30 de setembro de 2026
Eficiência econômico-financeira de indústrias farmacêuticas brasileiras frente ao aumento dos custos de insumos (2019-2024)
Eficiência Econômico-financeira de Indústrias Farmacêuticas Brasileiras Frente ao Aumento dos Custos de Insumos (2019-2024)
Ana Paula Falabretti; Leandro Rodrigues
DOI: 10.22167/2675-6528-202602649
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O setor farmacêutico brasileiro enfrentou um ambiente desafiador entre 2019 e 2024, caracterizado pelo aumento dos custos de insumos, volatilidade cambial e pressões inflacionárias, o que ressaltou a relevância da análise da sustentabilidade econômico-financeira das empresas. O estudo teve como objetivo avaliar a eficiência econômico-financeira de empresas do setor farmacêutico brasileiro diante desse cenário. Adotou-se uma abordagem quali-quantitativa, que incluiu a análise anual de indicadores econômico-financeiros de nove empresas, complementada por uma análise de correlação linear com variáveis macroeconômicas e análise de conteúdo das notas explicativas de demonstrações contábeis. Os resultados evidenciaram que o impacto do aumento dos custos ocorreu de forma heterogênea entre as empresas, sendo influenciado pela estrutura de custos, dependência de insumos importados e estratégias de gestão. Empresas com maior disciplina financeira, controle de custos e flexibilidade operacional apresentaram maior resiliência, enquanto organizações com estruturas mais rígidas ou intensivas em inovação demonstraram maior volatilidade nos indicadores, especialmente no curto prazo. Concluiu-se que a eficiência econômico-financeira no setor dependeu não apenas do ambiente macroeconômico, mas também das decisões estratégicas adotadas pelas empresas, as quais influenciaram diretamente sua capacidade de adaptação e sustentabilidade financeira.
Palavras-chave: Análise de indicadores; Desempenho financeiro; Estrutura de custos; Gestão empresarial; Resiliência financeira.
1. Introdução
O setor farmacêutico brasileiro possui elevada relevância econômica e social, sendo responsável pela produção e distribuição de medicamentos essenciais. Além de contribuir para a geração de empregos qualificados e o desenvolvimento tecnológico, o setor é estratégico ao integrar atividades de produção, pesquisa, desenvolvimento e comercialização, impactando diretamente a qualidade de vida da população e a competitividade do país (Capanema, 2006; Gadelha, 2003; Magalhães et al., 2003).
Apesar de sua importância, a indústria farmacêutica brasileira enfrenta desafios estruturais significativos, especialmente relacionados à dependência de insumos importados. Essa dependência a torna vulnerável a variações cambiais, à inflação global e às oscilações nos custos de matérias-primas (ANVISA, 2006; Dias et al., 2016; Santos et al., 2025). Tais fatores impactam diretamente as margens de rentabilidade e a eficiência operacional das empresas, exigindo adaptações constantes na gestão financeira e operacional (Souza et al., 2025).
Entre os anos de 2019 e 2024, esses desafios foram intensificados por eventos como a pandemia de COVID-19, que provocou disrupções na cadeia de suprimentos, escassez de insumos e elevação global de preços. Esse cenário exigiu das empresas respostas estratégicas para preservar resultados e garantir a continuidade das operações (Avelar et al., 2020; Bledow, 2021; Teixeira, 2022). Assim, a análise da eficiência econômico-financeira nesse período torna-se relevante para compreender como as organizações reagiram a um ambiente de elevada instabilidade.
A eficiência econômico-financeira refere-se à capacidade de as empresas gerarem resultados sustentáveis a partir de seus recursos. Isso envolve não apenas a rentabilidade, mas também a gestão de liquidez, a estrutura de capital e os custos operacionais (Assaf Neto, 2003; Iudícibus, 2009). Nesse sentido, a gestão de custos assume um papel central, pois permite mitigar os impactos de variações macroeconômicas e sustentar a competitividade por meio de ajustes operacionais e de precificação (Magalhães et al., 2003).
Adicionalmente, os modelos de negócio influenciam diretamente a forma como as empresas respondem a essas pressões, ao determinarem a organização dos recursos, processos e capacidades para a geração de valor (Casadesus-Masanell, 2004; Salas-Fumás, 2009). Empresas que adotam estratégias alinhadas às condições do ambiente econômico tendem a apresentar maior capacidade de adaptação e resiliência, especialmente em períodos de elevação de custos e volatilidade de mercado (Pinto e Barreiro, 2013; Pereira e Gomes, 2017).
Diante desse contexto, o problema central da pesquisa está relacionado à capacidade das empresas farmacêuticas brasileiras de preservar margens de rentabilidade e eficiência operacional em um cenário marcado pelo aumento dos custos de insumos, inflação e volatilidade cambial. Embora a literatura de finanças corporativas e análise de demonstrações financeiras enfatize a importância de indicadores econômico-financeiros para a avaliação do desempenho empresarial (Assaf Neto, 2003), e estudos sobre modelos de negócio destaquem a influência das estratégias organizacionais na geração de valor e adaptação ao ambiente competitivo (Casadesus-Masanell, 2004; Salas-Fumás, 2009), observou-se, no levantamento de referências, maior concentração de análises voltadas a períodos anteriores ou a outros segmentos empresariais. Nesse sentido, o presente trabalho busca complementar essa literatura ao adotar um enfoque aplicado, setorialmente delimitado e contextualizado em um período recente de elevada instabilidade econômica.
Desse modo, este estudo busca analisar a relação entre o desempenho econômico-financeiro das empresas, o contexto macroeconômico e as estratégias adotadas, contribuindo para a compreensão dos fatores que influenciam a sustentabilidade financeira do setor. Para tanto, o presente trabalho tem como objetivo avaliar a eficiência econômico-financeira de uma amostra de empresas representativas do setor farmacêutico brasileiro, de capital aberto e fechado, diante da elevação dos custos de insumos, identificando quais organizações conseguiram preservar margens de rentabilidade e eficiência operacional no período de 2019 a 2024.
2. Material e Métodos
A metodologia científica adotada neste estudo correspondeu ao conjunto de procedimentos sistemáticos empregados para a condução da pesquisa, orientando a coleta, o tratamento e a análise dos dados, em alinhamento com os objetivos propostos (Boaventura, 2012). A pesquisa caracterizou-se como descritiva quanto aos objetivos, buscando analisar o comportamento de variáveis econômico-financeiras de empresas do setor farmacêutico brasileiro e identificar padrões de desempenho em relação ao contexto macroeconômico.
No que se refere à abordagem, o estudo adotou uma perspectiva quali-quantitativa. Essa abordagem integrou a análise de indicadores financeiros com a interpretação do contexto econômico e estratégico das empresas. A análise quantitativa permitiu examinar o comportamento dos indicadores ao longo do tempo, enquanto a abordagem qualitativa possibilitou a compreensão de aspectos relacionados às estratégias de gestão e às condições operacionais das organizações.
Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa foi documental, baseada na coleta de dados secundários. As informações foram obtidas de demonstrações financeiras e relatórios institucionais publicamente disponíveis. O período de análise compreendeu os anos de 2019 a 2024, um intervalo marcado por variações cambiais, pressões inflacionárias e desafios globais de abastecimento de insumos farmacêuticos (Bledow, 2021).
A amostra de estudo foi composta por nove empresas representativas do setor farmacêutico brasileiro. Três dessas empresas são de capital aberto, listadas na Bolsa de Valores: Hypera Pharma (HYPE3), Blau Farmacêutica (BLAU3) e Biomm (BIOM3). As seis empresas restantes são de capital fechado: Aché, Prati Donaduzzi, Eurofarma, Althaia, Cimed e Teuto.
A seleção dessas empresas baseou-se em critérios como a relevância de sua atuação no mercado nacional, a disponibilidade de informações públicas e a diversidade de seus modelos de negócio. Os dados para as empresas de capital aberto foram coletados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e relatórios anuais. Para as empresas de capital fechado, os dados foram extraídos de publicações oficiais nos sites institucionais de cada organização.
Os dados econômico-financeiros foram coletados a partir do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) das empresas analisadas. As variáveis macroeconômicas, como a inflação (IPCA) e a taxa de câmbio (USD/BRL), foram obtidas de fontes públicas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025) e o Banco Central do Brasil (2025).
A análise quantitativa foi conduzida por meio do cálculo e avaliação de indicadores econômico-financeiros. Foram utilizados indicadores de liquidez (corrente, seca, geral), endividamento (participação de capitais de terceiros, composição do endividamento, imobilização do patrimônio líquido), rentabilidade (margem bruta, margem operacional, margem líquida, retorno sobre o ativo, retorno sobre o patrimônio líquido) e eficiência operacional (giro do ativo, prazo médio de recebimento, prazo médio de pagamento, giro de estoques), conforme Assaf Neto (2012) e Iudícibus (2009).
Para examinar a relação entre o desempenho econômico-financeiro e as variáveis macroeconômicas, aplicou-se a correlação linear de Pearson (Evans, 1996). Os indicadores de desempenho selecionados foram o retorno sobre o ativo (ROA) e a margem operacional, correlacionados com a inflação (IPCA) e a taxa de câmbio (USD/BRL). Os cálculos foram realizados utilizando o software Microsoft Excel, por meio da função CORREL.
As empresas foram agrupadas em três categorias para a análise de correlação: Grupo A (maior estabilidade e resultados positivos), Grupo B (maior oscilação nos indicadores) e Grupo C (desempenho persistentemente negativo). Essa organização permitiu uma análise comparativa da sensibilidade de cada grupo às variações macroeconômicas.
A análise qualitativa teve como objetivo complementar os resultados quantitativos, buscando interpretar os diferentes níveis de desempenho econômico-financeiro. Para tanto, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2011), estruturada em três etapas: pré-análise, codificação e interpretação dos resultados. A pré-análise envolveu a leitura exploratória das notas explicativas das demonstrações contábeis das empresas.
Na etapa de codificação, as informações foram categorizadas em temas recorrentes, como disciplina financeira e controle de custos, estrutura de custos, eficiência operacional, endividamento e estrutura financeira, investimento em P&D e estratégias de precificação. A etapa de interpretação integrou os achados qualitativos aos resultados quantitativos, buscando compreender as práticas de gestão associadas ao desempenho econômico-financeiro das empresas no período analisado.
3. Resultados e Discussão
Esta seção apresenta os resultados preliminares da análise econômico-financeira das empresas farmacêuticas no período de 2019 a 2024, organizados de forma analítica e comparativa, conforme os procedimentos metodológicos definidos. A pesquisa buscou compreender como as organizações reagiram a um ambiente de elevada instabilidade, caracterizado pelo aumento dos custos de insumos, volatilidade cambial e pressões inflacionárias, e quais estratégias foram determinantes para a preservação da eficiência econômico-financeira.
A análise da evolução do custo dos produtos vendidos e da receita líquida permitiu observar a dinâmica de crescimento e a pressão de custos enfrentada pelas empresas. Em termos de receita líquida, Hypera e Eurofarma registraram um crescimento expressivo, superior a 120% no período. A Hypera, contudo, teve seu custo dos produtos vendidos crescendo em um ritmo mais acelerado, com variação de 153%, indicando um aumento relevante nos custos produtivos, embora compatível com a expansão das operações. A Eurofarma, por sua vez, demonstrou um crescimento mais equilibrado entre receita e custos, sugerindo maior capacidade de absorção e repasse das pressões de custos ao longo do período analisado.
Outras empresas, como Cimed, Blau e Teuto, apresentaram, em certos períodos, um crescimento do custo dos produtos vendidos superior ao da receita líquida, especialmente entre 2020 e 2022. Esse cenário indicou uma maior pressão sobre as margens operacionais. A Aché também enfrentou um aumento de custos mais intenso que o crescimento da receita no período acumulado, evidenciando uma expansão com maior pressão sobre sua estrutura de custos, o que impactou diretamente sua rentabilidade.
A Biomm, por sua vez, registrou um crescimento expressivo tanto da receita quanto do custo dos produtos vendidos, refletindo seu processo de expansão operacional. Esse comportamento é característico de empresas de biotecnologia, que possuem elevada participação de custos produtivos. Uma situação semelhante, embora menos intensa, foi observada em Althaia e Cimed, particularmente entre 2021 e 2023, quando os custos cresceram de forma mais acelerada que as receitas, desafiando a manutenção das margens de lucro.
Em contrapartida, Prati Donaduzzi e Teuto apresentaram um crescimento mais moderado, com um controle relativo dos custos mais eficaz, ainda que com um ritmo de expansão menor. A proporção do custo dos produtos vendidos em relação à receita líquida revelou que Hypera, Eurofarma e Aché mantiveram proporções relativamente estáveis e em níveis inferiores aos das demais companhias. Isso sugere uma maior capacidade de controle e repasse de custos, mesmo em um cenário de pressão inflacionária e volatilidade cambial.
Em contraste, empresas como Biomm, Cimed, Blau e Teuto apresentaram proporções mais elevadas e, em alguns casos, crescentes ao longo do período, refletindo uma maior sensibilidade às variações nos custos de insumos. O período entre 2020 e 2022 concentrou as maiores oscilações na relação entre custos e receitas, evidenciando o impacto das disrupções na cadeia de suprimentos e do aumento dos preços de matérias-primas. A partir de 2023, observou-se uma maior estabilização desses indicadores em parte das empresas, ainda que em níveis superiores aos do período pré-pandêmico.
Em síntese, os resultados indicam que, embora o aumento dos custos de insumos tenha afetado o setor de forma generalizada, a intensidade desse impacto variou entre as empresas. Essa variação refletiu diferenças de porte, estrutura de custos e capacidade de adaptação operacional. Tais fatores influenciaram diretamente a preservação das margens e a sustentabilidade econômico-financeira no período analisado, conforme a literatura de Assaf Neto (2003) e Iudícibus (2009) sobre a importância da gestão de custos.
Análise dos indicadores econômico-financeiros
A análise dos indicadores econômico-financeiros permitiu avaliar a solidez financeira e a geração de resultados das empresas entre 2019 e 2024, abrangendo liquidez, endividamento, rentabilidade e eficiência operacional. Os indicadores de liquidez corrente evidenciaram comportamentos distintos. Parte das companhias, como Hypera e Cimed, apresentou redução dos níveis de liquidez entre 2020 e 2022, período de maior pressão sobre o capital de giro, com posterior estabilização ou recuperação nos anos seguintes.
Por outro lado, empresas como Blau e Althaia apresentaram elevação significativa da liquidez corrente ao longo do período, com destaque para os anos de 2021 e 2022, indicando maior capacidade de absorção de choques no curto prazo. Em contraste, a Eurofarma demonstrou uma trajetória de redução contínua, atingindo níveis inferiores a um em 2024, o que sugere uma maior restrição de liquidez no encerramento do período analisado. A análise da liquidez seca reforçou a relevância dos estoques na estrutura operacional das empresas do setor.
De modo geral, observou-se uma redução da liquidez seca em parte das companhias ao longo do período, especialmente entre 2020 e 2022, indicando maior dependência de estoques para a sustentação da liquidez. Empresas como Hypera, Cimed e Eurofarma apresentaram esse comportamento de forma mais evidente, enquanto Blau e Althaia mantiveram níveis relativamente mais elevados, sugerindo uma estrutura de ativos mais líquida e menos dependente de vendas rápidas de estoque para cobrir obrigações de curto prazo.
No que se refere à liquidez geral, os resultados indicaram maior heterogeneidade entre as empresas, especialmente em função da estrutura de endividamento de longo prazo. Companhias como Prati Donaduzzi, Aché e Teuto apresentaram maior estabilidade ao longo do período, enquanto outras, como Hypera e Eurofarma, mantiveram indicadores inferiores a um na maior parte dos anos. Isso evidenciou uma maior dependência da geração futura de caixa para o cumprimento de suas obrigações de longo prazo, um aspecto crítico para a sustentabilidade financeira.
Em geral, os resultados de liquidez indicaram que, embora a maioria das empresas tenha mantido capacidade de pagamento no curto prazo, o período entre 2020 e 2022 representou um momento de maior pressão sobre a liquidez. Os impactos foram diferenciados conforme a estrutura operacional e a gestão de capital de giro de cada companhia, ressaltando a importância de uma gestão financeira adaptativa em cenários de instabilidade, conforme apontado por Assaf Neto (2003) e Gitman (2004).
Os indicadores de endividamento revelaram trajetórias distintas na participação de capitais de terceiros. Algumas companhias, como Althaia e Cimed, apresentaram redução gradual do nível de alavancagem ao longo do período, convergindo para patamares mais moderados até 2024. Em contrapartida, empresas como Eurofarma e Aché demonstraram um aumento do endividamento ao longo dos anos, especialmente a partir de 2021, sugerindo uma maior utilização de capital de terceiros em suas estruturas de financiamento para sustentar o crescimento ou investimentos.
No caso da Blau, verificou-se uma elevada volatilidade no indicador de participação de capitais de terceiros, com um pico em 2020 e posterior redução, indicando mudanças relevantes na estrutura de capital ao longo do período. Já empresas como Prati Donaduzzi e Teuto apresentaram uma trajetória de redução mais consistente do endividamento, sinalizando maior equilíbrio financeiro e menor dependência de recursos externos ao final do período analisado, o que lhes conferiu maior solidez em um ambiente de incertezas.
Na composição do endividamento, observou-se relativa estabilidade para parte das companhias, como Hypera e Prati Donaduzzi, que mantiveram proporções equilibradas entre dívidas de curto e longo prazo. Por outro lado, empresas como Cimed e Teuto apresentaram aumento da participação de passivos de curto prazo ao longo do período, especialmente a partir de 2022. Isso pode indicar uma maior exposição a riscos de liquidez e a necessidade de refinanciamento, um ponto de atenção para a gestão financeira.
Destaca-se ainda o comportamento da Eurofarma, que apresentou elevação expressiva da participação de dívidas de curto prazo em 2024, sugerindo uma mudança significativa no perfil de endividamento. Em contraste, empresas como Aché e Althaia reduziram a proporção de obrigações de curto prazo ao longo do tempo, indicando um alongamento do perfil da dívida e, consequentemente, uma menor pressão imediata sobre o caixa. Essa estratégia de alongamento de dívidas pode conferir maior flexibilidade financeira.
No que se refere à imobilização do patrimônio líquido, os resultados indicaram diferentes estratégias de financiamento dos ativos permanentes. Empresas como Hypera e Eurofarma apresentaram níveis crescentes ao longo do período, com indicadores superiores a um em diversos anos, sugerindo maior utilização de capital de terceiros para financiar ativos fixos. Por outro lado, companhias como Teuto, Cimed e, mais recentemente, Althaia apresentaram redução desse indicador, indicando maior flexibilidade financeira e menor comprometimento do capital próprio com ativos de baixa liquidez, o que pode ser uma vantagem em períodos de incerteza.
De forma geral, os resultados de endividamento evidenciam que, ao longo do período de 2019 a 2024, houve movimentos relevantes de ajuste na estrutura de capital das empresas. Observou-se redução do endividamento em alguns casos e aumento em outros, refletindo diferentes estratégias financeiras adotadas diante do cenário de instabilidade econômica. Essa diversidade de abordagens estratégicas é um fator chave para a compreensão da resiliência do setor, conforme a literatura sobre gestão de capital (Assaf Neto, 2003; Iudícibus, 2009).
Os indicadores de rentabilidade evidenciaram a capacidade das empresas de gerar resultados em diferentes níveis, revelando não apenas o desempenho, mas também sua estabilidade. A análise conjunta das margens mostrou diferenças estruturais relevantes. Aché, Eurofarma e Hypera mantiveram margens brutas elevadas e relativamente estáveis, indicando forte capacidade de agregação de valor e maior controle sobre custos produtivos. Em contrapartida, empresas como Blau, Cimed e Teuto apresentaram maior volatilidade, especialmente a partir de 2021, refletindo maior sensibilidade ao aumento dos custos de insumos.
No nível operacional, observou-se maior dispersão nas margens. Hypera e Blau sustentaram margens elevadas até 2022, com redução posterior, enquanto Prati Donaduzzi e Althaia apresentaram evolução positiva ao longo do período, sugerindo ganhos de eficiência operacional. Já Cimed e Teuto demonstraram maior instabilidade, com deterioração relevante em 2021 e recuperação parcial nos anos seguintes, o que pode indicar desafios na gestão de despesas operacionais em períodos de crise.
Na margem líquida, os efeitos financeiros e tributários reforçaram essas diferenças. Hypera e Blau mantiveram bons níveis, embora com tendência de queda recente, enquanto a Eurofarma apresentou compressão mais acentuada a partir de 2023. Prati Donaduzzi, Aché e Althaia mostraram maior estabilidade, com destaque para a melhora recente da Althaia. A Biomm, por sua vez, apresentou margens negativas em todos os níveis, refletindo seu modelo intensivo em pesquisa e desenvolvimento, com maior pressão de custos e foco no longo prazo.
Os indicadores de retorno evidenciaram a eficiência na utilização dos recursos e a rentabilidade ao acionista. Observou-se tendência de redução do Retorno sobre Ativos (ROA) em empresas como Hypera, Blau e Eurofarma, indicando menor eficiência relativa nos anos mais recentes. Em contrapartida, Prati Donaduzzi apresentou evolução expressiva, especialmente em 2024, enquanto a Althaia demonstrou recuperação após 2022. A Biomm manteve retornos negativos, coerentes com sua estratégia de crescimento baseada em investimentos elevados, o que se alinha à literatura sobre modelos de negócio intensivos em inovação (Casadesus-Masanell, 2004).
O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) apresentou maior volatilidade, refletindo a influência da estrutura de capital. Aché, Prati Donaduzzi e Hypera mantiveram níveis positivos e relativamente consistentes, enquanto a Blau apresentou valores elevados nos primeiros anos, com posterior normalização. A Althaia apresentou forte distorção em 2019, associada a fragilidade patrimonial, seguida de estabilização. A Biomm permaneceu com ROE negativo ao longo de todo o período, refletindo prejuízos recorrentes e alto nível de investimento em P&D.
Os indicadores de eficiência operacional permitiram avaliar a utilização dos ativos e a gestão do capital de giro. No giro do ativo, Prati Donaduzzi e Althaia apresentaram níveis mais elevados em determinados anos, com destaque para o crescimento expressivo da Prati em 2024. Em contraste, Hypera e Biomm mantiveram giros mais baixos, compatíveis com modelos mais intensivos em ativos. Empresas como Blau e Eurofarma demonstraram tendência de redução do indicador ao longo do período, sugerindo que a expansão da base de ativos foi superior ao crescimento das receitas.
Na gestão de recebíveis, observou-se melhora em empresas como Hypera, Biomm, Prati Donaduzzi e Cimed, que reduziram seus prazos ao longo do tempo. Por outro lado, Althaia e Teuto apresentaram maior volatilidade, enquanto Eurofarma e Aché mantiveram maior estabilidade no prazo médio de recebimento. Em relação ao prazo médio de pagamento, destacou-se a estratégia de alongamento adotada por empresas como Cimed, indicando maior utilização de fornecedores como fonte de financiamento. A Biomm apresentou valor atípico em 2019, com posterior normalização, enquanto Hypera reduziu seus prazos ao longo do período. Aché, por sua vez, apresentou maior volatilidade, com queda acentuada em 2024, o que pode indicar mudanças na gestão de fornecedores.
O giro de estoques indicou diferenças na gestão operacional entre as empresas. Cimed e Althaia apresentaram giros mais elevados, sugerindo maior eficiência na rotação de estoques. Por outro lado, Hypera, Aché e Eurofarma mantiveram níveis mais baixos e estáveis, refletindo características estruturais do modelo produtivo. A Biomm apresentou evolução ao longo do período, enquanto Blau e Prati Donaduzzi indicaram tendência de redução do indicador. A análise conjunta dos indicadores econômico-financeiros evidenciou diferenças relevantes entre as empresas quanto à liquidez, estrutura de capital, rentabilidade e eficiência operacional, indicando que a eficiência do setor é influenciada por múltiplos fatores.
Análise de correlação linear
A fim de aprofundar a análise do desempenho econômico-financeiro, examinou-se a relação entre indicadores selecionados e variáveis macroeconômicas, como inflação (IPCA) e taxa de câmbio (USD/BRL). As empresas foram classificadas em três grupos conforme o comportamento dos indicadores. O Grupo A, composto por Hypera, Eurofarma, Aché e Prati Donaduzzi, reuniu empresas com maior estabilidade e manutenção de resultados positivos. O Grupo B, que incluiu Blau, Teuto, Cimed e Althaia, apresentou maior oscilação nos indicadores. Já o Grupo C foi representado pela Biomm, com desempenho persistentemente negativo.
Para o Grupo A, os coeficientes de correlação linear indicaram baixa associação entre as variáveis macroeconômicas e os indicadores de desempenho, tanto para o Retorno sobre Ativos (ROA) quanto para a margem operacional. Esse resultado sugere menor sensibilidade a variações de inflação e câmbio, indicando maior capacidade de absorção de choques externos e maior estabilidade operacional ao longo do período. Isso reforça a ideia de que a disciplina financeira e a gestão estratégica podem mitigar os impactos de fatores externos (Assaf Neto, 2003; Gitman, 2004).
No Grupo B, observou-se maior sensibilidade ao câmbio, especialmente no ROA e na margem operacional, com correlações negativas mais relevantes. Esse comportamento indica maior exposição a variações cambiais, possivelmente associada à dependência de insumos importados ou menor capacidade de repasse de custos. A relação com o IPCA permaneceu fraca, sugerindo um impacto menos direto da inflação sobre o desempenho dessas empresas, o que pode ser explicado por mecanismos de precificação ou repasse de custos específicos do setor.
No Grupo C, representado pela Biomm, a forte correlação positiva entre câmbio e margem operacional deve ser interpretada com cautela, uma vez que está associada a margens negativas e elevada volatilidade. Nesse contexto, o coeficiente perde capacidade explicativa como indicador de eficiência, refletindo principalmente a instabilidade dos resultados e a elevada exposição às variações cambiais, característica de empresas com alto investimento em P&D e dependência de insumos específicos.
De forma geral, os resultados da correlação evidenciam diferentes níveis de sensibilidade às variáveis macroeconômicas entre os grupos. Isso reforça a compreensão de que a resiliência econômico-financeira no setor farmacêutico está associada tanto à estrutura operacional quanto à capacidade de gestão frente a choques externos. A diversidade de respostas sugere que não há uma solução única para a sustentabilidade financeira, mas sim uma combinação de fatores internos e externos que moldam o desempenho das empresas.
Análise qualitativa
A análise qualitativa complementou os resultados quantitativos, buscando interpretar os diferentes níveis de desempenho econômico-financeiro observados. Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2011) nas notas explicativas das demonstrações contábeis. Observou-se que as empresas do Grupo A, caracterizadas por maior estabilidade de margens e eficiência operacional, apresentaram de forma recorrente práticas associadas à disciplina financeira, controle de custos e renegociação com fornecedores, além de investimentos em eficiência operacional.
Esses achados corroboram a literatura de Assaf Neto (2003) e Iudícibus (2009), que destacam a gestão eficiente de custos e a estrutura financeira equilibrada como fatores centrais para a sustentabilidade econômico-financeira, especialmente em ambientes de instabilidade. A capacidade de otimizar ativos e gerenciar insumos foi um diferencial para essas empresas, permitindo-lhes absorver ou repassar as pressões de custos de forma mais eficaz.
No Grupo B, os resultados evidenciam estratégias intermediárias, combinando iniciativas de eficiência com maior rigidez na estrutura de custos. A dependência de insumos importados e a presença de custos fixos elevados contribuíram para uma maior sensibilidade às variações cambiais. Esse achado está alinhado aos estudos de Dias et al. (2016) e Santos et al. (2025), que apontam a vulnerabilidade do setor à dependência externa de insumos. A pesquisa complementa essa literatura ao evidenciar que essa dependência impacta de forma heterogênea as empresas, conforme sua capacidade de gestão de custos e repasse de preços.
No Grupo C, representado pela Biomm, observou-se maior volatilidade nos resultados, com margens negativas e menor eficiência operacional. As evidências qualitativas indicam forte presença de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), característica típica de empresas de biotecnologia. Esse resultado dialoga com a literatura de Casadesus-Masanell (2004) e Salas-Fumás (2009), que destacam que modelos de negócio intensivos em inovação tendem a apresentar compressão de resultados no curto prazo em função do elevado investimento, com potencial geração de valor no longo prazo.
De forma geral, os achados desta pesquisa corroboram a literatura ao indicar que a sustentabilidade econômico-financeira não depende exclusivamente de fatores macroeconômicos, mas também das estratégias internas adotadas pelas empresas. O estudo avança ao evidenciar empiricamente, no contexto brasileiro recente, que empresas com maior disciplina financeira e flexibilidade operacional apresentam menor sensibilidade às oscilações de câmbio e inflação, o que lhes confere maior resiliência em cenários adversos.
Do ponto de vista gerencial, os resultados sugerem que práticas como controle rigoroso de custos, renegociação com fornecedores, investimentos em eficiência operacional e gestão equilibrada da estrutura de capital são determinantes para reduzir a exposição a choques macroeconômicos. Dessa forma, o estudo contribui para a tomada de decisão ao demonstrar que diferentes modelos de negócio implicam níveis distintos de resiliência financeira, especialmente em setores com elevada dependência de insumos importados, como o farmacêutico.
Em síntese, a avaliação da eficiência econômico-financeira das empresas do setor farmacêutico brasileiro entre 2019 e 2024 revelou que as organizações responderam de forma distinta a um ambiente desafiador de inflação, volatilidade cambial e disrupções na cadeia de suprimentos. Os impactos foram heterogêneos, com algumas empresas preservando margens e eficiência operacional, enquanto outras experimentaram maior volatilidade. A manutenção da eficiência esteve associada à disciplina financeira, controle de custos, gestão do capital de giro e flexibilidade operacional, ao passo que a dependência de insumos importados e estruturas de custos rígidas resultaram em maior sensibilidade às variações macroeconômicas, evidenciando que a resiliência é uma combinação de fatores internos e externos.
4. Conclusão
Este estudo teve como objetivo avaliar a eficiência econômico-financeira de empresas do setor farmacêutico brasileiro entre 2019 e 2024, período marcado por elevação dos custos de insumos, volatilidade cambial e pressões inflacionárias. Verificou-se que o impacto desses fatores sobre o desempenho das organizações foi heterogêneo, influenciado diretamente pela estrutura de custos, pela dependência de insumos importados e pelas estratégias de gestão adotadas. Observou-se que empresas com maior disciplina financeira, controle de custos e flexibilidade operacional demonstraram maior resiliência, conseguindo preservar margens de rentabilidade e eficiência operacional. Em contraste, organizações com estruturas mais rígidas ou intensivas em pesquisa e desenvolvimento apresentaram maior volatilidade nos indicadores, com compressão de resultados no curto prazo. A principal contribuição deste trabalho reside na evidência empírica, no contexto brasileiro recente, de que a sustentabilidade econômico-financeira no setor não depende apenas de fatores macroeconômicos, mas é fortemente moldada pelas decisões estratégicas internas. Do ponto de vista gerencial, os achados sugerem que práticas como controle rigoroso de custos, renegociação com fornecedores e gestão equilibrada da estrutura de capital são cruciais para mitigar a exposição a choques externos, oferecendo um guia para a tomada de decisão em um setor com alta dependência de insumos importados.
Como limitações do estudo, destaca-se a restrição da amostra e do período analisado, bem como a dependência da disponibilidade e padronização das informações contábeis. Adicionalmente, a utilização de valores monetários nominais, sem correção para uma data-base comum, e a natureza exploratória da análise de correlação, que indica associação e tendência, mas não causalidade, representam pontos de atenção. Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de análises segmentadas mais aprofundadas dentro do setor, a incorporação de variáveis operacionais e estratégicas adicionais, e a aplicação de métodos estatísticos mais robustos para investigar e testar possíveis relações causais entre as variáveis macroeconômicas e o desempenho econômico-financeiro das empresas. Conclui-se que a eficiência econômico-financeira das indústrias farmacêuticas brasileiras resulta de uma complexa interação entre o ambiente macroeconômico e as estratégias de gestão, sendo a capacidade de adaptação e a resiliência financeira elementos centrais para a sustentabilidade do negócio.
Referências Bibliográficas
Agência Nacional de Vigilância Sanitária [ANVISA]. 2006. Insumos farmacêuticos. Revista de Saúde Pública, 40(2): 359–360, São Paulo, SP, Brasil.
Capanema, L.X.L. 2006. A indústria farmacêutica brasileira e a atuação do BNDES. BNDES Setorial 23: 193-216.
Dias,
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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