A ascensão do Substack

Coluna

Consumidor Digital

31 de julho de 2026

A ascensão do Substack

Plataforma permite que autores publiquem newsletters por meio de assinaturas, transformando conteúdo em produto final

Estou viciada em Substack. E a razão não está na plataforma. Simplesmente porque não há ali os mecanismos clássicos que sustentaram a lógica das redes sociais na última década. Não existe um feed infinito orientado por estímulos intermitentes e o algoritmo funciona de uma forma diferente, que foca na conexão de comunidades e conversão em assinaturas, e não no tempo total de tela ou em conteúdos que viralizam fácil.

E, ainda assim, eu volto. Leio textos longos. Abro os e-mails que chegam para mim. Assino newsletters. Esse comportamento, que contraria a narrativa dominante de que a atenção está cada vez mais curta, aponta para algo mais estrutural: não é a plataforma que retém. No caso do Substack, é o tipo de conteúdo que ele viabiliza.

O Substack é uma plataforma de publicação fundada em 2017, estruturada sobre um modelo relativamente simples: permitir que autores publiquem newsletters e monetizem diretamente sua audiência por meio de assinaturas. Seu crescimento inicial esteve fortemente associado a jornalistas independentes, muitos deles vindos de redações tradicionais, que passaram a explorar formas mais autônomas de produção e distribuição de conteúdo. Ao longo do tempo, a plataforma ampliou seu escopo, incorporando escritores, analistas, especialistas e, mais recentemente, marcas. Ainda assim, sua base estrutural permanece ancorada em três elementos: escrita autoral, distribuição direta (principalmente via e-mail) e monetização recorrente.

Essa constatação nos leva a uma mudança relevante na forma como entendemos o papel do conteúdo. Durante muito tempo, ele foi tratado como meio: um recurso para atrair, engajar e, no limite, converter para outro produto ou serviço. O que começa a se consolidar agora é uma outra configuração, em que o conteúdo não abandona essa função, mas passa a operar também como produto final. Ele não conduz necessariamente a uma oferta externa. Ele é a própria oferta.

O crescimento do Substack deve ser lido a partir dessa lente. Mais do que uma nova plataforma de publicação, ele representa uma infraestrutura que organiza e viabiliza esse modelo. A combinação entre escrita autoral, distribuição direta por e-mail e possibilidade de monetização recorrente cria um ambiente em que a relação entre produtor e audiência se torna menos intermediada e mais econômica. Não se trata apenas de produzir conteúdo, mas de sustentar uma entrega contínua de valor capaz de justificar pagamento.

Esse movimento se articula com uma revalorização do conteúdo longo e direcionado (tendência sobre a qual já falei aqui em outros artigos). Após anos de predominância de formatos curtos, fragmentados e altamente replicáveis, observa-se uma saturação que compromete a diferenciação. O excesso de informação disponível não elimina a demanda por conteúdo, ao contrário, reorganiza essa demanda em torno de critérios mais exigentes. Tempo de leitura deixa de ser barreira e passa a ser um sinal. Quem permanece está mais disposto a se aprofundar, e isso altera a qualidade da relação construída.

Não se trata de um retorno ao passado, nem de uma substituição do conteúdo curto. O que se observa é uma especialização de papéis dentro do ecossistema digital. Conteúdos curtos continuam eficientes na descoberta e na ampliação de alcance. Já os conteúdos longos concentram retenção, construção de autoridade e, principalmente, monetização. Essa distinção é central para entender por que modelos baseados em assinatura encontram terreno fértil nesse contexto.

É nesse ponto que o Substack se conecta de forma mais clara com a evolução da creator economy. Se, em um primeiro momento, creators dependiam majoritariamente de plataformas baseadas em publicidade e algoritmos para escalar audiência, agora se observa uma migração gradual para modelos baseados em comunidade e receita direta. A métrica de sucesso se desloca: alcance perde centralidade para retenção, e engajamento superficial cede espaço para vínculo recorrente.

Essa transição, no entanto, não elimina tensões. A ideia de desintermediação precisa ser relativizada. Embora o Substack reduza a dependência de algoritmos como nos modelos de distribuição que estamos acostumados, ele ainda é uma plataforma, com suas próprias regras, com um tipo de algoritmo, com limitações e formas de mediação. Além disso, a sustentabilidade do modelo depende de um fator exigente: consistência.

Sem a recorrência de entregas relevantes, a lógica de assinatura se fragiliza rapidamente. O que se ganha em autonomia, aumenta-se em responsabilidade. E no quesito consistência há que se atentar justamente para essa característica do conteúdo longo: isso exige mais tempo, mais preparação e mais atenção na escrita. Esse conteúdo mais elaborado, mais “parrudo” é o que me prende no Substack.

A entrada de marcas nesse ambiente adiciona uma camada importante de complexidade. Ao ocupar o Substack, marcas deixam de atuar apenas como emissoras de mensagens institucionais ou conteúdos promocionais e passam a disputar espaço em um território que valoriza autoria, profundidade e regularidade. Isso implica uma mudança de papel: de uma linha de anúncios para uma linha editorial.

Essa transição levanta questões estratégicas relevantes. A primeira delas diz respeito à natureza do conteúdo produzido. Para que uma marca seja relevante nesse contexto, não basta informar ou divulgar, é necessário produzir algo que se sustente, independentemente do produto ou serviço oferecido. Isso exige desenvolvimento de pensamento próprio, capacidade de análise e uma voz reconhecível, elementos que nem sempre fazem parte da estrutura tradicional da comunicação corporativa.

A segunda questão é mais estrutural e talvez mais sensível: o que acontecerá com o ecossistema do Substack à medida que mais marcas aderirem a ele? Plataformas digitais têm histórico de transformação, à medida que novos agentes passam a disputar atenção dentro delas. Ambientes inicialmente percebidos como espaços de troca qualificada tendem, com o tempo, a incorporar dinâmicas de promoção, competição por visibilidade e padronização de formatos.

Existe, portanto, um risco (longínquo, mas ainda assim um risco) de que a lógica que hoje diferencia o Substack, baseada em profundidade, relação direta e menor interferência algorítmica, seja afetada por práticas mais próximas das redes sociais tradicionais. Isso não significa necessariamente uma descaracterização inevitável, mas aponta para um equilíbrio delicado. Se a presença de marcas contribuir para elevar a qualidade e diversidade do conteúdo, ela pode fortalecer o ecossistema. Se, por outro lado, reproduzir dinâmicas promocionais e superficiais, pode comprometer o próprio valor que sustenta o modelo.

Essa discussão ainda está em aberto e é muito nova, e talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes do momento atual. O Substack não atingiu seu potencial máximo, mas já opera como um indicativo consistente de mudança. Ele revela que existe espaço para modelos em que o conteúdo não depende exclusivamente de escala massiva para gerar valor e em que a relação com a audiência pode ser construída em bases mais diretas e sustentáveis.

O que me prende ao Substack é essa possibilidade de ter acesso a conteúdos novos, direcionados, que conversam comigo com mais profundidade. Conteúdos que se diferenciam não pelo tamanho, mas pela essência e pelo que provocam em mim: a vontade de continuar a leitura. Se esse modelo vai se expandir de forma dominante ou coexistir com outros formatos, ainda não é possível afirmar. Mas ele já impõe uma revisão importante: produzir conteúdo deixou de ser apenas uma estratégia de visibilidade. Em determinados contextos, passou a ser uma estratégia de negócio, com todas as exigências que isso implica. Uma alternativa para criadores de conteúdo que não querem depender da lógica algorítmica e que desejam entregar além de sete segundos.

Quem publicou esta coluna

Silmara Regina de Souza

Mestre em Administração, consultora pelo Sebrae SP. Palestrante, conteudista, especialista em marketing e comunicação digital. Entusiasta da produção de conteúdo e do uso estratégico das redes sociais como canais de relacionamento e comunicação.

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