
Profissionais
08 de janeiro de 2026
Percepções de profissionais de arquitetura a respeito de um cluster digital
Autoras: Dorely Marilú Calderón Sánchez e Adriana Villanova de Almeida
DOI: 10.22167/2675-6528-2025046
E&S 2026, 7: e2025046
No Brasil, o número de atividades registradas por arquitetos e urbanistas no último trimestre de 2020 cresceu 12% em relação ao mesmo período do ano anterior[1]. Contudo, a transição para o ambiente digital decorrente da pandemia de covid-19 impôs um desafio significativo às organizações[2] e aumentou as dificuldades enfrentadas por empresas e profissionais brasileiros para competir e ingressar no mercado de trabalho. Nesse contexto, ações que buscam criar alternativas adequadas às circunstâncias atuais e ampliar os horizontes da profissão tornam-se pertinentes.
Dessa forma, emerge a ideia de cluster digital, definido como espaços alternativos, não físicos, habilitados por redes e plataformas online para a realização de transações comerciais, troca de informação e geração de conhecimento[3]. Esses arranjos promovem novos elementos de cooperação que impulsionam processos econômicos regionais e nacionais[4], bem como contribuem para a formação de novas competências profissionais. Assim, um cluster digital de arquitetura pode representar uma nova forma de organização espacial ao oferecer uma alternativa para estruturar a cadeia de valor dos serviços[5] e manter vínculos formais, como redes, alianças e parcerias[5].
Em 1997, o arquiteto Paul Petrunia fundou Archinect com o objetivo de conectar profissionais, estudantes e entusiastas da arquitetura. Atualmente, trata-se de um dos principais destinos online dos Estados Unidos. Em 2020, foi lançada Rebel Architette, plataforma italiana, aberta e colaborativa, cujo objetivo é enfatizar os talentos e habilidades de arquitetas de todo o mundo. Embora apresentem finalidades diferentes, ambos os exemplos possuem um elemento em comum: a criação e manutenção de vínculos formais e parcerias, o que configura como referências próximas de clusters digitais de arquitetura.
O cenário profissional é caracterizado por intensa competição[6], enquanto o futuro do trabalho aponta uma nova realidade para as cidades, assim como para arquitetos e urbanistas[7]. Com avanços tecnológicos em curso — como digitalização, inteligência artificial e automação — a força de trabalho deverá evoluir de forma ainda mais drástica nos próximos anos[8].
Diante do exposto, a pesquisa objetiva identificar a opinião de estudantes, profissionais e empresas independentes de arquitetura e propor um espaço de encontro digital voltado a esse público. A meta central consiste na criação e conservação de vínculos formais entre empresas e profissionais de arquitetura envolvidos na execução de trabalhos 100% online com máxima eficiência, agilidade e custo competitivo.
O estudo caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa exploratória do tipo survey, descrita como a obtenção de dados ou informações sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo de pessoas, indicado como representante de uma população-alvo, por meio de um instrumento de pesquisa, normalmente um questionário[9].
O público-alvo da pesquisa é composto por estudantes de arquitetura, arquitetos autônomos e arquitetos representantes de escritórios de arquitetura do Brasil. Alguns cenários serão analisados para estabelecer relações e identificar pontos comuns capazes de definir aspectos importantes para a formação de um cluster digital de arquitetura.
A análise descritiva foi empregada na discussão dos achados por se revelar pertinente à caracterização do perfil dos participantes, à análise do comportamento profissional e aos pontos de vista observados no conjunto de dados. Este tipo de análise facilita a compreensão dos resultados e oferece uma visão clara da composição amostral. Assim, a abordagem descritiva fornece a base necessária para compreender o contexto a ser considerado no cenário de aplicação prática e orientar interpretações e análises posteriores.
A população amostral foi composta por 7 estudantes de arquitetura, 44 arquitetos e 19 representantes de escritórios de arquitetura, o que totaliza 70 participantes, que serão identificados a partir deste ponto pelas siglas E (estudante), A (arquiteto) e R (representante), respectivamente. O grupo E é formado por estudantes de arquitetura, urbanismo e design; o grupo A é composto por arquitetos com prática independente; e o grupo R reúne representantes experientes de diversas empresas de arquitetura.
Para os três grupos definidos anteriormente (E, A e R), foi aplicado um questionário online no período de 9 de julho de 2021 a 23 de julho de 2021, composto por 25 questões, organizadas da seguinte maneira: caracterização da amostra (gênero, idade e estado), questões de 1 a 3; classificação do grupo (E, A e R), questão 4; desempenho profissional (tipo de trabalho, atividade laboral e tempo de atuação na área), questões de 5 a 7.
Após essa etapa, foram elaboradas 18 questões diretamente relacionadas ao tema, das quais 11 (de 8 a 18) tratam do uso das plataformas digitais e 7 (de 19 a 25) abordam o conhecimento dos pesquisados a respeito do cluster digital.
As questões referentes a “Plataformas digitais e seu uso na atualidade” (questões 14 a 18) e as relativas a “Cluster digital de arquitetura e a sua importância” (questões 22 e 23) utilizaram uma escala de tipo Likert[10], graduada em 5 pontos, de (1) “Discordo totalmente”, equivalente a 0%, a (5) “Concordo totalmente”, equivalente a 100%.
Com base no conjunto de itens que compõem uma escala tipo Likert, é importante que parte deles seja invertida, de tal maneira que, em determinadas questões, “concordo totalmente” (bom, 100%, sim) ou “discordo totalmente” (ruim, 0%, não), represente atitude favorável ou desfavorável, conforme indicado por “Sim” ou “Não”. Assim, as questões referentes a “Plataformas digitais e seu uso na atualidade” (questões 8, 9, 11, 12) e as relativas a “Cluster digital de arquitetura e a sua importância” (questões 19, 20 e 24) utilizaram a concordância “Sim” e a discordância “Não”.
O questionário foi desenvolvido por meio da ferramenta Google Forms, que converte as respostas em planilhas no Google Docs, compatíveis com a ferramenta de planilhas Microsoft Excel. Essas planilhas foram empregadas nas análises das respostas, na geração de gráficos e na identificação de padrões capazes de atender ao objetivo do presente estudo.
Para a realização do estudo, efetuou-se um convite online contendo as 25 questões da pesquisa e a descrição do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo a participação voluntária e anônima, a profissionais dos 27 estados brasileiros (etapa fundamental para assegurar a qualidade e a confiabilidade dos resultados). A divulgação ocorreu por meio de mídias sociais como Instagram, Facebook e WhatsApp e os participantes foram selecionados por meio de amostragem intencional, considerando sua relação com os tópicos de pesquisa.
Assim, o processo de seleção da amostra, incluindo os critérios de inclusão e exclusão, bem como a taxa de resposta, está ilustrado no fluxograma a seguir (Gráfico 1).

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Para aprimorar a análise dos resultados, adotou-se uma abordagem de interpretação quantitativa para questões que utilizaram escala tipo Likert de cinco pontos, a fim de mensurar o grau de concordância ou discordância dos participantes respeito às questões avaliadas, a qual se relaciona à frequência das escolhas realizadas.
À vista disso, valores inferiores a três foram considerados discordantes e valores superiores a três foram classificados como concordantes, em uma escala de cinco pontos. O valor exatamente igual a três foi interpretado como “indiferente” ou “sem opinião”, correspondente ao ponto neutro e aplicável aos casos em que os pesquisados deixaram a resposta em branco.
No processo de tabulação e análise após a coleta dos dados, eles foram organizados e transcritos em planilhas eletrônicas do Microsoft Excel. A partir desse ponto, utilizaram-se as ferramentas de análise do software, o que possibilitou a elaboração de tabelas de dados relativos, gráficos e histogramas dos indicadores da pesquisa.
Após essa análise, identificou-se o grau de concordância e discordância, bem como o nível de conhecimento e desconhecimento que os entrevistados apresentaram sobre plataformas digitais e cluster digital de arquitetura, o que permitiu determinar pontos relevantes para o cumprimento do objetivo do estudo.
Inicialmente, com a finalidade de caracterizar a amostra, foram formuladas perguntas destinadas a identificar a localidade dos participantes, sua idade, gênero e perfil profissional. Quanto à localidade, a amostra abrangeu os 27 estados brasileiros (Figura 1), com destaque para Rio Grande do Sul, que representou 15% dos pesquisados, São Paulo com 11%, Rio Grande do Norte com 9%, Rio de Janeiro com 7%, entre outros. Esse resultado proporcionou diversidade de respostas associadas a distintas realidades do exercício profissional do arquiteto, o que ampliou o acesso a diferentes contextos relevantes para o cumprimento do objetivo, mas, pode evidenciar desafios relacionados a barreiras sociais e culturais.
Tais fatores influenciam diretamente na adoção de novas tecnologias e sua aplicabilidade no exercício da profissão. Assim, o desenho de governança e gerenciamento de um cluster digital deve ser compatível com determinados critérios sociais e culturais decorrentes da extensão geográfica.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A questão referente ao gênero, representada na Figura 2, revelou que 59% dos pesquisados são mulheres, 38% homens e 3% optaram por não especificar o gênero. Esses resultados mostram proporção semelhante ao levantamento realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU) em 2021, no qual 58% dos profissionais registrados são mulheres, 30% são homens e 11% preferiram não informar[11]. Assim, a considerável participação feminina pode contribuir a corrigir as desigualdades de gênero e para o fortalecimento e ampliação da diversidade do campo profissional através do cluster digital.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A população amostral apresenta predominância de participantes na faixa de 26 a 35 anos, que correspondem a 57% dos respondentes (Figura 3). No levantamento realizado pelo CAU em 2021, a faixa entre 31 e 40 anos representa 35% dos profissionais registrados, enquanto a faixa entre 18 e 30 anos representa 33%[11]. Tais valores indicam proporção compatível e evidenciam um campo fértil para a realização de trabalhos online, considerando que o nível de familiaridade, adesão e fluidez no uso ferramentas digitais ainda tende a variar entre diferentes faixas etárias, sendo os arquitetos mais jovens os que apresentam maior propensão a integrar ferramentas digitais nas suas rotinas.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A Figura 4 apresenta a classificação dos participantes em grupos, distribuídos da seguinte forma: 63% declararam pertencer ao grupo A (arquitetos), 27% ao grupo R (representantes de escritórios de arquitetura) e 10% ao grupo E (estudantes). Assim, observa-se que arquitetos e representantes de escritórios de arquitetura constituem o público predominante.
A predominância de tais profissionais revela uma estratégia para a consolidação de dinâmicas de cooperação, aprendizagem e fortalecimento profissional no ambiente online. Além disso, um cluster digital denso de arquitetos e representantes de escritórios pode gerar efeitos em rede, ampliando o valor de interação de cada participante e a qualidade dos serviços.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Quanto ao tipo de trabalho dos participantes (Figura 5), os resultados refletem o contexto atual do exercício da profissão. Os trabalhos nas modalidades home office e freelance representam 58% dos casos, porcentagem significativamente superior à do trabalho tradicional (presencial em turno integral), que corresponde a 25%. Trata-se de uma realidade pouco provável há alguns anos, mas consideravelmente prometedora para o futuro próximo.
Em 2020, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que a previsão de migração do trabalho presencial para o home office no Brasil corresponde a 22,7% das ocupações, o que representa mais de 20 milhões de pessoas[12]. Nesse contexto, reforça-se a necessidade de repensar a organização do exercício profissional para adequá-la às demandas atuais. Esta dinâmica favorece consideravelmente à aplicabilidade do objetivo e reforça a necessidade de plataformas digitais para cobrir novas formas de trabalho.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Quanto ao tipo de atividade laboral, 40% dos respondentes indicaram atuar com design arquitetônico (DA), porcentagem expressiva quando comparada às demais atividades: 20% trabalham com design de interiores (DI), 17% desenvolvem outras atividades, 12% trabalham na área de construção, 4% realizam visualização 3D (V-3D), 4% atuam com desenho técnico (DT), 3% com paisagismo/landscape (P/L) e nenhum trabalha como docente (Figura 6). Assim, o DA configura-se como um dos serviços centrais para a estruturação do cluster digital.
Além disso, a presença do DA como figura predominante pode ter impacto na organização e governança de um cluster digital. A experiência de estruturar espaços e fluxos pode gerar práticas de curadoria, categorização de conteúdos, hierarquias, mapeamento de demandas e criação de padrões coletivos. Isso favorece a dinâmica de mercado, configurando um ambiente de produção, circulação e monetização do trabalho arquitetônico.
Por outro lado, atividades como o DI, V-3D, DT, P/L e incluso as “pessoas que desenvolvem outras atividades”, representado o 48% das respostas, podem ser facilmente consideradas num espaço digital, devido a que a maioria faz uso e precisa de ferramentas digitais para a sua execução. Tal achado, complementado ao 40% do DA, que também pode ser transportado a um ambiente 100% online, reflete que 88% das atividades no campo da arquitetura podem ser consideradas digitais.
Embora os grupos de trabalho apresentem composições e dinâmicas distintas, a conexão online possibilita que todos participem e se integrem num mesmo espaço digital, favorecendo interação, colaboração e circulação de serviços.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Quanto ao tempo de atuação na área (arquitetura e urbanismo), 57% indicaram ter menos de 2 anos de experiência, 29% têm entre 3 e 5 anos, 7% entre 6 e 10 anos e 7% mais de 11 anos, respectivamente (Figura 7). Esse resultado evidencia uma elevada presença de profissionais jovens, o que confirma a crescente inserção de novos arquitetos no mercado de trabalho e representa uma relação diretamente proporcional com a faixa etária predominante entre os respondentes, de 26 a 35 anos (Figura 3).
Tal achado não é inesperado, uma vez que a divulgação da pesquisa ocorreu por meio de mídias sociais como Instagram, Facebook e WhatsApp. Esse aspecto reforça a tendência que aponta que tecnologias de informação e comunicação, especialmente redes sociais, são amplamente adotadas por indivíduos de diferentes gerações[13]. Os jovens, em particular, integram essas plataformas ao cotidiano[14], o que demonstra a necessidade de desenvolvimento contínuo, atualização constante das competências profissionais e capacidade de adaptação rápida a condições em permanente transformação[15].
Apesar dessa relevância, a inserção de profissionais jovens em clusters digitais envolve desafios significativos. A principal tensão reside na assimetria de experiência. Embora a presença de profissionais jovens seja essencial para a vitalidade e a inovação, é fundamental compreender a dinâmica socioprofissional emergente no contexto da digitalização do trabalho.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
A dimensão denominada “Plataformas digitais e seu uso na atualidade” (questões 8 a 18) foi dividida em duas tabelas (Tabelas 1 e 2) para simplificar a análise dos dados. Nas questões 8, 9, 11 e 12 (Tabela 1), a amostra apontou que 80% dos pesquisados realizaram algum projeto a distância ou de modo virtual, 30% conhecem alguma plataforma digital de arquitetura, 23% conduziram um projeto a distância com o uso de uma plataforma digital de arquitetura e 37% conhecem alguma empresa ou escritório de arquitetura que executou projeto a distância com esse tipo de recurso. Esses resultados demonstram que a realização de trabalhos de arquitetura a distância ou virtualmente é muito significativa, fato que reforça um dos pontos centrais para a criação do cluster digital.
Por outro lado, verifica-se que o conhecimento sobre plataformas digitais de arquitetura e sua aplicação profissional ainda é limitado. Nesse contexto, um cluster digital de arquitetura configura uma nova forma de organização do trabalho em mercados distantes ou virtuais, o que proporciona uma alternativa para a estruturação dos serviços de arquitetura; mas, trata-se de uma ferramenta que necessita de aprimoramento, sistematização e ampla disseminação.
Num futuro cenário de aplicação prática, a clareza regulatória torna-se fundamental. O constante aprimoramento, sistematização e disseminação precisa estabelecer parâmetros transparentes de uso, responsabilidade e proteção de direitos. Em espaços de constante mudança, diretrizes claras reduzem incertezas e garantem previsibilidade para profissionais e usuários, fortalecendo a confiança no cluster.
Tabela 1. Resultado do questionário referente a “Plataformas digitais e seu uso na atualidade”

Nota: (1) Sim; (2) Não.
Quanto ao conhecimento e ao uso de plataformas digitais de arquitetura (Figura 8), verifica-se que a maioria dos participantes mencionou plataformas que operam como ambientes digitais de gestão do tempo, modelagem e gerenciamento de construção baseados na nuvem, como Vobi e Autodesk BIM 360, além de uma plataforma voltada à oferta de serviços de decoração online, como Archie.
Além disso, nota-se que um software como Revit é empregado para modelagem e gerenciamento de projetos, uma plataforma eletrônica como ArchDaily possibilita o acesso a notícias de arquitetura e à visualização de projetos, enquanto a Plataforma 360 contribui para a gestão de negócios e para a apresentação de projetos de arquitetura por meio de briefings.
Por fim, Refresher surge como a plataforma mencionada mais próxima de um cluster, pois seus objetivos incluem a captação e a compreensão de novos clientes e o gerenciamento eficiente de projetos; contudo, a formação de vínculos formais, como parcerias, não se mostra evidente.
Os resultados indicam uma base consistente quanto ao conhecimento e ao uso de plataformas digitais; porém, seu emprego para a criação e manutenção de vínculos formais entre empresas e profissionais da arquitetura permanece limitado, visto que a maior porcentagem de respostas concentrou-se em plataformas de gestão, consultoria e modelagem. Esse resultado não se mostra inesperado, pois clusters digitais de arquitetura e urbanismo ainda são pouco frequentes.
No entanto, quando comparado ao cenário anterior à pandemia, este achado indica que espaços e plataformas digitais estão sendo utilizadas de forma contínua, evidenciando uma tendencia consistente de expansão e consolidação do trabalho online na arquitetura.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Ao serem questionados sobre o conhecimento de escritórios de arquitetura que realizam projetos a distância e sobre as plataformas utilizadas, os participantes citaram ArqExpress com 30% das respostas, Autodesk BIM 360 com 26%, Doma Arquitetura com 23% e Vera Zaffari com 21% (Figura 9). Cumpre salientar que, em sua maioria, as plataformas mencionadas se enquadram em consultoria e gerenciamento de projetos de arquitetura, e não em ambientes destinados à constituição de redes estruturadas entre empresas e profissionais da arquitetura.
Esse aspecto reforça a premissa apresentada na Figura 8, na qual se constatou o conhecimento restrito e o uso limitado de espaços digitais voltados à criação e à manutenção de vínculos formais entre profissionais e escritórios de arquitetura.
Considerando um cenário de profissionais jovens, na sua maioria com trabalho home office em turno integral e com considerável representatividade feminina (Figura 3, 5 e 2, respectivamente), o fortalecimento do cluster pode trazer competências estruturais cujo protagonismo feminino seja substancial.
Determinadas plataformas mencionadas pelos participantes, como ArqExpress, Doma Arquitetura e Vera Zaffari, ao serem analisadas, derivam numa constante: a presença feminina. Renata Pocztaruk, Patricia Pomerantzeff e Vera Zaffari, respectivamente, estão ao comando do 74% das plataformas mencionadas pelos participantes.
A presença feminina pode contribuir a reduzir assimetrias históricas de gênero na profissão, promovendo um espaço digital mais inclusivo e sensível. Além disso, sua atuação qualifica o processo de inovação ao incorporar um meio que enriquece a dinâmica do cluster.

Fonte: Resultados originais da pesquisa.
Para as questões 14, 15, 16, 17 e 18 (Tabela 2), solicitou-se que os pesquisados apontassem o grau de concordância ou discordância em relação às plataformas digitais de arquitetura existentes na atualidade. Assim, 90% concordaram que é importante analisar a rotina de empresas e profissionais de arquitetura a fim de repensar a própria organização no exercício da profissão. Em seguida, 75% afirmaram que as plataformas digitais de arquitetura disponíveis foram criadas para facilitar a busca por empresas ou profissionais em diferentes atividades, embora ainda permaneçam dispersas, aleatórias e sem a formação necessária de vínculos formais.
Na questão seguinte, 63% concordaram que as plataformas digitais de arquitetura realizam apenas intermediação. Consequentemente, 95% concordaram que, no mercado contemporâneo, parâmetros como produtividade, competitividade e inovação de empresas e profissionais de arquitetura precisam de aperfeiçoamento contínuo. Por fim, 94% concordaram que criar e manter vínculos formais, como redes, alianças e parcerias entre empresas e profissionais de arquitetura, constitui aspecto importante para o exercício da profissão.
À luz do conjunto das respostas referentes à Tabela 2, observa-se concordância evidente quanto à necessidade de repensar a organização do exercício profissional e quanto às limitações presentes nas plataformas digitais de arquitetura atualmente disponíveis, como a atuação restrita à mera intermediação – aspecto que deve ser analisado e aprimorado no cluster digital.
Além disso, reafirma-se a importância da criação e da manutenção de vínculos formais entre profissionais da área. As respetivas implicações e desafios de implementação devem ser consideradas. O cenário profissional resguarda uma intensa competição[6] e diversificação; assim, a adoção de cuidados rigorosos no exercício profissional torna-se fundamental para assegurar práticas de qualidade e favorecer resultados consistentes ao longo do tempo.
Tabela 2. Resultados do questionário sobre plataformas digitais e seu uso na atualidade

Nota. (1) Discordo totalmente; (2) Discordo parcialmente; (3) Nem discordo e nem concordo; (4) Concordo; e (5) Concordo totalmente.
A dimensão denominada “Cluster digital de arquitetura e a sua importância” contemplou as questões 19 a 25. Nas questões 19 e 20 (Tabela 3), os resultados mostraram que 71% dos participantes não sabiam o que é um cluster digital de arquitetura e 94% não conheciam nenhuma iniciativa desse tipo. Embora 6% tenham indicado conhecer, nenhum nome foi citado (questão 21).
Esse cenário confirma o conhecimento limitado sobre a existência e o uso desse tipo de plataforma e reforça o objetivo de propor um espaço de encontro digital, dado o interesse e a importância demonstrados (Tabela 2). Além disso, ratifica-se o impacto direto na eficiência, nas capacidades organizacionais e no crescimento da receita no desempenho das empresas[16].
Tabela 3. Resultado do questionário referente a “Cluster digital de arquitetura e a sua importância”

Nota. (1) Sim; (2) Não.
Nessa mesma dimensão, nas questões 22 e 23 (Tabela 4), solicitou-se aos pesquisados que indicassem o grau de concordância ou discordância sobre a importância de clusters digitais de arquitetura. Os resultados mostraram que 75% concordam que um cluster digital de arquitetura representa uma nova forma de trabalho produtivo, competitivo e inovador na área. Em seguida, 91% concordaram que aumentar a produtividade das empresas, impulsionar a direção e o ritmo da inovação, assim como estimular a formação de novos negócios, devem ser parâmetros básicos de um espaço de encontro digital de arquitetura.
Assim, constata-se que um cluster digital de arquitetura representa uma forma de trabalho relevante no exercício atual da profissão, o que configura como ferramenta voltada à produtividade e à inovação, pois as questões relacionadas à transformação digital assumem relevância crescente para estruturas integradas representadas por clusters[17].
Tabela 4. Resultado do questionário referente a “Cluster digital de arquitetura e a sua importância”

Nota: (1) Discordo totalmente; (2) Discordo parcialmente; (3) Nem discordo e nem concordo; (4) Concordo; e (5) Concordo totalmente.
No resultado da questão 24 (Tabela 5), verifica-se que 83% dos pesquisados afirmaram que fariam parte de um cluster digital de arquitetura caso ele fosse lançado no mercado. Quanto ao motivo (questão 25), os respondentes descreveram que essa iniciativa representaria uma nova forma de recolocação no mercado, com o benefício do compartilhamento entre pares da profissão.
Também apontaram que o cluster constituiria uma alternativa adicional para obter visibilidade, trabalho, projetos e para facilitar a troca de experiências e informações, o que elimina a sensação de isolamento e amplia a conexão com a rede de interesse. Dessa forma, quando um profissional inova e aprimora suas práticas, os demais também podem avançar, o que favorece o crescimento da profissão e contribui para sua valorização contínua.
Tabela 5. Resultado do questionário referente a “Cluster digital de arquitetura e a sua importância”

Nota. (1) Sim; (2) Não.
A partir dos resultados obtidos com a participação de 70 pesquisados dos 27 estados brasileiros, constatou-se que a era digital e a pandemia de covid-19 transformaram o mercado de trabalho de arquitetos e urbanistas ao possibilitar novas formas de interação e consumo. Esses elementos indicam que clusters digitais de arquitetura constituem uma alternativa para organizar a cadeia de valor dos serviços de arquitetura e urbanismo no Brasil, além de se configurarem como ferramenta relevante para o exercício atual e futuro da profissão.
Contudo, é importante ressaltar que os resultados obtidos refletem exclusivamente as percepções da amostra investigada, não sendo passiveis de generalização para o conjunto dos profissionais do país. Dessa forma, a considerável presença feminina e a aparente maior adesão de participantes mais jovens às ferramentas digitais devem ser compreendidas como uma tendencia observada entre os respondentes deste estudo, e não como uma característica estrutural ou necessariamente representativa do campo profissional como um todo.
Assim, na possível aplicação prática, um cluster digital de arquitetura estrutura a relação entre profissionais e clientes por meio de regras de plataforma, sistemas de reputação e algoritmos de visibilidade. Este tipo de espaço digital adota modelos de receita baseados em comissões ou assinaturas, influenciando na precificação dos serviços e na remuneração dos arquitetos. Um Airbnb para o trabalho dos arquitetos.
No plano contratual e trabalhista, a dinâmica 100% online traz desafios relacionados à definição de responsabilidades, direitos autorias sobre projetos digitais e possíveis assimetrias entre o espaço digital e profissionais, exigindo maior clareza regulatória, negociação das condições de trabalho e transparência nos termos de uso e nos sistemas de mediação algorítmica.
O trabalho online em arquitetura traz e exige novas competências, mas, a ausência de regras claras pode trazer riscos de prática profissional e o não aprimoramento constante pode trazer consequências econômicas e de uso.
Portanto, concluiu-se que um cluster digital de arquitetura pode representar tanto uma oportunidade de ampliar alcance profissional e diversificar fontes de renda quanto um ambiente marcado por maior competição, dependência algorítmica e incertezas contratuais, demandando estratégias de adaptação às novas dinâmicas de visibilidade, remuneração e responsabilidade técnica no trabalho online.
Nesse cenário, para pesquisas futuras, recomenda-se analisar os resultados e ampliar a investigação para além do contexto brasileiro, pois, por se tratar de uma plataforma digital, não há delimitações quanto à conexão entre profissionais. Também se recomenda a realização de um projeto piloto com a finalidade de aplicar e confirmar as premissas apuradas neste estudo.
Referências
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COMO CITAR
Sánchez, D.M.C.; Almeida, A.V. Percepções de profissionais de arquitetura a respeito de um cluster digital. Revista E&S. 2026; 7: e2025046.
SOBRE AS AUTORAS
Dorely Marilú Calderón Sánchez – Especialista em Gestão de Negócios. Fundadora da Vita Activa. Rua Seival, 216, Vila Jardim, 91320-310, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
Adriana Villanova de Almeida – Mestre em Administração. Professora orientadora. Rua Cezira Giovanoni Moretti, 580, Santa Rosa, 13414-157, Piracicaba, São Paulo, Brasil.
Quem editou este artigo
Luiz Eduardo Giovanelli











