Transição Energética
30 de setembro de 2026
Energias renováveis: a vantagem brasileira
Brasil precisa investir na capacidade de transformar recursos naturais em inovação, produtividade e desenvolvimento

Falar sobre energia é falar sobre desenvolvimento. Por trás da indústria, dos transportes, dos serviços, das cidades e, cada vez mais, da inteligência artificial, existe uma infraestrutura energética que sustenta a economia. Compreender a matriz energética de um país é compreender parte importante de suas escolhas, vulnerabilidades e oportunidades.
A matriz energética corresponde ao conjunto de fontes utilizadas para atender à demanda de energia de um país, abrangendo transporte, indústria, consumo residencial e geração de eletricidade. Já a matriz elétrica representa especificamente as fontes utilizadas para gerar eletricidade (EPE, 2026). Essa distinção ajuda a compreender uma das características mais relevantes do Brasil: sua elevada participação de fontes renováveis.
Implicações geopolíticas
A transição energética já transforma a matriz mundial. Segundo o Global Energy Review 2026, da Agência Internacional de Energia (IEA), as fontes renováveis representaram 34% da geração mundial de eletricidade em 2025. Somadas à energia nuclear, as fontes de baixa emissão chegaram a 43% (IEA, 2026).
O crescimento é expressivo. Em 2025, a geração solar mundial aumentou cerca de 600 TWh, enquanto a capacidade renovável adicionada globalmente chegou a aproximadamente 800 GW, com a energia solar respondendo por 75% desse crescimento (IEA, 2026).
Ainda assim, essa transformação está longe de ser linear. O carvão permaneceu como a maior fonte individual de geração elétrica mundial, enquanto outras fontes convencionais continuam relevantes para o sistema energético global (IEA, 2026).
Nesse contexto, a energia deixa de ser apenas uma questão ambiental ou econômica e assume uma dimensão geopolítica. O World Energy Outlook 2025, da IEA, destaca que segurança energética, segurança econômica e tensões geopolíticas estão cada vez mais conectadas. Dependência de fornecedores, concentração de infraestrutura e restrições comerciais podem afetar diretamente os sistemas energéticos.
A própria transição cria novas áreas de disputa. Minerais como cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras são importantes para baterias, redes elétricas, veículos elétricos e tecnologias de baixo carbono. A concentração dessas cadeias de fornecimento tornou-se uma questão de segurança energética e econômica (IEA, 2025; IEA, 2026).
O World Energy Outlook 2025 destaca que a China é atualmente o principal país refinador de 19 dos 20 minerais estratégicos relacionados à energia analisados pela IEA, com participação média próxima de 70%.
A mudança, portanto, é maior do que substituir uma fonte por outra. O mundo está reorganizando sua infraestrutura energética e, junto com ela, as relações comerciais, industriais e estratégicas. Países capazes de garantir energia competitiva, tecnologia e cadeias de suprimentos resilientes terão vantagens crescentes. É justamente nesse cenário que o Brasil ganha relevância.
Matriz energética brasileira
O Brasil ocupa uma posição diferenciada. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, as fontes renováveis representaram 49,5% da matriz energética brasileira em 2025, enquanto a participação das renováveis na matriz elétrica chegou a 86,8% (EPE, 2026).
Essa composição resulta de recursos naturais e escolhas históricas. A disponibilidade hídrica favoreceu a geração hidrelétrica, a biomassa ganhou relevância e, mais recentemente, as modalidades de energia eólica e solar passaram a ocupar espaço crescente. Em 2025, a geração solar fotovoltaica cresceu 24,7%, atingindo 88,1 TWh. A geração eólica também avançou, acrescentando 8,8 TWh ao sistema elétrico brasileiro (EPE, 2026).
A vantagem brasileira, portanto, não está apenas na quantidade de recursos disponíveis, mas na possibilidade de combinar diferentes fontes e construir uma matriz diversificada em um momento em que energia competitiva e de menor intensidade de emissões ganha importância estratégica.
A IEA reconhece essa posição. Em sua Energy Policy Review sobre o Brasil, a agência destaca que o país possui um sistema elétrico predominantemente baseado em fontes renováveis e está bem-posicionado para reforçar sua liderança na transição energética global. Mas liderança também traz responsabilidades. E é justamente nesse ponto que começam os desafios brasileiros.
Produzir, transmitir e armazenar
A expansão acelerada das fontes solar e eólica cria uma nova realidade para o sistema elétrico. O desafio já não é apenas aumentar a geração, mas garantir que redes, regulação e mecanismos de flexibilidade acompanhem essa transformação.
A IEA aponta desafios relacionados à expansão das redes, à flexibilidade do sistema, à integração das novas fontes e ao crescimento da geração distribuída. Entre as recomendações apresentadas pela agência estão o aprimoramento dos marcos institucionais e regulatórios e o incentivo a diferentes formas de flexibilidade, incluindo armazenamento e resposta da demanda.
O diagnóstico desloca o debate. O Brasil não precisa apenas gerar mais energia renovável. Precisa garantir que infraestrutura, regulação, investimentos e mecanismos de mercado evoluam na mesma velocidade da transformação da matriz.
A questão, portanto, não é frear a expansão das renováveis, mas criar condições para que ela aconteça de forma coordenada. A energia deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ocupar espaço central na estratégia empresarial.
A pesquisa Powering Up Business Poll 2026, realizada pela consultoria internacional Public First, aponta que 92% dos executivos brasileiros entrevistados acreditam que a eletrificação aumentará a competitividade de seus negócios. A pesquisa foi feita a pedido de três organizações: E3G, think tank independente voltado às políticas climáticas; We Mean Business Coalition, coalizão internacional que mobiliza empresas em torno da ação climática; e Global Renewables Alliance, aliança de associações da indústria de energias renováveis.
O levantamento ouviu 1.994 lideranças empresariais, entre CEOs, vice-presidentes, diretores e profissionais da alta gestão, de organizações de médio e grande porte, distribuídas por 18 mercados, incluindo o Brasil.
A coleta de respostas ocorreu pela internet, entre 20 e 26 de abril de 2026. No Brasil, o resultado de 92% representa a percepção dos executivos entrevistados sobre o potencial da eletrificação para ampliar a competitividade de seus negócios.
Portanto, trata-se de uma pesquisa de percepção empresarial, e não de uma mensuração direta de ganhos efetivos de produtividade ou desempenho econômico (Public First, 2026). A transição energética começa a ser percebida também como questão de produtividade, inovação, custos e posicionamento competitivo.
A Global Renewables Alliance (GRA) reforça esse debate ao defender a expansão das renováveis e dos investimentos em redes e armazenamento para acompanhar o crescimento da eletrificação. A GRA é uma aliança internacional de seis associações setoriais que representam diferentes segmentos da indústria de energia renovável: eólica, solar, hidrelétrica, hidrogênio verde, armazenamento de longa duração e geotérmica. Entre suas organizações fundadoras estão o Global Wind Energy Council, o Global Solar Council, a International Hydropower Association, a Green Hydrogen Organisation, o Long Duration Energy Storage Council e a International Geothermal Association.
A entidade atua junto a governos, investidores, empresas e outras instituições na defesa de políticas públicas, parcerias e investimentos que acelerem a expansão das energias renováveis.
Também promove a meta global de triplicar a capacidade renovável até 2030, estabelecida no contexto da COP28. Por representar associações da indústria, sua atuação expressa também uma perspectiva setorial e de defesa da expansão dessas tecnologias (Global Renewables Alliance, S.D.).
Para o Brasil, isso representa uma oportunidade que vai além da geração de energia. Uma matriz elétrica majoritariamente renovável pode contribuir para atrair investimentos, estimular novas cadeias produtivas e ampliar a competitividade de setores intensivos em energia.
A IEA estima aproximadamente R$ 3,2 trilhões em investimentos relacionados à energia no Brasil entre 2025 e 2034, considerando petróleo e gás, eletricidade e biocombustíveis.
IA, petróleo e transição energética
Existe, entretanto, uma contradição que merece atenção. A inteligência artificial pode otimizar sistemas energéticos, aumentar eficiência e acelerar inovação, mas também tende a elevar a demanda por eletricidade.
Reportagem publicada pela “Folha de S.Paulo”, em agosto de 2026, com base em relatório sobre os impactos da inteligência artificial no setor energético, aponta que a tecnologia pode impulsionar a produção de petróleo e gás em ritmo superior ao avanço de algumas aplicações relacionadas à energia limpa.
A transição energética, portanto, não é linear. Novas tecnologias podem simultaneamente acelerar soluções de baixo carbono e ampliar a demanda por fontes de maior intensidade de emissões.
Essa contradição precisa fazer parte do debate. A questão energética deve ser analisada considerando desenvolvimento econômico, segurança energética, inovação e redução de emissões.
É nesse ponto que a discussão retorna ao Brasil. Nossa vantagem energética já existe. O que ainda está em construção é a capacidade de transformá-la em uma vantagem econômica duradoura.
Possuímos recursos renováveis abundantes, uma matriz elétrica majoritariamente renovável e capacidade de expansão em diferentes fontes. Isso cria condições favoráveis para atrair investimentos, desenvolver cadeias industriais, estimular inovação e ampliar a competitividade brasileira.
Mas recursos naturais, por si só, não produzem desenvolvimento. É preciso transformar potencial em estratégia, estratégia em investimentos e investimentos em valor para a sociedade.
Essa talvez seja a principal oportunidade brasileira diante da transição energética. Mais do que exportar energia ou recursos, o país pode buscar ocupar posições de maior valor nas cadeias que estão surgindo em torno da eletrificação, da indústria de baixo carbono, do armazenamento, dos biocombustíveis e das novas tecnologias. O Brasil não precisa escolher entre desenvolvimento e transição energética. Precisa construir as condições para que ambos avancem juntos. A verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em possuir sol, vento, água e biomassa. Estará na capacidade de transformar esses recursos em inovação, produtividade, investimentos e desenvolvimento.
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Quem publicou esta coluna
Rodrigo Thomaz










