07 de outubro de 2026
Detecção Não Supervisionada de Anomalias Comportamentais em Acessos Corporativos a Dados Sensíveis
Detecção Não Supervisionada de Anomalias Comportamentais em Acessos Corporativos a Dados Sensíveis
Jeferson Belinello da Silveira; Christian Duarte Caldeira
DOI: 10.22167/2675-6528-202603031
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A digitalização dos processos corporativos ampliou a exposição a ameaças internas, onde colaboradores com acesso legítimo a sistemas violam políticas de segurança. Partindo de teorias comportamentais da fraude, investigou-se a identificação proativa dessas ameaças. O objetivo foi propor e avaliar um sistema de detecção de anomalias estruturado em Análise de Redes Sociais (SNA), comparando a eficácia dos algoritmos não supervisionados Isolation Forest (IF) e Local Outlier Factor (LOF) na identificação de padrões de acesso atípicos em uma base de dados estocástica simulada. Para isso, utilizou-se um dataset de aproximadamente 1 milhão de logs, gerado estocasticamente, que modelou perfis probabilísticos com sobreposição de ruídos e acessos legítimos. A metodologia envolveu a modelagem das interações entre funcionários e clientes como um grafo bipartido ponderado por risco, e aplicou-se IF e LOF sobre métricas topológicas da rede e pontuações de risco forense. Os resultados demonstraram a superioridade do modelo LOF que, ao focar na densidade local, rompeu a camuflagem das anomalias e atingiu média Recall de 81,3% em múltiplas simulações, superando o desempenho do Isolation Forest (média Recall de 56%). A solução demonstrou ser uma abordagem viável e escalável para reforçar a ‘percepção de detecção’, fornecendo aos gestores uma base de acessos de alto risco para priorizar investigações precisas, em estrita conformidade com a LGPD.
Palavras-chave: Análise de Redes Sociais; Detecção de anomalias; Fraude interna; LGPD; Machine Learning.
1. Introdução
A digitalização dos processos corporativos, embora tenha impulsionado a eficiência operacional, ampliou significativamente a exposição das organizações a ameaças internas. Estas ameaças são caracterizadas por colaboradores que, detendo acesso legítimo a sistemas, violam políticas de segurança. O Relatório de Investigações de Violação de Dados da Verizon (2023) destaca que aproximadamente 74% de todos os incidentes de segurança envolvem o elemento humano. Diferentemente dos ataques cibernéticos externos, que necessitam romper barreiras de infraestrutura, o risco interno é insidioso, pois o agente malicioso opera dentro do perímetro de segurança com credenciais válidas. A Association of Certified Fraud Examiners (ACFE, 2024) descreve a “fraude ocupacional” como o uso da posição profissional para enriquecimento pessoal, atuando como um fator de corrosão silenciosa nas organizações (Pinheiro e Silva Cunha, 2003). O impacto financeiro é substancial, com perdas médias estimadas em cinco por cento da receita anual das empresas, e o relatório global da ACFE (2024) registrou, em 1.921 casos reais analisados, prejuízos superiores a 3,1 bilhões de dólares, com um prejuízo mediano de 145.000 dólares por incidente.
No contexto brasileiro, a materialidade deste risco é frequentemente evidenciada por operações da Polícia Federal (PF). Em 2025, investigações revelaram esquemas estruturados de peculato digital operados por funcionários com credenciais ativas em instituições como a Caixa Econômica Federal (Polícia Federal, 2025a; 2025c; 2025d). Somente nestes casos locais, o prejuízo direto causado por colaboradores ultrapassa os 4,6 milhões de reais. Estes episódios, que ocorrem de forma sistêmica em diversas regiões do país (Polícia Federal, 2025b), demonstram que a confiança incondicional nos colaboradores não é uma política de segurança viável, reforçando a urgência e a relevância financeira do tema. A complexidade e materialidade desse risco evoluem em paralelo às transformações estruturais do mercado e da sociedade. A digitalização crescente e a expansão do acesso a serviços no cenário financeiro brasileiro, conforme o Banco Central do Brasil (2025), aumentaram o volume de interações e o tráfego de dados sensíveis. Este fenômeno, somado a mudanças demográficas como o envelhecimento populacional (IBGE, 2024), diversifica a base de usuários e exige soluções adaptativas e escaláveis, pois métodos tradicionais de auditoria perdem eficácia diante da alta volumetria e exposição prolongada de dados.
Para o desenho de sistemas de monitoramento eficazes, é fundamental distinguir anomalias geradas por erros (desatenção ou falha de processo) daquelas geradas por fraudes. A ACFE (2024) define fraude como o uso deliberado da posição profissional para obtenção de ganhos próprios ou enriquecimento ilícito, resultando em lesão aos recursos da instituição. A compreensão etiológica deste comportamento baseia-se historicamente no Triângulo da Fraude, que postula a ocorrência do ilícito pela convergência simultânea de três fatores: pressão, oportunidade e racionalização (Borba e Maragno, 2017). Contudo, no contexto de acessos corporativos a bases de dados complexas, a literatura evoluiu para o modelo do Diamante da Fraude (Boldt, 2025), que adiciona um quarto elemento decisivo: a capacidade técnica, onde o agente malicioso explora suas habilidades e conhecimento dos sistemas para extrair dados sem ser detectado.
Este risco, especialmente no setor bancário, é agravado pelas exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) (Brasil, 2018). O acesso não motivado de um funcionário a cadastros, extratos ou históricos financeiros de clientes, mesmo sem desvio financeiro imediato, configura um incidente de segurança e violação de privacidade. Tradicionalmente, as instituições utilizam auditorias por amostragem e sistemas baseados em regras determinísticas, que disparam alertas apenas ao ultrapassar limites volumétricos. No entanto, como demonstram Chandola, Banerjee e Kumar (2009), fraudadores modernos diluem seus acessos indevidos em comportamentos aparentemente normais, tornando os sistemas estáticos ineficazes na detecção da “fraude camuflada” e gerando muitos falsos positivos. É neste cenário que a Inteligência Artificial, especificamente modelos de Machine Learning Não Supervisionado (Goldstein e Uchida, 2016), torna-se crucial, pois o sigilo bancário restringe o uso de bases reais com fraudes rotuladas (Lerner e Flach, 2024), tornando as simulações estocásticas uma via científica e ética. O uso de Grafos e Análise de Redes Sociais (SNA) permite avaliar o risco das interações funcionário-cliente (Akoglu, Tong e Koutra, 2015), e a implementação de IA no combate à fraude interna visa instigar uma forte “percepção de detecção” (ACFE, 2024), atuando como mecanismo de controle preventivo.
Diante da complexidade e da materialidade das ameaças internas, e da ineficácia das abordagens tradicionais, justifica-se a necessidade de desenvolver e avaliar sistemas preditivos de detecção de anomalias. Assim, o presente trabalho tem como objetivo propor e avaliar um sistema de detecção de anomalias estruturado em Análise de Redes Sociais (SNA), analisando e comparando a eficácia dos algoritmos não supervisionados Isolation Forest (IF) e Local Outlier Factor (LOF) na identificação de padrões de acesso atípicos em uma base de dados estocástica simulada.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada de abordagem quantitativa (Gil, 2008; Richardson, 1999). Teve como objetivo propor e avaliar um sistema de detecção de anomalias comportamentais em acessos corporativos a dados sensíveis, empregando técnicas de Machine Learning Não Supervisionado. A escolha por esta abordagem foi ditada pela restrição de acesso a bases de dados reais com fraudes rotuladas, em observância ao sigilo bancário e à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) (Lerner e Flach, 2024).
Para superar a escassez de dados reais e assegurar a reprodutibilidade, construiu-se uma base de dados sintética estocástica, totalizando aproximadamente 1 milhão de registros de log. Esta simulação modelou perfis probabilísticos de comportamento legítimo com ruído, fraude camuflada e fraude volumétrica. Uma semente aleatória fixa (random seed = 77) foi empregada para garantir a determinística das distribuições e a replicação exata. O dataset simulado compreendeu 1.000 funcionários, 47.980 clientes e 990.570 registros de acesso.
A estrutura de dados foi organizada em três bases interligadas: Funcionários (`id_funcionario`, `id_filial`), Clientes (`id_cliente`, `id_filial_agencia`, `status_conta`) e Logs de Acesso (`id_funcionario`, `id_cliente`, `timestamp_acesso`, `fraude_simulada`). A variável `fraude_simulada` não foi utilizada durante o treino, servindo como Ground Truth para validação. A parametrização comportamental da simulação estocástica estabeleceu três perfis com sobreposição: legítimo com ruído (98,5% da base), fraude camuflada e fraude volumétrica. Quinze funcionários foram calibrados como fraudadores, divididos em táticas de Exploradores, Necros e Reativadores.
Os metadados temporais (`timestamps dos logs`) emularam o horário comercial, com 96% dos acessos concentrados entre 08h00 e 17h59, e 4% distribuídos como acessos atípicos. A metodologia adotou a Análise de Redes Sociais (SNA), fundamentada na Teoria dos Grafos, para modelar as interações entre funcionários e clientes (Akoglu, Tong e Koutra, 2015). Funcionários e clientes foram representados como “Nós”, e os registros de acesso como “Arestas” em um grafo bipartido ponderado. Para extrair atributos topológicos, utilizaram-se o Grau Ponderado e o PageRank (Page et al., 1999).
Para mitigar o “Paradoxo do Volume” e a “cegueira semântica” do PageRank em redes heterogêneas, implementou-se uma Engenharia de Atributos baseada em uma Heurística de Pontuação Forense Ponderada. Atribuiu-se pesos exponenciais aos acessos conforme a criticidade: contas de clientes falecidos receberam peso 10; contas inativas e acessos cross-filial receberam peso 5; e acessos regulares receberam pesos fracionários (0,3 e 0,5). As variáveis derivadas incluíram `total_acessos`, `v_fal`, `v_ina`, `v_cro` e a `Pontuação Total` (soma das volumetrias multiplicada pelos pesos de negócio).
Para a detecção de anomalias, comparou-se o desempenho de dois algoritmos não supervisionados: Isolation Forest (IF) (Liu, Ting e Zhou, 2008) e Local Outlier Factor (LOF) (Breunig et al., 2000). O IF foca no isolamento de anomalias globais, enquanto o LOF adota uma abordagem baseada na densidade local, sensível a desvios comportamentais camuflados (Chandola, Banerjee e Kumar, 2009). O hiperparâmetro de contaminação foi ajustado para 1,5%. Não se realizou a divisão tradicional dos dados em treino e teste, e os algoritmos operaram em um cenário “cego” (zero-shot learning).
Para avaliar a capacidade de generalização, realizou-se uma validação cruzada através de múltiplas simulações (Monte Carlo). A semente estocástica do gerador de dados foi alterada sequencialmente, criando cinco cenários independentes, cada um gerando uma nova topologia de rede. O desenvolvimento computacional foi realizado em Python, utilizando a biblioteca NetworkX para a modelagem de grafos e scikit-learn para os algoritmos de Machine Learning. Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) foram empregados como suporte computacional para estruturação e otimização de código, em conformidade com o Manual de Boas Práticas (Pecege, 2025).
3. Resultados e Discussão
A investigação dos padrões de acesso atípicos em ambientes corporativos sensíveis revelou insights cruciais sobre a eficácia de algoritmos de detecção de anomalias não supervisionados. Os resultados obtidos a partir de uma base de dados estocástica simulada, com aproximadamente 1 milhão de registros, permitiram validar a metodologia proposta e comparar o desempenho do Isolation Forest (IF) e do Local Outlier Factor (LOF). O estudo demonstrou que a modelagem das interações como um grafo bipartido, ponderado por risco, aliada a uma arquitetura híbrida de Machine Learning, é uma abordagem promissora para identificar ameaças internas camufladas, superando as limitações das metodologias tradicionais baseadas em regras determinísticas e volumetria simples.
A análise exploratória dos dados (EDA) foi fundamental para compreender a complexidade do ambiente simulado e validar a representatividade das anomalias inseridas. O histograma da métrica de Grau Ponderado, por exemplo, evidenciou uma concentração de funcionários legítimos em pontuações de risco mais baixas, enquanto o box-plot demonstrou que a aplicação de pontuações forenses elevou a mediana de risco para os perfis fraudulentos. Esta distinção inicial, contudo, não se traduziu em uma separabilidade linear óbvia, confirmando a necessidade de abordagens mais sofisticadas para a detecção.
A matriz de correlação das variáveis derivadas revelou altas correlações entre atributos volumétricos, como o Total de Acessos e a Pontuação Total, o que era esperado devido à derivação algébrica da pontuação de risco a partir da volumetria e pesos forenses. No entanto, a métrica topológica PageRank manteve uma correlação substancialmente mais baixa com as métricas de volume absoluto. Este achado é crucial, pois a introdução de uma variável topológica não-linear, como o PageRank, foi projetada para romper o determinismo e permitir que os modelos de Machine Learning diferenciassem um funcionário com alto volume de trabalho legítimo de um fraudador camuflado, abordando o que se denominou “Paradoxo do Volume”.
O gráfico de dispersão, ou scatter plot, ilustrou visualmente a premissa central do estudo: a sobreposição comportamental. Ao cruzar o PageRank com o Grau Ponderado, observou-se uma densa sobreposição espacial entre as ações atípicas dos funcionários legítimos (ruído) e as dos fraudadores. Esta representação confirmou que as fronteiras de decisão lineares, típicas de sistemas estáticos baseados em regras, seriam ineficazes para separar as classes de risco. A dispersão e sobreposição dos dados justificaram estatisticamente a adoção de algoritmos não supervisionados, capazes de interpretar anomalias de densidade local, conforme destacado por Chandola, Banerjee e Kumar (2009).
A etapa de processamento topológico e visualização da rede (SNA) validou a escalabilidade da modelagem por grafos. A rede bipartida, composta por 48.980 nós (funcionários e clientes) e cerca de 990 mil registros de interação consolidados em arestas ponderadas, foi instanciada com sucesso em memória. A extração de métricas topológicas, como Grau Ponderado e PageRank, demonstrou ser computacionalmente viável, permitindo a avaliação da influência de risco de cada colaborador com base no peso das ligações e na centralidade atípica das interações.
Contudo, reconheceu-se que o PageRank tradicional possui limitações em redes heterogêneas, sofrendo de “cegueira semântica” por não diferenciar a natureza qualitativa dos nós ou o risco de negócio associado às conexões. Para mitigar essa limitação e adequar o modelo à realidade da auditoria forense, adotou-se uma arquitetura híbrida. O escore do PageRank foi utilizado como uma variável topológica dentro de um espaço multidimensional, concatenado com uma Pontuação Forense ponderada que atribui pesos específicos baseados no risco regulatório e no estado da conta do cliente. Essa abordagem permitiu uma detecção de anomalias altamente contextualizada, cruzando a centralidade estrutural com a gravidade jurídica dos acessos.
No comparativo de desempenho dos modelos não supervisionados, o algoritmo Isolation Forest (IF), parametrizado com 2.000 estimadores, obteve um Recall de 0,60, Precision de 0,60 e F1-Score de 0,60. Embora o IF tenha isolado perfis com anomalias globais extremas, gerando seis falsos positivos, ele falhou em identificar 40% dos fraudadores mais cautelosos. Este resultado sugere que, ao focar no isolamento global, o IF pode ter dificuldade em detectar fraudes que se camuflam no comportamento normal, conforme a teoria do Diamante da Fraude (Boldt, 2025) que enfatiza a capacidade do fraudador de explorar o conhecimento dos sistemas para evitar detecção.
Em contrapartida, o modelo Local Outlier Factor (LOF), utilizando a distância de Manhattan e avaliando os 25 vizinhos mais próximos, demonstrou um desempenho significativamente superior. O LOF alcançou um Recall de 0,80, Precision de 0,80 e um F1-Score de 0,80. A análise detalhada revelou que o LOF conseguiu capturar doze dos quinze fraudadores simulados, com apenas três falsos positivos entre os quinze alertas gerados, resultando em uma Precision de 80%. Este desempenho indica que o LOF, ao focar na densidade local, foi mais eficaz em romper a camuflagem das anomalias, que se manifestam como desvios em relação à vizinhança topológica imediata, e não necessariamente como anomalias globais.
A superioridade do LOF é atribuída à sua capacidade de identificar desvios comportamentais inéditos de caráter local, que muitas vezes são confundidos com atividades lícitas, superando as táticas de evasão conhecidas como “Low and Slow Attacks” (Chandola, Banerjee e Kumar, 2009). Esta característica é particularmente relevante em cenários de fraude interna, onde os agentes maliciosos buscam diluir suas ações indevidas em um volume massivo de transações legítimas. A capacidade do LOF de focar na densidade local permitiu que o modelo rompesse essa camuflagem, identificando padrões de acesso atípicos que o Isolation Forest não conseguiu isolar com a mesma eficácia.
Para consolidar a análise comparativa e avaliar a capacidade de generalização dos modelos, realizou-se uma validação cruzada por meio de múltiplas simulações de Monte Carlo. Ao alterar sequencialmente a semente estocástica do gerador de dados, foram criados cinco cenários independentes, cada um com uma nova topologia de rede e distribuição de ruído operacional e agentes maliciosos. Esta abordagem mitigou o viés de uma amostra única e testou a robustez dos algoritmos em diferentes condições.
Os resultados da validação cruzada confirmaram a robustez da arquitetura baseada na densidade local do LOF. O modelo apresentou um Recall médio de 81,3% na detecção da classe Fraude, atingindo picos de 86,6% de identificação correta das ameaças ocultas na maioria dos cenários. Em contraste, o Isolation Forest demonstrou alta sensibilidade às variações da rede, com sua eficácia caindo para menos de 50% no Cenário 1 e estagnando em uma média geral de 56%. Este distanciamento nas métricas de desempenho reflete as limitações teóricas dos algoritmos baseados em volume, que focam em anomalias globais e permitem a evasão de fraudes oportunistas.
Atingir uma taxa média de detecção (Recall) superior a 81% em um cenário com extremo desbalanceamento de classes (apenas 1,5% de anomalias) reveste-se de particular relevância científica e operacional. Na literatura de Machine Learning aplicada à auditoria, a avaliação de desempenho de algoritmos estritamente não supervisionados é desafiadora, pois não possuem conhecimento prévio dos rótulos durante a fase de treino (Goldstein e Uchida, 2016). O fato de o modelo LOF, ancorado na topologia de grafos, ter sustentado este alto desempenho ao longo da validação cruzada demonstra um nível de eficácia altamente competitivo em relação aos padrões acadêmicos da detecção de anomalias pontuais.
Do ponto de vista prático e de negócio, este resultado resolve a necessidade delineada na introdução do estudo. A alta taxa de captura, aliada a um baixo índice de alarmes falsos, traduz-se em uma ferramenta de triagem forense promissora. Em um ambiente corporativo real, regido pelos rigores da LGPD (Brasil, 2018), essa assertividade otimiza os esforços de investigação da equipe humana e evita a fricção organizacional de falsas acusações contra funcionários de alta produtividade. Este nível de precisão cumpre o objetivo de criar uma forte “percepção de detecção” (ACFE, 2024), dissuadindo ameaças internas sem sobrecarregar operacionalmente os sistemas de resposta a incidentes da instituição.
Um diferencial estratégico desta arquitetura baseada em Análise de Redes Sociais (SNA) reside na sua extrema parametrização e flexibilidade arquitetural. Ao modelar as interações de acesso como um grafo ponderado, o sistema viabiliza a atribuição de “pesos” dinâmicos às arestas, calibrados de acordo com características granulares das operações, como o horário, a volumetria ou o estado da conta, e a sensibilidade dos dados do cliente. Esta plasticidade metodológica reflete o estado da arte na transição dos sistemas estáticos de cibersegurança para arquiteturas orientadas a dados (Mahajan, 2024).
Ao contrário dos sistemas obsoletos baseados em regras volumétricas, a solução baseada em Machine Learning é inerentemente autoadaptável, atuando em tempo real para verificar sinais contínuos de alterações comportamentais (Soares, 2020). Caso as tipologias de fraude evoluam, a instituição não necessita reestruturar os algoritmos centrais; basta ajustar a função de ponderação do grafo. Esta capacidade de adaptação garante um mecanismo de melhoria contínua, permitindo que a “percepção de detecção” evolua em simetria com a sofisticação das ameaças, culminando em um sistema forense inteligente, dinâmico e estritamente alinhado com as exigências de privacidade da LGPD.
Em síntese, os resultados desta pesquisa confirmam que a detecção proativa de anomalias comportamentais em acessos corporativos a dados sensíveis é viável e eficaz por meio de uma abordagem híbrida que integra Análise de Redes Sociais e algoritmos de Machine Learning não supervisionados. A superioridade do Local Outlier Factor na identificação de fraudes camufladas, aliada à robustez demonstrada em múltiplas simulações, oferece uma ferramenta poderosa para reforçar a segurança interna, otimizar investigações e garantir a conformidade com as regulamentações de proteção de dados, respondendo diretamente ao objetivo de propor e avaliar um sistema de detecção de anomalias.
4. Conclusão
O presente estudo buscou propor e avaliar um sistema de detecção de anomalias estruturado em Análise de Redes Sociais (SNA), comparando a eficácia dos algoritmos não supervisionados Isolation Forest (IF) e Local Outlier Factor (LOF) na identificação de padrões de acesso atípicos em uma base de dados estocástica simulada. Verificou-se que a digitalização dos processos corporativos ampliou a exposição a ameaças internas, onde colaboradores com acesso legítimo violam políticas de segurança, e que métodos tradicionais de auditoria se mostravam ineficazes contra a fraude camuflada. A metodologia envolveu a modelagem das interações entre funcionários e clientes como um grafo bipartido ponderado por risco, utilizando um dataset de aproximadamente 1 milhão de logs gerados estocasticamente para mimetizar comportamentos anômalos e ruídos operacionais. Os resultados demonstraram a superioridade do modelo LOF que, ao focar na densidade local, rompeu a camuflagem das anomalias e atingiu um Recall médio de 81,3% em múltiplas simulações, superando o desempenho do Isolation Forest, que obteve um Recall médio de 56%. Esta abordagem híbrida, que concatenou métricas topológicas da rede com pontuações de risco forense, mostrou-se crucial para contextualizar a detecção e superar a “cegueira semântica” do PageRank tradicional, diferenciando acessos legítimos de alto volume de ações fraudulentas.
A principal contribuição do estudo reside na proposição de uma abordagem viável e escalável para a detecção proativa de ameaças internas, reforçando a “percepção de detecção” e fornecendo aos gestores uma base de acessos de alto risco para priorizar investigações precisas, em estrita conformidade com a LGPD. A solução representa uma transição dos sistemas estáticos baseados em regras para arquiteturas autoadaptáveis e orientadas a dados, capazes de evoluir com as tipologias de fraude. Contudo, a pesquisa utilizou uma base de dados estocástica simulada devido às restrições de sigilo bancário e LGPD, o que exige validação em ambientes reais para uma implementação completa. Para estudos futuros, sugere-se a implementação de um mecanismo de feedback loop, onde os resultados das investigações humanas sobre os alertas gerados retroalimentam o modelo, permitindo que a inteligência artificial ajuste continuamente sua sensibilidade topológica e aprenda novos padrões de fraude, mitigando falsos positivos e adaptando-se à evolução das ameaças.
Referências Bibliográficas
Association of Certified Fraud Examiners [ACFE]. 2024. Fraude Ocupacional 2024: Um Relatório para as Nações. Disponível em: Relatório ACFE 2024 para as Nações. Acesso em: 20 set. 2025.
Pinheiro, G.J.; Silva Cunha, L.R. 2003. A importância da auditoria na detecção de fraudes. Contabilidade Vista & Revista 14(1): 31-47.
Polícia Federal. 2025a. PF prende em flagrante funcionário da Caixa por peculato digital no Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2025/09/pf-prende-em-flagrante-funcionario-da-caixa-por-peculato-digital-no-rio-de-janeiro. Acesso em: 11 out. 2025.
Polícia Federal. 2025c
Verizon. 2023. Relatório de Investigações de Violação de Dados de 2023: Visão geral do setor público. Disponível em: https://www.verizon.com/business/resources/Ta5a/reports/2023-dbir-public-sector-snapshot.pdf. Acesso em: 03 set. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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