Como transformar paixão em resultados

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Negócios

16 de dezembro de 2025

Como transformar paixão em resultados

Falta de preparo técnico e decisões emocionais não sustentadas por planejamento afetam sobrevida de pequenas empresas

A cada ano, milhares de brasileiros decidem abrir o próprio negócio, movidos pela esperança de independência financeira ou pela necessidade de subsistência. Esses empreendedores, majoritariamente enquadrados como microempreendedores individuais (MEIs) ou proprietários de micro e pequenas empresas, são responsáveis por uma parcela significativa da geração de empregos no país. Segundo a Agência Brasil (2022), essas empresas foram responsáveis por 71,7% do total de empregos criados no ano.

Contudo, a realidade é dura: o Brasil também registra elevadas taxas de mortalidade de empresas. Segundo a Demografia das Empresas do IBGE (2022), entre os negócios criados em 2017, cerca de 37,9% continuavam ativos após decorridos cinco anos — o que significa que mais de 62% encerraram suas atividades nesse período. As razões são múltiplas, mas uma combinação parece especialmente crítica: falta de preparo técnico e decisões emocionais não sustentadas por planejamento.

O que leva um empreendimento a sobreviver aos seus primeiros anos? Essa é uma das perguntas importantes no campo da gestão. Estudos como Drnovsek, Cardon e Patel (2016) e Silva, Nassif e Paiva (2023) citam a paixão empreendedora como determinante na chance de sucesso das empresas. Porém, a paixão, isoladamente, não tem se mostrado suficiente para garantir a sobrevivência empresarial.

Mesmo nos casos em que há forte envolvimento emocional, a falta de preparo técnico pode conduzir o negócio a decisões impulsivas, desorganização e, em última instância, ao encerramento precoce das atividades.

A adoção de práticas gerenciais tem sido apontada na literatura como um dos fatores capazes de minimizar a taxa de mortalidade das organizações (Calderon, Iacovone e Juarez, 2016; Bertolami, et al. 2018). Isso significa que, mesmo com dedicação, a ausência de habilidades de gestão financeira, planejamento estratégico e conhecimento sobre tributos e processos tende a comprometer a continuidade do negócio. Muitos empreendedores não têm familiaridade com o controle do fluxo de caixa, o cálculo da margem de contribuição ou a estruturação do preço de venda — elementos básicos para a sustentabilidade.

Essa percepção reforça o que estudos de autores como Zouain et al. (2011), Alvarenga (2016) e Peršič, Markič e Peršič (2018) já indicavam: a competência em gestão é um ativo essencial à sustentabilidade de micro e pequenas empresas. Trata-se de um diferencial competitivo que pode definir o destino do negócio.

O amor ao negócio pode ser o que motiva o início da jornada empreendedora, mas é o domínio sobre a gestão que sustenta o negócio no tempo. Isso inclui o conhecimento sobre capital de giro, planejamento estratégico, finanças, tributos, atendimento ao cliente, controle de estoques e leitura do ambiente externo. Quando essas competências estão ausentes, mesmo boas ideias e dedicação podem não ser suficientes para manter o negócio vivo.

Paixão em excesso, gestão em falta

A reflexão aqui proposta é direta: empreender requer mais do que coragem e paixão. Só no segundo quadrimestre de 2025 foram abertas 1.668.753 empresas, enquanto 942.049 foram fechadas, conforme informações do Governo Federal. Isso quer dizer que o brasileiro está empreendendo seja objetivando ter uma renda melhor ou em resposta à falta de oportunidades formais de trabalho. De fato, dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2023) identificam a escassez de empregos como uma motivação relevante entre empreendedores em estágio inicial. Em situações de vulnerabilidade, empreender é um ato de necessidade, não apenas de vocação. E justamente por isso, precisa ser sustentado com conhecimento técnico e redes de apoio eficazes.

Normalmente esses empreendedores iniciam os negócios baseados em suas paixões, em habilidades que possuem, mas sem entender o risco que estão correndo. Alguns deixam de ser funcionários e investem os recursos que receberam de anos de trabalho em um novo empreendimento. Porém, ao verificar o número de empresas fechadas, mais de 56% em comparação às registradas em um mesmo período de análise, percebe-se que uma parte significativa desses empreendedores se frustram.

Mas há uma saída: a profissionalização da gestão precisa ser tratada como elemento estratégico. Mais do que investir em produtos ou marketing, os empreendedores precisam investir em si mesmos — no seu preparo técnico e na sua capacidade de tomar decisões informadas. Ter um bom produto ou um bom serviço é apenas parte da equação. Sem controle, análise e visão sistêmica, qualquer iniciativa corre o risco de se perder no caminho.

Dentro desse contexto, é fundamental reconhecer que, mesmo com acesso a conteúdo, muitos empreendedores precisam de orientação personalizada para aplicar conceitos à sua realidade específica. Sem generalizações, é comum que pequenos empreendedores acreditem ser capazes de conduzir todas as frentes do negócio sozinhos. Nessa busca, recorrem a conteúdos gratuitos para suprir o que julgam necessário à gestão da empresa. Essa prática, por si só, não está errada, já que existem muitas informações importantes disponíveis gratuitamente. O desafio é que, sem conhecimento técnico, é mais difícil definir o que é confiável e discernir quais conteúdos são de fato necessários para a sustentabilidade do negócio.

É importante destacar que o fortalecimento da gestão é uma estratégia não só para a sobrevivência, mas também para o crescimento. Empresas bem geridas impulsionam a economia, ampliam oportunidades de trabalho e elevam sua competitividade.

Elas são menos vulneráveis a crises externas e mais aptas a se reinventar. Se é por paixão ou necessidade que muitos começam a empreender, é pela gestão que continuarão. Amar o que se faz é importante, mas não basta. Empreender exige preparo. E preparo se constrói com conhecimento — sólido, aplicado e comprometido com a realidade de quem empreende no Brasil.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui.

Quem publicou esta coluna

Mirian Batista

É empresária na área de Gestão Integrativa Empresarial, com experiência em tributação e gestão estratégica. É doutora e mestre em controladoria e contabilidade, pós-graduada em direito tributário, pesquisadora e tributarista. Atua como professora de contabilidade tributária nos MBAs PUC Minas e é orientadora no curso de Gestão Tributária do MBA USP/Esalq.

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