
09 de fevereiro de 2026
Aplicação da metodologia Lean Startup na validação de um podcast para engenheiros
Paulo Cezar Moura de Oliveira; Gisela Consolmagno Pelegrini
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi validar, via metodologia Lean Startup e um Produto Mínimo Viável (MVP), o potencial de um podcast educacional como negócio digital escalável e ferramenta de orientação de carreira para engenheiros e estudantes de engenharia no Brasil. A investigação respondeu à demanda por conteúdos mais humanizados, explorando um modelo de negócio ágil para mitigar riscos. A premissa foi que ciclos iterativos de construção, medição e aprendizado permitiriam confirmar o interesse do público e refinar a proposta de valor do produto, garantindo um alinhamento preciso entre o conteúdo e as necessidades da audiência.
Este estudo foi motivado por duas tendências. A primeira é a mudança no consumo de mídia, com a proeminência de formatos digitais como podcasts. A PodPesquisa (2024) aponta o Brasil como um dos maiores mercados globais, com milhões de ouvintes que buscam entretenimento, informação e educação. Essa mudança valoriza narrativas autênticas e conexão com criadores, conforme discutido por Jenkins (2008) sobre como novas mídias reconfiguram o acesso ao conhecimento. Bottentuit Junior e Coutinho (2007) reforçam que a natureza assíncrona do podcast favorece a reflexão e a assimilação de informações, tornando-o ideal para a aprendizagem contínua.
A segunda tendência são os desafios da engenharia no Brasil. Dados do CONFEA (2022) indicam mais de um milhão de profissionais registrados, mas o INEP (2023) revela que uma parcela significativa de estudantes não conclui a graduação. Isso sugere uma lacuna na orientação de carreira, necessitando de ferramentas que conectem a formação acadêmica às realidades da profissão. O podcast surge como plataforma para preencher essa lacuna, oferecendo um espaço para compartilhamento de experiências e insights, alinhado ao conceito de ambiente dialógico e formativo de Costa (2020), que transcende o repositório de informações técnicas.
Nesse contexto, a metodologia Lean Startup de Eric Ries (2012) foi a abordagem estratégica escolhida. A metodologia defende o ciclo “Construir-Medir-Aprender” para testar hipóteses de negócio de forma rápida e com baixo custo. A abordagem prioriza um MVP – neste caso, uma série inicial de episódios – para coletar dados reais de uso e feedback, em vez de investir recursos em um produto finalizado. Essa mentalidade ágil é crucial no ambiente digital; a capacidade de adaptação é um diferencial competitivo. O estudo, assim, estruturou a validação de um modelo de negócio digital, não apenas a criação de um produto de mídia.
A relevância do projeto está na intersecção entre mídia digital, educação e desenvolvimento profissional. Ao articular narrativas de engenheiros atuantes, o podcast buscou oferecer significado, inspiração e comunidade, não apenas conhecimento técnico. A aplicação do Lean Startup permitiu testar e aprimorar sistematicamente essa proposta de valor, transformando o podcast em um empreendimento orientado por dados, empatia e adaptação. O trabalho se propôs a gerar conhecimento prático sobre a aplicação de metodologias de startups em um nicho de conteúdo, contribuindo para os campos de negócios digitais e comunicação educacional.
A pesquisa foi conduzida como pesquisa-ação, metodologia que associa investigação e resolução de um problema prático com envolvimento cooperativo (Thiollent, 2011). Essa escolha foi sinérgica com os princípios da Lean Startup, permitindo ciclos de planejamento, ação, observação e reflexão. O problema abordado foi a carência de orientação de carreira para engenheiros, e a ação foi o desenvolvimento do podcast GEqcast. O pesquisador assumiu a dupla função de investigador e participante ativo como empreendedor digital, integrando teoria e prática.
A coleta de dados usou três técnicas complementares. A primeira foi um questionário online estruturado (Gil, 2002), aplicado em duas fases: pré-lançamento, para avaliar o interesse e mapear o perfil do público, e pós-lançamento, para coletar feedback. A validade do instrumento foi assegurada por um pré-teste. A amostragem de conveniência totalizou 37 respondentes na fase inicial, número suficiente para o caráter exploratório do estudo, permitindo identificar padrões de interesse e validar a demanda.
A segunda técnica foi a análise de métricas de desempenho primárias do YouTube, a plataforma de distribuição do MVP. Foram monitorados indicadores quantitativos como número de visualizações, tempo médio de exibição, taxa de cliques de impressão (CTR), fontes de tráfego, dados demográficos e retenção de espectadores. Esses dados foram tratados com estatística descritiva para mapear padrões de consumo e avaliar a performance, fornecendo insights para os ciclos de aprendizado.
A terceira técnica foi a observação sistemática (Marconi e Lakatos, 2003) das interações do público nas redes sociais (Instagram, LinkedIn) e nos comentários do YouTube. Foram analisados qualitativamente os comentários, compartilhamentos e feedbacks diretos. Os dados qualitativos foram submetidos à análise de conteúdo (Bardin, 2011) para categorizar as percepções da audiência e extrair aprendizados subjetivos. O cruzamento dos dados quantitativos e qualitativos permitiu que o ciclo “Construir-Medir-Aprender” fosse executado com rigor, orientando ajustes estratégicos no formato, linguagem e temas dos episódios.
Os resultados do questionário pré-lançamento (n=37) revelaram um público-alvo diversificado. A amostra foi majoritariamente masculina (66,7%), com idade concentrada entre 30 e 39 anos (51,9%) e 25 a 30 anos (22,2%). Os participantes representavam diversas áreas da engenharia, como elétrica (40,0%), produção (15,0%) e mecânica (10,0%). Profissionalmente, 55,6% estavam empregados na área de engenharia e 29,6% atuavam fora dela, indicando busca por orientação para progressão e transição de carreira. A distribuição geográfica abrangeu 20 cidades, com concentração em Pernambuco (48,1%) e São Paulo (18,5%).
O indicador mais relevante foi o interesse em assistir a um podcast sobre carreira para engenheiros. Em uma escala de 1 a 10, 85,2% dos respondentes atribuíram notas entre 7 e 10, sinalizando forte demanda. Especificamente, 29,6% deram nota máxima (10) e outros 29,6% deram nota 8, o que validou a hipótese central do projeto. A análise qualitativa das respostas abertas reforçou esse interesse, com participantes mencionando a necessidade de temas como empreendedorismo, carreira em corporações e desenvolvimento de soft skills, informações que foram incorporadas no planejamento dos primeiros episódios.
Com a ideia validada, o MVP, consistindo em dez episódios do podcast GEqcast, foi lançado no YouTube. Durante 90 dias, os dados de desempenho foram coletados. O canal alcançou 1.908 visualizações e um tempo de exibição de 289,2 horas. A duração média da visualização foi de 9 minutos e 5 segundos, um indicador robusto de engajamento. A taxa de cliques de impressão (CTR) de 8,5% foi considerada positiva para um canal iniciante, sugerindo que títulos e miniaturas foram eficazes.
A análise de alcance revelou 1.031 espectadores únicos, dos quais 79% eram novos, demonstrando a capacidade do conteúdo de alcançar novas audiências. A principal fonte de tráfego foi externa (42,8%), vinda da divulgação em redes sociais como Instagram, LinkedIn e WhatsApp, ressaltando a importância de uma estratégia de distribuição multicanal. As métricas de interação corroboraram a recepção positiva: o conteúdo recebeu 248 marcações de “gostei” contra apenas uma de “não gostei”, resultando em uma taxa de aprovação de 99,6%. Foram registrados 102 compartilhamentos e 75 comentários, indicando engajamento ativo.
A discussão dos resultados evidencia a eficácia da metodologia Lean Startup. O lançamento do GEqcast como MVP permitiu testar a hipótese fundamental com recursos mínimos, gerando aprendizado validado, a métrica mais importante para uma startup segundo Ries (2012). Os dados quantitativos, como as 1.908 visualizações e a aprovação de 99,6%, confirmaram o problem-solution fit, ou seja, que o produto atende a uma necessidade do público. A performance do MVP, com uma média de 63,6 visualizações por mês por vídeo, mostra-se promissora quando comparada a outros estudos, como o de Sholihah (2022), que obteve uma média de 30,6.
A análise qualitativa dos feedbacks foi crucial para o ciclo de aprendizado. Os comentários orientaram ajustes diretos no produto, como a reformulação de roteiros, a inclusão de convidados alinhados às demandas do público e o ajuste na duração dos episódios. Essa capacidade de iterar com base em dados reais é o cerne da abordagem enxuta. O estudo demonstrou que, no mercado de conteúdo digital, a escuta ativa da audiência é um componente estratégico para a sustentabilidade do negócio.
O posicionamento do GEqcast alinha-se às tendências de marketing de conteúdo. Ao focar na entrega de valor e na construção de autoridade, o projeto se enquadra no conceito de branded content de baixo teor persuasivo, como definido por Fitó-Carreras et al. (2024). Esse modelo, que prioriza o vínculo educativo e emocional, mostrou-se eficaz para gerar engajamento e abrir portas para futuras oportunidades de monetização, como patrocínios.
Adicionalmente, os achados dialogam com a literatura sobre o uso de podcasts na educação. Pesquisas como as de Sičová (2022) e Mulyati (2022) destacam o potencial do formato para promover engajamento e aprendizado ativo. No contexto da educação superior, Björkroth (2022) ressalta que os podcasts oferecem uma experiência de aprendizado mais íntima e flexível. O GEqcast aplicou esses princípios ao desenvolvimento profissional de engenheiros, utilizando storytelling para fortalecer a identificação do ouvinte e a retenção do conhecimento, como sugerido por García-Marín (2020). O projeto validou um modelo de negócio e contribuiu com um exemplo prático de como o podcast pode ser uma ferramenta para educação continuada e orientação de carreira.
Como desdobramentos futuros, recomenda-se a ampliação do alcance da pesquisa com estratégias de divulgação mais segmentadas e a extensão do acompanhamento das métricas para no mínimo seis meses, a fim de identificar padrões de crescimento. Sugere-se a experimentação com novos formatos narrativos e a expansão para outras plataformas de áudio, como Spotify e Apple Podcasts. Em termos práticos, o GEqcast tem potencial para se consolidar como uma plataforma de referência, podendo ser integrado a iniciativas de mentoria, capacitação e networking. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a aplicação da metodologia Lean Startup foi eficaz para validar o potencial de um podcast educacional como negócio digital e ferramenta de orientação de carreira para engenheiros.
Referências:
Bardin, L. (2011). Análise de conteúdo. Edições 70.
Björkroth, P. (2022). Podcasting for Higher Education.
Bottentuit Junior, J. B., & Coutinho, C. P. (2007). Podcasts em educação: um contributo para o estado da arte. Repositório da Universidade do Minho.
Carvalho, A. A., Aguiar, C., & Maciel, R. (2009). Dez minutos de conversa: podcasting como recurso de formação multidimensional. Repositório da Universidade de Coimbra.
CONFEA. (2022). Relatório de Profissionais. Acessado em 08/03/2025, de https://relatorio. confea. org. br/Profissional/ProfissionaisPorGenero
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Jenkins, H. (2008). Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. NYU Press.
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Marconi, M. A., & Lakatos, E. M. (2003). Fundamentos de metodologia científica (5ª ed.). Editora Atlas S. A.
Mulyati, T. (2022). The use of podcasts to enhance listening skill at the eight grade of smp negeri 2 LABUAPI in Academic Year.
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Thiollent, M. (2011). Metodologia da pesquisa-ação (18ª ed.). Cortez.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq
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