29 de setembro de 2026
Percepção dos profissionais sobre a integração da Agenda ESG no ambiente corporativo brasileiro
Percepção dos Profissionais sobre a Integração da Agenda Esg no Ambiente Corporativo Brasileiro
Aline Oliveira Fernandes; Daniela Fontana
DOI: 10.22167/2675-6528-202602627
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A integração dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) consolidou-se como tema central no ambiente de negócios global, embora sua efetivação prática enfrente desafios estruturais. O estudo objetivou analisar, por meio da percepção de profissionais, como ocorre a integração das dimensões ESG na cultura e nas atividades de empresas no ambiente corporativo brasileiro. Conduziu-se uma pesquisa quantitativa descritiva e exploratória, utilizando um questionário eletrônico aplicado a 120 respondentes entre julho e outubro de 2025. Os resultados revelaram que 78,3% dos participantes possuíam familiaridade com o tema. Entre as 12 dimensões analisadas, Responsabilidade Social (média de 4,13) e Governança (média de 3,93) apresentaram médias superiores às do Pilar Ambiental (média de 3,28) e Comunicação Interna (média de 3,07). Constatou-se um distanciamento entre a percepção do discurso externo e a prática interna, com pequenas empresas exibindo a menor média de integração estratégica (2,38). As percepções variaram conforme o nível hierárquico. Concluiu-se que os participantes percebem o ESG predominantemente como um consenso normativo em consolidação, mas sua integração operacional e sistêmica aos processos decisórios centrais ainda é percebida como incompleta, indicando que a dificuldade reside na estruturação de mecanismos que conectem valores declarados a decisões corporativas concretas e mensuráveis.
Palavras-chave: Agenda ESG; Cultura organizacional; Integração; Responsabilidade socioambiental; Transparência corporativa.
1. Introdução
A incorporação dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) consolidou-se como uma das temáticas centrais no ambiente de negócios global do século vinte e um (Quartucci e Branco, 2024). Suas três dimensões representam, respectivamente, a responsabilidade ambiental, focada na redução do impacto no meio ambiente; a responsabilidade social, fundamentada em justiça e equidade; e a governança corporativa, responsável por acomodar a definição estratégica dos sistemas de gestão em consonância com preceitos éticos e de integridade (Ribeiro e Lima, 2023).
No Brasil, a dimensão social da agenda ESG ganhou notoriedade a partir de dois mil e vinte. Estudos identificaram uma correlação positiva entre o pilar social e o Retorno sobre o Patrimônio Líquido em empresas brasileiras, enquanto os pilares ambiental e de governança mostraram-se sujeitos à heterogeneidade setorial (Silva e Mascena, 2024). Pesquisas com empresas do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 revelaram avanços significativos em políticas de Diversidade e Inclusão, com oitenta e dois por cento das organizações implementando políticas de paridade salarial, embora desafios estruturais persistam na equidade racial e na representatividade de pessoas com deficiência (Ferreira et al., 2025).
Do ponto de vista teórico, a agenda ESG fundamenta-se na Teoria dos Stakeholders, que articula a interdependência dos interesses das partes envolvidas sob a premissa de maximizar a geração de valor compartilhado, orientando a gestão para além dos acionistas e contemplando clientes, colaboradores, fornecedores, comunidades e a sociedade (Freeman et al., 2010). Contudo, a efetividade dessas práticas é objeto de debate. Elkington (2020) reconheceu que o conceito de Triple Bottom Line, um dos pilares teóricos centrais na estruturação do ESG, foi cooptado pelo corporativismo, desviando-se de seu propósito transformador original. Outras perspectivas sugerem que, imersas em um sistema orientado ao lucro, as organizações tendem a construir e disseminar discursos sobre sustentabilidade que nem sempre se alinham às suas práticas reais, priorizando a manutenção da legitimidade perante seus constituintes institucionais em detrimento de uma transformação estrutural (Zanoni e Oliveira, 2023).
No cenário nacional, a incorporação do ESG é um desafio complexo, particularmente para empresas de menor porte, que encontram dificuldades na consolidação de modelos de mensuração e na delimitação de indicadores (Zeni et al., 2024). Ademais, a adoção do ESG no mercado brasileiro é predominantemente reativa, impulsionada por pressões externas. Embora o Banco Central e outros reguladores brasileiros tenham avançado na integração de fatores ESG às normas financeiras, o impacto efetivo no mercado permanece limitado devido a regulamentações excessivamente genéricas e à insuficiência de mecanismos de fiscalização (Moessa de Souza, 2023). Isso torna as métricas transparentes indispensáveis para a credibilidade das práticas ESG.
Nesse contexto, emergem múltiplas fronteiras para a agenda ESG, incluindo investimentos sustentáveis, transparência, desempenho financeiro versus social e gestão de riscos (Ribeiro e Lima, 2023). Teoricamente, há uma lacuna na literatura, que se concentra em empresas listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial, com pouca disponibilidade de material que abranja o cenário de Micro e Pequenas Empresas, organizações que constituem a maioria do ambiente empresarial nacional (SEBRAE, 2023). Praticamente, a agenda ESG ganha consistência à medida que é assimilada pelos profissionais que executam os processos corporativos, tornando a comunicação interna e a percepção dos colaboradores variáveis fundamentais para avaliar a maturidade real das organizações, transpondo a superfície dos relatórios externos publicados. Diante deste panorama, o objetivo geral deste estudo foi analisar, por meio da percepção de profissionais, como ocorre a integração das dimensões ESG na cultura e nas atividades das empresas em que atuam, situadas no ambiente corporativo brasileiro.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo quantitativo, de natureza descritiva e exploratória. Para o levantamento dos dados primários, empregou-se a estratégia de pesquisa do tipo
survey
eletrônico, complementada por uma revisão de literatura para a coleta de dados secundários. Essa abordagem permitiu investigar a percepção de profissionais sobre a integração das dimensões ESG no ambiente corporativo brasileiro.
A população-alvo do estudo consistiu em profissionais que atuavam em empresas de diversos setores, regiões e portes no Brasil. Como critério de inclusão, definiu-se a atuação laboral ativa dentro do ambiente corporativo brasileiro, independentemente do nível hierárquico. Não foram estabelecidos critérios de exclusão específicos, visando capturar uma ampla gama de perspectivas.
A amostra foi composta por 120 respondentes (n=120), selecionados por amostragem não probabilística por conveniência. Essa técnica foi escolhida por sua adequação ao público-alvo da pesquisa, facilitando o acesso a indivíduos com experiência relevante no tema. A divulgação do formulário eletrônico ocorreu por meio da rede social LinkedIn e em grupos de profissionais na plataforma WhatsApp.
A coleta dos dados primários foi realizada no período compreendido entre julho e outubro de 2025. O objetivo principal foi capturar as percepções dos profissionais do ambiente corporativo brasileiro em relação à integração das práticas ESG em suas respectivas organizações. Observou-se que o número de respondentes (n) pôde variar entre as questões, uma vez que a participação em todas as perguntas do instrumento não era obrigatória.
O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário eletrônico estruturado, composto por 22 questões. Este questionário foi organizado em seções temáticas que abordavam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), características demográficas e organizacionais dos participantes, e a percepção sobre o nível de implementação e prioridade estratégica de ESG nas organizações.
Adicionalmente, o questionário incluiu questões sobre atitudes e resultados percebidos em relação à comunicação, reputação e desempenho das práticas ESG. Utilizaram-se escalas de concordância do tipo Likert de cinco pontos para mensurar a intensidade da percepção sobre princípios de governança e sustentabilidade, além de um campo aberto para livre manifestação sobre práticas relevantes.
Os dados brutos coletados por meio da plataforma de
survey
foram exportados para uma planilha eletrônica para posterior processamento e análise. As questões de múltipla escolha com categorias ordenadas foram recodificadas numericamente em uma escala crescente de percepção, variando de 1 a 5, para permitir a análise quantitativa.
A análise dos dados foi realizada por meio de técnicas descritivas, que incluíram o cálculo de frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas. Para as variáveis mensuradas em escala de percepção de 1 a 5, foram calculadas medidas de tendência central, como a média (M), e medidas de dispersão, como o desvio padrão (DP).
Para verificar a robustez estatística das comparações de médias entre diferentes grupos (considerando nível hierárquico, porte da empresa, conhecimento prévio de ESG e região), aplicaram-se testes não paramétricos. O teste de Mann-Whitney U foi utilizado para comparações entre dois grupos, e o teste de Kruskal-Wallis para comparações entre três ou mais grupos.
Nas comparações que apresentaram diferença estatisticamente significativa (p<0,05) entre três ou mais grupos, aplicou-se um teste par a par com correção de Bonferroni. Essa abordagem estatística permitiu identificar padrões e diferenças nas percepções dos profissionais, sem antecipar os achados empíricos do estudo.
Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados durante toda a pesquisa. A coleta de dados foi realizada em conformidade com a Resolução CNS n° 510 de 2016, e o estudo foi dispensado de registro no sistema CEP/CONEP, por se tratar de levantamento de opinião pública com participantes não identificados.
Todos os respondentes foram devidamente informados sobre os objetivos da pesquisa e garantiram sigilo e confidencialidade das informações mediante aceitação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Nomes de empresas, propriedades ou instituições específicas foram omitidos, utilizando-se apenas dados agregados para assegurar o anonimato dos participantes e das organizações envolvidas, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei nº 13.709/2018).
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do objetivo geral de analisar a percepção de profissionais sobre a integração das dimensões ESG na cultura e nas atividades de empresas no ambiente corporativo brasileiro. Os resultados são apresentados em subtópicos que refletem a estrutura da coleta e análise de dados, abrangendo o perfil da amostra, a familiaridade com o tema ESG, a percepção das dimensões específicas, a influência do nível hierárquico e do porte da empresa, a variação regional e o impacto financeiro percebido das práticas sustentáveis. As interpretações buscam conectar os dados empíricos com os conceitos teóricos e a literatura já abordada no estudo original, mantendo a fidelidade aos achados e suas limitações.
Perfil da amostra
A amostra do estudo foi composta por 120 profissionais, coletados entre julho e outubro de 2025, proporcionando uma visão abrangente e diversificada do ambiente corporativo brasileiro. A distribuição geográfica dos respondentes indicou uma concentração significativa na região Sudeste, com 49,2% (n=59) dos participantes, seguida pelo Nordeste com 15,8% (n=19) e Sul com 10,0% (n=12). As regiões Centro-Oeste (5,8%, n=7) e Norte (5,0%, n=6) apresentaram menor representatividade, enquanto 9,2% (n=11) atuavam em nível nacional e 5,0% (n=6) em empresas internacionais. Essa composição regional, embora concentrada, permitiu observar diferentes contextos de atuação profissional no Brasil.
Em relação ao porte das organizações, a maioria dos participantes, 55,8% (n=67), trabalhava em grandes empresas. Empresas de médio porte representaram 20,8% (n=25) da amostra, enquanto microempresas e pequenas empresas corresponderam a 12,5% (n=15) e 10,8% (n=13), respectivamente. Predominaram as organizações privadas, com 90,0% (n=108) dos respondentes. O perfil hierárquico dos profissionais foi majoritariamente operacional/execução (38,3%, n=46) e tático/gestão (32,5%, n=39), com níveis estratégico/decisório (12,5%, n=15) e base/aprendizagem (7,5%, n=9) complementando a distribuição. Essa diversidade de portes e níveis hierárquicos é crucial para a análise da percepção sobre a integração ESG, conforme proposto pelo estudo.
Os setores de atividade das empresas dos respondentes também foram variados, com destaque para Serviços em Geral, que representou 17,5% da amostra. Bancos e Serviços Financeiros (10,8%) e Energia (9,2%) também tiveram participação relevante. Outros setores como Comércio (8,3%), Tecnologia da Informação (7,5%), Indústria (7,5%), Agronegócio (5,8%) e Saúde (5,0%) contribuíram para a diversidade do perfil. Essa abrangência setorial permitiu uma análise mais rica sobre como as práticas ESG são percebidas e implementadas em diferentes segmentos do mercado brasileiro, fornecendo um panorama multifacetado da agenda ESG no país.
Familiaridade com ESG e sua influência nas percepções
A pesquisa revelou que a maioria dos participantes possuía conhecimento prévio sobre a agenda ESG, com 78,3% (n=94) dos respondentes declarando familiaridade com o tema. Apenas 21,7% (n=26) afirmaram não conhecer o conceito. Este achado alinha-se ao perfil da amostra, que é predominantemente composta por profissionais de grandes empresas, um ambiente onde o porte organizacional é frequentemente associado à maior eficiência e estabilidade em investimentos ESG, como apontado por Possebon et al. (2024). A familiaridade com o tema é um ponto de partida importante para a compreensão da percepção sobre a integração das práticas ESG.
Ao investigar a influência do conhecimento prévio na percepção das dimensões ESG, observou-se que profissionais familiarizados com o tema atribuíram médias superiores em 11 das 12 dimensões avaliadas. As maiores diferenças foram notadas nas dimensões de Percepção de Práticas (+1,02), Prioridade da Liderança (+1,01) e Imagem e Reputação (+0,97). Isso sugere que o conhecimento do conceito ESG capacita os profissionais a identificar e valorizar mais as ações e o comprometimento de suas organizações com a sustentabilidade, bem como a reconhecer a importância da liderança e da reputação nesse contexto.
Em contraste, dimensões de caráter mais normativo, como Responsabilidade Social, Pilar Ambiental, Pilar Econômico e Fatores de Mercado, apresentaram diferenças de percepção consideravelmente menores, inferiores a 0,3, entre os grupos com e sem conhecimento prévio. A dimensão Responsabilidade Social, em particular, foi a única em que o grupo sem conhecimento prévio registrou uma média nominalmente superior (M=4,19) em comparação ao grupo com conhecimento (M=4,11), embora sem significância estatística (p=0,400). Esse padrão indica um consenso normativo em relação aos princípios de responsabilidade social, independentemente da familiaridade com o termo ESG, o que está em consonância com o avanço da dimensão social em empresas brasileiras (Quartucci e Branco, 2024).
Percepção das dimensões ESG: Análise das Escalas de Concordância
A análise das 12 dimensões ESG, avaliadas em uma escala de concordância de 1 a 5, revelou uma hierarquia clara na percepção dos respondentes. A dimensão Responsabilidade Social obteve a maior média (M=4,13; DP=1,05), seguida pelo Pilar Governança (M=3,93; DP=1,07) e pelo Pilar Social (M=3,73; DP=1,20). Esses resultados indicam que os aspectos relacionados à responsabilidade social e à governança são os mais fortemente percebidos e valorizados pelos profissionais, refletindo uma consolidação desses valores no discurso corporativo, conforme a Teoria dos Stakeholders (Freeman et al., 2010).
Em contrapartida, a Comunicação Interna registrou a menor média entre todas as dimensões (M=3,07; DP=1,69), evidenciando uma lacuna significativa na forma como as práticas ESG são comunicadas dentro das organizações. Essa dimensão foi seguida por Prioridade da Liderança (M=3,17; DP=1,59) e Benefício à Sociedade (M=3,18; DP=1,59), indicando que a percepção de um engajamento claro da liderança e dos benefícios sociais diretos ainda é incipiente. A diferença de 1,06 pontos entre a Responsabilidade Social e a Comunicação Interna sublinha o desafio de traduzir os valores normativos em ações e informações concretas no cotidiano corporativo.
A dimensão Reputação Externa (DP=1,73) e Comunicação Interna (DP=1,69) apresentaram os maiores desvios padrão, sugerindo uma percepção menos homogênea e maior divergência de opiniões entre os respondentes nesses eixos. Isso pode indicar que a narrativa institucional sobre ESG é inconsistente ou que a experiência dos colaboradores varia amplamente, dificultando a formação de um consenso interno e externo. As dimensões Integração Estratégica (M=3,55; DP=1,27), Fatores de Mercado (M=3,48; DP=1,17) e Percepção de Práticas (M=3,34; DP=1,61) situaram-se na faixa intermediária, enquanto o Pilar Econômico (M=3,36; DP=1,24) superou o Pilar Ambiental (M=3,28; DP=1,29).
A concentração das maiores médias em dimensões como Responsabilidade Social e Governança, que são mais normativas, e as menores médias em dimensões ligadas à operacionalização e comunicação de práticas concretas, como Comunicação Interna, Prioridade da Liderança e Benefício à Sociedade, reforça o diagnóstico de que os profissionais não vivenciam, no dia a dia, uma integração clara do ESG em suas atividades. O Pilar Ambiental, que exige implementação verificável em operações como gestão de água, resíduos e energia, apresentou o maior desvio padrão entre os pilares do tripé ESG (DP=1,29), indicando desafios na consolidação de um consenso sobre a narrativa institucional perante os públicos interno e externo.
Percepção e Implementação de ESG por Nível Hierárquico
A análise da percepção de implementação de práticas ESG em função do nível hierárquico dos respondentes (n=109) revelou padrões distintos. O nível Base/Aprendizagem registrou a maior média de implementação percebida (M=3,78; DP=1,99), e 55,56% desses profissionais reconheceram o ESG como prioridade estratégica. Em seguida, o nível Tático/Gestão apresentou média de 3,41 (DP=1,58), com 43,59% reconhecendo a prioridade estratégica. O nível Operacional/Execução obteve média de 3,24 (DP=1,64), com 30,43% de reconhecimento. Por outro lado, o nível Estratégico/Decisório registrou a menor média de implementação percebida (M=3,07; DP=1,10) e o menor reconhecimento de ESG como prioridade estratégica, com apenas 20,00%.
O elevado desvio padrão no nível Base/Aprendizagem (DP=1,99) indica uma heterogeneidade expressiva nas percepções, com alguns respondentes avaliando a implementação como muito alta e outros como baixa. Em contraste, o nível Estratégico/Decisório apresentou o menor desvio padrão (DP=1,10) para a questão da implementação, sugerindo maior convergência de percepções entre os líderes. De modo geral, o nível Base/Aprendizagem registrou as maiores médias em quase todas as dimensões, indicando uma percepção mais favorável sobre a implementação do ESG. A Responsabilidade Social destacou-se nesse grupo com a maior média (M=4,78; DP=0,44), refletindo um alto consenso interno.
No entanto, o Pilar Governança foi a única exceção estatisticamente robusta, onde o nível Estratégico/Decisório registrou a maior média (M=4,53; DP=0,74) entre todos os grupos (excluindo Responsabilidade Social para Base/Aprendizagem). Essa diferença foi estatisticamente significativa em relação ao nível Operacional/Execução (p=0,013, com correção de Bonferroni), sinalizando um alinhamento da gestão estratégica quanto à importância das estruturas de controle e processos institucionais. Este achado é convergente com a literatura que aponta a governança como a dimensão mais madura da agenda ESG (Possebon et al., 2024), possivelmente associada a práticas de compliance e prestação de contas.
Apesar da relevância da Governança, os gestores estratégicos atribuíram as menores médias nominais ao Pilar Ambiental (M=2,87; DP=0,99), Prioridade da Liderança (M=2,80) e Fatores de Mercado (M=3,27; DP=1,16), embora essas diferenças não tenham sido estatisticamente significativas. Essa observação exploratória sugere uma possível lacuna na percepção dos líderes sobre a efetiva implementação e priorização de aspectos ambientais e de mercado, merecendo aprofundamento em estudos futuros. A análise por nível hierárquico complementa a compreensão da relação entre a estrutura da empresa e a viabilidade de implementação das práticas ESG.
Percepção da integração ESG por porte da empresa
A comparação da percepção da integração ESG por porte da empresa revelou um padrão consistente e estrutural, com 10 das 12 dimensões avaliadas apresentando diferença estatisticamente significativa (p0,05 em todos os casos). Essa ausência de diferença regional detectável é um achado relevante, especialmente considerando a concentração amostral no Sudeste (49,2%), que foi reconhecida como uma limitação do estudo. Isso sugere que, para a amostra pesquisada, a localização geográfica não foi um fator determinante na percepção geral sobre a integração ESG.
Embora não incluído na comparação binária por não se enquadrar em um recorte regional específico, o subgrupo de respondentes com atuação em nível nacional ou internacional (n=17) apresentou, de forma descritiva, médias nominalmente superiores em dimensões como Imagem e Reputação (M=4,12) e Responsabilidade Social (M=4,53), esta última com o menor desvio-padrão de toda a comparação (DP=0,62). Esse subgrupo também se destacou em Comunicação Interna (M=3,35), tradicionalmente uma dimensão mais frágil na análise.
A inclusão desse subgrupo em uma comparação de três categorias (Sudeste, não-Sudeste e atuação nacional/internacional) não revelou diferenças estatisticamente significativas em nenhuma das 12 dimensões (p>0,05 em todos os casos, incluindo Imagem e Reputação: p=0,173; Comunicação Interna: p=0,655; Responsabilidade Social: p=0,267). Apesar da falta de significância estatística, o padrão descritivo observado é compatível com a hipótese de que empresas com atuação nacional ou internacional tendem a possuir estruturas organizacionais mais robustas, o que se alinha ao achado anterior de que o porte organizacional está associado a maior eficiência e estabilidade em investimentos ESG (Possebon et al., 2024). Contudo, devido à reduzida dimensão do subgrupo e à ausência de significância estatística, essa observação deve ser tratada como exploratória e não conclusiva.
Percepção do impacto financeiro das práticas sustentáveis
A percepção do impacto financeiro das práticas sustentáveis entre os 119 respondentes desta questão revelou um “paradoxo da percepção financeira”. Apenas 28,6% dos profissionais perceberam um impacto positivo claro e objetivo. A maioria, 42,9%, relatou um impacto apenas indireto ou de difícil mensuração, enquanto 21,0% não perceberam impacto significativo e 7,6% não souberam informar. Essa distribuição indica que a atribuição de um retorno financeiro claro e mensurável ao ESG ainda é uma visão minoritária, com a maior parte dos profissionais expressando alguma ambiguidade ou desconhecimento sobre essa relação.
A percepção de benefícios econômicos, compreendidos como vantagens competitivas e geradoras de valor que precedem o impacto financeiro direto (M=3,36; DP=1,24), também demonstrou polarização. Enquanto 24,2% dos profissionais expressaram ceticismo, a concentração de respostas nos níveis neutro e de concordância moderada (3 e 4) sugeriu que os benefícios são percebidos como presentes, mas de difícil mensuração ou atribuição direta às práticas organizacionais. Essa falta de consenso reflete a complexidade de quantificar o retorno sobre o investimento em ESG, um desafio amplamente discutido na literatura.
Esse cenário de percepções difusas encontra ressonância na literatura brasileira recente, que documenta a ausência de significância estatística imediata entre ESG e desempenho financeiro, sendo mais evidente no pilar social e no retorno sobre o patrimônio líquido (Silva e Mascena, 2024). Aguiar e Moxotó (2025) reforçam que a reputação corporativa e a integração de práticas atuam como mediadores do retorno financeiro. Esse entendimento sugere que atuações alinhadas ao ESG periférico, focadas em exigências regulatórias e imagem externa, podem dificultar a percepção de ganhos econômicos tangíveis, transformando o ESG em um custo de conformidade, conforme Bastos et al. (2024).
A reversão dessa percepção de custo para a de investimento depende fundamentalmente de uma integração estratégica real que conecte os indicadores ESG a resultados financeiros mensuráveis. Essa conexão é essencial para que os profissionais que vivenciam as práticas cotidianamente possam visualizar e atribuir o retorno. A dificuldade em mensurar e comunicar o impacto financeiro direto do ESG pode, portanto, ser um dos principais entraves para a sua plena integração e valorização dentro das organizações, especialmente em um ambiente corporativo orientado ao lucro.
Observações Complementares dos Respondentes
Os comentários espontâneos de 12 respondentes na questão aberta complementaram os dados quantitativos, revelando um contraste entre experiências. Por um lado, foram destacados avanços em tecnologias e processos, como transporte neutro em carbono, uso de vans elétricas, instalação de painéis solares para energia renovável e programas de logística reversa e coleta seletiva. Essas iniciativas exemplificam a materialização de práticas ESG em operações concretas, demonstrando que algumas empresas estão investindo em soluções tangíveis para a sustentabilidade ambiental e social.
Por outro lado, os depoimentos sinalizaram o risco de uma implementação superficial da agenda ESG, percebida por alguns como um recurso puramente comercial. Relatos indicaram que, mesmo com a sustentabilidade como princípio organizacional, a ausência de medidas concretas e da própria nomenclatura ESG sinalizou um distanciamento entre o valor declarado e a rotina de trabalho. Isso sugere que, em alguns contextos, a agenda ESG pode estar mais ligada a um discurso de marketing do que a uma transformação cultural e operacional profunda, corroborando a crítica de Elkington (2020) sobre a cooptação do Triple Bottom Line.
As barreiras à maturidade da agenda ESG incluíram a baixa visibilidade das iniciativas internas, a resistência da liderança e o esforço contínuo por maior transparência nos relatórios e na comunicação institucional. Esse cenário sugere que a legitimidade da agenda ESG, para os profissionais consultados, depende da conversão de ideologias em ações tangíveis e de uma comunicação que supere o desconhecimento total do tema e o pragmatismo econômico imediato. A integração efetiva dos valores socioambientais ao centro da cultura e dos processos decisórios é crucial para evitar que o ESG seja percebido apenas como uma fachada ou um custo de conformidade, conforme Zanoni e Oliveira (2023).
Em síntese, a pesquisa revelou que a agenda ESG é percebida como um consenso normativo em consolidação no ambiente corporativo brasileiro, com alta familiaridade e valorização dos pilares social e de governança. Contudo, a integração operacional e sistêmica aos processos decisórios centrais ainda é percebida como incompleta, evidenciada pela baixa eficácia da comunicação interna e pela ambiguidade na percepção do impacto financeiro. As diferenças de percepção variam conforme o nível hierárquico e o porte da empresa, com grandes empresas e níveis de base/aprendizagem mostrando maior engajamento, enquanto pequenas empresas e níveis estratégicos enfrentam desafios na operacionalização e priorização. A dificuldade central reside na estruturação de mecanismos que conectem valores declarados a decisões corporativas concretas e mensuráveis, o que aponta para a necessidade de maior transparência e comunicação interna efetiva para fortalecer a agenda ESG.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar, por meio da percepção de profissionais, como ocorre a integração das dimensões ambientais, sociais e de governança (ESG) na cultura e nas atividades de empresas no ambiente corporativo brasileiro. Verificou-se que a agenda ESG é percebida como um consenso normativo em consolidação, com alta familiaridade dos participantes e forte valorização dos pilares social e de governança. Contudo, observou-se um distanciamento entre o discurso externo e a prática interna, especialmente na comunicação interna, que registrou a menor média entre as dimensões avaliadas. A integração estratégica mostrou-se menos consolidada em pequenas empresas, que apresentaram a menor média de percepção, e as percepções variaram conforme o nível hierárquico, com o nível Base/Aprendizagem exibindo maior engajamento geral, enquanto o nível Estratégico/Decisório destacou-se na governança. Identificou-se um “paradoxo da percepção financeira”, onde a maioria dos profissionais relatou um impacto indireto ou de difícil mensuração das práticas sustentáveis, indicando que a dificuldade central reside na estruturação de mecanismos que conectem valores declarados a decisões corporativas concretas e mensuráveis.
A principal contribuição deste trabalho reside em oferecer uma compreensão aprofundada da maturidade da agenda ESG no Brasil sob a ótica dos profissionais, evidenciando a necessidade de fortalecer a comunicação interna e a integração estratégica para além do discurso. As limitações do estudo incluem a concentração da amostra na região Sudeste e em grandes empresas, o que restringe a generalização dos achados para a totalidade do ambiente corporativo nacional, e o caráter transversal da pesquisa, que não permite acompanhar a evolução das percepções ao longo do tempo. Sugere-se para estudos futuros a análise do papel mediador das lideranças e do impacto da regulamentação na aceleração da agenda ESG, bem como a ampliação da amostra para incluir micro e pequenas empresas de outras regiões, a fim de obter uma visão mais abrangente da pluralidade do mercado.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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