Imagem O papel da coordenação de área na implementação dos multiletramentos no Ensino Médio

11 de fevereiro de 2026

O papel da coordenação de área na implementação dos multiletramentos no Ensino Médio

Vanessa Bottasso Valentini; Luciana Cristina de Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo propõe um protótipo para apoiar a atuação de coordenadores de área na implementação das práticas de multiletramentos no Ensino Médio, com foco na Língua Portuguesa. A pesquisa articula a teoria sobre letramento digital e midiático com as demandas da gestão pedagógica, oferecendo uma ferramenta para orientar professores na construção de experiências de leitura e produção multimodais. A necessidade de tal ferramenta emerge de um cenário educacional que enfrenta desafios na formação de leitores competentes e a urgência de alinhar diretrizes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) à cultura digital. A proposta visa instrumentalizar o coordenador de área como um catalisador de inovação pedagógica, capaz de mediar o diálogo entre políticas educacionais, formação docente e a prática em sala de aula, promovendo um ensino de linguagens mais crítico e alinhado às competências do século XXI.

Nesse contexto, os professores enfrentam dificuldades para engajar alunos e desenvolver estratégias didáticas eficazes para a formação de leitores críticos. Conforme apontam Lopez e Tapia (2016), uma dificuldade recorrente entre estudantes é a incapacidade de diferenciar informações centrais de secundárias em um texto, habilidade fundamental para a compreensão profunda. Essa lacuna se relaciona à capacidade de manter a atenção e se apropriar criticamente do conteúdo. Tradicionalmente, a responsabilidade pela formação leitora é atribuída à área de Linguagens e suas Tecnologias, cujos componentes, como Língua Portuguesa, são o lócus principal para o trabalho com textos multissemióticos.

O professor que atua nessas frentes enfrenta o desafio de fomentar a leitura em um ambiente saturado de estímulos digitais, muitas vezes recorrendo a práticas consolidadas pela tradição, sem tempo ou suporte para uma reflexão crítica. É neste ponto que a figura do coordenador de área surge como solução estratégica para promover a integração curricular. Este profissional atua como líder pedagógico, apoiando a equipe docente no alinhamento com documentos norteadores, como a BNCC, e garantindo a consistência das práticas de ensino (Fusari, 1998). A ausência ou sobrecarga deste profissional, contudo, pode perpetuar o isolamento docente e a falta de embasamento das práticas.

Este trabalho reconhece o desafio imposto à gestão escolar e oferece um subsídio concreto. A investigação parte da experiência profissional da autora como coordenadora de área em uma instituição particular entre 2020 e 2023, e de uma pesquisa de mestrado que analisou o discurso sobre mídia em políticas curriculares brasileiras (Valentini, 2023). A combinação da vivência prática com a pesquisa acadêmica identificou a necessidade de uma ferramenta que traduza os conceitos da pedagogia dos multiletramentos em um formato aplicável, capaz de orientar a ação gestora e docente de forma coesa e fundamentada, formando estudantes aptos a navegar criticamente no universo das múltiplas linguagens.

A metodologia combina pesquisa bibliográfica com a sistematização da experiência profissional, caracterizando-se como uma investigação aplicada. A base empírica origina-se da atuação da autora como coordenadora de Língua Portuguesa em uma escola particular de Campinas (SP), de 2020 a 2023. A experiência proporcionou uma imersão nos desafios de alinhar uma equipe docente diversa e na necessidade de criar ferramentas pedagógicas teoricamente robustas e flexíveis, refletindo os saberes da prática descritos por Tardiff (2000).

A partir das inquietações do contexto prático, especialmente sobre o alinhamento das práticas pedagógicas à BNCC e aos princípios dos multiletramentos, foi conduzida uma pesquisa bibliográfica. O referencial teórico foi construído a partir de autores centrais no campo. A pedagogia dos multiletramentos foi explorada com base nos trabalhos do The New London Group (NLG, 1996) e nas elaborações de Kalantzis, Cope e Pinheiro (2020), que destacam a necessidade de ampliar as práticas de letramento para além do texto escrito, incorporando a diversidade de modos e meios de produção de significado. O conceito de “design” é central, referindo-se aos recursos semióticos mobilizados na construção de significados.

O pilar da fundamentação teórica reside nas contribuições de David Buckingham (2003; 2019). O autor foi escolhido pela clareza com que aborda a educação midiática, criticando a tendência de escolas adotarem tecnologias de forma superficial, sem promover engajamento crítico. Buckingham (2019) defende uma educação midiática que forme usuários críticos e protagonistas. Para tanto, propõe um quadro conceitual organizado em quatro eixos: produção, audiência, linguagem midiática e representação. Este quadro, analisado na pesquisa de mestrado da autora (Valentini, 2023), foi identificado como a base ideal para a construção de uma ferramenta prática.

O processo metodológico culminou na adaptação desse quadro teórico em um protótipo aplicável. O instrumento foi desenhado em formato de esquema, com três colunas que articulam os “entendimentos conceituais” de Buckingham, “questões para a prática” e “metodologias” sugeridas. A adaptação envolveu a tradução dos conceitos acadêmicos para uma linguagem e formato que dialogassem com as necessidades de planejamento do coordenador e do professor. A elaboração do protótipo, portanto, representa o principal resultado desta pesquisa, consolidando a ponte entre a experiência profissional, a revisão de literatura e o objetivo de criar uma solução prática para a gestão pedagógica.

A implementação da pedagogia dos multiletramentos, conforme a BNCC do Ensino Médio (BNCCEM, 2018), é um compromisso de todas as áreas, mas central na de Linguagens e Suas Tecnologias. O documento apresenta mais de 180 menções a termos ligados aos multiletramentos nesta área, evidenciando a expectativa de que componentes como Língua Portuguesa se dediquem aos letramentos digitais (Valentini, 2023). Este enfoque reconhece que ler transcende a decodificação, envolvendo uma dimensão interacional onde leitor e autor constroem sentidos (Kleiman, 2016). A revolução digital ressignificou as práticas de linguagem, transformando o perfil do estudante. Diante disso, Kalantzis, Cope e Pinheiro (2020) argumentam que as práticas de letramento devem abarcar a multiplicidade de meios e formas de produção de significado. O letramento torna-se multimodal, exigindo do estudante não apenas a compreensão, mas a capacidade de produzir e criar com múltiplos recursos (Buckingham, 2003).

Nesse contexto, o quadro teórico de David Buckingham (2003; 2019) oferece uma base sólida para estruturar práticas pedagógicas críticas. Ele defende uma educação midiática baseada em quatro conceitos-chave interligados. O primeiro, Produção, refere-se à compreensão de como a mídia funciona como indústria. O segundo, Audiência, foca em como o público interage com os meios e como os produtos midiáticos se integram ao cotidiano. O terceiro, Linguagem Midiática, trata da análise de como recursos semióticos são combinados para criar significados e definir gêneros. Por fim, Representação, aborda a análise crítica de como grupos sociais e valores são retratados nas produções midiáticas, questionando estereótipos.

O principal resultado deste trabalho é a materialização desses conceitos em um protótipo prático, em formato de tabela, projetado como guia para coordenadores de área. O protótipo organiza os quatro entendimentos de Buckingham em uma sequência de complexidade, associando a cada um deles questões investigativas e sugestões metodológicas. A Etapa 1 (Produção) sugere estudos de caso sobre a escala da produção midiática. A Etapa 2 (Audiência) propõe debates sobre estratégias de engajamento. A Etapa 3 (Linguagem Midiática) incentiva experimentações com códigos e gêneros digitais. A Etapa 4 (Representação) recomenda estudos comparados e práticas de produção para analisar como as mídias constroem versões da realidade.

Este esquema funciona como ferramenta de gestão pedagógica em múltiplos níveis. No nível macroestrutural, o coordenador pode utilizá-lo para planejar a progressão curricular e a formação continuada. No nível microestrutural, o protótipo oferece suporte para a elaboração de planos de aula, fornecendo perguntas e ideias para atividades, como produção de podcasts, análise de engajamento em redes sociais ou comparação da cobertura de um fato em diferentes veículos. O quadro atua como um checklist que permite ao coordenador e aos professores verificarem se suas práticas promovem uma perspectiva crítica e alinhada à educação midiática.

A aplicação do protótipo, contudo, enfrenta desafios como a escassez de tempo, a resistência docente e a precariedade da infraestrutura, problemas estruturais que impactam a viabilidade de práticas inovadoras (Lüdke & Andre, 1986). Para mitigar esses desafios, o papel do coordenador de área é fundamental. A implementação bem-sucedida exige um planejamento estratégico negociado coletivamente com a equipe docente, permitindo alinhar expectativas, organizar formações e fazer a curadoria de materiais. A gestão dos recursos digitais também se torna uma atribuição estratégica do coordenador, especialmente diante de normativas como a proibição de celulares em escolas (Lei nº 15.100/25). O planejamento deve prever o uso de tecnologias alternativas ou a adaptação de atividades, garantindo que as restrições não inviabilizem o trabalho. É crucial que o coordenador e os professores experimentem as ferramentas previamente para antecipar dificuldades e ajustar a aplicação dos conceitos de Buckingham (2019) à realidade da escola.

O presente trabalho demonstrou a importância e a viabilidade da atuação da coordenação de área como agente fundamental na implementação de práticas de multiletramentos no Ensino Médio. Partindo dos desafios na formação leitora, evidenciou-se que a fragmentação curricular e a dificuldade de integrar as linguagens digitais exigem uma gestão pedagógica estratégica. Neste cenário, o coordenador de área emerge como a figura capaz de promover o alinhamento entre a teoria pedagógica, as diretrizes da BNCCEM e a prática docente, unificando a equipe em torno de objetivos comuns para o desenvolvimento de competências críticas nos alunos.

O protótipo desenvolvido, baseado no referencial de David Buckingham, é uma ferramenta robusta e flexível, capaz de traduzir conceitos acadêmicos em um guia prático para o planejamento pedagógico. Ao estruturar a abordagem dos multiletramentos em etapas conceituais, questões investigativas e metodologias, o instrumento oferece suporte tanto para a gestão macrocurricular quanto para a elaboração de atividades em sala de aula. Ele funciona como um catalisador que transforma o conceito de “pedagogia dos multiletramentos” em práticas concretas e significativas, que fortalecem a qualidade do ensino e a formação de cidadãos capazes de interagir de maneira reflexiva com o ecossistema midiático. Conclui-se, portanto, que o objetivo central da pesquisa foi plenamente atingido: demonstrou-se como um protótipo estruturado pode apoiar a atuação de coordenadores de área na implementação eficaz das práticas de multiletramentos no Ensino Médio.

Referências:
Brasil, Ministério da Educação. 2018. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum. mec. gov. br/ . Acesso em 23 de março de 2025.
Brasil. Lei Nº 15.100/2025. Disponível em: https://www. planalto. gov. br/ccivil03/ato2023-2026/2025/lei/l15100. htm. Acesso em 28 de setembro de 2025.
Buckingham, D. 2003. Media Education: Literacy, Learning and Contemporary Culture. Cambridge, UK: Polity Press.
Buckingham, D. 2009. Beyond Technology: Rethinking learning in the age of digital culture. In: Pettersen, J. (Org.). Youth Media Democracy: Perspectives on new media literacy. Duke Institute of Technology.
Buckingham, D. 2019. The media education manifesto. Cambridge, Londres: Polity Press.
Fusari, José C. 1998. O planejamento do trabalho pedagógico: algumas indagações e tentativas de respostas. Cadernos de Idéias, n. 8, p. 44-53.
Haid, J. 2024. A geração ansiosa. São Paulo: Companhia das Letras.
Kalantzis, M.; Cope, B.; Pinheiro, P. 2020. Letramentos. Campinas, SP: Editora da Unicamp.
Kleiman, Angela. 2016. Texto e leitor: Aspectos cognitivos da leitura. Campinas, SP: Pontes Editores.
Lopez, Nuria; Tapia, Jesus. 2016. Como ensinar a compreender um texto? Um programa de estratégias para treinar a compreensão leitora. Petrópolis, RJ: Vozes.
Lüdke, M. Andre, M. 1986. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. Rio de Janeiro, RJ: Editora Gen.
Pimentel, C. 2023. Menos de 50% dos alunos sabem o básico em matemática e ciências. Agência Brasil. EBC, Brasília, 12 dez. 2023.
Tardiff, Maurice; Raymond, Danielle. 2000. Saberes, tempo e aprendizagem do trabalho no magistério. Revista Educação & Sociedade, ano XXI, n. 73, p. 209-244.
The New London Group (NLG). 1996. A pedagogy of multiliteracies: designing social futures. The Harvard Educational Review, v. 66, n. 1, p. 60-92.
Valentini, V. B. 2021. Resenha de: The media education manifesto. Revista Linguagem em Foco, v.13, n.3, p. 217-224.
Valentini, V. B. 2023. Políticas curriculares e o discurso sobre tecnologias: uma análise diacrônica para o ensino de língua portuguesa. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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