
09 de fevereiro de 2026
Formação em liderança para médicos: uma revisão de escopo sobre desenvolvimento de competências
Pamella Souza Macedo; Antonio Rodrigues
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi mapear as competências de liderança exigidas dos médicos, as estratégias educacionais para seu desenvolvimento, as metodologias de ensino, os indicadores de sucesso e as lacunas existentes no campo. A complexidade dos sistemas de saúde modernos exige dos médicos habilidades além da competência técnica, como liderar equipes multidisciplinares, gerenciar recursos e tomar decisões estratégicas, que são pilares para a qualidade assistencial e a segurança do paciente.
Apesar desse reconhecimento, a formação médica tradicional negligencia o desenvolvimento formal de competências de gestão e liderança. Os currículos de graduação e residência ainda se concentram em habilidades técnicas, deixando uma lacuna na preparação dos profissionais para os papéis de liderança que assumem em suas carreiras (Steinert et al., 2012). Essa deficiência compromete a eficiência organizacional, o clima de trabalho em equipe e os resultados para os pacientes. A liderança médica eficaz está associada à melhoria da comunicação interprofissional, à redução de erros e ao aumento da satisfação de pacientes e profissionais (Frich et al., 2015).
A concepção da liderança como competência ensinável, e não como traço inato, ganhou força em meados do século XX, impulsionando a criação de programas específicos para médicos (Goffin, 2020). Contudo, a literatura revela falta de consenso sobre o modelo mais eficaz. Enquanto algumas pesquisas defendem workshops práticos e mentoria (Stogdale, 2018), outras apontam que a integração de atividades práticas no ambiente clínico real, com foco em habilidades interpessoais, apresenta resultados mais sustentáveis (Lyubovnikova et al., 2022). Essa diversidade de abordagens reflete a necessidade de personalizar os programas de treinamento para diferentes contextos e especialidades.
Outro desafio é a avaliação rigorosa do impacto desses programas. Muitos estudos se limitam a avaliar a satisfação dos participantes ou a aquisição de conhecimento teórico, sem medir mudanças comportamentais efetivas no ambiente de trabalho ou resultados organizacionais. A ausência de metodologias padronizadas para avaliar a eficácia das intervenções dificulta a comparação entre programas e a consolidação de práticas baseadas em evidências. Diante disso, esta revisão de escopo mapeia a extensão, o alcance e a natureza das evidências existentes, sintetizando achados e identificando lacunas no conhecimento para subsidiar a construção de programas educacionais mais eficazes.
Conduziu-se uma revisão de escopo, seguindo o método do Instituto Joanna Briggs (JBI). A abordagem é ideal para mapear um campo de conhecimento, identificar conceitos-chave e evidenciar lacunas. A questão de pesquisa foi estruturada pela estratégia PCC: População (médicos ou estudantes de medicina), Conceito (desenvolvimento de habilidades de liderança) e Contexto (serviços de saúde, gestão, educação médica). A pergunta central foi: “Quais práticas e estratégias baseadas em evidências são eficazes para o desenvolvimento de habilidades de liderança entre médicos em serviços de saúde?”.
A coleta de dados ocorreu de 2 a 18 de março de 2025, nas bases PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com busca complementar em Scielo, Google Scholar, Web of Science, Scopus, Web Sophia, Biblioteca Virtual da USP e Periódicos CAPES. O recorte temporal incluiu artigos publicados entre 2015 e 2025. A estratégia de busca combinou Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), como “Médicos” (Physician) e “Liderança” (Leadership), com operadores booleanos (AND, OR). A pesquisa foi registrada na plataforma Open Science Framework (OSF) e seguiu as recomendações do PRISMA-ScR.
A seleção dos estudos ocorreu em três etapas. Primeiro, duplicatas foram removidas no software Rayyan. Em seguida, realizou-se a triagem por títulos e resumos, excluindo estudos fora do escopo. Por fim, os artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra para confirmar a elegibilidade. Os critérios de inclusão abrangeram estudos originais, qualitativos e quantitativos, em inglês, português ou espanhol, que abordassem programas ou intervenções para o desenvolvimento de liderança médica. Os dados foram extraídos em quadros estruturados, e um diagrama de fluxo PRISMA ilustrou o processo de seleção.
Para classificar os resultados das avaliações dos programas, adotou-se o modelo de quatro níveis de Kirkpatrick, adaptado para diferenciar avaliações subjetivas e objetivas, resultando em sete categorias: Nível 1 (Reação e satisfação), Nível 2A (Conhecimento subjetivo/autopercepção), Nível 2B (Conhecimento objetivo/testes), Nível 3A (Mudança comportamental subjetiva), Nível 3B (Mudança comportamental objetiva/observável), Nível 4A (Resultados no sistema subjetivos) e Nível 4B (Resultados no sistema objetivos, como redução de custos).
A busca inicial identificou 872 registros. Após a remoção de 14 duplicatas, 858 artigos foram triados por título e resumo, dos quais 783 foram excluídos. Dos 75 artigos restantes para análise completa, 45 foram excluídos, resultando em uma amostra final de 30 estudos. A análise da qualidade metodológica (ferramenta JBI) classificou a maioria dos estudos como de alta qualidade, com um de qualidade moderada e nenhum de baixa qualidade. A produção científica sobre o tema mostrou crescimento, com picos de publicação em 2016 e 2024, refletindo maior conscientização sobre a importância da liderança médica (Ogurek et al., 2024).
A distribuição geográfica dos estudos revelou forte concentração em países de alta renda. Os Estados Unidos lideraram com 15 publicações (50%), seguidos pelo Reino Unido com 4 (13,3%). Brasil e Canadá contribuíram com dois estudos cada (6,7%), enquanto França, Alemanha, Indonésia, Israel, Irã, Holanda e Suíça tiveram um estudo cada. Essa predominância anglo-saxã reforça a necessidade de mais pesquisas em países em desenvolvimento para adaptar estratégias às realidades locais (Matlow et al., 2016). Quanto ao desenho, houve prevalência de estudos transversais e retrospectivos (30%), que possuem limitações quanto à inferência causal devido ao viés de memória (Arksey & O’Malley, 2005). A escassez de ensaios clínicos randomizados (6,7%) e de estudos qualitativos ou de métodos mistos (6,7% somados) aponta para uma lacuna na produção de evidências de alta robustez.
A população-alvo dos programas foi diversificada: estudantes de medicina (33,3%), residentes (40%) e médicos em pós-graduação ou atuantes (36,7%). O foco em residentes sugere o reconhecimento da residência como fase estratégica para a formação de líderes, coincidindo com o início de maiores responsabilidades (Cook et al., 2024; DeRusso et al., 2020). Os objetivos educacionais foram consistentes, com 100% visando o desenvolvimento de habilidades de liderança. Os conteúdos mais abordados foram habilidades técnicas e conceituais (40%) e crescimento pessoal e autoconsciência (40%), indicando uma abordagem dual que busca formar líderes que dominem processos e desenvolvam inteligência emocional (Sakelaris et al., 2023).
Quanto aos métodos de ensino, aulas didáticas e seminários interativos foram os mais frequentes (50%), mas houve uso significativo de metodologias ativas, como trabalho de projeto e aprendizagem baseada em ação (26,7%), simulação (23,3%), discussões em grupo (20%) e mentoria (23,3%). A simulação mostrou-se uma ferramenta poderosa, melhorando a liderança em emergências e o desempenho de estudantes (Fernandez et al., 2020; Hochstrasser et al., 2022). Observou-se, contudo, um uso incipiente de coaching estruturado (3,3%) e feedback 360 graus (6,7%), além de limitada exploração de plataformas digitais ou gamificação.
A análise dos resultados de avaliação, segundo o modelo de Kirkpatrick, é um dos achados mais críticos. Houve predominância de avaliações focadas no Nível 1 (Reação/Satisfação), com 33,3% das medições, indicando que muitos programas avaliam como os participantes se sentiram, em vez do impacto prático. As avaliações de Nível 2 (Aquisição de Conhecimento) somaram 40% (20% subjetivas e 20% objetivas), e as de Nível 3 (Mudança de Comportamento) também alcançaram 40% (20% subjetivas e 20% objetivas), mostrando um avanço na medição da aplicação das competências (Gascon et al., 2022).
A lacuna mais significativa foi no Nível 4 (Resultados para o Sistema). Apenas 3,3% dos estudos mediram resultados organizacionais de forma subjetiva (Nível 4A) e 10% de forma objetiva (Nível 4B), como por meio de indicadores de qualidade, redução de custos ou produtividade (Upchurch et al., 2015; Fereydooni et al., 2024). Essa carência de evidências de alto impacto enfraquece a justificativa para a implementação em larga escala desses programas e aponta para a necessidade urgente de pesquisas com desenhos mais robustos e acompanhamento longitudinal para mensurar os efeitos da formação de líderes médicos.
A comparação entre estudos de diferentes continentes revelou abordagens distintas. As publicações latino-americanas destacaram-se pela inovação em metodologias ativas e foco em habilidades socioemocionais, como o uso de TBL em ambiente remoto (Rodrigues et al., 2023) e do MBTI para formação de equipes (Rosa et al., 2019). Em contraste, os estudos anglo-saxões tenderam a ser mais estruturados, com programas de larga escala e avaliação longitudinal (Agius et al., 2015). As publicações europeias focaram na formação de lideranças docentes e integração com políticas públicas, enquanto os estudos asiáticos trouxeram uma perspectiva centrada na identidade de liderança e autodesenvolvimento. A ausência de estudos do continente africano evidencia uma lacuna geográfica crítica.
Em suma, os resultados demonstram que o campo do desenvolvimento de liderança médica está em expansão e é reconhecido como vital. No entanto, é marcado por uma concentração geográfica em países desenvolvidos, uma dependência de desenhos de estudo com menor poder de inferência causal e, principalmente, uma fragilidade na avaliação de impacto, com poucos estudos conseguindo demonstrar mudanças comportamentais objetivas e resultados organizacionais concretos.
Esta revisão de escopo evidenciou que o desenvolvimento de competências em liderança médica é um campo em franca expansão, essencial para a melhoria dos sistemas de saúde. A análise dos 30 estudos revelou uma diversidade de estratégias educacionais, desde programas estruturados e mentorias até metodologias ativas como simulações. No entanto, persistem lacunas críticas. A principal reside na avaliação de impacto dos programas, que majoritariamente se concentra nos níveis de satisfação e aquisição de conhecimento do modelo de Kirkpatrick, com notável escassez de evidências de mudanças comportamentais sustentáveis e resultados organizacionais tangíveis. A heterogeneidade metodológica e a concentração geográfica das pesquisas em países de alta renda também limitam a generalização dos achados.
As implicações práticas destes achados apontam para a necessidade de um esforço coordenado entre instituições de ensino, hospitais e formuladores de políticas. Recomenda-se a integração curricular da liderança desde a graduação, a adoção de estratégias educacionais ativas e o aprimoramento dos sistemas de avaliação para incluir acompanhamento longitudinal e métricas de impacto no Nível 4 de Kirkpatrick. O fortalecimento da formação de líderes médicos demanda compromisso com a inovação pedagógica e a pesquisa rigorosa para preparar profissionais capazes de enfrentar os desafios da saúde contemporânea. Conclui-se que o objetivo foi atingido: mapeou-se e analisou-se as competências de liderança exigidas dos médicos e as estratégias educacionais disponíveis, identificando um campo em crescimento, porém com lacunas significativas na avaliação de impacto e na diversidade geográfica e metodológica.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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