Imagem Educação corporativa e letramento em saúde: desafios e possibilidades

10 de fevereiro de 2026

Educação corporativa e letramento em saúde: desafios e possibilidades

Paula de Carvalho Neves; David Menezes Lobato

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo investiga a educação corporativa para profissionais da saúde, analisando como o letramento em saúde é incorporado na formação continuada. A pesquisa examina como instituições de saúde capacitam seus colaboradores para melhorar a compreensão dos pacientes sobre seus tratamentos, partindo da premissa de que o letramento em saúde é um pilar para a eficácia terapêutica, influenciando a adesão, a prevenção e a autonomia no autocuidado.

O letramento em saúde, ou health literacy, é o conjunto de competências que permitem aos indivíduos acessar, compreender, avaliar e utilizar informações para promover a saúde (WHO, 2021). O conceito, surgido nos EUA nos anos 1970, evoluiu de um foco em habilidades individuais para uma abordagem de saúde coletiva (Peres, 2023). No Brasil, a discussão ganhou força nos anos 2000, e estudos documentam que a dificuldade de compreensão dos pacientes, devido à complexidade da comunicação profissional-paciente, compromete a adesão terapêutica e gera desfechos clínicos negativos (Oscalices et al., 2019; Cancilieri et al., 2022).

A educação corporativa é uma ferramenta estratégica que alinha o desenvolvimento de competências aos objetivos organizacionais, transcendendo o treinamento tradicional ao focar na cultura e nos desafios do ambiente de trabalho (Meister, 1999). No setor da saúde, porém, a estruturação de modelos de Educação Corporativa (EC) é incipiente, com iniciativas isoladas e sem padronização (Monken e Soares, 2023), o que reforça a necessidade de investigar como incorporar o letramento em saúde como competência central nas práticas de formação.

A intersecção entre educação corporativa e letramento em saúde é fundamental, pois as instituições de saúde devem criar uma cultura de aprendizado para profissionais e pacientes. Profissionais bem preparados são os principais mediadores do conhecimento, facilitando o entendimento e a adesão dos pacientes (Maragno, 2009). Estudos indicam que populações vulneráveis, como idosos com baixa escolaridade, possuem letramento em saúde inadequado, o que aumenta seus riscos (Maragno et al., 2019).

Políticas públicas como a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) e a Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS-SUS) incentivam a formação contínua. A PNEPS-SUS, em particular, valoriza o diálogo e os saberes populares para a construção compartilhada do conhecimento (Brasil, 2013). Este estudo, portanto, mapeia iniciativas de educação corporativa que integram o letramento em saúde nos setores público e privado, e coleta percepções de lideranças hospitalares sobre a relevância e o impacto dessas ações para identificar desafios e possibilidades.

A abordagem metodológica foi a análise qualitativa, em duas fases. A primeira foi uma pesquisa documental (maio-junho de 2025) para mapear cursos sobre letramento em saúde, utilizando Google e YouTube como fontes de dados (Gil, 2002). A busca com o descritor “curso letramento em saúde” identificou instituições públicas e privadas. O Google foi mais eficaz para encontrar cursos estruturados em sites institucionais.

O critério de seleção, baseado em Meister (1999), incluiu apenas cursos livres aplicáveis à capacitação de equipes, excluindo pós-graduações, que representam decisões individuais. Foram identificadas quatro instituições de referência (duas públicas, duas privadas) com 288 cursos potencialmente relacionados. Analisou-se uma amostra de 30%, totalizando 93 cursos (47 de instituições públicas e 46 de privadas). As informações foram organizadas em quadros lógicos por tipo de curso, modalidade, público-alvo, carga horária e conteúdo.

A segunda fase (agosto-setembro de 2025) envolveu um questionário online com nove perguntas para gestores hospitalares, buscando percepções sobre a relevância do letramento em saúde. Utilizou-se o método bola de neve, obtendo cinco respostas de lideranças com média de 30 anos de atuação profissional. O questionário abordou a importância de habilidades interpessoais, o conhecimento sobre o conceito, as dificuldades práticas no atendimento e os conteúdos e indicadores relevantes para capacitação na área.

A análise dos dados foi qualitativa, interpretando padrões da oferta de cursos e das respostas dos gestores para conectar a oferta formativa às necessidades da prática. Os resultados da pesquisa documental foram sistematizados para comparar as abordagens dos setores público e privado, enquanto as respostas do questionário foram agregadas para identificar as percepções predominantes entre as lideranças.

A análise dos cursos revelou uma distinção clara entre as ofertas. As instituições públicas apresentaram uma quantidade maior de cursos relacionados ao letramento em saúde, possivelmente devido ao incentivo de políticas como a PNEPS e a PNEPS-SUS (Brasil, 2004; Brasil, 2013). A PNEPS-SUS promove uma prática político-pedagógica baseada no diálogo e na valorização dos saberes populares, refletida em cursos voltados não apenas para profissionais da Atenção Primária, mas também para a população, agentes comunitários e lideranças locais. Os conteúdos abrangem práticas comunitárias, saúde do idoso, saúde mental, autocuidado e agroecologia, muitas vezes em parceria com a OMS e o UNICEF.

Em contrapartida, a oferta das instituições privadas focou no desenvolvimento de competências para otimizar a relação profissional-paciente no ambiente clínico. Os cursos priorizavam soft skills, comunicação eficaz, mapeamento da jornada do paciente e especialidades técnicas (hard skills), com público-alvo restrito a profissionais de saúde, por vezes exclusivamente médicos. Uma das principais instituições privadas de ensino em saúde do país não apresentou, na amostra, nenhum curso diretamente relacionado ao tema. Isso sugere que, no setor público, o letramento é visto como um objetivo da educação popular em saúde, com visão integral, enquanto no privado, a abordagem é mais instrumental, focada na melhoria da comunicação para otimizar o tratamento.

Essa dualidade levanta uma discussão entre “educação em saúde”, como nas políticas públicas, e “letramento em saúde”. A educação popular em saúde se materializa em ações dialógicas com a comunidade, enquanto o conceito de letramento em saúde está frequentemente associado à medição de habilidades individuais por meio de testes (Maragno et al., 2019). A aplicação de testes foca no sujeito, ao passo que a educação popular foca no coletivo e nos saberes culturais. Embora distintas, ambas as estratégias convergem para capacitar o indivíduo a agir em prol da própria saúde. Este estudo considera que o letramento em saúde pode englobar ambas as abordagens.

Os resultados do questionário com as lideranças corroboram esses achados. Todos os cinco respondentes consideram habilidades técnicas e interpessoais igualmente necessárias, valorizando a “comunicação eficaz” e a “boa relação com demais profissionais”. “Envolver o paciente na responsabilidade sobre o cuidado” foi uma das opções menos selecionadas, indicando que a responsabilidade primária ainda é percebida como do profissional. Todos os gestores conheciam o conceito de letramento em saúde e já lidaram com pacientes que desconheciam noções básicas de saúde.

Houve unanimidade em três ocorrências comuns no atendimento: “os pacientes apresentam vulnerabilidades sociais que podem atrapalhar seu tratamento”, “o atendimento com a presença de familiares auxilia no entendimento” e “a faixa etária de pacientes influencia no entendimento do tratamento”. Esses resultados destacam que fatores sociais e contextuais são determinantes para o sucesso terapêutico, alinhando-se à literatura sobre a necessidade de um olhar atento às especificidades do paciente (Ribas e Araújo, 2021). A percepção sobre o impacto das vulnerabilidades sociais é relevante no contexto brasileiro, com seus desafios sociais documentados pelo Censo de 2022.

A distribuição de planos de saúde no Brasil (dados da ANS) sugere a necessidade de abordagens de letramento em saúde adaptadas regionalmente. Em regiões com menor cobertura de saúde suplementar (Norte, Nordeste); a população depende mais do SUS, estratégias de educação popular podem ser mais eficazes. Em regiões com maior acesso a serviços privados (Sudeste), o foco em soft skills e na relação profissional-paciente pode ser mais proeminente. Isso indica que a localização e o perfil socioeconômico do público são cruciais na definição da estratégia de educação corporativa.

Para futuras capacitações em letramento em saúde, a “participação ativa do paciente no autocuidado” foi a opção mais indicada por todos, seguida pelo “desenvolvimento de habilidades interpessoais” e “engajamento de familiares”. A baixa seleção de opções sobre materiais educativos pode sugerir que a mudança de comportamento e a qualidade da interação são vistas como mais impactantes. A “adesão ao tratamento” foi unanimemente apontada como o principal indicador de impacto para ações educativas, seguida pela “satisfação do paciente”, reforçando que o letramento é um meio para alcançar melhores desfechos clínicos e operacionais.

O estudo propõe que programas de educação corporativa em letramento em saúde sejam precedidos por um diagnóstico institucional. A gestão deve analisar indicadores como taxas de adesão ao tratamento, recorrência de complicações e satisfação dos pacientes, além de mapear a jornada e o perfil socioeconômico dos usuários. Essa análise prévia permite que a capacitação seja desenhada para sanar os gaps reais da instituição, seja no desenvolvimento de hard skills ou de habilidades interpessoais.

A análise dos dados permite concluir que o letramento em saúde é uma temática complexa que afeta todo o ecossistema de uma instituição de saúde, repercutindo em indicadores cruciais para sua sustentabilidade. A abordagem para promovê-lo via educação corporativa deve ser influenciada pelo contexto local. Em ambientes com maior acesso à saúde suplementar, o foco pode recair sobre o aprimoramento da comunicação e o desenvolvimento de soft skills. Em contextos de maior vulnerabilidade social, estratégias alinhadas à educação popular em saúde tendem a ser mais eficazes. A recomendação central é a realização de um diagnóstico prévio, analisando métricas como a adesão ao tratamento e a satisfação do paciente, para que a capacitação seja direcionada e impactante. A melhoria do atendimento não é um resultado de ações individuais, mas de uma estratégia organizacional que reconhece a importância de capacitar suas equipes para uma comunicação mais clara, empática e eficaz.

Para a gestão de pessoas na área da saúde, isso implica ir além da qualificação técnica, incorporando o desenvolvimento de habilidades interpessoais como um pilar estratégico. O impacto da capacitação individual de um profissional é maximizado quando inserido em um programa institucional. Para a população, o Sistema Único de Saúde (SUS) se consolida como o principal canal para a educação popular em saúde, oferecendo acesso a recursos gratuitos que promovem o conhecimento e o autocuidado. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a integração eficaz do letramento em saúde nas estratégias de educação corporativa exige uma análise contextual da instituição e a priorização de indicadores de impacto como a adesão ao tratamento e a satisfação do paciente.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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