Imagem Desafios e oportunidades da inteligência artificial na prática docente brasileira

10 de fevereiro de 2026

Desafios e oportunidades da inteligência artificial na prática docente brasileira

Patrícia Leme Pedroso de Jesus; Flávia Pierrotti de Castro

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A pesquisa assume que a IA é um agente de mudança que redefine o papel do professor. Compreender as percepções e barreiras do corpo docente é fundamental para que as instituições desenvolvam estratégias de implementação efetivas e éticas, alinhadas à educação do século XXI, evitando a subutilização da tecnologia ou a criação de novos obstáculos. A urgência desta investigação intensificou-se com a popularização massiva de ferramentas de IA generativa, que adentraram o ambiente educacional de forma abrupta, muitas vezes sem um planejamento institucional prévio. Este cenário impôs aos educadores a necessidade de uma adaptação reativa, gerando tanto curiosidade quanto apreensão, e tornando imperativo analisar como essa transição está ocorrendo na prática, para além dos discursos teóricos.

A prática docente contemporânea é impactada pela inteligência artificial, que oferece oportunidades para a personalização do aprendizado em larga escala, adaptando conteúdos, ritmos e metodologias às necessidades individuais dos estudantes. Essa personalização pode se manifestar por meio de plataformas adaptativas que identificam lacunas de conhecimento em tempo real e sugerem atividades de reforço, ou por meio de tutores virtuais que oferecem suporte contínuo. A IA também pode otimizar a gestão pedagógica, automatizando tarefas administrativas como a correção de avaliações de múltipla escolha, o monitoramento de frequência e o acompanhamento do progresso dos alunos em plataformas digitais. A integração da IA reconfigura a dinâmica educacional de maneira profunda. O Marco Referencial de Competências em IA para Professores da UNESCO (2025) aponta para a criação de um novo triângulo de interação humano-IA-estudante; a tecnologia atua como um mediador cognitivo, ampliando as capacidades de ambos, professor e aluno.

Nesse modelo, a IA não substitui o educador, mas se torna uma ferramenta potente em seu arsenal pedagógico. Contudo, a UNESCO (2025) adverte que o potencial da IA só se realiza plenamente se sua aplicação for guiada por uma mentalidade centrada no ser humano, fortalecendo a autonomia pedagógica e a responsabilidade ética. A transição para uma prática docente mediada pela IA, no entanto, enfrenta desafios significativos e multifacetados. Zawacki-Richter et al. (2019) destacam que, embora as ferramentas de IA possam melhorar o ensino, sua adoção é frequentemente impedida por fatores como a resistência à mudança e a insegurança dos educadores diante de tecnologias que parecem complexas ou ameaçadoras. A carência de formação adequada é consistentemente apontada como o obstáculo mais crítico, pois o uso eficaz da IA exige competências que vão muito além do domínio técnico de uma ferramenta específica.

É necessário compreender seus princípios de funcionamento, suas implicações pedagógicas e, crucialmente, suas dimensões éticas. Neste contexto, a figura do professor como mediador do conhecimento, defendida por Libâneo (2018), torna-se ainda mais relevante e complexa. O papel docente exige uma postura de atualização constante e de reflexão crítica sobre a própria prática. A incorporação da IA não é um evento isolado, mas um processo pedagógico contínuo que demanda a ressignificação da atuação profissional. A relevância deste estudo ancora-se na necessidade premente de alinhar as práticas educacionais às demandas de uma sociedade cada vez mais digital e dataficada, em linha com a visão de uma educação híbrida e flexível, como proposto por Bacich et al. (2015).

A IA é um catalisador poderoso para essa transformação, mas seu sucesso e seus benefícios dependem intrinsecamente da compreensão aprofundada e do suporte efetivo aos desafios enfrentados pelos professores, que são os verdadeiros agentes dessa mudança no chão da escola. A pesquisa é um estudo descritivo, que visa descrever as características de um determinado fenômeno ou população (Gil, 2010), com uma abordagem metodológica mista. A escolha pela natureza descritiva foi estratégica, pois permitiu observar, registrar e analisar os fatos do universo pesquisado tal como se apresentam, sem a interferência direta do pesquisador na manipulação de variáveis (Campos, 2008). O objetivo não era estabelecer relações de causa e efeito, mas sim pintar um retrato detalhado e fiel do cenário atual da integração da IA na prática docente. A abordagem mista foi fundamental para alcançar a profundidade e a amplitude desejadas.

A dimensão qualitativa foi central para aprofundar a compreensão das percepções, experiências, angústias e expectativas dos professores, sendo o método ideal para explorar fenômenos complexos, subjetivos e em plena evolução, como a adoção de uma nova tecnologia disruptiva (Creswell, 2007). Por sua vez, a dimensão quantitativa serviu para dimensionar a prevalência de opiniões e práticas, conferindo robustez e generalização aos achados qualitativos e permitindo a identificação de padrões em uma amostra maior. A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário online, elaborado na plataforma Google Forms, com uma predominância de perguntas abertas para capturar a riqueza das narrativas docentes, complementadas por questões de múltipla escolha para a coleta de dados demográficos e de escala. O instrumento ficou disponível para respostas entre 7 de abril e 13 de maio de 2025.

Para a análise dos dados textuais provenientes das perguntas abertas, empregou-se a técnica de Análise de Conteúdo, conforme a metodologia sistemática proposta por Bardin (2011). Este processo foi meticulosamente seguido em suas três etapas cronológicas. A primeira foi a pré-análise, que consistiu na leitura flutuante de todas as respostas para obter uma impressão geral do material, seguida pela organização e sistematização dos dados brutos em uma planilha. A terceira e última etapa foi o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação, momento em que os dados categorizados foram articulados com o referencial teórico do estudo, permitindo a construção de uma análise crítica e fundamentada sobre o fenômeno investigado.

A análise dos dados coletados junto a 46 professores revela um panorama complexo e repleto de nuances. A maioria expressiva dos respondentes (77,8%) atua em escolas da rede privada, um público que, teoricamente, teria maior acesso a recursos tecnológicos e oportunidades de formação continuada. Dados da pesquisa TIC Educação 2023 (Cetic. br, 2024) corroboram essa percepção, indicando que escolas privadas no Brasil possuem, em média, melhor infraestrutura tecnológica e maior oferta de capacitação para seus docentes. O corpo docente pesquisado é altamente qualificado do ponto de vista acadêmico: 80% possuem pós-graduação, com um equilíbrio notável entre especialistas (31,1%), mestres (31,1%) e uma parcela considerável de doutores (17,8%). Essa elevada qualificação formal sugere uma base sólida para a reflexão crítica sobre a própria prática e uma potencial abertura para a inovação, conforme defende Libâneo (2018) ao discutir a importância da teoria na práxis docente.

A maturidade profissional também é uma característica marcante do grupo, com 60% dos docentes possuindo mais de 15 anos de experiência em sala de aula. Essa vasta experiência, por um lado, indica um conhecimento profundo e consolidado da realidade escolar e de suas complexidades. Por outro lado, como alerta Perrenoud (2000), a prática docente é constituída por um habitus, um conjunto de disposições e esquemas de ação incorporados que pode oferecer resistência a mudanças que exigem a aquisição de competências radicalmente novas, como as demandadas pela introdução da IA. A maioria desses professores experientes (37,8%) atua no Ensino Fundamental Anos Finais, uma etapa crucial da formação dos estudantes. Um achado particularmente significativo é o paradoxo evidente entre o uso da tecnologia e o conhecimento autodeclarado pelos professores.

Embora uma esmagadora maioria de 88,9% dos docentes afirme já ter utilizado alguma ferramenta de IA em sua prática profissional ou para planejamento, a autoavaliação do nível de conhecimento sobre o tema revela uma lacuna profunda: 67,4% consideram seu conhecimento “básico” e 23,9% o classificam como “intermediário”, com ninguém se declarando “avançado”. Isso sugere fortemente que o uso da IA, embora disseminado, ainda é predominantemente exploratório, superficial e instrumental. O uso parece focado em aplicações pontuais para resolver problemas imediatos, como gerar ideias para planos de aula ou criar imagens, e não em uma integração curricular sistêmica, planejada e pedagogicamente intencional. Apesar do conhecimento ainda incipiente, a percepção sobre o potencial da IA na educação é majoritariamente positiva: 77,8% dos docentes avaliam seu impacto como positivo ou muito positivo.

Este notável contraste entre o baixo conhecimento técnico e a alta expectativa de impacto sugere que a principal barreira para a adoção da IA não é uma “resistência à mudança” de natureza ideológica ou tecnofóbica, mas sim a ausência de suporte institucional, formação adequada e diretrizes claras. Essa receptividade latente indica que os professores estão, em sua maioria, dispostos a explorar novos modelos pedagógicos, como a educação híbrida e personalizada (Bacich et al., 2015), desde que recebam o apoio e as ferramentas necessárias para fazê-lo de forma segura e eficaz.

A análise das ferramentas de IA mais utilizadas pelos docentes reforça a ideia de uma adoção reativa e individualizada, em vez de institucionalmente orientada. O ChatGPT é a ferramenta mais citada, mencionada por 90% dos que utilizam IA, consolidando-se como a porta de entrada para essa tecnologia. Em seguida, aparecem ferramentas de criação de conteúdo, como geradores de imagens e apresentações (80%). Em contrapartida, plataformas com maior potencial de transformação pedagógica, como os sistemas de aprendizado adaptativo (utilizados por 50%) ou ferramentas de análise de dados de aprendizagem, são significativamente menos utilizadas. Os docentes demonstram uma clara compreensão do potencial estratégico da IA para além de suas aplicações imediatas. A otimização da gestão pedagógica, incluindo planejamento de aulas e criação de materiais, foi reconhecida como um benefício importante por 95,6% dos participantes, enquanto a personalização do ensino foi destacada por 46,7%.

Este reconhecimento evidencia a prontidão do corpo docente para explorar novas metodologias que possam atender melhor à diversidade de seus alunos. Os achados estão em perfeita linha com a literatura internacional, que aponta a personalização em escala e o feedback em tempo real como algumas das maiores vantagens da aplicação da IA na educação (Zawacki-Richter et al., 2019), mostrando que os professores brasileiros estão sintonizados com as discussões globais sobre o tema. Os desafios apontados pelos participantes validam a hipótese central do estudo de forma contundente. A falta de formação adequada foi indicada como o maior obstáculo por uma maioria esmagadora de 75,6% dos participantes, seguida pela carência de infraestrutura tecnológica adequada nas escolas (24,4%). Essa percepção de despreparo é confirmada pelo dado de que 46,7% dos docentes se sentem “pouco preparados” para usar IA em suas práticas pedagógicas.

Os resultados, em conjunto, desenham um cenário claro: o de educadores experientes, qualificados e receptivos à inovação, mas que se encontram desamparados por uma flagrante falta de suporte estrutural, tanto em termos de formação quanto de recursos. Esta constatação ecoa diretamente as diretrizes da UNESCO (2025), que identificam a falta de formação especializada para professores como a principal barreira para a integração eficaz, ética e equitativa da IA nos sistemas educacionais em todo o mundo. Este estudo evidenciou que a integração da IA na prática docente no Brasil é um campo fértil de oportunidades, mas que está atualmente marcado por desafios estruturais profundos.

A análise revela uma notável e encorajadora receptividade dos professores à inovação tecnológica, mas essa abertura é severamente limitada por uma lacuna crítica entre o desejo de inovar e a preparação efetiva para tal, um cenário que ressoa diretamente com as preocupações e recomendações expressas no Marco Referencial de Competências em IA para Professores da UNESCO (2025). O investimento no professor é, e continuará sendo, o elemento central para transformar a promessa da IA em uma realidade benéfica e equitativa para a educação. A tecnologia é um meio, não um fim, e seu impacto depende fundamentalmente da capacidade dos educadores de integrá-la de forma crítica, criativa e pedagogicamente relevante.

Para capitalizar a receptividade docente demonstrada nesta pesquisa e evitar que o potencial da IA seja desperdiçado ou mal utilizado, é imperativo que as políticas educacionais e a gestão escolar se movam para além do discurso e criem programas de capacitação contínuos, práticos e contextualizados.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a superação dos desafios estruturais, notadamente a carência de formação docente especializada, é a condição fundamental para capitalizar a receptividade dos educadores e promover uma integração eficaz da Inteligência Artificial na educação brasileira.

Referências:
Bacich, L.; Neto, A. T.; Trevisani, F. M. 2015. Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação. 1ed. Penso, Porto Alegre, RS, Brasil.
Bardin, L. 2011. Análise de Conteúdo. 1 ed. Almedina, São Paulo, SP, Brasil.
Campos, L. F. L. 2008. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Psicologia. 4ed. Alínea, Campinas, SP, Brasil.
Cetic. br. 2024. TIC Educação 2023: Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras. Comitê Gestor da Internet no Brasil, São Paulo, SP, Brasil.
Creswell, J. W. 2007. Projeto

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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