Neurociência E Aprendizagem Na Educação
09 de setembro de 2026
A Prática do Mindfulness na Escola e os Benefícios para Alunos do Ensino Fundamental
Cibelle Tonelli Veiga Menezes; Juliana Cristina Da Silva
DOI: 10.22167/2675-6528-202602195
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A necessidade de repensar a educação no contexto pós-pandêmico, considerando os impactos observados no comportamento e na aprendizagem dos estudantes, como o aumento da ansiedade, a insegurança e as dificuldades de concentração, motivou a realização do presente estudo. O trabalho objetivou analisar a contribuição da prática de mindfulness para o comportamento, a aprendizagem e o desenvolvimento de competências socioemocionais de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. A metodologia adotada caracterizou-se como um estudo de caso, de abordagem qualitativa, que se realizou por meio de observação participante e pesquisa de campo ao longo de um ano em uma escola particular. Os resultados indicaram que a prática de mindfulness no contexto do ensino fundamental favoreceu a redução da ansiedade, o aumento da concentração, a melhoria da regulação emocional e o maior engajamento dos alunos nas atividades escolares. Esses benefícios foram observados tanto entre estudantes sem diagnóstico de necessidades educacionais específicas quanto entre aqueles com necessidades educacionais especiais. Concluiu-se que a inserção do mindfulness no ambiente escolar constituiu uma estratégia eficaz para o desenvolvimento de competências socioemocionais e para a melhoria do processo de ensino e aprendizagem.
Palavras-chave: Aprendizagem; Competências socioemocionais; Ensino fundamental; Mindfulness; Regulação emocional.
1. Introdução
As inovações são constantes no mundo e no ambiente escolar, o que provoca profundas mudanças na maneira de produzir conhecimento. A velocidade acelerada com que a comunicação chega aos indivíduos acarreta transformações na sociedade atual, influenciando o comportamento humano e a forma como se assimila e se produz o saber. Nesse contexto, o desenvolvimento de letramento digital por meio de atividades escolares mostra-se fundamental, uma vez que a internet ocupa um lugar de destaque social, seja como fonte de informação ou como meio para a construção de saberes (Braga, 2013).
A chegada da pandemia do vírus COVID-19 impossibilitou o funcionamento presencial das escolas por um período indeterminado, modificando a maneira de ensinar e impactando a aprendizagem e a saúde mental da comunidade escolar. Após a pandemia, observou-se que os alunos retornaram emocionalmente fragilizados, mais inseguros e dependentes dos pais e professores, apresentando elevados níveis de ansiedade, dificuldades de concentração e limitações na regulação emocional. Estudos indicam que grande parte dos alunos manifestou sintomas de ansiedade e depressão, além de prejuízos na atenção e na organização dos estudos, decorrentes das mudanças impostas pelo ensino remoto e pelo isolamento social (Instituto Ayrton Senna, 2022; Corrêa et al., 2022; Abed, 2020).
Nesse sentido, torna-se essencial que a instituição escolar promova o desenvolvimento de competências socioemocionais, contribuindo para que os alunos estabeleçam relações mais equilibradas consigo mesmos e com os outros. O trabalho escolar, de acordo com Libâneo et al. (2008), implica a criação de formas de viabilização organizativa e metodológica da educação, possibilitando que a escola cumpra sua função social de assegurar a apropriação dos conhecimentos científicos e culturais. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) destaca a importância do desenvolvimento de competências socioemocionais, que devem ser articuladas no processo de ensino e aprendizagem para que crianças e adolescentes sejam capazes de identificar seus pontos fortes e fragilidades, lidar com emoções e manter a saúde física e o equilíbrio emocional.
Entretanto, estudos recentes, como o realizado por Magnago et al. (2025), apontam que fragilidades no contexto educacional podem estar relacionadas à insuficiência de políticas públicas efetivas e ao distanciamento entre os conteúdos escolares e a realidade vivenciada pelos alunos. Em contrapartida, abordagens pedagógicas que priorizam o acolhimento, o fortalecimento das relações interpessoais e a utilização de metodologias ativas tendem a favorecer o engajamento dos estudantes e a reconstrução dos vínculos com a escola. Para o desenvolvimento dessas competências no contexto educacional, é fundamental a adoção de uma abordagem integrada, que envolva tanto políticas públicas eficazes quanto práticas pedagógicas inovadoras (Franco; Hargraves; 2020), atendendo às necessidades dos alunos nas esferas cognitiva e emocional.
É nesse cenário que se insere o mindfulness, uma prática com raízes na meditação budista, adaptada ao contexto ocidental como abordagem terapêutica e de desenvolvimento pessoal. Segundo Kabat-Zinn (2018), mindfulness, ou atenção plena, é a consciência cultivada por meio de um foco de atenção intencional no momento presente, livre de julgamentos. Trata-se de uma técnica de desenvolvimento pessoal que busca atingir um estado de presença e consciência do corpo e da mente. Giroto-Guedes et al. (2023) complementam que o mindfulness pode ser compreendido como um treinamento mental voltado ao desenvolvimento de habilidades psicológicas centrais, especialmente a autorregulação emocional e atencional, promovendo maior consciência das experiências internas (Kabat-Zinn, 1990; 2003).
A interface entre mindfulness e psicologia se justifica pelo objetivo comum de reduzir o sofrimento por meio do autoconhecimento (Shapiro & Weisbaum, 2020). Evidências apontam que a prática de mindfulness está associada à redução do estresse, da ruminação e da distração mental, além de contribuir para o bem-estar psicológico (Blanke et al., 2020; Giroto-Guedes et al., 2023). Estudos em neurociência indicam mudanças nos padrões cerebrais relacionados à regulação emocional em praticantes (Lutz et al., 2014), e a literatura científica reforça que essa prática envolve não apenas a autorregulação da atenção, mas também a adoção de uma postura de aceitação frente às experiências internas, contribuindo para o equilíbrio emocional (Demarzo et al., 2015; Menezes; Bizarro, 2015). Do ponto de vista científico, os efeitos do mindfulness podem ser compreendidos à luz do conceito de neuroplasticidade, que se refere à capacidade do cérebro de se modificar a partir de experiências repetidas (Scott et al., 2017; Herholtz; Zatorre, 2012 apud Gardini, 2023).
Diante desse contexto, torna-se relevante compreender de que forma a prática do mindfulness pode contribuir para a aprendizagem e o desenvolvimento das competências socioemocionais no ambiente escolar. Essa investigação, ao analisar a experiência de uma escola particular de São Paulo, busca oferecer subsídios práticos para a incorporação de estratégias de atenção plena no cotidiano educacional. Sendo assim, a presente pesquisa teve como objetivo descrever como a prática de mindfulness foi incorporada às rotinas pedagógicas da escola analisada, identificando, nos registros institucionais, evidências do seu impacto sobre a atenção, o comportamento e o engajamento dos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, e analisar, por meio de um estudo de caso baseado na observação e análise documental das práticas pedagógicas, de que forma essas práticas contribuíram para o desenvolvimento de competências socioemocionais, como autorregulação e empatia, refletindo sobre os potenciais benefícios e desafios da implementação contínua do mindfulness no contexto escolar.
2. Material e Métodos
A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso único, de natureza aplicada e abordagem qualitativa, com objetivos descritivos e analíticos (Prodanov; Freitas, 2013). O delineamento metodológico baseou-se na triangulação de fontes, utilizando pesquisa bibliográfica, análise documental e observação participante institucional.
A observação participante, conforme May (2001), envolve o estabelecimento de um relacionamento duradouro do investigador com o grupo em sua situação natural para desenvolver um entendimento científico.
O estudo foi conduzido em uma escola particular de São Paulo (referida como Escola A), com uma amostra de seis turmas dos anos finais (6º, 7º e 8º anos) do Ensino Fundamental, totalizando uma média de 20 alunos por classe. A seleção da instituição e das turmas foi por conveniência, devido à atuação da pesquisadora como docente de Língua Portuguesa na unidade.
Os dados foram construídos a partir de três fontes principais: registros em diário de campo elaborados pela pesquisadora durante e após as aulas; análise de documentos escolares (registros de comportamento, organização de atividades e desempenho acadêmico em nível coletivo); e relatos informais de alunos, responsáveis e professores.
Procedimentos de Coleta de Dados
Para a análise do impacto das práticas de mindfulness no cotidiano escolar, foram adotados os seguintes procedimentos:
1. Protocolo de Intervenção: Rotina de exercícios de atenção plena aplicada no início das aulas de Português, com detalhamento da frequência e duração das sessões.
2. Observação Participante: A pesquisadora acompanhou as rotinas das práticas, registrando em diário de campo reflexivo as percepções sobre o comportamento coletivo da turma, com foco em indicadores de engajamento, tempo de concentração, redução de ruído e clima emocional do grupo durante as atividades acadêmicas.
3. Análise Documental: Levantamento de dados em registros institucionais (planos de aula e relatórios de acompanhamento pedagógico) e análise das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) relacionadas às competências socioemocionais.
A análise dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo temática (Bardin, 2011). Os dados documentais de desempenho e comportamento foram tratados de forma agregada, convertendo informações individuais em indicadores de aproveitamento global da turma, para identificar categorias relacionadas à aprendizagem e ao bem-estar coletivo, sem exposição de dados sensíveis.
A pesquisa observou os princípios de confidencialidade e sigilo, alinhando-se às diretrizes do Manual de Instruções e Normas do programa. O estudo enquadra-se nas hipóteses de dispensa de registro e análise pelo sistema CEP/CONEP, conforme o parágrafo único do Art. 1º da Resolução CNS n° 510/2016, por investigar situações da prática profissional com observações descritivas e registros institucionais agregados, sem identificação individual. O anonimato dos estudantes e da instituição (Escola A) foi preservado integralmente, sem coleta de imagens, áudios ou nomes. A viabilidade ética foi ratificada pela obtenção do Termo de Anuência da direção escolar e pelo preenchimento do Formulário de Direcionamento Ético (FDE) no sistema institucional.
O trabalho utilizou a ferramenta de Inteligência Artificial (IA) ChatGPT para revisão gramatical e estruturação de tópicos, sendo o conteúdo gerado revisado e validado pela autora, que assume integral responsabilidade pela precisão, originalidade e integridade acadêmica das informações apresentadas.
3. Resultados e Discussão
Descrição da implementação do mindfulness no contexto estudado
Durante o ano letivo de 2025, uma intervenção pedagógica baseada na prática de mindfulness foi implementada com alunos do 6º ao 8º ano do Ensino Fundamental, nas turmas de Língua Portuguesa da pesquisadora. A prática ocorreu sistematicamente, com frequência média de uma vez por semana e duração de 5 a 10 minutos por sessão. A técnica principal empregada foi a respiração consciente, guiada pela professora com orientações verbais para a atenção ao momento presente. As intervenções foram realizadas em pontos estratégicos da rotina, como no início das aulas, após o intervalo, depois das aulas de Educação Física e antes de atividades avaliativas, especialmente na disciplina de Língua Portuguesa.
Observou-se um aumento nos níveis de ansiedade e nervosismo entre os estudantes durante as Atividades de Análise do Conhecimento (AAC), que correspondem a 35% da média final. Diante disso, a prática de mindfulness foi conduzida diariamente antes do início dessas avaliações nas turmas da pesquisadora. O processo começou na primeira semana letiva com rodas de conversa para apresentar o conceito de mindfulness, sendo as práticas incorporadas gradualmente à rotina.
Mindfulness e desenvolvimento de competências socioemocionais
Os registros de observação participante indicaram mudanças progressivas no comportamento dos alunos em relação à regulação emocional. Inicialmente, havia frequentes manifestações de ansiedade, agitação e dificuldade em lidar com erros. Com a continuidade da prática, observou-se maior capacidade de autorregulação, evidenciada por respostas mais equilibradas diante de frustrações e maior persistência nas tarefas.
Em relação à atenção e ao foco, os dados do diário de campo apontaram aumento no tempo de engajamento em atividades que exigiam concentração e redução de comportamentos de dispersão. A análise documental das produções acadêmicas reforçou essa percepção, indicando melhora na organização dos cadernos, maior completude das tarefas e maior clareza nas respostas escritas, aspectos associados ao desenvolvimento de funções executivas. O clima de sala de aula também melhorou, com diminuição de comportamentos disruptivos, como conversas paralelas e inquietação, especialmente nos dias de prática, dado corroborado por relatos de outros professores.
A análise de dados agregados de desempenho acadêmico, considerando as médias das turmas, indicou uma tendência de melhora no rendimento escolar. Contudo, não foi possível estabelecer uma relação de causalidade direta entre a prática de mindfulness e o desempenho acadêmico, devido à interferência de múltiplos fatores. Relatos de responsáveis, obtidos em reuniões escolares, indicaram percepções de mudanças no comportamento dos alunos no ambiente familiar, como maior tranquilidade e melhor organização para atividades escolares, sugerindo a ampliação dos efeitos da prática para além da escola.
Durante a prática, alguns alunos, mesmo sem Necessidades Educacionais Especiais (NEE), demonstraram dificuldade em manter a atenção, abrindo os olhos ou manuseando cadernos. No entanto, muitos relataram conseguir imaginar com clareza as orientações, sentindo-se mais focados e preparados para avaliações após a prática. Alguns alunos chegaram a adormecer durante a atividade. Muitos estudantes, com ou sem NEE, relataram maior percepção corporal após as aulas de Educação Física, com a prática de mindfulness promovendo uma sensação de equilíbrio e relaxamento.
Mindfulness e sua aplicação junto a estudantes com Necessidades Educacionais Especiais
A adesão à prática de mindfulness não foi homogênea entre todos os alunos. Um estudante com Transtorno do Espectro Autista (TEA) optou por não participar diretamente, mas se manteve envolvido em outras ações sem atrapalhar. Outro estudante com TEA, nível 1 de suporte e excelente nível intelectual, resistiu à participação, buscando chamar a atenção com comportamentos disruptivos, sendo levado à coordenação.
Em outro caso, uma aluna com TEA, nível de suporte 1 e excelente nível intelectual, inicialmente resistiu, alegando dificuldade de concentração. Contudo, ela gradualmente aderiu à prática, participando normalmente após algumas semanas, chegando a dormir profundamente em uma sessão. Por outro lado, um aluno com TEA, nível 2 de suporte e baixo nível intelectual, que frequentemente se desregulava com episódios de agressão física, sempre participou das práticas de mindfulness sem resistência. Observou-se que, após a prática, ele retornava à atividade mais calmo e regulado emocionalmente. Esses casos sugerem que a prática de mindfulness pode ser um recurso auxiliar para a autorregulação, reforçando a necessidade de estratégias pedagógicas inclusivas e considerando as singularidades dos estudantes.
Compartilhamento das práticas de Mindfulness com a equipe escolar
A pesquisadora compartilhou os benefícios e a técnica de mindfulness com outros docentes em reuniões pedagógicas, destacando a importância da respiração consciente e do uso de recursos relaxantes para aulas mais tranquilas. Apesar dos benefícios observados, houve resistência significativa por parte dos demais professores em adotar essas estratégias, permanecendo a prática restrita às aulas da pesquisadora. Os fatores limitantes incluíram falta de interesse, tempo e familiaridade com a técnica, indicando a necessidade de investimentos em formação continuada. Por demanda da equipe gestora, a pesquisadora conduziu formações com as auxiliares que atuam com alunos com NEE, instrumentalizando-as para usar estratégias de atenção plena no manejo emocional dos estudantes.
Articulação entre os resultados da pesquisa e o referencial científico sobre mindfulness
A prática de mindfulness, com raízes em tradições meditativas antigas (Wallace, 2011; Kalra et al., 2018), tem sido adaptada ao contexto ocidental, com foco na autorregulação e atenção plena (Cardoso et al., 2004; Wullstein, 2009). Giroto-Guedes et al. (2023) definem mindfulness como um treinamento mental para desenvolver habilidades psicológicas, especialmente a autorregulação emocional e atencional, prestando atenção intencional ao momento presente, sem julgamento (Kabat-Zinn, 1990; 2003).
A interface entre mindfulness e psicologia busca a redução do sofrimento por meio do autoconhecimento (Shapiro & Weisbaum, 2020). Estudos empíricos associam a prática à redução do estresse, ruminação e distração mental, além de contribuir para o bem-estar psicológico (Blanke et al., 2020; Giroto-Guedes et al., 2023). Pesquisas em neurociência indicam mudanças nos padrões cerebrais relacionados à regulação emocional (Lutz et al., 2014), e intervenções baseadas em mindfulness têm sido aplicadas para prevenção de recaídas em depressão (Farb et al., 2018), melhora da qualidade do sono (Garcia et al., 2018) e regulação do estresse em estudantes (Carpenter et al., 2019).
Os resultados da presente intervenção, que indicaram melhora na atenção e regulação emocional, alinham-se à literatura que descreve mindfulness como a capacidade de direcionar a atenção ao momento presente de forma intencional e sem julgamentos (Kabat-Zinn, 2003), favorecendo a consciência sobre pensamentos e emoções (Demarzo et al., 2015; Menezes; Bizarro, 2015). Os efeitos podem ser compreendidos pela neuroplasticidade, onde práticas sistemáticas promovem alterações cerebrais que influenciam processos cognitivos e emocionais (Scott et al., 2017; Herholtz; Zatorre, 2012 apud Gardini, 2023).
O programa Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), desenvolvido por Kabat-Zinn, integra práticas meditativas com abordagens clínicas e psicológicas, demonstrando eficácia na redução do estresse e promoção da saúde mental (Kabat-Zinn, 1982; Praissman, 2008 apud Gardini, 2023). O MBSR, que inclui meditação e escaneamento corporal, contribui para o controle atencional e bem-estar psicológico (Goleman, 2012; Shapiro et al., 2005 apud Gardini, 2023). Treinamentos estruturados de mindfulness estão associados a melhorias na atenção, tomada de decisão e regulação emocional (Gautam; Mathur, 2021; Kral et al., 2017 apud Gardini, 2023), achados que oferecem subsídios para o contexto escolar.
No contexto educacional, práticas de mindfulness têm demonstrado impactos positivos na atenção, desempenho acadêmico e relações interpessoais, além de auxiliar no manejo de dificuldades como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (Broderick & Metz, 2009; Zylowska et al., 2008). Programas como os Mindfulness-Based Programs (MBPs) promovem o desenvolvimento de competências como atenção, autorregulação emocional e compaixão (Giroto-Guedes et al., 2023). Revisões de literatura reforçam a eficácia desses programas na redução de estresse e sofrimento psicológico, com benefícios duradouros (Mouzinho et al., 2018).
O modelo de regulação emocional de Gross (1998a; 1998b) indica que o mindfulness atua nos processos antecedentes, favorecendo a atenção ao momento presente e reduzindo a reatividade automática. Para alunos com NEE, especialmente TEA, a literatura aponta contribuições do mindfulness na regulação emocional e redução de comportamentos associados à ansiedade (Ridderinkhof et al., 2018). Pesquisas brasileiras, embora incipientes, indicam seu potencial como estratégia pedagógica complementar (Demarzo et al., 2015; Menezes; Bizarro, 2015), convergindo com os achados deste estudo ao sugerir que a prática pode apoiar o manejo emocional e a adaptação escolar.
Apesar dos resultados promissores, a literatura aponta desafios relacionados à definição conceitual e à padronização metodológica dos estudos em mindfulness (Giroto-Guedes et al., 2023), evidenciando a necessidade de investigações mais consistentes. Os resultados obtidos, analisados à luz dos procedimentos metodológicos, indicam que a prática de mindfulness contribuiu para melhorias na regulação emocional, na atenção e no clima de sala de aula, configurando-se como uma estratégia pedagógica relevante, embora seus efeitos devam ser compreendidos de forma contextualizada e não determinista. A ampliação de pesquisas, especialmente na educação básica, e o aprofundamento teórico são fundamentais para consolidar o campo e orientar práticas pedagógicas.
Os resultados do estudo indicaram que a prática de mindfulness contribuiu positivamente para a redução do estresse, o aprimoramento da atenção e o desenvolvimento da regulação emocional dos alunos, refletindo em maior engajamento nas atividades escolares. Esses benefícios foram observados tanto em estudantes sem diagnóstico de necessidades educacionais específicas quanto naqueles com NEE, evidenciando o caráter inclusivo da prática. A inserção do mindfulness no contexto escolar configura-se como uma estratégia pedagógica relevante, capaz de promover melhorias no comportamento e na aprendizagem dos alunos, fortalecendo o equilíbrio emocional e as relações interpessoais no ambiente escolar.
4. Conclusão
A presente investigação buscou descrever a incorporação da prática de mindfulness nas rotinas pedagógicas de uma escola particular, identificando seu impacto na atenção, comportamento e engajamento de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, além de analisar sua contribuição para o desenvolvimento de competências socioemocionais. Verificou-se que a aplicação sistemática da respiração consciente, especialmente antes de avaliações, favoreceu a redução da ansiedade e da agitação entre os estudantes. Observou-se um aumento na capacidade de autorregulação emocional, maior persistência nas tarefas e melhora na organização das produções acadêmicas, indicando um aprimoramento das funções executivas. O clima de sala de aula também se beneficiou, com a diminuição de comportamentos disruptivos. Esses efeitos foram notados tanto em alunos sem necessidades educacionais específicas quanto naqueles com Transtorno do Espectro Autista, sugerindo o potencial inclusivo da prática. A principal contribuição do estudo reside em demonstrar que a inserção do mindfulness no ambiente escolar constitui uma estratégia pedagógica relevante para o desenvolvimento de competências socioemocionais e para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem.
Contudo, a pesquisa identificou limitações, como a impossibilidade de estabelecer uma relação de causalidade direta entre a prática de mindfulness e o desempenho acadêmico, dada a influência de múltiplos fatores. Além disso, a adesão à prática não foi homogênea entre todos os alunos e houve resistência significativa por parte de outros docentes em adotar a técnica, motivada pela falta de interesse, tempo e familiaridade. Diante desses desafios, sugere-se a necessidade de investimentos em formação continuada para professores, visando ampliar a compreensão e a aplicação do mindfulness no contexto educacional. Recomenda-se, ainda, a ampliação de pesquisas, especialmente na educação básica, e o aprofundamento teórico sobre os mecanismos de atuação do mindfulness, a fim de consolidar o campo e orientar práticas pedagógicas mais fundamentadas e eficazes. A instrumentalização de auxiliares que atuam com alunos com necessidades educacionais especiais, conforme realizado neste estudo, aponta um caminho promissor para a disseminação da prática.
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Giroto-Guedes, V.; Ribeiro, N.; Mograbi, D. 2023. Mindfulness, meditação e regulação emocional: perspectivas e achados empíricos. Clínica & Cultura, v.9, n.1, p.94–111.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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