Imagem Diagnóstico financeiro de empresas em recuperação judicial e propostas de soluções

04 de fevereiro de 2026

Diagnóstico financeiro de empresas em recuperação judicial e propostas de soluções

Danilo Melo Santos; Matheus Da Costa Gomes

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou a situação financeira de empresas em recuperação judicial, indicando os fatores da crise e possíveis medidas para solucioná-los. A atividade empresarial tem impacto socioeconômico fundamental, gerando riqueza e empregos. Seu alcance transcende os sócios, afetando stakeholders como fornecedores, colaboradores, clientes e a comunidade. A interrupção de suas atividades gera consequências adversas em toda a cadeia produtiva e social (Sacramone Barbosa, 2024).

O ordenamento jurídico brasileiro instituiu a recuperação judicial para garantir a continuidade empresarial. Este instrumento legal oferece a empresas com dificuldades financeiras, mas operacionalmente viáveis, a chance de se reestruturarem. Através da recuperação judicial, companhias podem negociar benefícios como deságio e alongamento de dívidas, mediante aprovação de uma parcela significativa dos credores, caso a crise seja superável (Cerezetti, 2012). A premissa é preservar a empresa como unidade produtiva, mantendo empregos e a circulação de riqueza.

O sucesso da recuperação judicial depende de um diagnóstico financeiro preciso. É indispensável demonstrar que a crise, embora severa, é administrável e que o negócio é rentável. A análise deve comprovar a dificuldade financeira para justificar o processo e demonstrar a viabilidade econômica para assegurar a reestruturação. Se a atividade principal não for lucrativa ou a crise for insuperável, o caminho adequado seria a falência (Sacramone Barbosa, 2024). A distinção entre uma crise passageira e uma insolvência estrutural é o ponto central da análise.

A interpretação de relatórios financeiros, como o Balanço Patrimonial e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), é uma ferramenta indispensável. Esses documentos contêm dados para avaliar a rentabilidade e identificar as distorções que levaram à crise. Indicadores como margem bruta e líquida revelam a lucratividade da operação, enquanto indicadores de liquidez e endividamento mostram a capacidade da empresa de honrar compromissos e sustentar suas operações (Martins, 2020). A análise financeira permite traçar um panorama histórico e projetar perspectivas futuras.

Para uma compreensão aprofundada, os dados financeiros são submetidos a técnicas de análise vertical e horizontal. A análise vertical examina a representatividade de cada conta dentro de seu grupo em um mesmo período, revelando a estrutura de ativos, passivos e resultados. A análise horizontal compara a evolução das contas e indicadores ao longo do tempo, identificando tendências que sinalizam a dinâmica financeira da empresa (Assaf Neto, 2023). A combinação dessas técnicas oferece um diagnóstico robusto para fundamentar o plano de recuperação judicial.

Esta pesquisa é descritiva e adota uma abordagem mista, combinando métodos quantitativos e qualitativos. A abordagem quantitativa envolveu a análise de dados dos relatórios financeiros das empresas selecionadas, com cálculo de indicadores de liquidez e rentabilidade. A abordagem qualitativa foi usada para interpretar esses indicadores, identificar as causas da crise, avaliar a pertinência da recuperação e propor medidas corretivas.

Foram selecionadas para o estudo de caso duas empresas em recuperação judicial de setores distintos: a Temperalle Fabricação De Temperos E Condimentos Para Alimentos Ltda (Temperalle), do setor de alimentos, e as Faculdades Metropolitanas Unidas Educacionais Ltda (FMU), do setor de educação. Os dados financeiros foram obtidos dos relatórios públicos dos administradores judiciais. Para a Temperalle, a análise abrangeu o período de 2020 a 2023; para a FMU, de 2022 a janeiro de 2025. Os documentos centrais foram o Balanço Patrimonial e a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) (Iudícibus, 2020).

A análise metodológica concentrou-se em indicadores de liquidez e de rentabilidade. Os de liquidez medem a capacidade de honrar compromissos de curto prazo, incluindo Liquidez Geral (LG), Corrente (LC), Seca (LS) e Imediata (LI). A LG avalia a capacidade de pagamento a longo prazo, a LC foca no curto prazo, a LS exclui estoques para uma visão conservadora, e a LI considera apenas os recursos mais líquidos (Assaf Neto, 2023). Os indicadores de rentabilidade medem a eficiência na geração de lucros, incluindo Margem Bruta (MB), Operacional (MO) e Líquida (ML). A MB indica a lucratividade após custos diretos (Marion, 2022), a MO reflete o desempenho das atividades principais (Alves & Laffin, 2018), e a ML representa o lucro final. Os resultados foram comparados com as médias setoriais do Instituto Assaf.

A análise da Temperalle revelou uma deterioração financeira progressiva entre 2020 e 2023. O índice de Liquidez Geral permaneceu abaixo de 1,0, atingindo 0,62 em 2023, indicando que os ativos totais eram insuficientes para cobrir as obrigações totais, um risco de insolvência a longo prazo. A Liquidez Corrente despencou de 1,10 em 2020 para 0,33 em 2023, com Capital Circulante Líquido (CCL) negativo de mais de 2,8 milhões de reais, demonstrando incapacidade estrutural de cobrir dívidas de curto prazo.

A Liquidez Seca da Temperalle, que exclui estoques, apresentou um quadro ainda mais grave, caindo para 0,17 em 2023, evidenciando forte dependência da venda de estoques. O indicador mais alarmante foi a Liquidez Imediata, que se manteve próxima de zero (0,02 em 2023), indicando que a empresa não possuía recursos em caixa para saldar suas dívidas. A causa da crise de liquidez foi a alta concentração de ativos em contas a receber e estoques. Em 2023, as contas a receber representavam 81,5% do ativo circulante, sugerindo prazos de pagamento longos ou dificuldades de cobrança, drenando o fluxo de caixa.

A rentabilidade da Temperalle também foi preocupante. A Margem Bruta caiu para 10,81% em 2023, muito inferior à média de 20,6% do setor alimentício. A Margem Operacional foi majoritariamente negativa, atingindo -17,53% em 2023, demonstrando que as elevadas despesas operacionais consumiam o lucro bruto, gerando prejuízo na atividade principal. Consequentemente, a Margem Líquida foi consistentemente negativa, chegando a -31,62% em 2023. Os prejuízos recorrentes corroeram o patrimônio líquido, justificando a recuperação judicial.

O estudo simulou o impacto da recuperação judicial e de medidas de eficiência. Com uma redução de 20% nos custos e despesas administrativas e um deságio de 80% nas despesas financeiras, os indicadores de rentabilidade da Temperalle se reverteriam. A Margem Bruta subiria para 28,65%, a Margem Operacional se tornaria positiva em 5,80%, e a Margem Líquida alcançaria 2,48%. A transição para lucro líquido positivo, mesmo abaixo da média setorial, demonstra a viabilidade da operação se a estrutura de capital e a gestão de custos forem otimizadas. As medidas propostas incluem a reavaliação da rentabilidade por produto e a otimização das despesas administrativas.

A análise da FMU revelou um desafio financeiro igualmente severo. Os indicadores de liquidez também eram críticos. A Liquidez Geral manteve-se em 0,44 em janeiro de 2025, e a Liquidez Corrente em 0,72, com um Capital Circulante Líquido negativo de mais de 60 milhões de reais. A Liquidez Imediata, em 0,09, confirmou a escassez de recursos para cobrir obrigações de curto prazo. A causa da baixa liquidez foi a alta concentração de ativos em mensalidades a receber e tributos a recuperar. O volume de mensalidades a receber, quase 88 milhões de reais, indica que parte substancial da receita não se convertia em caixa, possivelmente devido à inadimplência.

Em termos de rentabilidade, a FMU apresentou Margem Bruta robusta, em torno de 60%, alinhada à média do setor educacional, indicando bom controle dos custos diretos. Contudo, essa eficiência não se refletiu nos resultados subsequentes. A Margem Operacional foi negativa em 2022 e 2023, e embora positiva em 2024 (16%), as elevadas despesas operacionais pressionaram o resultado. As despesas financeiras também impactaram o resultado final, levando a Margens Líquidas alarmantemente negativas em 2022 (-62%) e 2023 (-52%). Apenas em 2024 a empresa registrou uma margem líquida positiva de 4%, um avanço frágil.

As despesas operacionais e financeiras foram os principais detratores da rentabilidade da FMU. Para solucionar esses gargalos, o estudo recomendou a análise da rentabilidade por curso para otimizar o portfólio e priorizar modalidades lucrativas como o ensino a distância (EaD), de maior escalabilidade e menores custos. Adicionalmente, foram sugeridas medidas para acelerar o recebimento de mensalidades, reduzir a inadimplência e otimizar despesas operacionais.

Uma simulação para a FMU, considerando os benefícios da recuperação judicial e medidas de eficiência, também foi realizada. Com um deságio de 70% nas despesas financeiras e uma redução de 20% nos custos e despesas operacionais, os indicadores de rentabilidade melhorariam substancialmente. A Margem Operacional saltaria de 16% para 33%, e a Margem Líquida passaria de 4% para 31%. O resultado demonstra que, apesar da crise, a atividade principal da FMU é viável e tem potencial de recuperação com a reestruturação financeira e operacional.

Em conclusão, a análise dos relatórios financeiros da Temperalle e FMU identificou os fatores de suas crises financeiras. Ambas apresentaram indicadores de liquidez críticos, sinalizando dificuldade em honrar compromissos de curto prazo. Na Temperalle, a crise foi agravada pela alta concentração de ativos em estoques e contas a receber, combinada com margens de lucro negativas. Na FMU, a baixa liquidez decorreu da predominância de mensalidades a receber e créditos tributários, enquanto a rentabilidade era corroída por elevadas despesas operacionais e financeiras, apesar de uma margem bruta saudável.

As medidas propostas, como otimização de custos, reavaliação de rentabilidade e gestão de capital de giro, combinadas aos benefícios da recuperação judicial, como deságio e alongamento de dívidas, mostraram-se capazes de reverter o cenário adverso em ambas as empresas. As simulações indicaram que as operações são fundamentalmente viáveis e podem voltar a gerar resultados positivos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: a análise de relatórios financeiros provou-se eficaz para diagnosticar os fatores da crise, e a recuperação judicial, aliada à reestruturação estratégica, representa uma solução viável para a superação dessas dificuldades e a preservação da atividade econômica.

Referências:
ALVES, Aline; LAFFIN, Nathália H. F. 2018. Análise das demonstrações financeiras. Sagah, Porto Alegre, RS, Brasil.
ASSAF NETO, Alexandre. 2023. Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-financeiro. 13ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
CEREZETTI, Sheila Christina Neder. 2012. A recuperação judicial de sociedade por ações: o princípio da preservação da empresa na Lei de recuperação e falência. Malheiros, São Paulo, SP, Brasil.
Excelia Administradora Judicial. Disponível em: https://excelia-aj. com. br/recuperacao-judicial/fmu/. Acesso em: 20 maio. 2025.
Instituto Assaf. Disponível em < https://www. institutoassaf. com. br/>. Acesso em: 13/08/2025.
IUDÍCIBUS, Sérgio de. 2020. Contabilidade Gerencial – Da Teoria à Prática. 7ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
L B Administradora Judicial. Disponível em: https://lbadmjudicial. com. br/recuperacoes-judiciais/. Acesso em: 10 maio 2025.
MARION, José C. 2022. Contabilidade Básica. 13ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
MARTINS, Eliseu. 2020. Análise Avançada das Demonstrações Contábeis – Uma Abordagem Crítica. 3ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
SACRAMONE, Marcelo B. 2024. Recuperação Judicial – dos Objetivos ao Procedimento. 1ed. Saraiva Jur, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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