Inteligência Artificial
28 de setembro de 2026
Inteligência artificial e as trends
Por que tantas pessoas aderem às brincadeiras com o ChatGPT?

Nunca fui a pessoa da trend. Continuo não sendo. Algumas passam pela minha timeline, vejo, acho interessante mas não a ponto de experimentar. Foi assim, inclusive, com algumas ondas recentes de imagens feitas por inteligência artificial, como a trend dos anos 80, aquela que nos mostrava mais velhos, ou aquela que mostrava nossos filhos adultos.
Mas a Barbie me pegou. Pedi ao ChatGPT que criasse uma versão minha dentro de uma embalagem personalizada, com objetos, pessoas e referências que tivessem relação comigo. E assim ele fez.
Por que eu resolvi aderir a essa trend? Fiquei me perguntando isso e não consegui atribuir uma única razão. Queria ver como ficaria, também estava curiosa com o resultado, queria experimentar a tecnologia e achei divertida a possibilidade de me reconhecer naquela representação.
Depois de pronta, a imagem provocou outra curiosidade, agora profissional: por que tanta gente quer se colocar dentro de uma mesma trend? Especialmente essas criadas pelo ChatGPT? A resposta parece estar menos em um único gatilho e mais na combinação entre vários fatores.
Quando a própria identidade entra no prompt
As redes sociais sempre foram espaços de autorrepresentação. Escolhemos fotografia, biografia, assuntos sobre os quais falamos e aspectos da vida que desejamos tornar públicos. Pesquisadores vêm estudando há anos como essas representações digitais participam da construção e da percepção da identidade. Uma revisão de Walther e Lew (2022) mostra, por exemplo, que as tecnologias digitais permitem experimentar apresentações alternativas de si e que essas experiências podem se relacionar à maneira como percebemos o próprio “eu”.
Nas trends de IA, esse processo ganha uma característica particular. Para criar minha Barbie, não escolhi apenas uma fotografia. Informei profissão, interesses, valores, relações afetivas e objetos importantes para mim. A IA reorganizou essas informações e me devolveu uma representação visual. Eu fui um pouco além do prompt padrão que pede para a IA criar a imagem com base no que ela sabe.
Por isso, talvez parte do fascínio esteja justamente em ver a própria identidade reinterpretada por uma tecnologia. Não recebemos simplesmente uma imagem pronta. Participamos da escolha daquilo que deverá nos representar.
Fazer parte e continuar sendo único
Há também uma aparente contradição muito interessante: milhares de pessoas usam a mesma estética, mas querem que o resultado seja individual. Isso é muito curioso e encontra respaldo nos estudos sobre cultura participativa e comportamento mimético nas plataformas. Diana e David Zulli (2022) mostram que ambientes digitais favorecem imitação, repetição e adaptação de formatos, formando o que denominam imitation publics: grupos que se constituem também pela participação em práticas compartilhadas.
Uma trend funciona justamente porque pode ser reconhecida. Existe uma espécie de código coletivo: agora somos personagens de animação, depois bonecos de ação, versões de outra época ou Barbies personalizadas. Participar significa entrar temporariamente nessa conversa. E aí é que está a graça.
Mas a repetição não elimina a individualização. Cada pessoa modifica o modelo para dizer alguma coisa sobre si. Nesse sentido, a trend combina duas necessidades sociais bastante conhecidas: pertencer e diferenciar-se.
Uma síndrome conhecida como FOMO, sigla para Fear of Missing Out, ou medo de ficar de fora do que outras pessoas estão vivendo ou acompanhando, também pode ajudar a interpretar parte desse comportamento, mas com cautela.
Uma meta-análise de Fioravanti et al. (2021), que reuniu 33 amostras e mais de 21 mil participantes, encontrou uma associação consistente entre a FOMO e o uso maior das redes sociais, inclusive em padrões de uso problemático.
O estudo não investigou trends de inteligência artificial, portanto não permite dizer que alguém cria sua Barbie por medo de ficar de fora. O que ele oferece é uma pista mais geral: em ambientes sociais digitais, acompanhar o que outras pessoas estão fazendo e perceber que uma experiência está circulando amplamente pode aumentar a motivação para participar também.
De espectador a cocriador
A inteligência artificial acrescenta outro componente: ela diminui a barreira técnica para participar da criação. Antes, transformar uma fotografia em uma ilustração sofisticada exigiria domínio de softwares, habilidade artística ou a contratação de alguém. Com a IA generativa, uma pessoa descreve o que deseja, recebe uma primeira versão, corrige, acrescenta características, troca objetos e pede novas tentativas. O processo passa a ter uma dinâmica de cocriação.
É uma diferença importante em relação a simplesmente compartilhar um meme. Na trend da Barbie, eu forneço a matéria-prima, escolho o que entra, avalio o resultado e peço alterações. Mesmo sem saber desenhar uma embalagem ou produzir uma ilustração digital, consigo participar da construção daquela imagem.
Essa acessibilidade ajuda a explicar a velocidade com que determinados formatos se espalham. Quando a barreira de execução cai, muito mais gente pode experimentar.
Curiosidade, novidade e a vontade de mostrar
Existe ainda o prazer da descoberta: “quero ver o que a IA fará comigo” e, logo em seguida, a experiência que não termina necessariamente quando a imagem aparece na tela. Há uma segunda etapa: mostrá-la.
Nas redes, autorrepresentação também acontece diante de uma audiência. Likes, comentários e respostas funcionam como formas de feedback social, e pesquisas relacionam a interação ativa nas plataformas a oportunidades de expressão e validação social. Assim, publicar a própria versão da trend também abre espaço para comparação, conversa e reconhecimento: “ficou a sua cara”, “eu também quero fazer”, “olha o que a IA colocou na minha”.
Seria excessivo afirmar que a busca por likes explica essas trends. Mas seria igualmente limitado ignorar que elas são produzidas para circular socialmente, e não apenas para permanecer no arquivo pessoal de quem as criou. Talvez estejamos experimentando novas formas de nos representar.
Uma das coisas que mais me interessam nessas trends é que uma tecnologia altamente sofisticada está sendo usada para uma prática profundamente humana: experimentar formas de dizer quem somos e observar como os outros respondem a elas.
A IA generativa acrescentou uma possibilidade nova a esse comportamento. Ela permite que cada pessoa entre em uma estética coletiva levando consigo elementos particulares da própria história. Somos simultaneamente participantes de uma tendência e personagens dela.
Talvez seja por isso que tantas dessas imagens consigam se espalhar tão rapidamente. Há a novidade tecnológica, a curiosidade pelo resultado, o prazer de criar, a participação em um comportamento coletivo e a possibilidade de mostrar uma versão singular de si dentro de uma linguagem que todos reconhecem.
Eu entrei na trend para descobrir como seria minha Barbie, mas a experiência me levou a uma questão mais ampla sobre comportamento digital. Essas imagens parecem reunir práticas que já conhecemos das redes sociais e que citei acima: autorrepresentação, participação coletiva, busca por reconhecimento e experimentação, com uma possibilidade relativamente nova, que é pedir a uma tecnologia que produza uma versão de nós mesmos a partir das informações que fornecemos. Talvez, seja justamente essa combinação que torne essas trends tão atraentes.
Ao mesmo tempo em que repetimos uma estética compartilhada por milhares de pessoas, usamos a IA para negociar o que queremos destacar sobre nós e depois submetemos essa representação ao olhar dos outros. A tecnologia muda, mas a necessidade de construir, experimentar e compartilhar identidades continua presente. O que a IA generativa acrescenta é uma nova ferramenta para realizar esse processo.
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