Gestão Escolar
06 de outubro de 2026
A escola não é um cassino: quando figurinhas viram moeda no pátio
Por que, para determinados estudantes, a escola consegue oferecer tão poucas experiências de conquista?

A Copa do Mundo acabou. O Brasil deixou a competição, vieram as férias escolares, a final foi disputada e o calendário do futebol seguiu adiante. Seria razoável imaginar que, com o fim do torneio e o retorno às aulas, também começasse a desaparecer uma de suas febres paralelas. Não desapareceu.
Há um novo velho som que continua ecoando pelos corredores e pátios de algumas escolas. É seco, forte, repetitivo. Um “tapão” abafado que se ouve no intervalo e, quando a vigilância permite, também dentro da sala de aula.
É o bafo, antiga brincadeira em que figurinhas são empilhadas no chão ou sobre uma superfície e golpeadas com as palmas das mãos. As que viram com o golpe ficam com o jogador que conseguiu virá-las.
Durante a Copa, nada havia de particularmente surpreendente nisso. O álbum oficial transformou-se, como ocorre periodicamente, em fenômeno entre crianças e colecionadores. Como publicou a Folha de S.Paulo, em 14 de maio, antes mesmo do início da competição, escolas paulistas já estabeleciam horários e regras para as trocas, procurando evitar que a brincadeira interferisse na rotina escolar e produzisse conflitos. O bafo aparecia, então, como uma das principais fontes de desentendimentos.
O curioso é que a Copa terminou em 19 de julho, a febre, não. Nada disso é realmente novo.
Mudaram os jogadores, os craques estampados nos pequenos retângulos de papel, e aumentou consideravelmente o preço dos pacotes. O jogo, entretanto, atravessou gerações.
E talvez justamente por conhecê-lo desde a infância sejamos inclinados a considerá-lo inofensivo. Em princípio, ele é. Colecionar figurinhas proporciona encontros, conversas e negociações. Uma figurinha repetida para uma criança pode ser justamente aquela que falta no álbum de outra. Trocar aproxima, exige conversa e produz uma experiência de sociabilidade bastante bem-vinda numa época em que tanto nos preocupamos com crianças isoladas diante de telas.
O problema começa quando a figurinha percorre alguns passos adiante em sua cadeia de valor.
Ela nasce como mercadoria. Alguém pagou pelo pacote. Aberto o envelope, porém, aqueles pequenos retângulos deixam de possuir valores equivalentes. Uma repetida vale pouco para quem já a possui, mas pode valer muito para quem a procura. Certos jogadores das seleções são mais desejados, há figurinhas especiais e, rapidamente, estabelece-se entre os colecionadores uma espécie de cotação informal.
Nesse estágio, temos basicamente uma negociação. O bafo acrescenta outro elemento à cadeia: a aposta. As figurinhas são colocadas em disputa. Os participantes sabem que aquelas que forem viradas mudarão de proprietário. Já não se trata de trocar algo que tenho por algo que desejo, mas de arriscar aquilo que possuo para conquistar aquilo que pertence ao outro. É aí que a comparação com um pequeno cassino começa a fazer algum sentido.
Naturalmente, ela tem limites. O bafo não é um jogo puramente aleatório. Há habilidade envolvida, e muita. Os praticantes aperfeiçoam a posição das mãos, a intensidade do golpe e a maneira de produzir o deslocamento de ar capaz de virar as figurinhas. Treinam constantemente e, na falta delas, tentam virar borrachas, folhas, pequenos cadernos e outros objetos.
Com a prática, alguns se tornam muito bons. Passam a acumular quantidades consideráveis de figurinhas, enquanto outros entram no jogo com algumas e saem sem nenhuma. A coleção começa então a funcionar como uma pequena economia paralela, na qual existem patrimônio, risco, ganho, perda, acumulação e também certo prestígio associado à habilidade do jogador.
É nessa altura que aquilo que acontece no chão do pátio começa a chegar à sala dos professores e à direção.
A reportagem da Folha já registrava escolas preocupadas com diferenças de habilidade, trocas consideradas injustas e conflitos decorrentes do bafo. Algumas passaram a estabelecer horários específicos para as figurinhas; outras procuraram diferenciar a brincadeira recreativa daquela em que efetivamente acontecem apostas.
Uma criança pode concordar em colocar suas figurinhas no jogo e descobrir, minutos depois, que perdeu tudo. Pode se arrepender ou acreditar que alguma regra foi descumprida. O vencedor, por sua vez, dificilmente aceitará devolver aquilo que considera ter conquistado de maneira legítima.
Quando isso acontece, sobra para a escola decidir o que fazer com uma relação que nasceu entre os próprios estudantes. Quem perdeu e se arrependeu deve receber as figurinhas de volta? O resultado da partida deve ser respeitado? Até que ponto a escola pode admitir que uma criança saia com dezenas de figurinhas que chegaram nas mochilas de outras?
São questões aparentemente pequenas, mas que podem gerar grandes problemas. Discussões prosseguem na forma de provocações e ameaças e, em situações mais graves, podem chegar a brigas e agressões. Evidentemente, a figurinha não produz violência por geração espontânea. A aposta, porém, cria mais uma oportunidade para o conflito e acrescenta um componente delicado: a conquista de um depende necessariamente da perda do outro.
Há ainda outro aspecto desse fenômeno que me parece mais preocupante. No cotidiano escolar, observam-se relações muito diferentes com o jogo. Há estudantes que trocam algumas figurinhas no recreio, participam eventualmente de uma partida e, quando toca o sinal, guardam tudo na mochila. Outros continuam envolvidos com elas durante praticamente todo o período em que permanecem na escola.
Jogam antes da aula, no intervalo e na saída. Combinam partidas durante as atividades, organizam seus maços, procuram adversários e treinam os golpes. E há uma coincidência que merece reflexão: não raramente, alguns dos jogadores mais dedicados estão também entre aqueles que menos se dedicam às atividades escolares.
Não apresento isso como resultado de pesquisa científica. É uma observação do cotidiano docente e não permite estabelecer uma relação de causa e efeito. Seria precipitado dizer que o bafo afasta esses alunos dos estudos. Talvez valha a pena pensar no movimento contrário.
Afirmação
Estudantes que já se afastaram da aprendizagem podem encontrar no jogo aquilo que deixaram de encontrar na sala de aula. Um aluno que acumulou dificuldades de leitura, escrita ou matemática convive diariamente com atividades que exigem dele justamente aquilo que tem maior dificuldade para realizar. Com o tempo, estudar pode se transformar numa sucessão de experiências frustrantes.
No bafo, a situação pode ser outra. Ele conhece as regras, domina a técnica, enfrenta adversários, vence partidas, acumula figurinhas e passa a ser reconhecido por uma habilidade que os demais respeitam. Enquanto nas atividades escolares frequentemente necessita de ajuda, no jogo pode se tornar referência entre os colegas. É uma diferença importante.
Para alguns estudantes, talvez esteja aí parte da explicação para a brincadeira se transformar em refúgio. Além do entretenimento, encontram afirmação, pertencimento e uma experiência concreta de competência. O estudante que dificilmente se destaca numa atividade de leitura pode tornar-se um adversário respeitado no bafo. Nesse caso, proibir as figurinhas resolve o problema imediato, mas não aquilo que está por trás dele.
A questão se torna particularmente interessante depois da restrição aos celulares nas escolas. Retiramos das mãos dos estudantes aparelhos sofisticados, conectados a redes globais e abastecidos por algoritmos desenvolvidos para disputar permanentemente sua atenção. Agora descobrimos que alguns pedaços de papel também são capazes de mobilizá-los intensamente.
Tal constatação deveria servir pelo menos para relativizar a ideia de que o problema da atenção escolar nasceu com o smartphone.
Em 2014, uma escola de São José dos Campos já enfrentava estudantes trocando e batendo figurinhas durante as aulas. Em vez de simplesmente proibir a brincadeira, criou um campeonato de bafo durante os intervalos, procurando dar à atividade um lugar e um tempo determinados.
É uma experiência interessante porque a escola não precisa perseguir tudo aquilo que diverte uma criança. A questão não é decidir se figurinhas são boas ou ruins, mas perceber quando determinada brincadeira começa a interferir de forma persistente no tempo destinado à aprendizagem, sobretudo entre estudantes que já mantêm uma relação frágil com ela.
Há uma diferença importante entre as recompensas oferecidas pelas duas experiências. Aprender a ler exige tempo. Escrever bem também. Dominar cálculos requer exercício, erro, retomada e persistência. No bafo, o resultado vem em poucos segundos: colocam-se as figurinhas no chão, prepara-se a mão, bate-se e logo se sabe quem ganhou.
Não precisamos demonizar essa satisfação para compreender sua potência. Talvez precisemos perguntar por que, para determinados estudantes, a escola consegue oferecer tão poucas experiências de conquista que possam competir com ela. A Copa acabou e, em algum momento, a febre das figurinhas também acabará. Outro jogo, outra moda ou outro objeto provavelmente ocupará seu lugar.
Por isso, simplesmente proibir talvez seja uma resposta insuficiente. Quando retiramos das mãos de uma criança aquilo que a distrai da escola, resta saber o que temos para colocar em seu lugar. A escola não é um cassino. Mas fechar as mesas de jogo não resolve tudo se alguns de seus jogadores já não encontram, fora delas, razões suficientes para se interessar pelo que acontece na sala de aula.
Quem publicou esta coluna
Roberto Munhoz










