Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

09 de setembro de 2026

A Neurociência e a Formação Docente no Atendimento a Alunos com Altas Habilidades ou Superdotação

Christiane Pereira Suzano; Mariana Domitila Padovani Martins

DOI: 10.22167/2675-6528-202602194

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A formação docente no atendimento a alunos com altas habilidades e superdotação foi abordada, considerando as contribuições da Neurociência para a compreensão dos processos de aprendizagem. O estudo objetivou analisar o nível de preparo dos professores para reconhecer e atender às demandas específicas desse público, tanto no aspecto pedagógico quanto emocional. Realizou-se uma pesquisa descritiva e exploratória com 25 professores de escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo, por meio de um questionário estruturado com questões objetivas e dissertativas. Os resultados indicaram que, apesar da experiência profissional da maioria dos participantes, existiram lacunas significativas na formação inicial e continuada, evidenciadas pela ausência de preparo técnico e prático. Observou-se que poucos professores participaram de formações específicas na área, o que gerou insegurança na prática docente e a interpretação inadequada de comportamentos dos alunos. Concluiu-se pela necessidade de ampliação da formação docente, com ênfase em conhecimentos da Neurociência, para promover práticas pedagógicas mais eficazes, inclusivas e alinhadas às potencialidades desses alunos, e pela importância do apoio institucional e da articulação do Atendimento Educacional Especializado.

Palavras-chave: Altas habilidades; Engajamento escolar; Inclusão; Neurociência; Práticas pedagógicas.

1. Introdução

Atualmente, os educadores enfrentam o desafio constante de adaptar suas práticas pedagógicas à crescente diversidade presente nas salas de aula. O ambiente escolar contemporâneo abrange uma vasta gama de perfis estudantis, incluindo crianças com desenvolvimento típico, alunos com dificuldades de aprendizagem, estudantes com deficiências ou transtornos do neurodesenvolvimento, aqueles que lidam com desafios emocionais e, notavelmente, alunos com altas habilidades e superdotação.

Essa pluralidade exige dos professores uma formação abrangente e sensível às diferenças individuais, ancorada em conhecimentos científicos sobre o funcionamento cerebral e os processos de aprendizagem. Virgolim (2007) destaca que o público com altas habilidades e superdotação é heterogêneo, apresentando características, habilidades e motivações para aprender distintas. Um olhar atento e a organização de currículos e atividades adaptadas são cruciais para atender às necessidades desses educandos.

A relevância desse grupo de estudantes é confirmada por dados recentes. O Censo Escolar de 2023, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), indicou que, do total de alunos matriculados na educação especial, 38.019 são estudantes com altas habilidades e superdotação (AH/SD).

De acordo com o Ministério da Educação, um aluno é considerado superdotado quando demonstra desempenho superior em comparação com seus pares da mesma faixa etária e contexto social. Costa (2024) complementa que esses indivíduos exibem habilidades acima da média em uma ou mais áreas, como criatividade, raciocínio lógico, habilidades artísticas ou psicomotoras e liderança. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008) caracteriza pessoas com AH/SD como aquelas que possuem alto potencial, isolado ou combinado, em áreas como intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de elevada criatividade e envolvimento com a aprendizagem.

Para Joseph Renzulli (2006), a superdotação transcende a mera capacidade intelectual elevada, sendo o resultado da interação de três traços fundamentais: habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. Esses elementos, em conjunto, permitem a manifestação de comportamentos superdotados, conceito conhecido como a Teoria dos Três Anéis de Renzulli.

Nesse cenário, a Neurociência aplicada à educação emerge como um campo de conhecimento valioso. Ela oferece subsídios para a compreensão dos processos cognitivos, emocionais e sociais que permeiam a aprendizagem, auxiliando os professores a identificar características de alunos com altas habilidades, como rapidez no processamento de informações, criatividade, sensibilidade emocional e a busca constante por desafios intelectuais. Essa perspectiva permite uma reflexão aprofundada sobre as manifestações comportamentais e emocionais desses alunos, promovendo práticas pedagógicas mais empáticas e eficazes (Cosenza; Guerra, 2011).

Contudo, apesar dos avanços científicos e da maior disponibilidade de informações, muitos professores ainda não se sentem adequadamente preparados para reconhecer e atender às necessidades específicas dos alunos com altas habilidades e superdotação. A formação inicial e continuada frequentemente dedica pouco espaço a essa temática, abordando de forma superficial o desenvolvimento cognitivo e emocional desses estudantes. A falta de conhecimento sobre as necessidades específicas desse público pode levar à adoção de metodologias inadequadas, resultando em desmotivação e subaproveitamento de suas potencialidades.

Diante dessa lacuna na formação docente e da necessidade de compreender o nível de preparo dos professores para atuar com alunos com altas habilidades e superdotação, tanto no aspecto pedagógico quanto emocional, esta pesquisa se justifica pela urgência de promover práticas educacionais mais eficazes e inclusivas. Assim, o estudo teve como objetivos analisar o nível de preparo dos docentes para reconhecer e atender às demandas específicas desse público; investigar de que forma os professores promovem o engajamento desses estudantes; identificar as estratégias pedagógicas utilizadas em sala de aula para potencializar suas capacidades cognitivas e emocionais; e compreender a percepção dos professores sobre sua própria formação, bem como os desafios enfrentados no cotidiano escolar, verificando se as metodologias aplicadas contribuem efetivamente para o desenvolvimento pleno desses alunos.

2. Material e Métodos

O estudo foi realizado com 25 professores atuantes em escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo. A amostra foi selecionada por conveniência, com o instrumento de pesquisa divulgado via redes sociais profissionais e grupos de educadores. Os critérios de inclusão para os participantes foram o exercício docente ativo na Educação Básica.

A pesquisa teve natureza descritiva e exploratória, com abordagem qualitativa e quantitativa, desenvolvida em etapa única. Adotou-se o levantamento de campo (survey) como procedimento metodológico, adequado à coleta de dados sobre percepções, práticas pedagógicas e níveis de conhecimento de professores que atuam com alunos com altas habilidades ou superdotação. Conforme Gil (2002), o método de levantamento baseia-se na obtenção de informações por contato direto com os sujeitos. A escolha justificou-se pela necessidade de mapear as percepções e lacunas na formação docente, possibilitando a análise descritiva de características e opiniões de um grupo específico (Mineiro, 2021).

O instrumento de coleta de dados foi um questionário composto por 24 questões, sendo 20 de múltipla escolha e quatro dissertativas, aplicado por meio da plataforma Google Forms. A participação dos docentes ocorreu de forma voluntária e anônima, garantindo a proteção da identidade dos respondentes.

3. Resultados e Discussão

A pesquisa contou com a participação de 25 docentes, dos quais 84% atuavam na rede privada de ensino, 4% na rede pública e 12% em ambas as redes. A amostra incluiu educadores da Educação Infantil (32%), Ensino Fundamental I (44%) e Ensino Fundamental II (24%), refletindo uma diversidade nas etapas da educação básica. Verificou-se que 64% dos participantes já haviam atuado com alunos identificados com altas habilidades e superdotação. Em relação à experiência profissional, 84% dos docentes possuíam mais de 10 anos de atuação na área educacional, caracterizando um grupo com trajetória consolidada na docência.

Apesar da experiência do grupo, os dados revelaram lacunas significativas na formação docente para o atendimento de alunos com altas habilidades ou superdotação. Na formação inicial, 96% dos respondentes afirmaram não ter recebido orientação teórica ou prática sobre o tema. Consequentemente, apenas 20% dos professores se sentiam preparados para atuar com esses alunos, o que indica uma relação direta entre a falta de formação e a insegurança na prática. Essa discrepância entre o tempo de magistério e a ausência de formação específica em AH/SD sugere um fenômeno de invisibilidade institucional. Virgolim (2007) aponta que a formação inadequada perpetua a ideia de que esses alunos são autossuficientes, o que contribui para a insegurança docente e para o foco exclusivo no desempenho acadêmico, negligenciando o desenvolvimento integral desses estudantes.

A insuficiência de conhecimento compromete a prática pedagógica. Vieira (2022) destaca que professores têm dúvidas sobre como identificar e auxiliar esses estudantes. Pereira (2006) enfatiza a importância de um plano de trabalho individualizado, que considere interesses, aptidões e necessidades, como ferramenta estratégica para o trabalho docente.

Em relação à formação continuada, apenas 36% dos participantes relataram ter participado de formações específicas na área de altas habilidades ou superdotação, e 56% declararam possuir pouco conhecimento sobre o tema. Essa adesão limitada à formação continuada reflete-se na prática pedagógica, resultando em metodologias que não exploram plenamente o potencial desses alunos, pois muitos professores não recebem o preparo adequado para sua identificação e atendimento educacional (Alencar e Fleith, 2001). Os resultados reforçam a necessidade de um olhar mais atento à formação docente, tanto inicial quanto continuada. Virgolim (2007) ressalta que a falta de informação, decorrente da formação inadequada, é um dos principais obstáculos na atuação docente. As instituições de ensino devem promover formações e momentos de estudo para ampliar o conhecimento dos docentes.

Quando questionados sobre a oferta de formações ou estudos sobre altas habilidades ou superdotação pelas instituições de ensino, 64% dos docentes afirmaram que nunca são realizadas ações nesse sentido, enquanto 24% relataram que isso ocorre raramente. Apenas 8% indicaram que essas formações acontecem ocasionalmente e 4% com frequência. Esses dados evidenciam uma baixa oferta de formação institucional, o que contribui para a insegurança docente e limita as práticas pedagógicas. Rech e Negrini (2019) destacam que as demandas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação estão diretamente ligadas à formação inicial do professor, que deve dispor de recursos teóricos e práticos para um planejamento inclusivo.

Entre os profissionais que já atuaram com alunos com altas habilidades ou superdotação, 40% afirmaram utilizar estratégias diferenciadas em sala de aula para garantir o interesse e o engajamento. As práticas mais citadas incluíram o desenvolvimento de atividades com desafios cognitivos, o aprofundamento das produções e a criação de situações que estimulem as habilidades mais desenvolvidas. Contudo, 32% dos docentes não utilizam estratégias pedagógicas diferenciadas, e apenas 44% acreditam que suas práticas favorecem o engajamento e o desenvolvimento pleno desses alunos.

A pesquisa revelou que 72% dos professores nunca participaram da elaboração ou acompanhamento de um plano de Atendimento Educacional Especializado (AEE) para alunos com AH/SD, e 12% indicaram que suas instituições não oferecem esse atendimento. Essa baixa participação na elaboração do plano AEE sugere que a inclusão ainda é vista como responsabilidade isolada da educação especial, e não como um esforço colaborativo. A ausência de um plano individualizado torna o trabalho docente reativo e sobrecarregado. Embora os professores reconheçam a importância de estratégias diferenciadas, muitos relatam insegurança quanto à efetividade de suas práticas pedagógicas, evidenciando lacunas na formação e a necessidade de maior apoio institucional (Graf et al., 2025).

Diversas dificuldades foram apontadas pelos educadores no trabalho com esse público, incluindo preparação profissional insuficiente, falta de formação adequada e continuada, currículo rígido, elevado número de alunos por sala, adaptação do Plano Educacional Individualizado (PEI), falta de conhecimento sobre estratégias específicas, dificuldades de socialização, relação conflituosa entre maturidade cognitiva e demandas socioemocionais, e posturas percebidas como autossuficientes por parte dos estudantes. Para 68% dos participantes, a falta de formação específica constitui o principal entrave para a implementação de práticas pedagógicas diferenciadas. Além disso, 92% consideram necessária uma formação específica em neurociência aplicada à educação para qualificar o atendimento.

Sobre os conceitos da Neurociência considerados mais relevantes para o trabalho com alunos com altas habilidades e superdotação, 36% citaram as funções executivas (planejamento, autorregulação e flexibilidade cognitiva), 12% a plasticidade cerebral, 8% atenção e motivação para aprender, e 36% emoção e cognição. Apenas 8% informaram não conhecer conceitos específicos da Neurociência. No que se refere à utilização de princípios da Neurociência, apenas 32% dos docentes afirmaram aplicá-los em suas práticas pedagógicas, enquanto 12% relataram utilizá-los raramente e 12% nunca. Isso evidencia a necessidade de maior inserção desses conhecimentos na formação docente.

As características associadas a esses alunos, destacadas pelos professores, incluem raciocínio cognitivo elevado, agitação, ansiedade, desinteresse por conteúdos tradicionais, rapidez e facilidade na execução das atividades, curiosidade constante, boa memória, vocabulário avançado para a faixa etária, perfeccionismo e dificuldades de socialização. A maioria dos docentes (80%) relatou perceber frequentemente dificuldades emocionais e comportamentais nesses alunos, como ansiedade, frustração e tédio. Essa percepção reforça a importância de práticas pedagógicas que considerem a integração entre cognição e emoção. O alto índice de tédio e frustração pode ser interpretado pelo funcionamento cerebral, onde a falta de desafio pedagógico adequado leva a um declínio no engajamento e na motivação. Renzulli (2006) sugere que o engajamento não é apenas uma escolha do aluno, mas uma resposta biológica a estímulos que ativam áreas pré-frontais responsáveis pelo foco e persistência na tarefa. A qualificação docente é essencial para atuar com a diversidade de alunos e suas necessidades educacionais, garantindo condições adequadas para uma aprendizagem significativa e efetiva. Estudos em neurociência educacional indicam que fatores como motivação, emoção, atenção e desafios cognitivos influenciam diretamente os processos de aprendizagem e o engajamento dos estudantes, reforçando a importância de práticas pedagógicas alinhadas ao funcionamento cerebral (Cosenza; Guerra, 2011).

Os resultados deste estudo indicaram que, apesar da experiência profissional dos docentes, há uma desconexão entre o tempo de serviço e o preparo técnico para lidar com alunos com altas habilidades e superdotação. Foram evidenciadas lacunas críticas na formação inicial e continuada, gerando insegurança na identificação e manejo adequado desses alunos. A ausência de conhecimentos específicos compromete a elaboração de práticas pedagógicas adequadas, impactando o engajamento e o desenvolvimento dos estudantes. A compreensão do funcionamento cerebral atípico, da plasticidade diferenciada e da assincronia emocional desses alunos é fundamental para que o educador não interprete o tédio e a rapidez de processamento como desinteresse. Assim, o estudo sugere a necessidade de investimento na formação docente, com ênfase em altas habilidades e neurociência aplicada à educação, e reforça a importância do apoio institucional para promover formações continuadas e a implementação de estratégias pedagógicas inclusivas, combatendo a invisibilidade institucional que ainda afeta esses estudantes.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou analisar o nível de preparo dos professores para reconhecer e atender às demandas específicas de alunos com altas habilidades e superdotação, considerando tanto os aspectos pedagógicos quanto os emocionais, à luz das contribuições da Neurociência. Verificou-se que, apesar da experiência profissional consolidada da maioria dos docentes participantes, existiram lacunas significativas na formação inicial e continuada, o que gerou um sentimento generalizado de insegurança na prática pedagógica. Observou-se que a ausência de conhecimentos específicos comprometeu a elaboração de estratégias diferenciadas, impactando diretamente o engajamento e o desenvolvimento pleno desses estudantes. A pesquisa também revelou que a baixa oferta de formações institucionais sobre o tema contribui para a limitação das práticas e para a interpretação inadequada de comportamentos dos alunos, como tédio e rapidez de processamento, que muitas vezes são confundidos com desinteresse, sem a devida compreensão do funcionamento cerebral atípico e da assincronia emocional.

Diante desses achados, o estudo destaca a necessidade premente de investimento na formação docente, com ênfase em conteúdos relacionados às altas habilidades e à Neurociência aplicada à educação. Essa qualificação é fundamental para subsidiar práticas pedagógicas mais eficazes, inclusivas e alinhadas às potencialidades desses alunos, promovendo um ambiente de aprendizagem que valorize suas capacidades cognitivas e emocionais. A principal contribuição reside na explicitação da urgência de um apoio institucional robusto, que promova formações continuadas e a implementação de estratégias pedagógicas inclusivas, articulando o Atendimento Educacional Especializado como um esforço colaborativo. Assim, combate-se a invisibilidade institucional que ainda afeta esses estudantes, garantindo o direito de aprender no nível e na velocidade de suas capacidades.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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