Imagem Gestão de capital de giro em distribuidoras de combustíveis na B3 (2020-2023)

11 de fevereiro de 2026

Gestão de capital de giro em distribuidoras de combustíveis na B3 (2020-2023)

Valquíria Dalazen de Carvalho; Helenice Souza Gonçalves

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa os indicadores de capital de giro, ciclo financeiro e ciclo econômico de três empresas dos setores de petróleo, gás e biocombustíveis listadas na B3, entre 2020 e 2023. A pesquisa examina o comportamento e as estratégias dessas companhias frente às implicações da pandemia de Covid-19 e às oscilações de mercado, buscando compreender os impactos das instabilidades na gestão e identificar padrões de resiliência e vulnerabilidade financeira. O período foi escolhido pela intensidade das perturbações econômicas, que testaram a capacidade de adaptação das organizações, tornando-o um intervalo rico para a análise da gestão financeira estratégica.

A gestão do capital de giro, um conjunto de ativos circulantes, é fundamental para a lucratividade e continuidade operacional de uma empresa (Abuzayed, 2012). Ela envolve o planejamento e controle dos fluxos de recursos, bem como os investimentos e financiamentos para sustentar as atividades cotidianas, funções centrais para o gestor financeiro (Machado, 2002). Estratégias como o prolongamento dos prazos de pagamento a fornecedores, o encurtamento dos períodos de recebimento de clientes e a aceleração do giro de estoque contribuem para aumentar a margem de segurança no fluxo de caixa e otimizar a alocação de recursos.

O setor de petróleo e gás é estratégico para a economia brasileira, representando 17% do PIB industrial do país (IBP, 2025), e serve como fonte energética e matéria-prima para diversas áreas produtivas (Machado, Famá e Godoy, 2012). Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE, 2025) indicam uma demanda crescente por combustíveis, estimada em 160,4 bilhões de litros em 2025 e 164,1 bilhões em 2026. No entanto, o setor enfrenta desafios constantes, como reajustes de preços, volatilidade cambial, sanções internacionais e restrições econômicas, que impactam diretamente custos e margens.

Em um cenário de oscilações, métodos de gestão versáteis são essenciais para a eficiência operacional e a sustentabilidade financeira. A análise do comportamento financeiro de companhias do setor no período de 2020 a 2023 oferece subsídios para a tomada de decisões estratégicas, demonstrando como a análise de indicadores financeiros pode fortalecer a resiliência empresarial em ambientes de incerteza. A pesquisa concentra-se em três distribuidoras (Empresa A, Empresa B e Empresa C) para examinar como suas estruturas de capital de giro e ciclos operacionais responderam a eventos como a pandemia, variações cambiais e volatilidade de preços. Ao analisar a evolução de indicadores-chave, o trabalho busca identificar estratégias eficazes para mitigar riscos e aproveitar oportunidades, fornecendo um panorama da saúde financeira e da eficiência operacional dessas organizações.

A metodologia adotada foi uma pesquisa descritiva, documental e com tratamento quantitativo dos dados. A investigação baseou-se na análise das demonstrações financeiras das três empresas, publicadas na B3, utilizando como fontes livros, artigos e os próprios balanços patrimoniais e demonstrações de resultados. Os dados financeiros foram extraídos da base do Instituto Assaf e dos sites das companhias, cobrindo o período de 2020, marco do início do isolamento social no Brasil, até 2023, último ano com dados consolidados disponíveis.

A análise fundamenta-se nos conceitos de Assaf Neto (2014) para mensurar a duração dos ciclos empresariais. Os indicadores de atividade analisados incluem o Prazo Médio de Estocagem (PME), o Prazo Médio de Cobrança (PMC) e o Prazo Médio de Pagamento de Fornecedores (PMPF). A combinação desses prazos define o Ciclo Operacional (CO = PME + PMC) e o Ciclo Financeiro (CF = CO – PMPF), ou ciclo de caixa, que avalia a eficiência da gestão e a necessidade de capital de giro.

Adicionalmente, foram utilizados outros indicadores para aprofundar a análise. O Índice de Posicionamento de Atividade (IPA = (PMC + PME) / PMPF), proposto por Azzolin (2012), avalia se a empresa recebe suas vendas antes de pagar os fornecedores, com um resultado ideal igual ou inferior a 1 (Borges et al., 2011). Os índices de liquidez, segundo Braga (2009), medem a capacidade de cumprir obrigações de curto prazo, incluindo a Liquidez Corrente (LC), Seca (LS) e Imediata (LI). Para a análise do capital de giro, foram empregados o Capital Circulante Líquido (CCL = Ativo Circulante – Passivo Circulante), que representa a margem de segurança financeira (Ching, 2010); a Necessidade de Capital de Giro (NCG = Ativo Circulante Operacional – Passivo Circulante Operacional), que foca nas necessidades operacionais (Nascimento, 2014); e o Saldo de Tesouraria (ST = CCL – NCG), que indica a dependência de recursos de terceiros (Machado et al., 2005).

A análise quantitativa consistiu no cálculo desses indicadores para cada empresa ao longo dos quatro anos. Os resultados foram comparados e discutidos, correlacionando as variações com eventos macroeconômicos e estratégias específicas de cada companhia, conforme divulgado em seus relatórios. Essa abordagem permitiu interpretar as decisões gerenciais por trás dos números, oferecendo uma visão integrada da gestão do capital de giro no setor.

A análise dos resultados revela dinâmicas distintas entre as empresas (E1, E2 e E3). Entre 2020 e 2022, todas registraram crescimento expressivo nas receitas líquidas, impulsionado pela alta dos preços do petróleo e pela recuperação da demanda. A E2 destacou-se com um aumento de 84,38% em 2021. Em 2023, houve uma retração geral nas receitas. A análise do Prazo Médio de Cobrança (PMC) mostrou E1 como a mais eficiente, com média de 14,44 dias. A E2, com PMC médio de 33,37 dias, demonstrou a maior capacidade de reduzir seus prazos de recebimento entre 2020 e 2022. Conforme Mendonça (2023), um crescimento da receita maior que o das contas a receber melhora a eficiência de cobrança.

No Prazo Médio de Pagamento a Fornecedores (PMPF), a E2 destacou-se com a maior média (52,02 dias), usando o crédito de fornecedores como fonte de financiamento. Em contraste, a E1, com PMPF médio de 9,42 dias, demonstrou uma política de pagamentos ágil, pressionando seu capital de giro. Em 2023, todas as empresas estenderam seus prazos de pagamento, uma estratégia para preservar caixa diante da queda nas receitas. Na gestão do Prazo Médio de Estocagem (PME), entre 2020 e 2022, as empresas reduziram seu PME, indicando maior eficiência no giro de estoques, mesmo com o aumento dos custos das mercadorias vendidas (CMV). A relação inversa entre CMV e PME, alinhada a Silva et al. (2019), aponta para maior agilidade operacional.

A integração desses prazos revela as estratégias de cada companhia. A E1, com o menor Ciclo Operacional (28,86 dias), apresentou o maior Ciclo Financeiro (19,44 dias), indicando alta necessidade de capital próprio. Seu Índice de Posicionamento de Atividade (IPA) de 3,09 confirma essa pressão, pois a empresa paga fornecedores muito antes de receber dos clientes. Em contrapartida, a E2, com um Ciclo Operacional mais longo (54,30 dias), alcançou o menor Ciclo Financeiro (2,26 dias) e um IPA ideal de 1,04, demonstrando uma gestão eficiente onde o prazo de pagamento a fornecedores financia quase todo o ciclo operacional. A E3 apresentou uma estrutura equilibrada, com Ciclo Financeiro de 10,89 dias e IPA de 1,58. Esses achados corroboram Silva et al. (2019), que identificou que empresas brasileiras tendem a ter um PMPF inferior aos prazos de recebimento e estocagem.

Os indicadores de liquidez mostraram que todas as empresas mantiveram uma posição saudável, com a Liquidez Corrente (LC) acima de 1. A E1 apresentou a melhor média de LC (2,25), seguida por E2 (1,82) e E3 (1,75). O ano de 2021 foi positivo, com aumento geral da liquidez, em linha com Barros (2024). A E2 destacou-se na Liquidez Seca (LS) e Imediata (LI), refletindo forte geração de caixa e gestão de dívida eficaz, que reduziu a alavancagem de 3,2x para 2,1x (dívida líquida/EBITDA) em 2021, demonstrando robusta capacidade de pagamento.

A análise do Capital Circulante Líquido (CCL) e da Necessidade de Capital de Giro (NCG) aprofunda a dinâmica financeira. Todas mantiveram um CCL positivo, indicando margem de segurança. A E1 apresentou um CCL consistentemente crescente, mas também a maior NCG média (R$ 8,04 milhões), o que, combinado com seu longo Ciclo Financeiro, confirma a alta demanda por recursos. A E2, por sua vez, teve a menor NCG média (R$ 2,64 milhões), alinhada ao seu ciclo financeiro curto.

Um dos achados mais significativos foi o “efeito tesoura” na E3 em 2021. Nesse ano, apesar do crescimento da receita, a NCG (R$ 13,89 milhões) ultrapassou o CCL (R$ 12,38 milhões), resultando em Saldo de Tesouraria negativo. Isso evidencia um desequilíbrio onde o crescimento das vendas não foi acompanhado por uma estrutura financeira capaz de suportá-lo, exigindo financiamento adicional. O fenômeno destaca que o aumento da receita não garante, por si só, a saúde financeira. Nos anos seguintes, a E3 reverteu a situação, ajustando sua gestão. A capacidade da empresa de superar esse desafio, similar ao observado por Silva (2022), demonstra a resiliência de companhias bem estabelecidas.

A comparação mostra que não há uma única fórmula para o sucesso. A E2 exemplifica uma estratégia de financiamento operacional via fornecedores, resultando em baixa NCG. A E1 foca na eficiência operacional, mas enfrenta maior pressão sobre o capital de giro devido aos curtos prazos de pagamento. A E3 demonstrou a importância do alinhamento entre crescimento e estrutura de capital para evitar desequilíbrios. Os resultados oferecem um panorama de como as estratégias de gestão de capital de giro se manifestam nos indicadores e foram testadas por um ambiente adverso, revelando as fortalezas e fragilidades de cada abordagem.

A análise dos indicadores permitiu identificar padrões estratégicos distintos e suas consequências. O estudo demonstrou que empresas com ciclos financeiros mais longos, como a E1, tendem a apresentar maior NCG e pressão sobre o caixa, mesmo com alta liquidez corrente. Em contrapartida, a gestão estratégica dos prazos, como a praticada pela E2, mostrou-se uma ferramenta poderosa para minimizar a NCG. A ocorrência do efeito tesoura na E3 em 2021 serviu como um alerta de que o desempenho operacional deve ser acompanhado por uma estrutura de capital compatível, pois o aumento das vendas sem suporte financeiro pode levar a desequilíbrios de liquidez.

As implicações práticas deste estudo são diretas para os gestores. A pesquisa reforça que a análise isolada de indicadores pode ser enganosa; o cruzamento de dados sobre prazos, liquidez, NCG e CCL oferece uma visão holística. As conclusões sugerem que a otimização do ciclo financeiro, por meio da negociação de prazos, é fundamental para reduzir a dependência de capital. Além disso, o monitoramento constante da relação entre CCL e NCG é vital para antecipar desequilíbrios e garantir um crescimento sustentável. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se como os indicadores de capital de giro, ciclo operacional e financeiro refletiram as estratégias e os desafios de três grandes distribuidoras de combustíveis em um ambiente econômico volátil, fornecendo um panorama claro sobre a resiliência e a eficiência da gestão financeira no setor.

Referências:
Abuzayed, B. Working capital management and firms’ performance in emerging markets: the case of Jordan. International Journal of Managerial Finance, v. 8, n. 2, p. 155-179, 2012.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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