
04 de fevereiro de 2026
Programa de Gestão e Desempenho: percepção de líderes e liderados em um órgão do Poder Executivo Federal
Daniela Scarabucci Janones; Noah Emanuel Teles
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo investiga a percepção de líderes e liderados sobre o Programa de Gestão e Desempenho (PGD) em um órgão do Executivo Federal, buscando identificar boas práticas, lacunas e melhorias. A análise, baseada em dados quantitativos e qualitativos, visa compreender o impacto da transição para um modelo focado em resultados na dinâmica organizacional, no desempenho e no bem-estar dos servidores, fornecendo subsídios para o aprimoramento do teletrabalho e a promoção de uma cultura de confiança e eficiência.
A liderança organizacional evoluiu de modelos autocráticos para abordagens colaborativas, como a liderança transformacional e servidora, que priorizam inovação e engajamento (Liden et al., 2025). A pandemia da COVID-19 acelerou essa transição, impondo o trabalho remoto e exigindo novas competências para liderar à distância. Essa mudança forçou os setores público e privado a reavaliarem seus modelos de gestão, evidenciando a necessidade de líderes capazes de manter a coesão, a produtividade e o bem-estar em ambientes virtuais (Wang et al., 2021).
Habilidades como comunicação virtual assertiva, suporte emocional, adaptabilidade e clareza na definição de metas tornaram-se cruciais (Miranda et al., 2024), junto à gestão do tempo, empatia e domínio de ferramentas digitais (Sousa, 2025). No serviço público federal, essa transição foi formalizada pelo Programa de Gestão e Desempenho (PGD), regulamentado pelo Decreto n° 11.072/2022 e pela Instrução Normativa n° 21/2024. O PGD representa uma mudança paradigmática ao substituir o controle de frequência pela mensuração de desempenho, o que demanda uma cultura de confiança e responsabilidade (Salomão, 2024; Teixeira & Bacinello, 2024).
A implementação de um programa dessa magnitude enfrenta desafios. A transição para modelos de trabalho flexíveis colide com a cultura burocrática e o controle presencial. Resistência à mudança, dificuldades de adaptação tecnológica e falta de capacitação para gestão remota são obstáculos recorrentes no setor público (Park et al., 2024). No órgão estudado, embora a infraestrutura digital tenha facilitado a transição técnica, as mudanças nos modelos de gestão representam um processo contínuo de adaptação (Paschoiotto, Cunha & Silva, 2024).
A percepção dos servidores sobre o PGD é determinante para seu sucesso, ligando-se à satisfação, engajamento e qualidade de vida. Estudos indicam que a flexibilidade do teletrabalho aumenta a satisfação e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, se houver gestão eficiente, metas realistas e suporte institucional (García-Salirrosas et al., 2023; Al-Mohamed et al., 2024). Portanto, analisar as percepções de líderes e liderados é fundamental para identificar pontos fortes e áreas de ajuste, consolidando o PGD como uma política de valor para os servidores, a organização e a sociedade.
O estudo utilizou uma pesquisa exploratória com abordagem mista. O método quantitativo permitiu a análise de dados numéricos para um panorama objetivo do PGD, enquanto o qualitativo aprofundou as percepções e experiências subjetivas dos participantes, enriquecendo a interpretação dos resultados (Piovesan & Temporini, 1995). A combinação foi adequada para capturar a extensão e a complexidade das vivências com o novo modelo de trabalho.
A população-alvo foi de 381 servidores ativos de um órgão do Executivo Federal em Brasília-DF, com PGD implementado desde 2020. A amostra, não probabilística por conveniência, foi definida pela disponibilidade dos participantes. Embora limite a generalização, essa técnica é validada em pesquisas exploratórias para levantar tendências iniciais em contextos específicos (Campos & Saidel, 2022; Golzar et al., 2022).
A coleta de dados ocorreu de 11 a 21 de agosto de 2025, via questionário online, obtendo 97 respostas (25,5% da população). Desses, 83 eram participantes do PGD, representando 42% dos 197 servidores na modalidade. A amostra final incluiu 46 gestores (48%) e 51 liderados (52%), uma distribuição que permitiu uma análise comparativa robusta entre os grupos.
Para garantir a integridade ética, os participantes acessaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que detalhava os objetivos, procedimentos e assegurava o anonimato. A participação foi voluntária. Houve alinhamento prévio com a coordenação do PGD no órgão, que ajudou a definir indicadores relevantes, alinhando a pesquisa às necessidades de gestão da instituição.
A análise da comunicação revela uma percepção positiva. A maioria dos líderes (66,7%) indicou que o teletrabalho não dificulta a comunicação, e 94% dos liderados expressaram satisfação com a interação com suas chefias. Os achados são consistentes com a literatura, que aponta estratégias de comunicação claras e o uso de ferramentas digitais como fatores de coesão em ambientes remotos (Couto, Costa & Menezes, 2023). A comunicação frequente e transparente emerge como pilar para a satisfação dos liderados (Gama et al., 2023).
Sobre o feedback, os resultados mostraram variabilidade na percepção dos líderes sobre a frequência com que o recebem. A distribuição equilibrada das respostas sugere a ausência de um padrão consolidado. Essa dispersão pode refletir a natureza do feedback no teletrabalho, que, segundo Jansson e Kangas (2024), tende a ser mais planejado e dependente de tecnologia. A falta de uma estrutura intencional para o feedback pode gerar percepções divergentes, evidenciando um desafio organizacional.
A interatividade das equipes também foi analisada. A maioria dos líderes (60%) discorda que o teletrabalho prejudique a troca de ideias, e 73,5% dos liderados não percebem que a ausência de contato social comprometeu o sentimento de pertencimento. Os dados corroboram o estudo de Oliveira Júnior (2023), que concluiu que o teletrabalho não compromete a coesão da equipe se houver práticas comunicativas adequadas para promover a interação virtual.
Quanto ao desempenho, a percepção dos liderados é favorável: 90,4% não têm dificuldades de concentração e 89,2% não têm problemas com autogestão do tempo. A sobrecarga de trabalho, contudo, foi controversa. Os achados dialogam com a literatura, que associa o PGD à percepção de maior produtividade, mas também a desafios de intensificação laboral (Teixeira & Bacinello, 2024; Velasco et al., 2023). A visão da liderança é similar: 72,3% discordam que o teletrabalho reduziu a performance, 80% não veem dificuldades no monitoramento e 75,6% concordam que o modelo aumentou a autonomia dos subordinados. A neutralidade de 17,8% dos líderes sobre a autonomia, porém, pode sinalizar que essa percepção não é universal.
Os benefícios para a qualidade de vida e saúde mental foram expressivos. Houve consenso sobre as vantagens do teletrabalho, como melhoria do bem-estar e economia de recursos para servidores (transporte, alimentação) e para a organização (despesas operacionais). Os dados alinham-se a pesquisas que relacionam a satisfação no teletrabalho ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal e ao apoio dos supervisores (Garcia-Salirrosas et al., 2023), além do impacto favorável na eficiência e economia para as organizações (Al-Mohamed et al., 2024).
A análise da infraestrutura tecnológica e capacitação revelou percepções heterogêneas. Cerca de 51% dos respondentes consideram os sistemas eletrônicos adequados, enquanto 40% discordam, evidenciando experiências distintas. Quanto à capacitação, 66% sentem-se preparados. A neutralidade de 20,5%, no entanto, sugere lacunas, seja pela não participação em treinamentos ou pela percepção de que foram insuficientes. Isso reforça a necessidade de investimentos contínuos em competências técnicas e comportamentais essenciais para o trabalho remoto (Legentil et al., 2020).
A barreira cultural foi um dos desafios mais proeminentes, com 80,7% dos respondentes percebendo dificuldade para mudanças no órgão. Essa resistência alinha-se à literatura sobre mudança organizacional, que aponta a aversão ao desconhecido como obstáculo à modernização administrativa (Hubbart, 2023). Superar essa barreira exige liderança eficaz, comunicação transparente e estratégias de engajamento para que a mudança seja culturalmente internalizada (Rocha, 2025).
As respostas qualitativas aprofundaram os achados. Os servidores destacaram como vantagens a melhoria da qualidade de vida, o aumento da produtividade e a economia de recursos. Os desafios apontados incluíram a necessidade de ampliar o acesso ao PGD, resistências culturais de gestores, limitações de TI, fragilidades na definição de metas e o risco de sobrecarga. A contradição entre benefícios individuais e entraves institucionais revela que o PGD, embora bem-aceito, necessita de ajustes estruturais e culturais. A preocupação com a sobrecarga converge com estudos sobre os riscos psicossociais do teletrabalho sem metas realistas (Sobral et al., 2023; Soares, 2025). A preferência da maioria por modelos híbridos ou integrais confirma o teletrabalho como um novo paradigma na gestão pública (Roos & Silva, 2024; Leite & Lemos, 2021).
Em suma, o PGD gerou benefícios tangíveis para a qualidade de vida, autonomia e produtividade, como flexibilidade de horários e redução de custos. No entanto, o programa enfrenta desafios significativos que impedem sua plena consolidação, como resistências culturais, fragilidade na definição de indicadores, limitações tecnológicas e desigualdade de condições entre setores. Conforme um participante, “o maior desafio para a implementação do teletrabalho no órgão tem sido superar a mentalidade tradicional”, enquanto outro observou que “a alta gestão precisa se habituar com a comunicação escrita e formal para reduzir ruídos na execução das tarefas”.
As limitações do estudo residem na sua aplicação a um único órgão, restringindo a generalização, e na dependência de percepções subjetivas. Apesar disso, a pesquisa oferece contribuições práticas, sistematizando as percepções sobre o PGD e fornecendo subsídios para aprimorar a gestão do teletrabalho, fortalecer a cultura de resultados e promover a valorização dos servidores. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a percepção sobre o Programa de Gestão e Desempenho é majoritariamente positiva em relação aos ganhos individuais de qualidade de vida e produtividade, mas revela desafios institucionais significativos de ordem cultural, gerencial e tecnológica que precisam ser endereçados para que o programa alcance seu potencial máximo como instrumento de modernização da administração pública.
Referências:
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Couto, F.; Costa, A.; Menezes, R. Equipes virtuais de trabalho: gestão, comunicação e liderança. Anais da Conferência Tudo é Ciência, 2023.
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Golzar, J.; Noor, S.; Tajik, O. Convenience sampling. International Journal of Education & Language Studies, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 72–75, dez. 2022.
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Wang, B.; Liu, Y.; Qian, J.; Parker, S. K. Achieving Effective Remote Working During the COVID-19 Pandemic: A Work Design Perspective. Applied Psychology: An International Review, v. 70, n. 1, p. 16–59, 2021.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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