Imagem Viabilidade financeira de investimentos em ativos no setor hospitalar brasileiro

09 de fevereiro de 2026

Viabilidade financeira de investimentos em ativos no setor hospitalar brasileiro

Pablo Padre Correia; Rafael Confetti Gatsios

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O setor de saúde brasileiro, que representa aproximadamente 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 (IBGE, 2023), é um pilar fundamental da economia nacional, mas enfrenta desafios estruturais e conjunturais que demandam uma gestão cada vez mais profissionalizada. O país possui mais de 6.000 hospitais, dos quais 70% são privados, evidenciando o peso do setor na economia e na geração de empregos qualificados (CNSaúde, 2023). Dados da Associação Nacional de Hospitais Particulares (ANAHP, 2024) indicam uma queda expressiva da Margem EBITDA sobre a Receita Líquida, que recuou de 19,60% para 11,89% em um curto período.

Paralelamente, o setor passa por um intenso processo de consolidação, com o avanço de fusões e aquisições (ANAHP, 2021). Novas tendências impactam profundamente a gestão hospitalar, exigindo adaptação e investimentos estratégicos. A digitalização dos serviços, impulsionada por inovações como a telemedicina, o prontuário eletrônico do paciente e a aplicação de inteligência artificial para diagnóstico e gestão, está redefinindo a prestação de cuidados (Machado; Bittar; Ferreira, 2020). Essas tecnologias prometem ganhos de eficiência e qualidade, mas sua implementação demanda capital e uma reestruturação de processos. Cresce também a importância de práticas alinhadas aos princípios de ESG (Environmental, Social and Governance), com hospitais sendo pressionados por investidores, pacientes e pela sociedade a adotar iniciativas de sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança corporativa transparente (Oliveira; Silva, 2022).

Adicionalmente, o aumento das exigências regulatórias da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e de órgãos de acreditação, como a Organização Nacional de Acreditação (ONA), impõe padrões elevados de qualidade e segurança, demandando investimentos constantes em infraestrutura, treinamento de equipes e otimização de processos (Portela et al., 2021). A literatura especializada reforça a importância da avaliação econômico-financeira como ferramenta indispensável para a tomada de decisão em investimentos de capital. Assaf Neto (2014) destaca o papel do planejamento financeiro de longo prazo, que permite antecipar desequilíbrios de caixa e selecionar projetos que efetivamente maximizem o valor da organização.

A análise de fluxo de caixa descontado, segundo o autor, é a metodologia mais adequada para incorporar o valor do dinheiro no tempo e o risco associado ao projeto. Martins (2018) complementa essa visão ao apontar a relevância da avaliação pós-investimento, utilizando métricas como o Retorno sobre o Investimento (ROI) e o payback para verificar se os resultados projetados foram alcançados, permitindo o aprendizado organizacional e o ajuste de futuras estratégias. No contexto hospitalar, Silva et al. (2016) ressaltam a importância de indicadores específicos, como a Margem EBITDA, para avaliar a capacidade de geração de caixa operacional, e a análise da estrutura de capital para medir o nível de endividamento e a capacidade da instituição de financiar novos projetos. Apesar da relevância do tema, há uma notável lacuna de pesquisas aplicadas ao contexto específico do Brasil.

A maior parte da produção científica sobre viabilidade de investimentos em saúde foca em países desenvolvidos, cujas condições macroeconômicas, como custo de capital reduzido, estabilidade inflacionária e previsibilidade regulatória, diferem substancialmente da realidade nacional. O Brasil apresenta um ambiente de negócios mais volátil, com elevadas taxas de juros que encarecem o financiamento, pressões inflacionárias persistentes sobre insumos e oscilações cambiais que afetam diretamente os custos de equipamentos importados (IPEA, 2022). Esses fatores aumentam o risco e a incerteza, impactando negativamente a atratividade de investimentos hospitalares de longo prazo. Estudos internacionais, como o de Afonso (2024) em Portugal e o de Mendez e Coletti (2018) nos Estados Unidos, demonstram os riscos inerentes a esses investimentos mesmo em cenários mais estáveis, justificando a necessidade premente de desenvolver e aplicar um modelo de análise adaptado às particularidades e aos desafios do mercado brasileiro.

A pesquisa foi estruturada como um estudo de caso, método que permite uma análise aprofundada e contextualizada de um fenômeno complexo em seu ambiente real. O objeto de estudo foi uma instituição hospitalar beneficente, e o foco da análise recaiu sobre a viabilidade de um investimento específico em ativos fixos para expansão da capacidade de atendimento. O horizonte de análise foi definido em dez anos, período considerado adequado para capturar a maturação do investimento e a geração de fluxos de caixa representativos, ao mesmo tempo em que se limita a incerteza inerente a projeções de longuíssimo prazo. A projeção de receitas foi cuidadosamente segmentada para refletir a realidade operacional da instituição. Os atendimentos a pacientes particulares e de convênios foram projetados com um crescimento de volume baseado em estudos de mercado e na capacidade incremental gerada pelo investimento, com reajuste anual do ticket médio pelo IPCA projetado.

Em contrapartida, as receitas provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) foram mantidas com valores nominais congelados ao longo de todo o período, uma premissa conservadora que reflete a prática histórica de ausência de reajustes na tabela de procedimentos do SUS. As despesas operacionais e os custos diretos foram projetados com base na análise da série histórica da instituição, identificando a proporção de custos fixos e variáveis e ajustando-os por tendências de mercado e ganhos de eficiência esperados. A depreciação dos novos ativos foi calculada pelo método linear, em conformidade com a Instrução Normativa nº 1700/2017 da Receita Federal (BRASIL, 2017). A necessidade de capital de giro (NCG) foi mensurada com base no ciclo financeiro histórico da instituição, que totaliza 44 dias.

Este valor foi obtido pela diferença entre o prazo médio de recebimento de clientes (95 dias), o prazo médio de estocagem de materiais e medicamentos (34 dias) e o prazo médio de pagamento a fornecedores (85 dias). Conforme preconiza Assaf Neto (2014), o cálculo da variação da NCG a cada período é fundamental para a construção do fluxo de caixa livre, pois permite mensurar os recursos adicionais que precisam ser investidos para sustentar o crescimento da operação. A avaliação econômico-financeira do projeto foi conduzida utilizando os indicadores consagrados na literatura: Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR), Retorno sobre o Investimento (ROI) e Payback Descontado. A Taxa Mínima de Atratividade (TMA), que representa o retorno mínimo exigido para que o projeto seja considerado viável, foi definida em 8% ao ano.

Este percentual foi estabelecido com base na margem operacional histórica da instituição, acrescido de um prêmio de risco, e foi constantemente comparado à taxa Selic como o custo de oportunidade de um investimento de baixo risco no mercado financeiro.

Para testar a robustez dos resultados e compreender o impacto das incertezas nas conclusões, foi realizada uma análise de sensibilidade multidimensional, conforme recomendado por Damodaran (2012). Este procedimento consistiu em verificar o impacto no VPL do projeto a partir de variações percentuais em variáveis críticas, que foram identificadas como sendo o volume de atendimentos particulares, o ticket médio desses atendimentos e os custos operacionais variáveis. Foram simulados cenários otimistas, pessimistas e realistas para cada uma dessas variáveis, permitindo mapear a resiliência do projeto a condições adversas de mercado. Todos os cálculos, projeções e simulações foram realizados em planilhas eletrônicas, garantindo a rastreabilidade dos dados, a transparência metodológica e a replicabilidade dos procedimentos analíticos, o que confere maior rigor e confiabilidade ao estudo. Os resultados da análise confirmaram de maneira conclusiva a viabilidade e a atratividade econômico-financeira do investimento proposto.

O projeto apresentou um Valor Presente Líquido (VPL) positivo de R$ 11,96 milhões. Este valor representa a riqueza incremental gerada pelo projeto, indicando que, após cobrir integralmente o desembolso inicial de R$ 5,204 milhões e remunerar todo o capital investido à Taxa Mínima de Atratividade de 8% ao ano, o projeto ainda é capaz de gerar um valor excedente significativo para a instituição. A Taxa Interna de Retorno (TIR) alcançou o patamar de 43%, um valor expressivamente superior tanto à TMA de 8% quanto à taxa Selic projetada para o período. Essa ampla margem demonstra a robustez do projeto e sua clara superioridade em relação a alternativas de investimento conservadoras disponíveis no mercado financeiro, justificando a assunção do risco empresarial.

O Retorno sobre o Investimento (ROI), calculado como a razão entre o VPL e o investimento inicial, atingiu 228%, um indicador que reforça a alta eficiência na aplicação dos recursos e a capacidade do projeto de multiplicar o capital investido. O período de recuperação do investimento, ou Payback Descontado, foi de apenas 1,9 anos, demonstrando uma rápida recuperação do capital desembolsado. Em um ambiente econômico volátil como o brasileiro, um payback curto é particularmente valioso, pois reduz o período de exposição ao risco e antecipa a geração de caixa positiva.

A análise comparativa revelou que o investimento no projeto se mostrou 26% mais rentável do que a aplicação do mesmo montante em um título público atrelado à taxa Selic durante o horizonte de dez anos, o que valida de forma quantitativa a decisão estratégica de alocar capital na expansão da operação em vez de optar por aplicações financeiras passivas.

A análise do Demonstrativo de Resultado Gerencial projetado revelou um EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) médio anual correspondente a 5,1% da receita líquida. Embora este percentual seja inferior à média histórica de hospitais privados de alta performance reportada pela ANAHP (2024), que se situa entre 11% e 19%, a diferença é explicada pela premissa deliberadamente conservadora de projetar as receitas do SUS sem qualquer reajuste ao longo de uma década. Essa abordagem prudente confere maior segurança aos resultados. Mesmo nesse cenário desafiador, a operação demonstrou rentabilidade consistentemente positiva, sustentada pelo crescimento projetado dos atendimentos particulares, cujas receitas são reajustadas anualmente pelo IPCA, protegendo o poder de compra da instituição frente à inflação.

O Fluxo de Caixa Livre (FCL) projetado, que é a métrica central para a avaliação pelo método do fluxo de caixa descontado, incorporou o investimento inicial em CAPEX de R$ 5,204 milhões no ano zero. Além disso, considerou a variação da necessidade de capital de giro, calculada a partir do ciclo de caixa de 44 dias, e o efeito tributário do benefício fiscal da depreciação anual de R$ 520,4 mil. No primeiro ano de operação, o fluxo de caixa é negativo em R$ 0,7 milhão, um resultado esperado e explicado pela necessidade inicial de investimento em capital de giro para suportar o novo volume de atividades.

A partir do segundo ano, o projeto passa a apresentar geração de caixa consistentemente positiva e crescente, garantindo não apenas a cobertura dos custos e despesas, mas também a geração de excedente financeiro para a instituição, o que assegura a viabilidade de longo prazo do investimento.

A análise de sensibilidade, utilizando o NOPAT (Net Operating Profit After Taxes) como principal indicador de resultado, revelou que o ticket médio e o volume de atendimentos particulares são, de fato, as variáveis de maior impacto na rentabilidade do projeto. Uma variação negativa de 10% no volume de atendimentos particulares, por exemplo, reduziria o VPL em aproximadamente 25%, enquanto uma queda similar nos custos operacionais aumentaria o VPL em 15%. Esses resultados destacam a importância estratégica de focar em ações comerciais para atração e retenção de pacientes privados e de convênios, bem como em iniciativas de gestão de custos para otimizar a eficiência operacional. Apesar dessa sensibilidade, o projeto demonstrou resiliência, mantendo um VPL positivo mesmo em cenários moderadamente pessimistas, o que reforça a margem de segurança do investimento.

Em síntese, os múltiplos indicadores financeiros e a análise de cenários convergem para uma mesma conclusão: o projeto de investimento é economicamente viável, financeiramente atrativo e estrategicamente acertado. A combinação de um VPL robusto, uma TIR elevada e um payback rápido, mesmo sob premissas conservadoras, fornece uma base sólida para a tomada de decisão favorável.

A análise detalhada não apenas quantifica o retorno esperado, mas também ilumina os principais vetores de risco e valor, permitindo que a gestão atue de forma proativa para maximizar as chances de sucesso.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, pois o estudo demonstrou, por meio de uma metodologia rigorosa e adaptada ao contexto brasileiro, a capacidade do projeto de gerar valor sustentável para a instituição hospitalar.

Referências:
AFONSO, J. Análise de viabilidade financeira da construção de uma Unidade Multifuncional de Apoio no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2024.
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HOSPITAIS PARTICULARES – ANAHP. Observatório Anahp 2021. Disponível em: https://www. anahp. com. br/publicacoes/observatorio-anahp-2021/ . Acesso em: 03 mar. 2025.
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HOSPITAIS PARTICULARES – ANAHP. Observatório Anahp 2024. Disponível em: https://www. anahp. com. br/publicacoes/observatorio-anahp-2024/ . Acesso em: 03 mar. 2025.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009. Dispõe sobre a certificação das entidades beneficentes de assistência social e regula os procedimentos relativos à isenção de contribuições para a seguridade social. Brasília, DF: Presidência da República, 2009.
BRASIL. RECEITA FEDERAL DO BRASIL. Instrução Normativa RFB nº 1.700, de 14 de março de 2017. Dispõe sobre a determinação e o pagamento do imposto sobre a renda e da contribuição social sobre o lucro líquido das pessoas jurídicas e disciplina o tratamento tributário da depreciação, amortização e exaustão. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 15 mar. 2017.
CNSaúde – Confederação Nacional de Saúde. Relatório setorial 2023. Brasília: CNSaúde, 2023.
CORREIA AFONSO, G. do C. F. Viabilidade financeira de investimentos hospitalares: cálculo do VAL em três modalidades de financiamento. Relatório de Estágio (Mestrado em Economia) – Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra, Coimbra, 2024. Orientador: António Manuel Portugal Duarte.
DAMODARAN, A. Avaliação de investimentos: ferramentas e técnicas para a determinação do valor de qualquer ativo. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Conta-satélite de saúde 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Panorama econômico 202

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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