Neurociência E Aprendizagem Na Educação
30 de setembro de 2026
Neurobiologia da dupla excepcionalidade: integração neuropsicofarmacológica e desafios em adultos com TEA, TDAH e AH/SD
Neurobiologia da Dupla Excepcionalidade: Integração Neuropsicofarmacológica e Desafios em Adultos com Tea, Tdah e Ah/sd
Cristiane Aparecida de Alencar; Paula Farias Akkari
DOI: 10.22167/2675-6528-202602789
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Os transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), impactam a funcionalidade clínica e acadêmica. O estudo objetivou analisar a intersecção entre a modulação neuropsicofarmacológica e as estratégias de suporte educacional no Córtex Pré-Frontal em adultos com diagnóstico tardio de dupla excepcionalidade. Conduziu-se um estudo de caso qualitativo, por meio de observação participante de uma discente de 22 anos, com diagnóstico clínico de TEA, TDAH e AH/SD, durante o estágio supervisionado de Graduação em Enfermagem em ambiente hospitalar. Os resultados evidenciaram que, embora a intervenção medicamentosa proporcionasse estabilização neuroquímica, o ambiente hospitalar desestabilizou a cognição devido à poluição sonora e ao excesso de estímulos. Mapearam-se correlações neuropsicofisiológicas, incluindo hiperacusia, alterações do sono e rigidez de pensamento. Contudo, a implementação de pausas estratégicas para autorregulação e o fracionamento de tarefas possibilitaram o retorno do foco atencional e a execução precisa de procedimentos técnicos. Concluiu-se que a consolidação das Funções Executivas e a funcionalidade adaptativa exigem abordagens multimodais, onde o ajuste psicofarmacológico é um facilitador biológico indispensável, mas a eficácia terapêutica depende do acolhimento pedagógico e de adaptações ambientais para a inclusão efetiva do indivíduo neurodivergente.
Palavras-chave: Córtex Pré-Frontal; Funções Executivas; Neurobiologia; Psicofarmacologia.
1. Introdução
A neurodivergência abrange condições cognitivas atípicas que influenciam as vivências sociais, emocionais e acadêmicas dos indivíduos. Entre essas condições, destacam-se o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e as Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Embora apresentem etiologias e trajetórias de desenvolvimento distintas, a coexistência de TEA, TDAH e AH/SD configura um quadro clínico conhecido como dupla excepcionalidade. Neste cenário, a superdotação pode mascarar os déficits do neurodesenvolvimento, ou vice-versa, o que frequentemente atrasa o diagnóstico adequado (Amend, 2018).
Do ponto de vista neurobiológico, a infância e a adolescência são períodos de alta neuroplasticidade, caracterizados pela formação de novas sinapses e subsequente poda neural, processos cruciais para a maturação dos circuitos cerebrais (Knudsen, 2004; Giedd et al., 1999). Nessas fases, o sistema nervoso central demonstra máxima responsividade fisiológica, permitindo que intervenções terapêuticas e pedagógicas moldem a arquitetura cerebral com elevada eficiência. O Córtex Pré-Frontal, uma região cerebral central, é onde são desencadeadas as Funções Executivas, que incluem controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva (Barkley, 2015). Essas habilidades são essenciais para o desenvolvimento neurológico e para a aplicação de terapias e intervenções desde a infância.
Contudo, em casos de diagnósticos tardios confirmados apenas na fase adulta, os circuitos neurais já estão estruturalmente consolidados, e os limiares de plasticidade são diferentes (Hensch, 2005). Apesar de a neuroplasticidade dependente de experiência permanecer ativa ao longo de toda a vida (Kandel et al., 2014), a reestruturação de vias neurais atípicas exige um esforço cognitivo e um desgaste físico e mental maiores para que ocorram as adaptações necessárias, fenômeno conhecido como desgaste alostático. Consequentemente, os desafios de intervenção clínica e pedagógica tornam-se mais complexos, demandando abordagens multimodais e compensatórias rigorosas para superar a rigidez biológica e promover a funcionalidade adaptativa do indivíduo. A falta de suporte especializado e de apoio pedagógico na infância pode resultar em falhas na arquitetura e consolidação das Funções Executivas, exigindo um esforço compensatório mental significativamente maior na vida adulta.
A intervenção psicofarmacológica desempenha um papel fundamental no equilíbrio da química cerebral, otimizando o funcionamento das Funções Executivas. Na região do Córtex Pré-Frontal, neurotransmissores como a noradrenalina estimulam informações importantes, enquanto a dopamina ajuda a silenciar distrações ambientais, reduzindo a impulsividade e aumentando o tempo de concentração (Stahl, 2014). Em casos de dupla excepcionalidade, que envolvem o TEA, é crucial equilibrar os sistemas de excitação e inibição do cérebro para evitar sobrecargas sensoriais e mentais (Rubenstein e Merzenich, 2003). É importante ressaltar que a medicação prepara o cérebro quimicamente, melhorando sua capacidade de processar informações, mas não ensina novas habilidades por si só, nem substitui a necessidade de aprendizado e treino diário (Stahl, 2014).
A complexidade dos diagnósticos tardios e a necessidade de intervenções integradas para adultos neurodivergentes, que não tiveram acesso a suporte adequado na infância e adolescência, evidenciam uma lacuna na compreensão das interações entre os tratamentos biológicos e as estratégias pedagógicas. Este estudo buscou analisar detalhadamente como a intervenção psicofarmacológica e as estratégias de suporte pedagógico interagem no Córtex Pré-Frontal, em indivíduos com diagnóstico tardio de dupla excepcionalidade (TEA, TDAH e AH/SD). O objetivo foi compreender as vias que viabilizam a amenização do desgaste alostático, favorecendo o aprendizado e a funcionalidade em adultos neurodivergentes que não foram beneficiados por diagnóstico e/ou assistência especializada na infância e adolescência. De forma específica, a pesquisa pretendeu investigar as disfunções neuroquímicas subjacentes a esses quadros, avaliar o papel da medicação na regulação da atenção e dos impulsos, e demonstrar que a eficácia terapêutica plena depende de uma intervenção interdisciplinar.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa configurou-se como um estudo de caso empírico, adotando uma abordagem qualitativa com natureza descritiva e analítica, conforme os preceitos de Yin (2015). Essa escolha metodológica permitiu uma investigação aprofundada e contextualizada da interação entre fatores neurobiológicos, psicofarmacológicos e pedagógicos em um cenário real, buscando compreender a complexidade do fenômeno estudado em sua totalidade.
O delineamento metodológico fundamentou-se na observação participante, conduzida de forma sistemática pela pesquisadora durante um estágio supervisionado. A pesquisadora, atuando como preceptora de estágio em diversas unidades de saúde, realizou observações regulares com adultos neurodivergentes matriculados em cursos de Graduação em Enfermagem, em ambiente hospitalar, na cidade de São Paulo-SP.
A unidade de análise consistiu em uma discente de 22 anos, com diagnóstico clínico multimodal de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Os critérios de inclusão para a identificação do TEA e TDAH basearam-se rigorosamente nos parâmetros do DSM-5-TR (American Psychiatric Association [APA], 2023), enquanto a caracterização das Altas Habilidades seguiu a Teoria dos Três Anéis de Renzulli.
A etapa empírica envolveu o acompanhamento longitudinal de curto prazo da discente. Durante esse período, observou-se a funcionalidade acadêmica, comportamental e executiva da participante, avaliando-se a correlação entre seu histórico de desassistência na infância, a resposta ao suporte psicofarmacológico e a execução de tarefas práticas de alta exigência cognitiva no ambiente de estágio. As observações foram registradas pela pesquisadora em prontuário.
A análise dos dados coletados teve como eixo central a base neurobiológica, fundamentada nos princípios definidos por Kandel et al. (2014) e Stahl (2014). Priorizou-se a compreensão da neuroplasticidade e do funcionamento do Córtex Pré-Frontal, buscando contextualizar as observações dentro de um arcabouço teórico que explicasse os mecanismos subjacentes às manifestações da dupla excepcionalidade.
Os cuidados éticos foram observados em conformidade com o parágrafo único do artigo 1º, inciso VII, da Resolução CNS n°510/2016. O estudo foi dispensado de registro e análise pelo sistema CEP/CONEP, por se tratar de uma pesquisa que objetivou o aprofundamento teórico de situações que emergiram espontânea e contingentemente na prática profissional.
Em respeito aos preceitos de bioética e proteção de dados, assegurou-se o sigilo e o anonimato da discente participante, bem como da instituição onde o estágio supervisionado foi realizado. Não se revelaram dados sensíveis que pudessem permitir a identificação dos sujeitos ou da unidade hospitalar, limitando-se a identificação geográfica à cidade e ao estado. As informações coletadas foram utilizadas exclusivamente para fins de análise acadêmica e científica, garantindo a integridade e dignidade da participante.
3. Resultados e Discussão
A observação participante durante o estágio supervisionado em ambiente hospitalar permitiu a aplicação prática dos conceitos neurobiológicos previamente discutidos, revelando a complexa interação entre a modulação psicofarmacológica e as necessidades de suporte educacional e ambiental. Verificou-se que a discente, embora mantivesse estabilização neuroquímica por meio do uso contínuo de Venlafaxina (225mg), Mirtazapina (45mg) e Quetiapina (50mg), demonstrou que o ajuste biológico, embora essencial, atua apenas como um alicerce para a funcionalidade adaptativa. Este achado reforça a premissa de que a medicação prepara o cérebro quimicamente, otimizando a capacidade de processamento, mas não substitui a necessidade de intervenções pedagógicas e adaptações ambientais para o desenvolvimento de novas habilidades e a consolidação das Funções Executivas (Stahl, 2014).
A análise do impacto do ambiente hospitalar revelou que este se configurou como um fator significativo de desestabilização cognitiva. Caracterizado por altos níveis de ruído, como alarmes de monitores, conversas paralelas e o som constante de equipamentos, o ambiente gerou uma sobrecarga sensorial. Em momentos de pico de ruído, a discente apresentou uma queda acentuada na velocidade de processamento e na capacidade de atenção seletiva, essencial para a execução de procedimentos técnicos, como a conferência de medicações. Essa hipersensibilidade sensorial, característica do Transtorno do Espectro Autista (TEA), sobrecarregou as Funções Executivas, mesmo com o tratamento medicamentoso em curso, corroborando a necessidade de equilibrar os sistemas de excitação e inibição cerebral para evitar sobrecargas (Rubenstein e Merzenich, 2003).
Em situações de pressão, como a exigência de cumprir prazos curtos para a sistematização da assistência ou a necessidade de lidar com mudanças súbitas na escala de tarefas, foram observados comportamentos típicos de rigidez de pensamento. A aluna demonstrou dificuldade em alternar o foco atencional, uma manifestação de baixa flexibilidade cognitiva, entre uma tarefa interrompida e uma nova demanda emergente. Adicionalmente, a desatenção por estresse tornou-se evidente, com o “ruído” mental aumentando sob pressão e levando ao hiperfoco em detalhes minuciosos, em detrimento da visão global do plantão. Esses achados confirmam que, enquanto a medicação prepara o cérebro quimicamente, o suporte de tutoria, o fracionamento de tarefas em etapas menores e o acolhimento das particularidades sensoriais são cruciais para a consolidação do aprendizado prático e a funcionalidade adaptativa.
Além da sobrecarga sensorial e do estresse, a discente também apresentou um impacto negativo e crônico nos ciclos de sono, resultando em alterações na manutenção do estado de alerta. A fadiga neurocognitiva manifestou-se de forma acentuada em diversos momentos do plantão, exigindo breves períodos de descanso para autorregulação. Esse manejo da fadiga, frequentemente associada à desregulação do ciclo circadiano em indivíduos com TEA, permitiu o retorno do foco atencional e a mitigação de erros por exaustão. A capacidade de reconhecer e implementar essas pausas estratégicas foi fundamental para a manutenção da performance e segurança durante as atividades de estágio.
É importante destacar que, após a implementação desses intervalos estratégicos, a discente retornou às suas atividades com um desempenho técnico impecável. A execução dos procedimentos de enfermagem foi realizada com extrema responsabilidade e atenção aos detalhes, evidenciando que, quando o ambiente oferece suporte adequado às necessidades biológicas do indivíduo neurodivergente, o potencial de entrega profissional não apenas é preservado, mas otimizado. Essa observação clínica reforça a compreensão de que a rigidez e o cansaço não devem ser interpretados como falta de compromisso, mas sim como uma estratégia de gestão de energia necessária para que o cérebro com dupla excepcionalidade possa operar em sua máxima eficiência e segurança, minimizando o desgaste alostático.
Um exemplo prático da integração entre as habilidades teóricas e a necessidade de suporte ambiental foi observado na sala de curativos. A discente demonstrou domínio teórico das Altas Habilidades ao diferenciar úlceras arteriais e venosas com precisão. Contudo, o ambiente saturado por excesso de estímulos ativava a hipersensibilidade do TEA, resultando em fadiga neurocognitiva. As pausas realizadas para “parar e retornar” foram tentativas do cérebro de recrutar as Funções Executivas, especialmente aquelas relacionadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), visando à autorregulação e ao restabelecimento do foco atencional.
As correlações neuropsicofisiológicas detalhadas no estudo de caso abrangeram diversas esferas, desde o processamento sensorial até a afetiva, e foram cruciais para compreender a complexidade da dupla excepcionalidade. No processamento sensorial, a hiperacusia, onde a discente ouvia tudo como abafado, foi atribuída a uma falha na inibição latente do tálamo, que não filtrava ruídos, gerando sobrecarga no córtex auditivo. Isso resultou em exaustão cognitiva e na necessidade de ambientes controlados para o foco técnico, impactando diretamente a capacidade de concentração durante o estágio.
Na regulação do sono, a ocorrência de paralisia do sono e sonambulismo foi correlacionada à dissincronia nas transições do sono REM. Essa manifestação neurobiológica resultou em fadiga crônica e instabilidade emocional, que afetaram a capacidade da discente de prestar cuidado direto ao paciente com a atenção e energia necessárias. O controle motor também foi comprometido, com dificuldade de deambular em locais com multidões, explicado pela competição por recursos neurais, onde o excesso de input sensorial “sequestrava” a atenção do cerebelo e áreas motoras. Isso gerou insegurança na locomoção entre alas e a necessidade de apoio ergonômico.
O comportamento ingestivo da discente, caracterizado pela picofagia (alotriofagia), foi interpretado como um mecanismo de coping ou déficit nutricional, uma resposta ao estresse agudo ou à deficiência de micronutrientes como ferro e zinco. Este achado ressaltou a necessidade de acompanhamento clínico e nutricional para manter a performance da aluna. Na esfera afetiva, a alta empatia e a conexão com pacientes deficientes foram associadas à hiper-responsividade dos neurônios-espelho e à identificação com a atipicidade neurobiológica do outro, o que, embora promovesse uma humanização profunda da assistência, também elevava o risco de burnout empático, exigindo estratégias de autocuidado e regulação emocional.
A análise clínica e observacional confirmou que o Córtex Pré-Frontal atua como a principal área de convergência neurobiológica no caso estudado. A discente, aos 22 anos, apresentou um descompasso no desenvolvimento típico da dupla excepcionalidade: por um lado, demonstrava alta capacidade intelectual e facilidade para aprender teorias complexas, indicando Altas Habilidades/Superdotação; por outro, enfrentava dificuldades significativas com a memória de trabalho, o controle de impulsos e a organização de tarefas, características do TDAH. Este perfil complexo sublinha a importância de uma abordagem integrada que considere tanto os pontos fortes quanto os desafios.
O impacto do diagnóstico tardio nas Funções Executivas foi evidente. A análise do relato de vida da discente revelou que a falta de suporte especializado e de apoio pedagógico na infância resultou em falhas na arquitetura e na consolidação dessas funções. Conforme Kandel et al. (2014), a intervenção na fase adulta exige que as vias de neuroplasticidade dependentes de experiência sejam estimuladas em um córtex já maduro, que já passou por sua fase principal de formação estrutural, para compensar a poda neural atípica. Isso se traduz em um esforço compensatório mental significativamente maior para reduzir essas falhas, gerando cansaço crônico e grande desgaste cognitivo durante a execução de tarefas de rotina.
A medicação, ao equilibrar neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina no Córtex Pré-Frontal (Stahl, 2014), auxilia na filtragem de informações, destacando o que é importante e diminuindo distrações, o que clinicamente reduz a impulsividade e aumenta o tempo de concentração. Contudo, a pesquisa demonstrou que, mesmo com a estabilização neuroquímica proporcionada pela medicação, em situações de pressão e prazos curtos, ainda surgiam comportamentos como a rigidez de pensamento (comum no TEA) e a desatenção por estresse (comum no TDAH). Isso reforça que a medicação prepara o cérebro para funcionar melhor, mas o apoio pedagógico e o acolhimento clínico e social são as ferramentas reais para uma inclusão verdadeira na vida acadêmica e profissional.
A experiência no estágio supervisionado comprovou que a eficácia terapêutica plena só ocorre quando o facilitador biológico, a medicação, é acompanhado por um manejo ambiental e pedagógico que minimize a carga sensorial e ofereça ferramentas de organização externa para as Funções Executivas fragilizadas. Para alunos com dupla excepcionalidade e diagnóstico tardio, o ambiente de aprendizagem precisa de adaptações estruturais que considerem suas particularidades sensoriais e cognitivas. A integração dessas abordagens é fundamental para que o indivíduo neurodivergente possa desenvolver todo o seu potencial e alcançar a funcionalidade adaptativa.
Como desdobramento prático dos achados, foi desenvolvido o projeto piloto “Programa de Manejo Neurodivergente (PMN)”. Este projeto visa transpor os resultados neurobiológicos sobre o impacto do desgaste alostático no ambiente hospitalar para a prática institucional no curso de Enfermagem. A iniciativa propõe a aplicação clínica de estratégias pedagógicas compensatórias, ferramentas de compensação cognitiva, adaptações de manejo sensorial e a estruturação de um Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) para acadêmicos com diagnóstico de dupla excepcionalidade. O PMN busca minimizar a fadiga neurocognitiva do aluno e garantir a segurança do paciente durante os estágios supervisionados, promovendo uma conexão interdisciplinar entre saúde e educação.
Em síntese, os resultados desta pesquisa evidenciam que a funcionalidade plena de adultos neurodivergentes com diagnóstico tardio de dupla excepcionalidade depende de uma sinergia entre o suporte clínico especializado e a adoção de estratégias pedagógicas compensatórias. O Córtex Pré-Frontal atua como a área de intersecção biológica onde a psicofarmacologia e a educação se encontram. A intervenção medicamentosa é um agente neuromodulador indispensável que viabiliza a preparação fisiológica para o aprendizado, reduzindo barreiras neuroquímicas. Contudo, o desempenho neurológico e a tradução da prontidão cerebral em desempenho acadêmico real exigem a reconstrução estruturada das Funções Executivas por meio de um ambiente adaptativo e suporte pedagógico contínuo, respondendo ao objetivo de amenizar o desgaste alostático e favorecer a funcionalidade.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar a intersecção entre a modulação neuropsicofarmacológica e as estratégias de suporte educacional no Córtex Pré-Frontal em adultos com diagnóstico tardio de dupla excepcionalidade. Verificou-se que, embora a intervenção medicamentosa proporcionasse a estabilização neuroquímica essencial, o ambiente hospitalar, com sua poluição sonora e excesso de estímulos, atuou como um fator de desestabilização cognitiva, sobrecarregando as Funções Executivas. Observou-se que situações de pressão e prazos curtos desencadeavam rigidez de pensamento e desatenção por estresse, além de um impacto crônico nos ciclos de sono que resultava em fadiga neurocognitiva. Contudo, a implementação de pausas estratégicas para autorregulação e o fracionamento de tarefas foram cruciais para o retorno do foco atencional e a execução precisa de procedimentos técnicos. A análise das correlações neuropsicofisiológicas, como hiperacusia e alterações do sono, evidenciou a complexidade da dupla excepcionalidade e a necessidade de um esforço compensatório mental significativamente maior em adultos com diagnóstico tardio, devido à falta de suporte especializado na infância.
Concluiu-se que a funcionalidade adaptativa e a consolidação das Funções Executivas em adultos neurodivergentes com diagnóstico tardio exigem abordagens multimodais. O ajuste psicofarmacológico atua como um facilitador biológico indispensável, preparando o cérebro quimicamente para o aprendizado. No entanto, a eficácia terapêutica plena depende intrinsecamente do acolhimento pedagógico e de adaptações ambientais que minimizem a carga sensorial e ofereçam ferramentas de organização externa, promovendo a inclusão efetiva do indivíduo. Como contribuição prática, foi desenvolvido o projeto piloto “Programa de Manejo Neurodivergente (PMN)”, que visa transpor esses achados para a prática institucional no curso de Enfermagem, propondo estratégias pedagógicas compensatórias e a estruturação de Planos de Desenvolvimento Individual. Este estudo, embora baseado em um estudo de caso, ressalta a importância de futuras pesquisas que explorem a aplicação e a eficácia de tais programas em amostras mais amplas, a fim de generalizar as estratégias de manejo do desgaste alostático e promover a funcionalidade em contextos acadêmicos e profissionais diversos.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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