Imagem Práticas de personalização do ensino e seus impactos na escola

11 de fevereiro de 2026

Práticas de personalização do ensino e seus impactos na escola

Vanessa Maneo Munhoz; Luciana Cristina de Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo documental analisou práticas e impactos da personalização do ensino no ambiente escolar, identificando desafios, barreiras e estratégias para sua implementação. A problemática central foi como aplicar a personalização de forma viável no contexto escolar, considerando os desafios de professores e gestores. A evolução tecnológica e novas demandas sociais tornam imperativo fomentar a autonomia e o protagonismo dos estudantes. A transição de um modelo tradicional, focado na memorização, para uma abordagem de aprendizagem significativa, encontra eco em pesquisas que demonstram a multiplicidade das formas de aprender. A aprendizagem se consolida ao estabelecer conexões cognitivas e emocionais relevantes para o indivíduo, princípio que dialoga com as ideias de Dewey (1959) e Freire (1996).

As metodologias ativas respondem a essa necessidade, propondo que os alunos se tornem protagonistas de seu processo de aprendizagem, desenvolvendo autonomia, criatividade e senso crítico. Abordagens como ensino híbrido, sala de aula invertida e gamificação buscam engajar os estudantes de maneira contextualizada. Dentre elas, a personalização do ensino destaca-se como promissora e complexa, pois exige que o processo pedagógico seja ajustado às necessidades, interesses e ritmos de cada estudante. Esta concepção democrática do ensino pressupõe que a aprendizagem ocorra em tempos e formatos distintos, permitindo que o conhecimento seja aplicado em situações reais da vida do aluno.

Para que a personalização seja efetiva, o papel do professor se transforma. Ele deixa de ser o detentor do conhecimento para atuar como mediador do processo de aprendizagem, orientando os estudantes em seus percursos (Moran e Bacich, 2018). A implementação pode ocorrer em diferentes níveis de complexidade, desde adaptações em sala de aula até a reestruturação do currículo por meio de trilhas de aprendizagem. O processo demanda do professor domínio da estratégia pedagógica e capacidade de compreender as necessidades individuais dos alunos por meio de sondagens e acompanhamento contínuo.

O sucesso da personalização depende também de forte apoio institucional. A gestão escolar é crucial ao fornecer suporte, tanto em formação continuada para docentes quanto na adequação da infraestrutura. Sem esse alinhamento, os desafios da implementação de práticas inovadoras se tornam maiores. A análise de experiências concretas, como as reunidas na obra “Inova Escola” (Fundação Telefônica Vivo, 2016), é essencial para compreender como superar barreiras e adaptar práticas a realidades diversas, incluindo contextos com recursos limitados e turmas numerosas.

Este estudo parte da premissa de que, apesar das barreiras estruturais, formativas e culturais, a personalização do ensino oferece um caminho para tornar a educação mais significativa e alinhada às demandas do século XXI. A análise de práticas bem-sucedidas e dos desafios enfrentados por escolas inovadoras fornece subsídios para educadores e gestores, demonstrando que a inovação é possível quando há compromisso institucional, planejamento estratégico e disposição para adaptar o processo pedagógico às singularidades de cada estudante.

Este estudo é uma pesquisa qualitativa, com abordagem de estudo documental, que analisou sistematicamente documentos para entender como o tema é abordado e aplicado. O livro “Inova Escola – Práticas para quem quer inovar na educação”, organizado pela Fundação Telefônica Vivo (2016), foi a fonte primária de dados, selecionado por sua relevância ao apresentar experiências pedagógicas inovadoras e concretas, oferecendo uma visão prática das metodologias de individualização e permitindo a análise de sua aplicabilidade e limitações em diferentes contextos escolares brasileiros.

Para ampliar a compreensão, foram consultados documentos complementares, como artigos acadêmicos e publicações jornalísticas. A coleta de dados seguiu um processo em três etapas: leitura exploratória, para familiarização com a obra principal; leitura seletiva, para identificar trechos sobre personalização do ensino; e criação de categorias de análise para organizar os dados em temas recorrentes, como estratégias de personalização, papel do professor, infraestrutura, tecnologias, desafios e resultados. O registro das informações foi realizado em fichas de leitura e tabelas para facilitar a análise.

A análise do conteúdo seguiu a abordagem de Bardin (1977), em quatro etapas. A primeira, a pré-análise, envolveu a exploração do material e a definição de categorias e objetivos. Documentos complementares, com destaque para os trabalhos de Albuquerque (2022), Nery (2025) e Wong (2016), além de reportagens do G1 (2025) e Carta Capital (2025), enriqueceram a contextualização. A segunda etapa, a exploração do material, consistiu na definição das categorias de análise: estratégias de personalização; papel do professor; tecnologias digitais e manuais; infraestrutura escolar; desafios enfrentados; e resultados e impactos.

Na terceira etapa, o tratamento dos resultados, as categorias foram organizadas para identificar padrões de recorrência e divergências, verificando como as estratégias dialogam com diferentes contextos. Foram analisados os desafios relatados, a atuação dos professores, a infraestrutura, o uso de tecnologias e a função da gestão. A quarta etapa, de inferência e interpretação, envolveu a discussão crítica das informações, relacionando-as com o referencial teórico, evidências da neurociência educacional e documentos normativos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). O estudo documental permitiu analisar o conteúdo de maneira sistemática, identificando potencialidades, desafios e impactos da personalização do ensino.

Os termos “personalização do ensino” e “personalização da aprendizagem” são usados de forma intercambiável, embora tenham enfoques distintos. A personalização do ensino centra-se no professor, que adapta conteúdos e estratégias, mantendo o protagonismo no processo (Bacich e Moran, 2018). Já a personalização da aprendizagem posiciona o aluno como sujeito ativo na construção de seu percurso, com voz e escolha sobre o que, como e quando aprender. Para Moran (2015), este modelo transforma o aluno em protagonista, com suporte de educadores e tecnologias. Ambas as perspectivas encontram respaldo na legislação educacional brasileira, como a BNCC e os PCNs, que orientam para um ensino flexível e pautado na autonomia.

A BNCC (Brasil, 2017), os PCNs (Brasil, 1997) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (Brasil, 1996) fornecem o arcabouço normativo para práticas personalizadas. Esses documentos destacam a importância de garantir os direitos de aprendizagem a todos, considerando a diversidade de ritmos e contextos, e incentivam currículos flexíveis e itinerários formativos que contemplem a escolha e o protagonismo estudantil. As práticas docentes analisadas (Albuquerque, 2022; Fundação Telefônica Vivo, 2016) revelam conexão com essa legislação, enfatizando o respeito às diversidades e a adaptação do currículo às realidades dos alunos. No entanto, a implementação enfrenta desafios práticos: em escolas públicas, turmas superlotadas e escassez de recursos são barreiras comuns; em escolas particulares, a resistência docente e a falta de formação podem ser entraves.

A personalização do ensino também se apoia em evidências da neurociência educacional, que demonstram a singularidade de cada cérebro. Estudos indicam que cada indivíduo possui ritmos e capacidades cognitivas distintas, reforçando a necessidade de práticas ajustadas (Wong, 2016). Fatores como atenção, motivação e emoção impactam a aprendizagem, e estratégias que respeitam os interesses do aluno favorecem a consolidação do conhecimento. A plasticidade neural, capacidade do cérebro de se adaptar, fortalece a ideia de que a aprendizagem é mais eficiente quando o ensino é ajustado ao perfil do estudante. A integração de conhecimentos sobre neuroplasticidade com tecnologias educacionais permite criar ambientes dinâmicos que atendem a diferentes estilos e ritmos, promovendo eficiência acadêmica e bem-estar (Nery, 2025).

Práticas pedagógicas que incorporam diversificação de atividades, feedback imediato, autonomia e projetos interdisciplinares potencializam o engajamento. Um exemplo é a prática “Artesanato Paraense”, descrita por Albuquerque (2022), na qual o professor-mediador parte de uma sondagem sobre os conhecimentos prévios dos alunos. A atividade, que explora a cerâmica Marajoara, é desenvolvida de forma interdisciplinar (Artes, História, Geografia e Educação Socioemocional), respeitando a singularidade e o protagonismo de cada estudante. Essa abordagem demonstra como a integração entre fundamentos legais, práticas pedagógicas e evidências neurocientíficas fornece uma base sólida para a personalização do ensino.

A aplicação da personalização pode variar em complexidade. Em seu nível mais básico, manifesta-se na diversificação de atividades. Em modelos intermediários, o foco é o ritmo individual, com avaliações formativas contínuas. Nos modelos mais complexos, o estudante assume papel de protagonista, escolhendo conteúdos e projetos, com o professor como mediador. Uma escola pública em São Paulo, inspirada na Escola da Ponte, eliminou as paredes das salas de aula para permitir que os alunos avancem em seu próprio ritmo, com acompanhamento de tutores (Fundação Telefônica Vivo, 2016). Relatos de estudantes destacam o desenvolvimento da autonomia e maior engajamento.

Outro exemplo é uma escola de Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Belém, Pará, com uma proposta metodológica centrada no ensino personalizado (Albuquerque, 2022). A escola funciona em horário flexível, com matrículas abertas durante o ano e um sistema de módulos que permite ao aluno estudar em casa e retornar para encontros individualizados. A avaliação é contínua e a mediação considera a história de vida dos educandos. Essas práticas fortalecem a autoestima e a permanência dos alunos. Ambas as experiências demonstram que a personalização pode ser aplicada de forma viável, adaptando-se às realidades locais com foco na autonomia e avaliação formativa.

Em contraste, uma proposta recente para a EJA em São Paulo, que previa a ampliação do número de alunos por turma e a redução de encontros presenciais, foi suspensa judicialmente (Carta Capital, 2025; G1, 2025). A iniciativa foi criticada por precarizar as condições de aprendizagem e despersonalizar o ensino. A comparação entre o modelo de Belém, com seu acolhimento próximo, e o projeto suspenso em São Paulo evidencia que a flexibilização curricular prevista na BNCC deve ser aplicada com cuidado, valorizando o trabalho docente. Quando a flexibilização prioriza a redução de custos em detrimento da qualidade, a personalização corre o risco de aprofundar desigualdades e aumentar a evasão.

A implementação da personalização demanda ferramentas educacionais adequadas. Plataformas digitais como Educopédia, Khan Academy e Escola Digital oferecem recursos interativos para acompanhamento individualizado (Fundação Telefônica Vivo, 2016). Ferramentas de gamificação, como o Kahoot!, aumentam a motivação. Contudo, a inovação não se restringe à alta tecnologia. Estratégias de baixo custo, como rotação por estações, portfólios e mapas conceituais, também são eficazes. O sucesso dessas ferramentas depende de uma mudança na avaliação, que deve ser formativa, contínua e integrada à aprendizagem, permitindo ao professor monitorar o progresso e oferecer feedbacks direcionados.

A transição para um modelo personalizado impõe desafios à gestão e ao corpo docente. A gestão enfrenta a tarefa de construir uma visão compartilhada sobre inovação, superando resistências. É fundamental conciliar demandas administrativas e pedagógicas, garantindo o foco na aprendizagem. Isso exige planejamento coletivo, formação continuada e reestruturação dos espaços físicos (Fundação Telefônica Vivo, 2016). Para os professores, o maior desafio é a transição do papel de transmissor para o de facilitador, o que implica desenvolver novas competências. A gestão do tempo e o acompanhamento individualizado podem gerar sobrecarga, tornando o apoio institucional crucial. A implementação pode seguir modelos distintos, como o radical, o incremental ou o substancial (Bacich, 2018), e a escolha deve considerar a cultura escolar. O sucesso das práticas analisadas sugere que um forte entrosamento entre gestão e professores é determinante.

A personalização do ensino representa uma perspectiva inovadora que coloca o estudante no centro do processo educacional, promovendo o respeito às singularidades. A implementação dessa abordagem requer esforço coletivo, planejamento flexível e adaptação constante. A participação ativa de educadores, gestores e da comunidade escolar é fundamental para fomentar um ambiente propício à aprendizagem significativa. O uso estratégico de recursos tecnológicos e metodologias inovadoras potencializa os resultados e contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes. Apesar dos desafios, como a gestão do tempo e a resistência às mudanças, a personalização do ensino evidencia-se como um caminho promissor para a democratização da educação. A consolidação dessa prática exige compromisso contínuo com a formação docente, a revisão dos processos pedagógicos e o fortalecimento de uma cultura escolar orientada pelo protagonismo dos alunos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a personalização do ensino, quando implementada com intencionalidade pedagógica e suporte institucional, constitui uma estratégia viável e eficaz para promover a autonomia e a aprendizagem significativa no contexto educacional brasileiro.

Referências:
Albuquerque, Luciana Pereira. 2022. Práticas docentes na Educação de Jovens e Adultos do Ensino Personalizado: vivências do Centro de Educação de Jovens e Adultos Prof. Luiz Otávio Pereira – CEEJA/Belém. Belém: Universidade Federal do Pará.
Bacich, Lilian, José Moran. 2018. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Penso. Porto Alegre-RS.
Bardin, L. 1977. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.
Brasil. 1996. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
Brasil. 1997. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC.
Brasil. 2017. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC.
CartaCapital. 2025. Justiça barra projeto que prevê turmas superlotadas na EJA.
Dewey, J. 1959. Democracia e educação. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
Freire, P. 1996. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra.
Fundação Telefônica VIVO Brasil. 2016. Inova escola: práticas para quem quer inovar na educação. Fundação Telefônica Vivo. São Paulo-SP, 1ed.
G1 Globo. 2025. Justiça suspende projeto de EJA no ensino médio da gestão que prevê apenas um encontro presencial por mês. São Paulo.
Moran, José Manuel. 2015. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Papirus.
Nery, Raquel Garcia. 2025. A personalização do ensino com base nos conhecimentos científicos. Revista Educação Contemporânea – REC, v. 2, n. 1, p. 283-290.
Wong, P. C. M. et al. 2016. Aprendizagem personalizada: da neurogenética dos comportamentos às abordagens de aprendizagem educacional individualizada. Frontiers in Psychology.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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