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14 de setembro de 2026
O efeito da influência no consumo
O que a pesquisa Youpix/Nielsen 2026 mostra sobre o avanço da Creator Economy

Em 2025, 80% dos consumidores brasileiros compraram algum produto recomendado por influenciadores. Em 2026, o índice chegou a 81%. A estabilidade em um patamar tão elevado indica que a compra por influência deixou de ser um comportamento restrito a determinados públicos. O percentual alcança 83% entre as mulheres, 77% entre os homens, 82% na faixa de 18 a 34 anos e 79% entre consumidores com 35 anos ou mais.
Esses são alguns dos dados da pesquisa “O Efeito da Influência no consumo” (Youpix e Nielsen, 2026), e esses números nos mostram como a Creator Economy avançou nos últimos anos. Avança e se consolida como um mercado altamente dinâmico e que caminha para a profissionalização.
A própria Youpix interpreta esse movimento como um sinal de consolidação da influência nos hábitos de consumo dos brasileiros. É a partir desse dado, e de outros resultados da pesquisa, que proponho analisar aqui como os creators vêm ocupando um espaço cada vez mais relevante na jornada de compra dos consumidores.
A pesquisa mostra ainda que a influência aparece muito antes da compra. Sete em cada dez entrevistados afirmam que creators já interferiram em suas decisões, sendo 33% com impacto elevado, e 40%, moderado. Na descoberta de novos produtos e marcas, os influenciadores são citados por 44% dos consumidores, diante de 33% para recomendações de amigos e familiares. Entre as mulheres, chegam a 50%.
Isso modifica o lugar ocupado pelo creator na jornada. Seu conteúdo pode apresentar uma marca desconhecida, despertar interesse, oferecer referências para avaliação e participar da construção de confiança antes que exista intenção imediata de compra. Para empresas, significa que marketing de influência não deveria ser planejado apenas como mídia para gerar alcance nem avaliado exclusivamente pela venda diretamente atribuída a uma publicação.
Entre a recomendação e a compra existe uma jornada
Nem toda compra acontece imediatamente quando o cliente vê o produto recomendado pelo influencer. Embora 64% utilizem links ou cupons de influenciadores com frequência, somente 20% compram imediatamente após o contato com a recomendação.
A maioria continua pesquisando: 64% procuram mais informações ou comparam preços e 40% salvam o produto para decidir depois. Ao mesmo tempo, 52% dizem sentir vontade de conhecer marcas ou produtos indicados por creators (um crescimento de nove pontos percentuais em relação a 2025), e 67% afirmam já ter experimentado novas marcas por essa via. A pesquisa também registra que 58% das compras ocorrem em até sete dias após o contato com a recomendação.
Esse percurso tem uma consequência direta para a gestão de marketing. Se a mensuração observa apenas clique, cupom ou conversão imediata, parte importante do efeito da influência desaparece. O consumidor pode conhecer o produto em um vídeo, pesquisar no Google ou em ferramentas de inteligência artificial, consultar avaliações, comparar ofertas em marketplaces e comprar dias depois em outro canal.
Por isso, as campanhas precisam definir previamente qual função o creator deverá exercer em qual etapa da jornada: descoberta, consideração, experimentação, conversão ou uma combinação de todas. Essa escolha determina também quais indicadores fazem sentido. Vendas e cupons continuam relevantes, mas não explicam sozinhos uma jornada em que a recomendação pode iniciar uma decisão concluída posteriormente.
Confiança vale mais do que o tamanho da audiência
A pesquisa também registra uma mudança importante na própria definição de influência. Apenas 6% consideram o número de seguidores um atributo determinante. Isso demonstra uma evolução na compreensão por parte do consumidor sobre o verdadeiro papel do creator. Para 47%, influenciar está associado à capacidade de informar, inspirar e entreter. E 90% consideram importante ou muito importante que o creator compartilhe valores e opiniões compatíveis com os seus, ante 87% em 2025. Estamos vendo um processo de amadurecimento desse mercado.
E tem outro ponto importante nesses números. Esses resultados ajudam a explicar a valorização de creators especializados e comunidades de nicho. Uma audiência numerosa amplia exposição, mas não garante afinidade nem confiança. Para uma marca, um perfil menor e reconhecido dentro de um assunto específico pode ter mais capacidade de interferir na consideração do que outro com milhões de seguidores e pouca relação com a categoria.
A confiança depositada no creator também alcança os produtos que ele apresenta. A pesquisa aponta que 55% confiam mais em uma marca quando a veem sendo utilizada por influenciadores; entre consumidores que confiam plenamente no creator, o indicador chega a 90%. Ao mesmo tempo, o público identifica rapidamente quando essa relação parece artificial: 49% rejeitam elogios exagerados, 44% se incomodam com falas decoradas e 39% com publicidade escondida.
O dado sobre arrependimento acrescenta uma distinção importante. Entre os 33% que já se arrependeram de uma compra feita por influência, 52% atribuem o problema à má qualidade do produto. O creator pode favorecer descoberta e confiança inicial, mas não compensa uma entrega ruim. Para a empresa, selecionar quem recomenda é apenas uma parte da estratégia; o produto precisa confirmar a expectativa construída pelo conteúdo.
Creators entram também na distribuição
O Instagram ainda concentra a influência sobre decisões de compra: aparece com 76% entre consumidores de 18 a 24 anos, 82% entre aqueles de 25 a 44 e 78% no grupo acima de 45 anos. A partir dos 25, o YouTube ocupa a segunda posição, alcançando 62% entre 25 e 44 anos e 58% entre consumidores com 45 anos ou mais.
O avanço mais rápido é do TikTok. A proporção de pessoas que viram no TikTok conteúdos relacionados a marcas, produtos, serviços ou ofertas passou de 34% para 51% em um ano. Entre pessoas de 35 a 54 anos, esse percentual avançou de 27% para 50%, indicando que esse tipo de conteúdo também ganhou espaço entre públicos mais maduros.
O TikTok Shop aproxima ainda mais conteúdo e transação: 59% conhecem o recurso TikTok Shop, 56% já fizeram compras sem sair do aplicativo e, entre quem comprou, 80% avaliam positivamente a experiência. O crescimento comercial da operação acompanha esse comportamento. Em seu primeiro ano no Brasil, o GMV médio diário mensal (indicador que representa o valor bruto das vendas realizadas na plataforma) cresceu 102 vezes, enquanto o número de creators afiliados ativos aumentou 46 vezes.
O avanço do TikTok sinaliza uma mudança estrutural no social commerce. A plataforma combina três elementos que antes costumavam estar separados: descoberta de produtos, recomendação por creators e transação. O crescimento entre públicos de 35 a 54 anos mostra ainda que essa dinâmica já não está restrita aos consumidores mais jovens.
Ao integrar conteúdo e compra dentro do próprio aplicativo, o TikTok reduz etapas da jornada e amplia o papel comercial do influenciador. Para as empresas, isso significa que o creator passa a ser analisado não apenas como mídia, mas também como canal de venda, aproximando marketing de influência de estratégias de performance e distribuição.
Os marketplaces mostram que essa integração não está restrita ao TikTok. Entre consumidores que já compraram por indicação de influenciadores utilizando links ou cupons, 63% fizeram compras na Shopee, 56% no Mercado Livre e 44% na Amazon. Shein aparece com 38% e TikTok Shop, com 36%. Na faixa de 18 a 24 anos, a Shopee chega a 71% e o TikTok Shop a 40%.
Programas de afiliados colocam o creator em uma posição diferente daquela ocupada na publicidade tradicional. Ele continua produzindo conteúdo e recomendando, mas passa também a direcionar tráfego e gerar vendas para varejistas e marketplaces, geralmente remunerado pelas transações realizadas. Influência, performance e distribuição comercial começam, portanto, a operar dentro da mesma estratégia. Estamos falando de um ecossistema econômico.
O que os dados pedem das empresas
A principal informação para gestores está na forma como essa compra acontece. O creator pode apresentar um produto, colocá-lo entre as alternativas consideradas, legitimar sua escolha e conduzir a uma loja ou marketplace. Nem sempre essas etapas acontecem no mesmo conteúdo ou podem ser atribuídas ao último clique.
Planejar influência em 2026 exige, portanto, três decisões anteriores à contratação: qual público se pretende alcançar, qual função o creator terá na jornada e por que aquela pessoa tem legitimidade para falar daquele produto. As respostas permitem escolher melhor os parceiros, definir indicadores adequados e construir relações menos dependentes de publicações isoladas.
A pesquisa da Youpix e Nielsen também aponta uma mudança mais ampla no mercado. Se creators já participam da descoberta, da consideração e da venda, eles não podem mais ser tratados apenas como veículos para distribuir mensagens prontas. Tornaram-se agentes que conectam conteúdo, confiança e vendas. Para as empresas, compreender essa mudança significa reconhecer que o marketing de influência já faz parte da forma como os produtos chegam ao repertório, à avaliação e, cada vez mais, ao carrinho do consumidor.










