Imagem Sofrimento psíquico e bem-estar no setor tecnológico brasileiro

09 de fevereiro de 2026

Sofrimento psíquico e bem-estar no setor tecnológico brasileiro

Pamella Christina Lamonica Santos; Antônio Teles Rodrigues

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa analisou a conexão entre as particularidades do setor de tecnologia brasileiro e o sofrimento psíquico de seus funcionários, identificando os métodos de coping utilizados. A crescente prevalência de transtornos mentais como estresse, ansiedade e burnout tornou a saúde mental uma prioridade estratégica para a sustentabilidade e produtividade das organizações. As pressões organizacionais impactam o desempenho e a capacidade de reter talentos em um mercado competitivo (Oliveira, 2019). A compreensão do fenômeno foi impulsionada a partir da década de 1990 pelos estudos em psicodinâmica do trabalho, com destaque para as contribuições de Christophe Dejours (1992), que forneceram o arcabouço teórico para investigar a interação entre organização do trabalho e saúde mental.

A abordagem teórico-metodológica é a Psicodinâmica do Trabalho de Christophe Dejours (1992), escolhida por sua capacidade de analisar a correlação entre organização do trabalho e a gênese do sofrimento psíquico. Dejours (1992) propõe que o trabalho, embora fonte de prazer, converte-se em sofrimento quando estruturas organizacionais impõem rigidez, cerceiam autonomia, limitam o diálogo e promovem sobrecargas. Esse sofrimento manifesta-se em sintomas que afetam a saúde integral do indivíduo. Essa teoria é fundamental para analisar como as dinâmicas do setor de TI — aceleração constante, exigência de inovação, cultura de hipervigilância e pressão por desempenho — geram tensões e adoecimento (Minayo, 2020).

O setor de informática é um campo de estudo relevante por suas características que potencializam o estresse. É marcado pela aceleração das mudanças, com ciclos de entrega ágeis que impõem demanda contínua por adaptação. A cultura da hipervigilância digital e a expectativa de disponibilidade ininterrupta diluem as fronteiras entre vida profissional e pessoal, comprometendo o bem-estar (Collins et al., 2020). Soma-se a isso a cultura de rendimento, a necessidade de inovação constante e a competitividade interna, que criam um ambiente com pouca margem para erros e fluxo de trabalho extenuante (Purohit et al., 2023). Dados internacionais corroboram essa percepção: o Stack Overflow (2022) revela que 66% dos desenvolvedores experienciam esgotamento em 12 meses e 49% trabalham mais de 45 horas semanais. Um estudo do Boston University School of Public Health (BSPH, 2021) mostra que profissionais de TI têm 1,5 vezes mais probabilidade de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão em comparação a outras categorias.

O referencial teórico identifica sobrecarga de tarefas, falta de suporte da liderança, cultura tóxica e ausência de reconhecimento como fatores que precipitam o sofrimento psíquico (Lazarus e Folkman, 1984; Baretto, 2018). Dados empíricos, como uma análise de 2025 que aponta a carga de trabalho excessiva como principal estressor para 26,8% dos profissionais de TI, validam essa visão. A International Labour Organization (ILO, 2022) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, 2021) também correlacionam jornadas extensas e pressões a transtornos mentais ocupacionais. No setor de tecnologia, esses fatores são exacerbados pela aceleração das entregas e pela demanda por alta performance (Silva et al., 2021). Apesar da atenção ao tema, existe uma lacuna na compreensão da interação específica entre as particularidades do setor de tecnologia e as estratégias de coping dos profissionais brasileiros.

A questão central da investigação foi: de que maneira as características do ambiente de trabalho tecnológico brasileiro influenciam o sofrimento psíquico dos colaboradores, e quais estratégias de coping são utilizadas para enfrentar tais pressões? A relevância do estudo reside na urgência de abordar o desgaste mental no setor de TI, que impacta produtividade, inovação e retenção de talentos. Aprofundar a compreensão dessa dinâmica é crucial, pois o Brasil, como polo tecnológico em ascensão, pode apresentar nuances culturais e socioeconômicas que modulam tanto o estresse quanto os mecanismos de enfrentamento, sendo fundamental para promover ambientes de trabalho mais sustentáveis.

A pesquisa, fundamentada na Psicodinâmica do Trabalho de Dejours, adotou uma abordagem metodológica mista (quantitativa e qualitativa) com delineamento exploratório, descritivo e transversal (Gil, 2019). A fase quantitativa inicial foi seguida por uma etapa qualitativa para aprofundar a análise das experiências dos profissionais, permitindo uma interpretação dos aspectos psicodinâmicos do trabalho. O público-alvo foi composto por profissionais de TI atuantes no Brasil. Utilizou-se amostragem não probabilística por conveniência, selecionando participantes por acessibilidade (Marconi & Lakatos, 2017). O instrumento foi um questionário online no Google Forms, disseminado em redes profissionais, resultando em uma amostra de 52 respondentes. A escolha do questionário online justificou-se pela acessibilidade e facilidade de distribuição.

Os procedimentos de coleta seguiram um protocolo ético rigoroso. O link do questionário foi divulgado em plataformas como LinkedIn e grupos de tecnologia. Antes de responder, os participantes aceitaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que detalhava os objetivos, a confidencialidade e a voluntariedade da participação. A coleta durou de três a quatro semanas, garantindo anonimato e a opção de desistência. A análise dos dados foi realizada em duas fases. Os dados quantitativos foram tratados com estatística descritiva (frequências, médias) e inferencial (testes t, ANOVA, correlação de Pearson) utilizando R e SPSS. Os dados qualitativos, de questões abertas, foram submetidos à análise de conteúdo para identificar temas recorrentes e padrões que complementassem os achados quantitativos.

A análise do perfil da amostra (N=52) revelou predominância masculina (67,3%), refletindo a realidade do setor (UNESCO, 2019; IBGE, 2022). Essa disparidade se conecta a um ambiente que pode ser hostil para mulheres. Uma pesquisa da Yoctoo (2023) indica que 78% das mulheres no setor experienciam preconceito, com fenômenos como manterrupting e assédio moral. Este cenário sugere que o sofrimento psíquico na TI é agravado por dinâmicas de poder e preconceito, contribuindo para a sub-representação feminina.

A faixa etária predominante foi de 25 a 34 anos (38,5%) e menos de 25 anos (30,8%). Este dado, associado ao alto percentual com ensino superior incompleto (36,5%), aponta para uma entrada precoce no mercado, conciliando estudos e projetos complexos. Pesquisas do SEMESP (2022) identificam a necessidade de trabalhar como principal fator de evasão no ensino superior. A Universidade de São Paulo (USP, 2021) reforça que conciliar estudo e trabalho afeta o estado psicológico dos estudantes, com 63% relatando ansiedade e 36% sinais de burnout, tornando esta faixa etária vulnerável aos riscos psicossociais do setor.

Quanto ao modelo de trabalho, a maioria atuava em regime remoto (55,8%), seguido pelo híbrido (25%). Embora o teletrabalho ofereça flexibilidade (PwC, 2022), a American Psychological Association (APA, 2021) alerta que a ausência de separação entre vida profissional e pessoal contribui para estresse e burnout. Essa diluição de fronteiras, a cultura “always on” (Collins et al., 2020), representa um fator de risco que, na ótica da Psicodinâmica do Trabalho, impede a recuperação psíquica. A maioria (55,8%) trabalhava em grandes empresas, o que pode influenciar tanto os recursos de bem-estar quanto a rigidez hierárquica.

Um achado central foi a percepção de um ritmo de trabalho exaustivo, com 59,6% dos participantes considerando o fluxo de trabalho elevado. Segundo Dejours (1992), o trabalho pode ser fonte de prazer, mas se torna sofrimento quando as demandas são excessivas. O “ritmo exaustivo” reflete a exigência por inovação, prazos curtos e a cultura de hipervigilância do setor de TI, transformando o trabalho em uma condição de desgaste, alinhando-se às discussões de Silva et al. (2021) sobre a relação entre alta performance e adoecimento.

Em relação ao apoio psicossocial, 69,2% dos entrevistados relataram buscar ajuda profissional. Contudo, a baixa percepção de eficácia das iniciativas corporativas (apenas 34,6% as consideram eficazes) revela uma lacuna. Embora 65,4% das empresas ofereçam arranjos flexíveis, a medida parece insuficiente se a carga de trabalho e a mentalidade “always-on” persistirem. Na perspectiva de Dejours (1992), a flexibilidade sem redefinição das métricas de produtividade pode reforçar a exploração em vez de aliviar o sofrimento.

A análise das barreiras para buscar ajuda mostrou a “falta de tempo” (5,8%) como a mais citada após “nenhuma barreira” (9,6%), o que se conecta ao alto volume de trabalho. Menções ao “medo de repressão hierárquica” e “falta de clareza da liderança” dialogam com o conceito de “silêncio organizacional” de Dejours (1992); a insegurança inibe a busca por apoio. Fatores como aquisições e layoffs adicionam uma camada de insegurança, um estressor que agrava o sofrimento (Minayo, 2020).

As estratégias de coping mais recorrentes foram individuais, como terapia (9,6%). No entanto, a adesão a outras práticas é baixa, e 42,3% afirmaram não adotar nenhuma estratégia adicional, sugerindo que as barreiras podem impedir o autocuidado. Embora práticas individuais amenizem o sofrimento, elas não neutralizam riscos estruturais como sobrecarga, alinhando-se às visões da Fiocruz (2021) e da ILO (2022) sobre a primazia de intervenções organizacionais. O modelo de Lazarus e Folkman (1984) é pertinente, mas evidencia a limitação de abordagens individuais diante de estressores sistêmicos.

Um dos dados mais alarmantes é que apenas 38,5% dos respondentes se sentem à vontade para discutir desconfortos com suas lideranças. Este achado reforça a existência de barreiras hierárquicas e do “silêncio organizacional” (Dejours, 1992). Se a maioria não se sente segura para expressar seu sofrimento, há uma falha sistêmica nos canais de comunicação. A liderança, que deveria ser um pilar de apoio (Baretto, 2018), torna-se uma barreira, agravando o isolamento do colaborador.

A pesquisa

Referências:
American Psychological Association [APA]. 2021. Stress in America 2021 report. APA, Washington, DC, EUA.
Barreto, Raquel. 2018. Saúde mental e trabalho: o desafio do sofrimento psíquico nas organizações. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Boston University School of Public Health [BSPH]. 2021. Mental health among tech workers: elevated and potential interventions. Boston University, Boston, MA, EUA.
Collins, Caitlin; Landivar, Liana Christin; Ruppanner, Leah; Scarborough, William J. 2020. Always on: the hidden cost of connected work. Harvard Business Review, Boston, MA, EUA.
Dejours, Christophe. 1992. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. Cortez-Oboré, São Paulo, SP, Brasil.
Fundação Oswaldo Cruz [Fiocruz]. 2021. Condições de trabalho e saúde mental na pandemia. Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Gil, Antonio Carlos. 2019. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]. 2022. PNAD Contínua 2021: características adicionais do mercado de trabalho. IBGE, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
International Labour Organization [ILO]. 2022. Mental health at work. International Labour Organization, Genebra, Suíça.
Lazarus, Richard S.; Folkman, Susan. 1984. Stress, appraisal, and coping. Springer Publishing Company, New York, NY, EUA.
Marconi, Marina de Andrade; Lakatos, Eva Maria. 2017. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Minayo, Maria Cecília de Souza. 2020. Estresse ocupacional: conceito, causas e consequências. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, v. 25, n. 7, p. 2731-2740.
Oliveira, Fernanda Costa de. 2019. Sofrimento psíquico e pressão no ambiente de trabalho: uma análise na perspectiva da saúde mental. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, SP, Brasil, v. 44, n. 19.
Purohit, Harshit; Kumar, Amit; Singh, Neha; Sharma, Priya. 2023. Mental health challenges in the IT industry: a systematic review. International Journal of Occupational Safety and Ergonomics, Londres, Reino Unido, v. 29, n. 1, p. 23-35.
PwC. 2022. Workforce of the future – 2022. PwC, Londres, Reino Unido.
Semesp. 2022. Mapa do ensino superior no Brasil 2022. Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior, São Paulo, SP, Brasil.
Silva, Lucas Matheus da; Rocha, Paulo Henrique; Almeida, Thiago Souza; Castro, Beatriz Fernandes. 2021. Adoecimento mental em profissionais de tecnologia: riscos psicossociais e estratégias de enfrentamento. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, SP, Brasil, v. 46, e13.
Stack Overflow. 2022. 2022 developer survey. Stack Overflow, Nova Iorque, NY, EUA.
Unesco. 2019. Cracking the code: girls’ and women’s education in science, technology, engineering and mathematics (STEM). UNESCO, Paris, França.
Universidade de São Paulo [USP]. 2021. Pesquisa de saúde mental em estudantes universitários. USP, São Paulo, SP, Brasil.
Yoctoo. 2023. Pesquisa aponta preconceito e práticas machistas em empresas de tecnologia. Yoctoo, São Paulo, SP, Brasil.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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