,57 na escala de 0 a 5, evidenciando aderência parcial às práticas avaliadas. Observaram-se iniciativas em andamento, principalmente em estratégia, papéis, comunicação e ciclo de vida dos dados, mas com fragilidades acentuadas em aspectos como glossário corporativo e padronização conceitual. Concluiu-se que a organização necessita avançar na formalização, padronização e acompanhamento para consolidar sua governança de dados, revelando oportunidades de evolução.
Palavras-chave: capacidade organizacional; diagnóstico; maturidade; metadados; qualidade de dados.
1. Introdução
A governança de dados emergiu como um componente crucial para organizações que buscam maior confiabilidade, padronização e qualidade no uso das informações em seus processos operacionais e gerenciais. O aumento das exigências de negócio relacionadas à qualidade e consistência dos dados, especialmente em organizações de grande porte, impulsionou a necessidade de práticas estruturadas. Esse cenário é intensificado pela ampliação do volume de dados e pela diversidade de fontes geradas por sistemas e processos internos, que complexificam os ecossistemas informacionais (Otto, 2011; Khatri e Brown, 2010).
Tais práticas visam sustentar requisitos essenciais como qualidade, integridade, disponibilidade e segurança da informação corporativa, além de apoiar demandas regulatórias e operacionais (ISACA, 2018a). A governança eficaz da informação e da tecnologia é reconhecida como um fator crítico para o desempenho organizacional, pois alinha capacidades tecnológicas aos objetivos estratégicos do negócio e garante consistência na gestão dos ativos informacionais. No setor de telecomunicações, o tema ganha particular relevância devido ao grande volume de dados gerados e à necessidade de garantir seu tratamento estruturado e alinhado aos objetivos de negócio.
Nesse contexto, o COBIT 2019 destaca-se como um framework de referência para orientar boas práticas de governança e gestão. Ele fornece diretrizes e objetivos que permitem estruturar processos e controles relacionados ao ciclo de valor da informação corporativa (ISACA, 2018b). A aplicação do COBIT 2019 em temas de governança de dados tem sido objeto de estudos recentes, que apontam seu potencial para apoiar a construção de modelos organizacionais e o alinhamento estratégico (Thabit et al., 2020).
Dentro do COBIT 2019, o objetivo APO14, denominado “Managed Data”, abrange práticas voltadas à gestão de dados como um ativo organizacional. Ele contempla aspectos como definição, padronização, qualidade, segurança, disponibilidade e controle dos dados ao longo de seu ciclo de vida. Este objetivo orienta a adoção de diretrizes, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento para um tratamento estruturado e uma utilização confiável e consistente dos dados, alinhada às necessidades organizacionais (ISACA, 2019).
Para apoiar avaliações estruturadas, são frequentemente utilizadas abordagens baseadas em níveis de capacidade ou maturidade, que permitem representar estágios progressivos de desenvolvimento dos processos. O COBIT 2019, por exemplo, adota uma escala de capacidade de zero a cinco para avaliar processos de governança e gestão, auxiliando no mapeamento do estágio atual e na identificação de lacunas de evolução (ISACA, 2018a). Essa lógica é compatível com modelos como o Capability Maturity Model Integration (CMMI), que organiza o desenvolvimento de processos em níveis graduais.
Contudo, muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para avaliar objetivamente a maturidade de seus processos de governança de dados. Essas dificuldades são notáveis na definição de responsabilidades, na padronização de práticas e na mensuração de resultados relacionados à qualidade e ao uso dos dados, o que limita a capacidade de direcionar melhorias de forma consistente (ISACA, 2018a). A literatura também aponta que a ausência de diagnósticos estruturados dificulta a priorização de iniciativas e a redução de lacunas, comprometendo a geração de valor a partir do uso corporativo da informação (Alhassan et al., 2016).
A relevância da governança de dados como capacidade organizacional para sustentar a qualidade e consistência dos dados, bem como para atender a exigências de negócio e conformidade, justifica a realização de estudos nesta área (Otto, 2011). Avaliar a capacidade dos processos relacionados ao APO14 “Managed Data” permite compreender o estágio atual das práticas de governança de dados, evidenciar lacunas e orientar decisões sobre prioridades de evolução (ISACA, 2019). Ao estruturar um diagnóstico aplicado, este estudo busca contribuir com uma leitura objetiva do nível de maturidade percebido e fornecer subsídios para a melhoria contínua, alinhando-se a recomendações consolidadas na literatura sobre governança de dados (Alhassan et al., 2016). Adicionalmente, ao adotar um framework reconhecido e dialogar com estudos que abordam sua utilização para governança de dados, o trabalho fortalece o vínculo entre teoria e aplicação organizacional (Thabit et al., 2020). Sendo assim, o objetivo geral deste trabalho é avaliar a aderência das práticas de governança de dados associadas ao APO14 “Managed Data” do COBIT 2019 em uma organização do setor de telecomunicações localizada na cidade de São Paulo.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi realizada em uma organização do setor de telecomunicações, localizada em São Paulo, SP, Brasil, atuante em soluções de infraestrutura digital e conectividade corporativa.
O estudo foi conduzido como um estudo de caso (Yin, 2015), adotando abordagem qualitativa com apoio de estatística descritiva para organização e interpretação das respostas. O trabalho possui caráter descritivo, buscando registrar e organizar evidências sobre as práticas de governança de dados na organização, sem pretensão de explicar relações causais (Gil, 2017).
A amostra foi definida por conveniência (Gil, 2017), composta por profissionais das áreas de tecnologia da informação, “analytics” e operações, com atuação direta ou indireta em atividades relacionadas ao tratamento e à governança de dados.
O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado com 15 questões fechadas, elaborado com base nas práticas e atividades do objetivo APO14 – “Managed Data” do COBIT 2019. O questionário foi organizado em quatro blocos temáticos: estratégia, papéis e comunicação (4 questões); glossário corporativo e metadados (3 questões); qualidade de dados (4 questões); e ciclo de vida e manutenção dos dados (4 questões). Esses blocos visavam verificar o direcionamento formal para a gestão de dados, a existência e padronização de definições comuns, a presença de critérios e métricas de qualidade, e as práticas relacionadas à retenção, atualização e descarte de dados.
As respostas foram registradas em uma escala Likert de 0 a 5, representando níveis progressivos de capacidade, de “Não existe” (0) a “Melhorada” (5), em linha com os níveis de capacidade utilizados pelo COBIT 2019 (ISACA, 2019). A interpretação dos níveis de capacidade foi apoiada conceitualmente no Capability Maturity Model Integration [CMMI], conforme proposto por Gorgona (2021).
A coleta de dados ocorreu entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, por meio de formulário eletrônico desenvolvido no “Google Forms”. O formulário foi encaminhado a aproximadamente 25 profissionais, resultando em 15 respostas válidas que constituíram a amostra analisada.
As metodologias de análise de dados incluíram a elaboração de tabelas para representar a distribuição das respostas e a comparação dos resultados por bloco temático. Foram calculadas médias aritméticas por questão e por bloco para sintetizar o nível de maturidade percebido. As respostas foram convertidas em valores numéricos de 0 a 5, onde 0 = “Não existe”, 1 = “Informal”, 2 = “Executada”, 3 = “Definida”, 4 = “Medida” e 5 = “Melhorada”. A média aritmética foi transformada em percentual de atingimento, dividindo-se pelo valor máximo da escala (5) e multiplicando-se por 100. O percentual obtido foi classificado conforme a abordagem de “achievement ratings” (Souza Neto, Almeida e Mira da Silva, ISACA, 2019), com faixas similares às definidas na ISO/IEC 33004: “Fully” (F) para >85%, “Largely” (L) entre 50% e 85%, “Partially” (P) entre 15% e 50% e “Not” (N) abaixo de 15%. Essa lógica permitiu interpretar o grau de implementação percebida das práticas avaliadas no APO14. Por se tratar de autoavaliação, os achados devem ser interpretados como percepções dos respondentes, sujeitas a vieses.
3. Resultados e Discussão
Esta seção apresenta os resultados obtidos a partir das 15 respostas válidas ao questionário aplicado. Inicialmente, é apresentado o perfil da amostra e, em seguida, são expostos os resultados consolidados por bloco temático e, posteriormente, os resultados detalhados por questão. A análise buscou evidenciar o nível de aderência das práticas avaliadas ao objetivo APO14 – Managed Data, permitindo identificar aspectos relativamente mais desenvolvidos e lacunas que ainda demandam maior estruturação no contexto organizacional estudado.
Perfil da amostra
A população-alvo foi composta por aproximadamente 25 profissionais das áreas de tecnologia da informação, analytics e operações. Foram obtidas 15 respostas válidas, que constituíram a amostra analisada, sendo 5 gestores e 10 analistas técnicos. A Tabela 1 detalha a caracterização da população-alvo e da amostra.
Tabela 1. Caracterização da população-alvo e da amostra
| Item | Quantidade |
|---|---|
| População-alvo (convites enviados) | 25 |
| Respostas válidas (amostra) | 15 |
| Gestores (na amostra) | 5 |
| Analistas técnicos (na amostra) | 10 |
Fonte: Resultados originais da pesquisa (2026)
Observou-se que a amostra foi composta por profissionais com diferentes níveis de atuação no contexto organizacional, o que favoreceu a obtenção de percepções complementares sobre as práticas de gestão de dados investigadas. A composição da amostra mostrou-se compatível com a proposta do estudo de caso, por contemplar participantes com atuação direta ou indireta em processos relacionados ao tratamento, uso e organização dos dados corporativos.
Síntese dos resultados por bloco temático
Considerando a média das questões de cada bloco, verificou-se que todos os blocos temáticos permaneceram na faixa Partially (P), com percentual médio global de 31,5% e média geral de 1,57 na escala de 0 a 5. Esse resultado indica que, na percepção dos respondentes, as práticas avaliadas ainda se encontram em estágio parcial de implementação. A Tabela 2 sintetiza as médias, percentual de atingimento e classificação por bloco temático.
Tabela 2. Médias, percentual de atingimento e classificação por bloco temático
| Bloco | Questões | Média (0-5) | % atingimento | Classe |
|---|---|---|---|---|
| Bloco 1 – Estratégia, papéis e comunicação | 4 | 1.88 | 37.7% | P |
| Bloco 2 – Glossário corporativo | 3 | 0.78 | 15.6% | P |
| Bloco 3 – Qualidade de dados | 4 | 1.67 | 33.3% | P |
| Bloco 4 – Ciclo de vida dos dados | 4 | 1.77 | 35.3% | P |
Fonte: Resultados originais da pesquisa (2026)
Em termos comparativos, o bloco com melhor desempenho foi o de estratégia, papéis e comunicação, com média de 1,88, seguido pelo bloco de ciclo de vida dos dados, com média de 1,77. Em contrapartida, o bloco de glossário corporativo apresentou o menor resultado, com média de 0,78, evidenciando fragilidade mais acentuada na padronização, formalização e disseminação dos conceitos relacionados aos dados.
A leitura conjunta desses resultados sugere que a organização já apresenta iniciativas iniciais em direção à gestão de dados, sobretudo em aspectos mais próximos da articulação estratégica e de determinados mecanismos de controle. Ainda assim, tais iniciativas parecem ocorrer de maneira fragmentada, com baixo grau de formalização e limitada institucionalização. Isso significa que, embora o tema já esteja presente no ambiente organizacional, as práticas existentes ainda não se mostram suficientemente consolidadas para caracterizar um modelo maduro de governança de dados.
O desempenho relativamente superior do bloco de estratégia, papéis e comunicação pode ser interpretado como sinal de que a organização já reconhece a importância do tema e apresenta algum nível de articulação entre áreas de negócio e tecnologia da informação. No entanto, como esse bloco também permaneceu na faixa Partially, entende-se que ainda há espaço relevante para evolução na definição de responsabilidades, na comunicação dos objetivos e no acompanhamento sistemático das ações relacionadas à gestão de dados.
De forma semelhante, o resultado do bloco de ciclo de vida dos dados indica que a organização já demonstra alguma atenção a aspectos como retenção, proteção, descarte e revisão do uso dos dados ao longo do tempo. Ainda assim, a média observada revela que essas práticas não se encontram plenamente formalizadas nem aplicadas de modo uniforme, o que sugere limitações na clareza das diretrizes e na consistência dos procedimentos adotados.
Por outro lado, o baixo desempenho do bloco de glossário corporativo merece atenção especial, por evidenciar uma fragilidade estrutural importante. A ausência de definições compartilhadas, termos padronizados e referências conceituais comuns tende a comprometer a consistência semântica das informações, dificultando a comunicação entre áreas e favorecendo interpretações distintas sobre um mesmo dado. Em contextos organizacionais que dependem de interação entre áreas técnicas, operacionais e analíticas, esse tipo de fragilidade pode afetar diretamente a confiabilidade das análises, a comparabilidade dos indicadores e a eficiência dos processos.
De modo geral, os resultados evidenciam que o principal desafio da organização não está necessariamente na ausência completa de iniciativas relacionadas à gestão de dados, mas na dificuldade de consolidá-las como práticas formais, recorrentes e integradas ao funcionamento institucional. A predominância da classificação Partially em todos os blocos reforça a percepção de um estágio ainda inicial de maturidade, no qual o tema já é reconhecido como relevante, mas ainda carece de maior padronização, clareza conceitual, definição de responsabilidades e mecanismos contínuos de acompanhamento.
Resultados por questão
A Tabela 3 apresenta os resultados por questão, incluindo a média das respostas, o percentual de atingimento e a classe atribuída conforme as faixas: Fully (F) > 85%, Largely (L) 50-85%, Partially (P) 15–50% e Not (N) < 15%.
Tabela 3. Resultados por questão, com enunciado completo, média, percentual de atingimento e classificação
| Bloco | Questão | Enunciado da questão | Média (0-5) | % atingimento | Classe |
|---|---|---|---|---|---|
| Bloco 1 – Estratégia, papéis e comunicação | Q1 | A estratégia de gestão de dados é desenvolvida de forma colaborativa entre as áreas de negócio e tecnologia da informação. | 2.33 | 46.7% | P |
| Bloco 1 – Estratégia, papéis e comunicação | Q2 | Os papéis e responsabilidades relacionados à gestão de dados estão claramente definidos, documentados e atribuídos na organização. | 1.60 | 32.0% | P |
| Bloco 1 – Estratégia, papéis e comunicação | Q3 | Os objetivos, prioridades e o escopo da gestão de dados são comunicados de forma clara e periódica às áreas envolvidas. | 1.53 | 30.7% | P |
| Bloco 1 – Estratégia, papéis e comunicação | Q4 | A organização utiliza métricas e indicadores para monitorar e avaliar os resultados da gestão de dados. | 2.07 | 41.3% | P |
| Bloco 2 – Glossário corporativo | Q5 | Existe um glossário corporativo que define e padroniza os principais termos e conceitos relacionados aos dados da organização. | 0.93 | 18.7% | P |
| Bloco 2 – Glossário corporativo | Q6 | O glossário corporativo de dados é mantido e atualizado de forma sistemática pelas áreas responsáveis. | 0.60 | 12.0% | N |
| Bloco 2 – Glossário corporativo | Q7 | Os colaboradores utilizam o glossário corporativo como referência nos processos, análises e comunicações relacionadas aos dados. | 0.80 | 16.0% | P |
| Bloco 3 – Qualidade de dados | Q8 | Existe uma estratégia formalizada para assegurar a qualidade dos dados alinhada aos objetivos da organização. | 1.47 | 29.3% | P |
| Bloco 3 – Qualidade de dados | Q9 | A organização avalia regularmente a qualidade dos dados por meio de critérios, processos e métricas definidos. | 2.00 | 40.0% | P |
| Bloco 3 – Qualidade de dados | Q10 | Os problemas de qualidade dos dados são monitorados, registrados e acompanhados até sua resolução. | 1.73 | 34.7% | P |
| Bloco 3 – Qualidade de dados | Q11 | Os resultados das avaliações de qualidade dos dados são utilizados para promover melhorias nos processos e nos controles relacionados aos dados. | 1.47 | 29.3% | P |
| Bloco 4 – Ciclo de vida dos dados | Q12 | A organização possui políticas e diretrizes claras para o gerenciamento do ciclo de vida dos dados. | 1.53 | 30.7% | P |
| Bloco 4 – Ciclo de vida dos dados | Q13 | As diretrizes de segurança, retenção e proteção são aplicadas de forma consistente ao longo do ciclo de vida dos dados. | 2.07 | 41.3% | P |
| Bloco 4 – Ciclo de vida dos dados | Q14 | Os processos de arquivamento e descarte de dados são executados conforme políticas definidas pela organização. | 1.67 | 33.3% | P |
| Bloco 4 – Ciclo de vida dos dados | Q15 | O gerenciamento do ciclo de vida dos dados é revisado e aprimorado para atender novas necessidades organizacionais e regulatórias. | 1.80 | 36.0% | P |
Fonte: Resultados originais da pesquisa (2026)
A análise detalhada por questão permitiu identificar com maior precisão os pontos de maior e menor aderência no conjunto das práticas avaliadas. A maior média observada foi na questão relacionada ao desenvolvimento colaborativo da estratégia de gestão de dados entre as áreas de negócio e tecnologia da informação (Q1), o que sugere a existência de algum nível de alinhamento entre essas áreas. Também se destacaram, em termos relativos, as questões ligadas ao uso de métricas e indicadores para monitoramento (Q4) e à aplicação de diretrizes de segurança, retenção e proteção ao longo do ciclo de vida dos dados (Q13).
Embora esses itens tenham apresentado desempenho superior aos demais, todos permaneceram na faixa Partially, o que demonstra que tais práticas, ainda que reconhecidas, não se encontram plenamente estruturadas ou institucionalizadas. Isso reforça a ideia de que a organização apresenta avanços pontuais em componentes mais próximos do direcionamento estratégico e de certas rotinas de controle, porém ainda sem alcançar um nível mais consistente de maturidade.
Em contraste, os menores resultados concentraram-se nas questões relacionadas ao glossário corporativo, especialmente na manutenção e atualização sistemática desse instrumento (Q6). Esse achado indica que a organização ainda não dispõe de uma base conceitual suficientemente estruturada e compartilhada entre os colaboradores. A fragilidade nessa dimensão é particularmente relevante porque o glossário corporativo não representa apenas um recurso documental, mas um mecanismo de alinhamento institucional capaz de apoiar a comunicação, reduzir ambiguidades e fortalecer a interpretação uniforme dos dados em diferentes áreas.
No bloco de qualidade de dados, os resultados também apontaram um cenário de implementação parcial. Houve percepção de que existem esforços de avaliação da qualidade dos dados (Q9), mas ainda com limitações na formalização de uma estratégia alinhada aos objetivos organizacionais (Q8) e no uso sistemático dos resultados dessas avaliações para promover melhorias em processos e controles (Q11). Em outras palavras, os achados sugerem que a organização pode realizar verificações e acompanhamentos em alguma medida, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esses esforços em práticas permanentes, sistemáticas e articuladas.
De modo geral, os resultados evidenciam que o principal desafio da organização não está necessariamente na ausência completa de iniciativas relacionadas à gestão de dados, mas na dificuldade de consolidá-las como práticas formais, recorrentes e integradas ao funcionamento institucional. A predominância da classificação Partially em todos os blocos reforça a percepção de um estágio ainda inicial de maturidade, no qual o tema já é reconhecido como relevante, mas ainda carece de maior padronização, clareza conceitual, definição de responsabilidades e mecanismos contínuos de acompanhamento.
A interpretação desses achados deve considerar que os dados derivam da percepção dos respondentes, característica inerente ao método adotado. Esse aspecto não invalida os resultados, mas indica que eles devem ser compreendidos como um diagnóstico organizacional construído a partir da visão dos participantes diretamente envolvidos com o tema. Ainda assim, esse tipo de evidência é especialmente relevante em estudos de maturidade, pois permite identificar como as práticas são percebidas internamente e em quais dimensões se concentram as lacunas mais evidentes.
Em síntese, os resultados obtidos permitiram demonstrar que a aderência das práticas de gestão de dados avaliadas ocorre de maneira parcial. O diagnóstico revelou que a organização já apresenta movimentos em direção à governança de dados, mas ainda demanda avanços significativos para transformar esses esforços em práticas mais estáveis, coordenadas e institucionalizadas. A organização apresenta classificação predominante Partially, com média geral de 1,57 na escala de 0 a 5 e 31,5% de atingimento em relação às práticas avaliadas no objetivo APO14 – Managed Data do COBIT 2019. Isso indica que a organização possui iniciativas relacionadas à governança de dados, porém ainda conduzidas com baixo nível de formalização, padronização e institucionalização. As práticas analisadas se encontram em um estágio inicial de consolidação, com sinais de desenvolvimento em algumas dimensões, mas com lacunas relevantes para que a governança de dados se estabeleça de forma mais estruturada, consistente e contínua no contexto organizacional estudado.
4. Conclusão
O presente estudo buscou avaliar a aderência das práticas de governança de dados associadas ao objetivo APO14 “Managed Data” do COBIT 2019 em uma organização do setor de telecomunicações localizada em São Paulo. Verificou-se que a aderência das práticas avaliadas ocorre de maneira parcial, com uma média geral de 1,57 em uma escala de 0 a 5, correspondendo a 31,5% de atingimento. Observaram-se iniciativas em andamento, especialmente nos blocos de estratégia, papéis e comunicação, e ciclo de vida dos dados, que apresentaram desempenho relativamente superior. Contudo, identificou-se uma fragilidade acentuada no bloco de glossário corporativo, com a menor média, evidenciando a necessidade de maior padronização conceitual e formalização. Os achados indicam que, embora a organização já reconheça a importância da governança de dados, o principal desafio reside em consolidar essas iniciativas como práticas formais, recorrentes e integradas ao funcionamento institucional. A principal contribuição deste trabalho reside no diagnóstico objetivo do nível de maturidade percebido, fornecendo subsídios para a melhoria contínua e para o direcionamento de ações de aprimoramento, alinhando-se às recomendações da literatura sobre governança de dados.
Como limitação do estudo, destaca-se que a análise foi realizada em uma única organização, o que restringe a generalização dos achados para outros contextos institucionais. Adicionalmente, o diagnóstico foi construído com base na percepção dos respondentes, e não em uma verificação direta de evidências documentais ou processuais, o que confere aos resultados o caráter de uma visão interna percebida. O foco exclusivo no objetivo APO14 do COBIT 2019, embora tenha permitido aprofundamento analítico, não abrangeu integralmente outras dimensões de governança e gestão. Para estudos futuros, recomenda-se ampliar a aplicação do instrumento em outras organizações e setores, visando análises comparativas e maior robustez interpretativa. Sugere-se também a utilização de abordagens complementares, como entrevistas e análise documental, para relacionar a percepção dos participantes a evidências mais concretas de implementação. Por fim, estudos futuros podem explorar outros objetivos do COBIT 2019, ampliando a compreensão sobre a maturidade da governança de dados em diferentes contextos organizacionais.
Referências Bibliográficas
Information Systems Audit and Control Association [ISACA]. (2018a). COBIT 2019 Framework: Introduction and Methodology. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2025.
Information Systems Audit and Control Association [ISACA]. (2018b). COBIT 2019 Framework: Governance and Management Objectives. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2025.
Khatri, V.; Brown, C. V. (2010). Designing data governance. Communications of the ACM, 53(1), 148-152. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2026.
Otto, B. (2011). Organizing data governance: findings from the telecommunications industry and consequences for large service providers. Communications of the Association for Information Systems, 29, art. 3. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2026.
Thabit, T. H.;
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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