
11 de fevereiro de 2026
Impacto do treinamento de vendas no desempenho de representantes farmacêuticos
Vera Aparecida dos Santos Brandão; Vinícius Rennó Castro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Esta pesquisa analisou o impacto percebido do treinamento de vendas no desempenho de representantes comerciais da indústria farmacêutica. O estudo buscou identificar quais competências técnicas e comportamentais, desenvolvidas por meio de capacitação, associam-se a uma percepção positiva de eficácia e resultados. Adicionalmente, a investigação explorou como variáveis sociodemográficas e profissionais, como tipo de empresa (nacional ou multinacional) e tempo de experiência, moderam essa percepção, fornecendo um panorama sobre a efetividade da educação corporativa no setor. A pesquisa avaliou a transferência da aprendizagem para a prática cotidiana e seu reflexo em indicadores de performance, motivação e volume de vendas.
A indústria farmacêutica é um pilar para a saúde pública e o desenvolvimento econômico, caracterizada por um ciclo de pesquisa, inovação e comercialização. O setor demonstra resiliência e crescimento, com lucros que superam a média de outros mercados. O Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico (2023) mostra que o mercado brasileiro alcançou um faturamento de R$ 142,43 bilhões, um crescimento de 8,53% em relação ao ano anterior. Esse dinamismo é evidenciado pelo volume de 5,77 bilhões de embalagens comercializadas e pela diversidade de 14.108 apresentações de medicamentos. A complexidade do setor é acentuada pelo registro de 223 novas empresas, 6.955 novos nomes comerciais e 1.913 princípios ativos, demonstrando intensa competição. A relevância socioeconômica é expressiva, com a geração de mais de 93 mil empregos diretos no Brasil em 2021, número em crescimento desde 2013 (Abrafarma, 2023).
Neste cenário competitivo, a força de vendas é estratégica para o sucesso organizacional (Kotler e Keller, 2012). O representante comercial, ou propagandista médico, é a interface entre os laboratórios e a comunidade médica. Sua função transcende a venda, consistindo em levar informações técnicas e científicas que influenciam o comportamento prescritivo dos profissionais de saúde (Coelho, 2011). Este profissional atua como agente do marketing de relacionamento, sendo o principal canal para a divulgação de novos produtos (Albuquerque et al., 2021). A responsabilidade do propagandista é grande, pois além de comercializar produtos, ele deve garantir a segurança e promover a qualidade de vida dos pacientes, o que exige conhecimento técnico, comunicação, negociação e empatia (Abdalla e Castilho, 2017; Gama et al., 2022).
Para capacitar esses profissionais, os programas de treinamento e desenvolvimento são indispensáveis (Repfarma, 2023). Um treinamento bem estruturado não se limita a transmitir conhecimento técnico, sendo crucial para o desenvolvimento de competências interpessoais que constroem relações de confiança com os clientes (Oliveira, 2018; Costa, 2022). O treinamento é um processo sistemático para o desenvolvimento de habilidades para uma função específica, orientado para resultados práticos e imediatos (Dutra, 2001; Chiavenato, 2019). Este conceito difere do desenvolvimento, que tem uma perspectiva de longo prazo visando o crescimento integral do indivíduo, e da educação corporativa, que se integra à cultura organizacional para fomentar o aprendizado contínuo (Gil, 2022; Noe, 2010; Pereira, 2019).
A evolução do mercado farmacêutico torna o aprimoramento contínuo dos representantes um imperativo. O treinamento de vendas aprimora conhecimento de produto, técnicas de negociação, estratégias de persuasão e competências interpessoais (Anderson et al., 2019). Em um contexto onde a inovação e a adaptação são determinantes, o treinamento se consolida como elemento-chave para o desenvolvimento de equipes eficazes (Martins, 2020). A presente pesquisa justifica-se por sua contribuição ao conhecimento sobre um tema relevante para o mundo corporativo, buscando aprimorar as práticas de capacitação.
O estudo adotou um delineamento de pesquisa aplicada, descritiva e quantitativa, com corte transversal. A estratégia foi o levantamento de dados (survey), método que produz estatísticas quantitativas sobre uma população a partir de uma amostra, utilizando amostragem, questões padronizadas e coleta estruturada (Fowler Jr., 2011). O caráter transversal permitiu capturar um “instantâneo” da realidade estudada em um momento específico (Rouquayrol e Almeida, 2006; Aragão, 2011). A abordagem quantitativa foi escolhida por sua capacidade de validar hipóteses por meio de análise estatística, permitindo a quantificação e, em certos contextos, a generalização dos resultados (Oliveira, 2011).
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário online no Google Forms, disseminado via WhatsApp para contatos profissionais e grupos de representantes comerciais. A população do estudo foi composta por representantes de ambos os sexos, atuando no mesmo segmento há pelo menos um ano e que participaram de no mínimo um treinamento de vendas nos últimos doze meses. Os critérios de inclusão exigiam ensino superior completo. Foram excluídos profissionais que não atuavam na área comercial ou que não consentiram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
A amostragem foi não probabilística por conveniência, baseada na facilidade de acesso da pesquisadora à população-alvo (Malhorta, 2008). Complementarmente, utilizou-se a técnica bola-de-neve (snowball sampling), na qual participantes indicam outros contatos com o perfil da pesquisa (Flick, 2009). O processo continuou por 15 dias, entre 7 e 21 de maio de 2025. A participação foi voluntária e a confidencialidade assegurada. O questionário iniciava com o TCLE, detalhando objetivos, procedimentos, riscos e benefícios do estudo. O instrumento de coleta, com 23 perguntas, foi estruturado em blocos para dados sociodemográficos, profissionais e de percepção sobre o treinamento, utilizando questões de múltipla escolha e escalas Likert. A elaboração das perguntas foi inspirada em dimensões teóricas e autores de referência como Kotler e Keller (2012), Tobin (2013), Cialdini (2006), Rackham (1996) e Miller e Heiman (2008).
A amostra final foi de 104 representantes comerciais. A caracterização sociodemográfica revelou predomínio do gênero masculino (61,5%). A faixa etária mais representativa foi de 50 a 59 anos (37,5%), seguida pela de 40 a 49 anos (30,8%). A maioria reside na região Sudeste (75%). Em relação à escolaridade, 53,8% possuíam pós-graduação lato sensu. O perfil profissional demonstrou vasta experiência, com 78,8% atuando na área há mais de dez anos. Quanto ao ambiente de trabalho, 84,6% atuam em empresas de grande porte e 73,1% em multinacionais. A frequência de treinamentos foi distribuída, com 28,8% recebendo capacitação mensalmente ou com maior frequência, e 25% anualmente. A adesão é majoritariamente compulsória (93,3%).
A segunda competência significativa foi o uso de perguntas abertas (H(4) = 30,27, p < 0,001; ε² = 0,27). Profissionais com desempenho elevado nesta técnica relataram maior impacto percebido do treinamento. O resultado alinha-se com a literatura que defende perguntas abertas como ferramentas para aprofundar a compreensão das necessidades do cliente e construir parcerias (Rackham, 1996). O representante que domina esta técnica facilita um processo de descoberta conjunta, aumentando o valor percebido da interação e capacitando-o para conversas mais estratégicas.
A terceira competência identificada foi o envolvimento emocional, ou rapport (H(4) = 18,09, p = 0,001; ε² = 0,14). O grupo que se atribuiu nota máxima na capacidade de construir rapport apresentou uma percepção de impacto do treinamento significativamente maior. Este resultado ressoa com a teoria da persuasão de Cialdini (2006), que destaca o princípio da afinidade (liking) como pilar da influência. A construção de uma conexão genuína com o cliente é fundamental em vendas complexas. Treinamentos que ensinam técnicas de empatia equipam o representante com ferramentas para superar barreiras.
A quarta competência com associação significativa foi a apresentação de soluções (H(4) = 28,71, p < 0,001; ε² = 0,25). Profissionais com maior desempenho nesta área perceberam mais fortemente o impacto positivo do treinamento. Este achado confirma a importância de conectar as características do produto aos benefícios para o cliente, premissa de vendas consultivas (Miller e Heiman, 2008). A capacidade de articular uma proposição de valor clara e personalizada diferencia uma apresentação eficaz. Conforme Kotler e Keller (2012), a comunicação de valor é um componente crítico da estratégia de marketing, e o treinamento aprimora essa habilidade.
A análise da percepção geral sobre os efeitos do treinamento revelou um cenário positivo. Cerca de 72% dos respondentes sentiram-se mais motivados após as capacitações. Essa motivação pode ser explicada por princípios de influência de Cialdini (2006), como reciprocidade e compromisso. A motivação é amplificada quando os programas demonstram relevância prática e oferecem perspectiva de crescimento (Tobin, 2013). Um achado expressivo foi que 85% dos participantes relataram conseguir aplicar na prática os conhecimentos adquiridos, um indicador crucial da eficácia do treinamento. Rackham (1996) destaca que a efetividade de metodologias como o SPIN Selling depende da transposição das técnicas para interações reais. Miller e Heiman (2008) argumentam que a venda estratégica exige prática deliberada das técnicas aprendidas.
Os resultados também apontam para um impacto direto do treinamento no desempenho comercial. Aproximadamente 78% dos respondentes perceberam melhorias em suas metas e indicadores de performance. Este dado está em consonância com Kotler e Keller (2012), que posicionam a capacitação da força de vendas como um investimento ligado ao desempenho. Tobin (2013) complementa que o sucesso de um treinamento deve ser mensurado por resultados objetivos, como cumprimento de metas e aumento da receita. O apoio organizacional emergiu como fator relevante, com 74% dos participantes afirmando receber suporte institucional para aplicar o que aprendem. Este suporte, incluindo coaching e feedback, é fundamental para que o aprendizado se traduza em resultados sustentáveis (Miller e Heiman, 2008; Tobin, 2013). Por fim, 87,5% dos profissionais afirmaram que o treinamento influenciou positivamente seu volume de vendas, consolidando a capacitação como uma alavanca para o crescimento da receita.
O estudo alcançou seu objetivo de analisar o impacto do treinamento de vendas sobre o desempenho de representantes comerciais da indústria farmacêutica. Os resultados demonstraram que os programas de capacitação produzem efeitos significativos na motivação, no desenvolvimento de competências e na melhoria de indicadores de desempenho e vendas. Destaca-se que representantes de empresas multinacionais relataram maior impacto percebido dos treinamentos, sugerindo que a estrutura dessas organizações potencializa a eficácia da capacitação. A pesquisa identificou quatro competências comportamentais — escuta ativa, uso de perguntas abertas, envolvimento emocional (rapport) e apresentação de soluções — como estatisticamente associadas a uma maior percepção de impacto, com efeito de grande magnitude. Estes achados reforçam a relevância do desenvolvimento de habilidades consultivas e relacionais. A efetividade do treinamento foi corroborada pelo aumento da motivação (72%), alta aplicabilidade prática (85%), melhoria em metas (78%) e influência positiva no volume de vendas (87,5%).
Do ponto de vista teórico, a pesquisa consolida o diálogo entre a literatura de marketing e vendas e a prática organizacional, evidenciando que modelos de persuasão e vendas consultivas permanecem aplicáveis. No âmbito prático, o estudo oferece subsídios para a gestão, indicando que programas de capacitação devem priorizar competências comportamentais e técnicas consultivas. Reconhece-se a limitação da amostra, que, devido à metodologia de bola-de-neve, concentrou-se em determinados perfis. Estudos futuros poderiam ampliar a amostra e utilizar delineamentos longitudinais para verificar a sustentabilidade dos efeitos ao longo do tempo. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o treinamento de vendas impacta significativamente a percepção de desempenho dos representantes comerciais da indústria farmacêutica, especialmente quando focado no desenvolvimento de competências comportamentais e consultivas.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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