Imagem Tecnologias Emergentes no Monitoramento da Saúde Mental de Motoristas de Aplicativos

10 de fevereiro de 2026

Tecnologias Emergentes no Monitoramento da Saúde Mental de Motoristas de Aplicativos

Sabrina Johansen Tadei; Ingrid de Matos Martins

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo desta pesquisa foi investigar como tecnologias emergentes podem contribuir para o monitoramento e apoio psicológico de motoristas de aplicativos no Brasil, considerando condições de trabalho com longas jornadas, baixa remuneração e sobrecarga emocional que impactam sua saúde mental. O estudo buscou identificar os principais fatores de estresse, avaliar a receptividade dos motoristas a soluções digitais para o bem-estar e explorar as oportunidades e desafios na implementação de ferramentas como aplicativos de mindfulness e sistemas baseados em Inteligência Artificial. A investigação partiu da premissa de que, embora as plataformas digitais tenham revolucionado a mobilidade urbana, o bem-estar dos trabalhadores que sustentam esse ecossistema permanece em segundo plano, criando uma lacuna que a tecnologia, aplicada de forma ética, poderia ajudar a preencher.

O cenário laboral foi reconfigurado pela economia de plataforma, fenômeno conhecido como “uberização”. Este modelo, mediado por aplicativos, altera as relações de emprego tradicionais (Anwar & Graham, 2020). Inserido na quarta revolução industrial, que integra tecnologias como Big Data e IoT, esse paradigma dissolve as fronteiras entre os domínios físico e digital (Antunes, 2020). O termo “uberização”, originado com a ascensão da Uber, descreve uma organização laboral que, sob a bandeira da flexibilidade, frequentemente mascara condições de precarização e controle algorítmico (Abílio et al., 2021).

Estudos associam o trabalho uberizado a elevados níveis de sofrimento psíquico. Pesquisas com motoristas de aplicativos revelam desgaste emocional, fragilização de vínculos sociais e dificuldade de reconhecimento, fatores que impactam negativamente a saúde mental (Ferreira et al., 2023; Sousa, 2024). A pressão por produtividade, a instabilidade financeira e a ausência de apoio institucional criam um ambiente propício a transtornos como ansiedade, depressão e estresse crônico. Essa realidade é agravada pela natureza solitária do trabalho e pela exposição a riscos no trânsito e na interação com passageiros.

Paralelamente, tecnologias emergentes surgem como estratégia para mitigar os problemas de saúde mental. Soluções como aplicativos de mindfulness, dispositivos de monitoramento de sinais vitais e sistemas de IA para detecção de estresse têm sido propostas para oferecer suporte psicológico remoto e reduzir tensões ocupacionais (Campos et al., 2024). Contudo, a implementação enfrenta barreiras como a privacidade dos dados, a desigualdade no acesso digital, a resistência dos usuários e a ausência de regulamentação, que exigem atenção ética e institucional para seu uso eficaz (Filipak et al., 2024; Freitag et al., 2023).

No Brasil, a relevância do tema é amplificada por dados socioeconômicos. Em 2022, o IBGE apontou que 1,5 milhão de brasileiros trabalhavam por meio de aplicativos, com 778 mil dedicados ao transporte de passageiros. Este contingente enfrenta uma luta por direitos básicos, como benefícios, segurança e descanso regulamentado, em um cenário de incerteza que afeta seu bem-estar (Weege et al., 2024). A alta taxa de desemprego impulsiona a adesão a essa modalidade de trabalho, agravando a vulnerabilidade da categoria (Candido, 2020). Torna-se imperativo investigar o potencial das tecnologias emergentes como ferramenta de suporte, suprindo uma lacuna na literatura que ainda explora de forma incipiente a aplicação dessas soluções junto a esses trabalhadores (Melo et al., 2022).

A pesquisa teve natureza aplicada, objetivo descritivo e abordagem mista, combinando métodos qualitativos e quantitativos para uma análise abrangente. A população-alvo foi composta por motoristas de aplicativos ativos no Brasil, maiores de 18 anos, atuantes em plataformas como Uber, 99 e Indrive, com foco em grandes centros urbanos. A participação foi voluntária e condicionada ao consentimento livre e esclarecido, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), garantindo o sigilo das informações.

A coleta de dados ocorreu por meio de um survey online, com um questionário híbrido composto por perguntas estruturadas e não estruturadas, fundamentado em estudos prévios sobre trabalho em plataformas, saúde mental e tecnologia (Silva, 2024; Alves et al., 2021). As perguntas estruturadas incluíram escalas de mensuração para análise quantitativa, inspiradas em instrumentos validados (Almeida et al., 2022), permitindo a coleta de dados sobre frequência de estresse e jornada de trabalho. As perguntas abertas foram desenhadas para capturar as experiências individuais, explorando as condições de trabalho, o estado emocional e a receptividade a novas tecnologias.

A análise dos dados quantitativos foi conduzida por estatística descritiva com o software Jamovi para calcular frequências, porcentagens, médias e desvios-padrão, focando na identificação de padrões. Para os dados qualitativos, foi empregada a análise de conteúdo de Bardin, seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A categorização temática resultou em categorias centrais como estresse ocupacional, percepção de exploração, impactos na vida familiar, ausência de apoio emocional e receptividade ao uso de tecnologias para o cuidado com a saúde mental.

O estudo possui limitações. A amostra de 101 respondentes foi não probabilística, por conveniência, com concentração majoritária de motoristas de São Paulo e do gênero masculino. Consequentemente, os resultados não são generalizáveis e devem ser interpretados como indicativos exploratórios. O desenho transversal, baseado em autorrelato, capta um momento específico e está sujeito a vieses, não permitindo o estabelecimento de inferências causais. A ausência de análises estatísticas inferenciais também limita a profundidade das conclusões.

O perfil dos 101 participantes é predominantemente de homens cisgênero (89,1%), com idade média de 36,5 anos, faixa etária produtiva associada a pressões por estabilidade financeira (Dejours, 2020). A maioria (63,1%) atua na cidade de São Paulo. Quanto ao tempo de atuação, 36,0% trabalham na atividade entre 1 e 3 anos, sugerindo uma concentração de profissionais com experiência intermediária.

Um achado central refere-se à jornada de trabalho: 47,5% dos motoristas relataram trabalhar entre 9 e 12 horas por dia, enquanto 14,9% excedem 12 horas diárias. Somados, mais de 62% da amostra está submetida a jornadas extensas. Essa realidade reforça a tese de que a flexibilidade do trabalho em aplicativos se traduz em uma autoimposição de longas horas para alcançar uma renda viável, transferindo integralmente ao trabalhador a responsabilidade por sua subsistência (Silva e Henning, 2022).

A correlação entre a carga horária e o impacto na saúde mental é evidente: 79,3% dos motoristas se sentem estressados com alguma regularidade, com 34,7% relatando estresse “frequentemente” e 44,6% “às vezes”. Quando questionados se a rotina de trabalho afeta sua saúde mental, 68,3% responderam afirmativamente. Entre os efeitos negativos, o estresse (32,3%) lidera, seguido pela percepção de exploração (27,7%) e pela ansiedade (13,8%). O desgaste transcende o trabalho, com relatos de interferências na vida pessoal. Um respondente ilustrou: “Chego tão cansado que não consigo nem conversar com minha família direito. Só quero me desligar.”

Apesar do desgaste, a maioria dos motoristas não pretende abandonar a atividade, um paradoxo ancorado na necessidade financeira e na dificuldade de reinserção no mercado formal. A permanência na atividade evidencia uma complexa relação de dependência, mesmo com o reconhecimento do prejuízo psicológico (Oliveira e Coutinho, 2021). Este quadro é reforçado pela percepção de que, embora autônomos, estão sujeitos ao controle dos algoritmos das plataformas, que ditam preços e rotas, configurando novas formas de subordinação (Brasil, 2021).

Os dados revelam uma lacuna entre a percepção do problema e a busca por ajuda. Apenas 18,8% dos motoristas que se sentem afetados buscaram ajuda psicológica nos últimos 12 meses. Este baixo índice pode ser atribuído ao estigma, aos custos e à falta de tempo (Kohn et al., 2021). A maioria dos motoristas desconhece os programas de saúde mental oferecidos pelas plataformas, e a cobrança por esses serviços agrava a barreira de acesso, contrariando recomendações da Organização Mundial da Saúde para populações precarizadas (World Health Organization, 2020).

Em contrapartida, os motoristas demonstraram notável receptividade ao uso de tecnologias para o cuidado com a saúde mental. A maioria (61,5%) declarou já ter utilizado algum recurso digital com essa finalidade. Quando questionados sobre que tipos de tecnologia poderiam auxiliar, os aplicativos foram a opção mais mencionada (44,4%), seguidos por terapia online (22.2%). Este dado sugere um campo fértil para a implementação de ferramentas como chatbots e sensores de fadiga. Conforme Honorato et al. (2025), tecnologias baseadas em IA podem oferecer recursos para apoio emocional remoto. A análise também revelou que motoristas com menos de três anos de experiência mostraram maior propensão ao uso dessas ferramentas.

No entanto, a adoção de tecnologias de monitoramento gera preocupações para 27,5% dos participantes. A principal foi a privacidade dos dados (44,4%), seguida pela falta de tempo para utilizar as tecnologias (27,8%) e pela complexidade de uso (22,2%). Um motorista resumiu o receio: “Tenho medo de que meus dados sejam usados contra mim.” Essa percepção evidencia a necessidade de que qualquer iniciativa seja implementada com transparência e segurança, preservando princípios éticos (Mamykina et al., 2022). O equilíbrio entre monitoramento para o bem-estar e vigilância corporativa é crucial para que as ferramentas sejam percebidas como apoio, e não como controle (Torous et al., 2020).

A percepção dos motoristas sobre as plataformas é majoritariamente crítica. Os dados mostram que 72,3% dos entrevistados concordam que falta apoio emocional por parte das empresas. Um depoimento ilustra essa frustração: “As empresas não se importam com nosso desgaste mental, só com o número de corridas”. Essa visão é corroborada pela crença de 51,5% dos motoristas de que o monitoramento da saúde mental deveria ser uma obrigação das próprias empresas. Embora as plataformas tenham se consolidado pela inovação, esse potencial não tem sido direcionado ao cuidado com o capital humano, gerando a percepção de que o foco reside no lucro (Ravanelle, 2019).

Os resultados confirmaram que a rotina de trabalho dos motoristas de aplicativo compromete significativamente a saúde mental, resultando em altos níveis de estresse e ansiedade. Contudo, o estudo revelou uma abertura considerável para o uso de soluções digitais, como aplicativos de mindfulness e sistemas de pausas monitoradas por IA. Essas ferramentas são percebidas como recursos viáveis para apoiar o cuidado psicológico, desde que sua implementação seja pautada pela ética e segurança de dados. A pesquisa possui limitações, como a concentração da amostra em São Paulo, o que restringe a generalização dos achados, e seu desenho transversal baseado em autorrelato, que impede inferências causais. A análise, restrita à estatística descritiva, posiciona os resultados como exploratórios.

Para futuras investigações, recomenda-se a ampliação da amostra para abranger diferentes regiões do Brasil, a adoção de estudos longitudinais e a realização de pesquisas de intervenção para testar a eficácia de tecnologias emergentes específicas. É relevante explorar o potencial do Big Data e da Inteligência Artificial para identificar sinais precoces de adoecimento mental, bem como aprofundar a investigação sobre os aspectos éticos, de privacidade e de regulamentação das ferramentas digitais. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as tecnologias emergentes, quando aplicadas com ética e respaldo institucional, apresentam um potencial significativo para promover a saúde mental e melhorar a qualidade de vida dos motoristas de aplicativo no Brasil.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq

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