
09 de fevereiro de 2026
Fatores comportamentais e sociodemográficos na evolução da síndrome de burnout
Isabela Manhoso Nunes; Vinícius Rennó Castro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi analisar associações de aspectos comportamentais, sociodemográficos e ocupacionais no desenvolvimento da Síndrome de Burnout. O estudo examinou os níveis das três dimensões do esgotamento profissional em uma amostra de trabalhadores e investigou a associação da síndrome com preditores como prática de exercícios, lazer, faixa etária, gênero, escolaridade, nível hierárquico e frequência de horas extras. A investigação partiu da premissa de que o Burnout é um fenômeno multifacetado, modulado por características individuais e contextuais.
A Síndrome de Burnout, reconhecida como doença ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (CID-11), é um estado de esgotamento físico e mental crônico decorrente de estressores laborais mal gerenciados (Brito et al., 2015). A literatura científica a caracteriza em três dimensões: exaustão emocional, despersonalização (ou cinismo) e baixa realização profissional. A exaustão emocional, o sintoma mais impactante, manifesta-se como uma sensação de esgotamento dos recursos energéticos e emocionais, tornando o indivíduo incapaz de se dedicar às suas atividades (Maslach et al., 2001).
Como mecanismo de defesa, emerge a despersonalização, uma resposta de distanciamento emocional e cognitivo. O profissional adota uma postura cínica e insensível em relação ao trabalho, colegas e clientes, tratando-os de forma impessoal para se proteger de maior desgaste (Aguiar et al., 2017). Consequentemente, essa desconexão leva à baixa realização profissional, na qual o indivíduo se autoavalia negativamente, desenvolvendo sentimentos de incompetência e fracasso. A percepção de que seu trabalho não tem valor corrói a motivação, podendo levar ao desejo de abandonar a carreira (Coelho et al., 2018; Leitão e Capuzzo, 2021). O desenvolvimento da síndrome é um processo progressivo e cumulativo, que pode levar anos para se manifestar (Mazon et al., 2008).
Os fatores de risco organizacionais para o Burnout incluem seis áreas de desajuste entre indivíduo e trabalho: sobrecarga, falta de controle, recompensas insuficientes, colapso da comunidade (falta de apoio social), ausência de justiça e conflito de valores (Maslach et al., 2001; Leitão e Capuzzo, 2021). As consequências extrapolam o sofrimento individual, gerando impactos para as organizações como aumento do absenteísmo e rotatividade, queda no desempenho e deterioração do clima organizacional (Ceribeli et al., 2021). No Brasil, dados da Previdência Social de 2016 apontavam que 21% dos afastamentos laborais eram decorrentes de estresse e ansiedade, associados a cobranças excessivas (Santos, 2018).
Apesar de mais de cinco décadas de pesquisa, o Burnout permanece um problema relevante, impulsionado pelas transformações no mundo do trabalho (Demerouti et al., 2021). Aprofundar o conhecimento sobre seus preditores é imperativo para o desenvolvimento de estratégias de prevenção eficazes, que considerem o indivíduo de forma integral, dado que o trabalho é um pilar na construção da identidade e do propósito de vida (Corso et al., 2008).
Adotou-se uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, utilizando um levantamento de campo (survey) por meio de um formulário online. A coleta de dados utilizou dois instrumentos. O primeiro foi o “Maslach Burnout Inventory – General Survey (MBI-GS)”, ferramenta validada que responde por mais de 90% das pesquisas sobre o tema no Brasil (Brito et al., 2015). O MBI-GS é composto por 16 afirmativas que avaliam as três dimensões da síndrome: seis para Exaustão Emocional (EE), quatro para Despersonalização (DP) e seis para Envolvimento Pessoal no Trabalho (EPT), com respostas em escala Likert de 7 pontos (0=nunca a 6=todos os dias).
O segundo instrumento foi um questionário com 22 perguntas sobre variáveis sociodemográficas (faixa etária, gênero, escolaridade), ocupacionais (tipo de empresa, nível do cargo, jornada semanal, horas extras) e comportamentais (exercícios físicos, psicoterapia, lazer, perfeccionismo), utilizando uma escala Likert de 5 pontos. A população foi selecionada por amostragem não probabilística por conveniência, o que, segundo Bryman e Bell (2019), limita a generalização dos resultados.
Os dados foram tabulados no Microsoft Excel e analisados estatisticamente. Foram calculadas frequências absolutas e percentuais para caracterizar a amostra. Para o MBI-GS, empregaram-se média e desvio-padrão para cada dimensão, tratando a escala Likert como intervalar, conforme defendido por autores como Dobson e Mothersill (1979) e Joshi et al. (2015). O nível de Burnout foi classificado em baixo, moderado ou alto, com base nos escores de corte de McLaurine (2008). Por fim, realizaram-se análises cruzadas para verificar a associação entre os níveis de Burnout e as variáveis categóricas. Todos os procedimentos éticos foram seguidos, com a participação voluntária e anônima garantida por um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra final foi de 114 profissionais.
A amostra de 114 profissionais era predominantemente feminina (81%), com maior concentração na faixa etária de 27 a 33 anos (33%). A maioria possuía pós-graduação (43%) ou ensino superior completo (36%). No âmbito ocupacional, 74% atuavam em empresas privadas, com 56% em cargos de nível operacional. A jornada de trabalho mais comum foi de 41 a 50 horas semanais (36%), e 50% realizavam horas extras com frequência. Quanto aos hábitos, 62% já haviam feito psicoterapia, mas a dedicação ao lazer era majoritariamente ocasional (42%). A análise geral dos níveis de Burnout, utilizando a classificação de McLaurine (2008), indicou um nível predominantemente baixo (39%), próximo do moderado (35%). Contudo, a análise dimensional revelou um quadro mais preocupante: a exaustão emocional apresentou predominância alta em 54% da amostra, seguida pela despersonalização (45% em nível alto) e pelo envolvimento pessoal no trabalho (43% em nível alto, o que indica menor Burnout). A média da exaustão emocional (3,41) foi a mais elevada, sinalizando o componente mais crítico da síndrome neste grupo.
A análise cruzada revelou que a exaustão emocional foi estável entre 18 e 56 anos, mas o envolvimento pessoal no trabalho melhorou com a idade; os mais jovens (18 a 26 anos) apresentaram o maior desengajamento (média de EPT de 1.853). Este achado corrobora estudos como os de Corso et al. (2012) e Coelho et al. (2018), que sugerem maior vulnerabilidade de profissionais em início de carreira. A faixa de 34 a 40 anos apresentou a menor média geral de Burnout (1.705).
A variável gênero demonstrou uma das associações mais fortes. As mulheres apresentaram níveis significativamente mais altos de exaustão emocional (média de 3.57 contra 2.58 dos homens) e despersonalização (2.25 contra 1.70). A média geral de Burnout para mulheres foi de 1.84, contra 1.48 para os homens, o que se alinha à literatura que aponta a sobrecarga da dupla ou tripla jornada como fator de risco para o esgotamento feminino (Coelho et al., 2018). A escolaridade também mostrou uma relação complexa: os níveis mais altos de Burnout foram observados em profissionais com ensino técnico (média de 2.371) e mestrado (2.844), enquanto aqueles com doutorado exibiram os menores índices (0.542). A alta incidência em mestres pode refletir a pressão por performance, enquanto no nível técnico pode estar associada a menor autonomia, um fator de risco conhecido (Schaufeli, 2017).
As variáveis ocupacionais confirmaram a importância da estrutura do trabalho. Observou-se um gradiente claro em relação ao nível hierárquico: profissionais em cargos operacionais apresentaram a maior média de Burnout (2.009), seguidos pelos táticos (1.627) e estratégicos (1.223). Este padrão foi consistente nas três dimensões, com trabalhadores da linha de frente exibindo maior exaustão e despersonalização. Resultados semelhantes foram encontrados por Brito et al. (2015) e podem ser explicados pelo modelo Demanda-Recursos de Bakker e Demerouti (2018), que postula que altas demandas com baixos recursos (como autonomia) predizem o esgotamento. A satisfação com a carreira, mais presente em níveis superiores, atua como fator atenuante (Carlotto & Câmara, 2007).
A frequência de horas extras emergiu como um preditor robusto. Profissionais que realizavam horas extras frequentemente apresentaram a maior média de Burnout (2.02), com níveis elevados de exaustão emocional (4.13) e despersonalização (2.72). Este dado reforça a associação entre longas jornadas e exaustão crônica, que compromete o equilíbrio entre vida profissional e pessoal e impede a recuperação psicofisiológica (Bakker & Demerouti, 2018; Leitão e Capuzzo, 2021).
As variáveis comportamentais destacaram o papel dos recursos pessoais como fatores de proteção. A prática de exercícios físicos demonstrou uma associação inversa com o Burnout. A ausência de atividade física esteve associada à maior média de esgotamento (2.24), enquanto a prática, mesmo ocasional, correlacionou-se com níveis mais baixos (1.63). Este achado está em consonância com a literatura sobre os efeitos protetores da atividade física na mediação do estresse ocupacional (Gerber et al., 2013; Fabichak et al., 2014).
De forma ainda mais contundente, a frequência de momentos de lazer e descanso revelou-se um poderoso moderador. Participantes que raramente se dedicavam ao lazer apresentaram uma média de Burnout de 2.304, enquanto aqueles que o faziam com muita frequência tiveram a menor média do estudo (0.881). A ausência de tempo para recuperação e desengajamento psicológico do trabalho está associada a níveis elevados de exaustão, corroborando o modelo de recuperação do estresse de Sonnentag e Fritz (2015). Curiosamente, a realização prévia de psicoterapia não apresentou diferença significativa na média geral de Burnout (1.78 com terapia vs. 1.79 sem). Embora associada a níveis ligeiramente menores de exaustão, também se correlacionou com maior desengajamento (EPT), o que pode sugerir que a terapia aumenta a consciência crítica sobre ambientes de trabalho insatisfatórios ou que seu efeito depende da continuidade, como apontam estudos sobre a eficácia de abordagens como TCC e Mindfulness (Lima & Dolabela, 2021).
Em conclusão, os resultados indicam que os profissionais investigados apresentam níveis moderados de Burnout, com a exaustão emocional sendo a dimensão mais crítica. A análise revelou que profissionais mais jovens, mulheres e ocupantes de cargos operacionais constituem os grupos de maior vulnerabilidade. A sobrecarga de trabalho, evidenciada pelas horas extras, confirmou-se como fator de risco significativo. Em contrapartida, a prática de exercícios físicos e, especialmente, a dedicação a momentos de lazer, emergiram como importantes fatores de proteção. As implicações práticas são diretas: as organizações devem desenvolver políticas de saúde mental com estratégias preventivas direcionadas aos grupos mais suscetíveis, promovendo uma cultura que valorize o equilíbrio entre vida profissional e pessoal e controle a sobrecarga de trabalho.
Este estudo contribui para a literatura nacional ao fornecer um panorama das inter-relações entre variáveis individuais e organizacionais no desenvolvimento do Burnout. A pesquisa possui limitações, como a amostragem não probabilística por conveniência, que restringe a generalização dos resultados, e o uso de instrumentos de autorrelato. Pesquisas futuras poderiam se beneficiar de estudos longitudinais, amostras mais amplas e da inclusão de métodos qualitativos. Em suma, o estudo reforça a Síndrome de Burnout como um desafio multifacetado, influenciado por uma complexa interação de fatores individuais e organizacionais. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que variáveis comportamentais, sociodemográficas e ocupacionais, como gênero, nível hierárquico e frequência de lazer, estão significativamente associadas aos níveis de esgotamento profissional.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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