
10 de fevereiro de 2026
Desafios e perspectivas da inteligência artificial na escola para a comunidade escolar
Sabrina Factori; João Paulo Staconi
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi compreender os impactos e desafios da introdução da Inteligência Artificial no contexto educacional, com foco na gestão escolar e no desenvolvimento das competências da Base Nacional Comum Curricular. A investigação analisou como o uso de ferramentas de IA, espontâneo pelos alunos ou planejado pelos educadores, reconfigura as práticas pedagógicas, a autonomia discente e o papel mediador do professor e do gestor. O estudo partiu da premissa de que a IA é uma realidade incontornável no ambiente escolar, exigindo uma apropriação crítica para que seu potencial seja aproveitado de maneira ética e alinhada a uma formação integral que promova pensamento crítico, criatividade e autoria.
A onipresença da Inteligência Artificial, impulsionada por modelos como o ChatGPT, estabelece um novo paradigma para a educação. Sua integração é vista como inevitável e transformadora, com impacto em áreas como a produção acadêmica (Smith et al., 2023). A capacidade da IA de processar grandes volumes de informação, aumentar a produtividade e facilitar tarefas oferece benefícios a gestores, professores e estudantes. Contudo, sua incorporação é complexa no Brasil, dadas as desigualdades socioeconômicas e de infraestrutura. Diante disso, a capacitação de todos os agentes educacionais para o domínio crítico dessas ferramentas é uma necessidade premente (Moran, 2023).
As IAs contemporâneas aprendem a partir de vastos bancos de dados e interações humanas, tornando suas respostas cada vez mais sofisticadas. Contudo, essa sofisticação mascara que sua “compreensão” é de natureza estatística, desprovida de consciência, o que pode levar à geração de conteúdos enviesados, imprecisos ou eticamente questionáveis. Essa realidade impõe a educadores e gestores o papel de mediadores ativos, garantindo que a tecnologia seja utilizada para fomentar uma aprendizagem significativa e crítica, evitando a aceitação passiva de informações (Pimenta et al., 2024).
A popularidade da IA entre os estudantes é um fenômeno consolidado. Dados da Fundação Instituto de Administração (FIA, 2023) revelam que sete em cada dez alunos brasileiros já utilizaram a tecnologia para aprender, e o site GovTech (2023) informa que 30% dos usuários do ChatGPT são estudantes. Essa adesão massiva traz o risco da superestimação da ferramenta, com pesquisas indicando que a maioria dos estudantes considera o estudo com IA mais eficaz do que com um tutor humano, o que pode distorcer a função do professor. Para a equipe docente, a IA surge como recurso para elaborar planos de aula personalizados, analisar dados de desempenho, criar atividades interativas e otimizar tarefas administrativas, liberando tempo para a prática pedagógica (Montini, 2024).
O sucesso da incorporação da IA depende de um equilíbrio entre inovação e reflexão crítica. A dependência excessiva pode desestimular o pensamento crítico e a autonomia discente. É fundamental assegurar que as tecnologias digitais sirvam como auxiliares, sem substituir a inteligência humana e a capacidade de análise crítica (Miao et al., 2024). A reprodução de ideologias hegemônicas e a criação de desinformação são riscos inerentes, reforçando a necessidade de delimitações éticas e pedagógicas para seu uso, garantindo que os sujeitos mantenham uma postura ativa e questionadora (Pimenta et al., 2024).
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, adequada para compreender as complexidades das práticas educacionais (Lüdke e André, 2013). O procedimento metodológico foi o Relato de Experiência, que evidencia práticas pedagógicas concretas e fomenta reflexões críticas sobre sua aplicabilidade (Mussi et al., 2020). A elaboração do relato seguiu um roteiro estruturado, contemplando a identificação da vivência, a caracterização das atividades e a definição da natureza da intervenção pedagógica.
A experiência foi desenvolvida em uma turma de 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola particular de São Paulo, entre março e maio de 2025, com foco em educação midiática e IA. Foram analisadas situações em que a tecnologia esteve presente de forma espontânea pelos alunos ou como parte de uma proposta didática intencional. A análise dos dados, de perspectiva qualitativa, utilizou a análise de conteúdo para identificar categorias temáticas, com interpretação fundamentada em referenciais como Buckingham (2007) e Kaufman (2018). A vivência foi organizada em dois projetos: o primeiro, a produção de uma crônica de humor, revelou desafios éticos quando alunos recorreram à IA, como a perda de autoria. O segundo, a criação de um mapa mental sobre “locução adjetiva”, permitiu comparar produções autorais com outras apoiadas por IA, gerando reflexões sobre o potencial e os limites da ferramenta. A pesquisa foi autorizada pela instituição de ensino, e a intervenção pedagógica buscou observar a relação dos estudantes com a IA, considerando o gestor escolar como articulador central da integração crítica da tecnologia.
A presença da IA no contexto escolar é uma realidade cotidiana. A apropriação crítica dessas ferramentas é uma tarefa urgente para a comunidade escolar (Miao et al., 2025). Para os alunos, a IA oferece possibilidades, como plataformas colaborativas e softwares de acessibilidade (Vicari et al., 2023), mas também riscos. A confiança acrítica nas respostas rápidas de modelos como o ChatGPT pode levar à redução do esforço cognitivo, negligenciando competências fortalecidas pela pesquisa tradicional, que envolve consulta a múltiplas fontes e hierarquização de informações (Moran, 2023).
Estudos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) indicam que o uso recorrente de modelos de linguagem pode gerar um “déficit cognitivo acumulado”. A pesquisa revelou que estudantes que utilizaram IA para escrever textos apresentaram níveis mais baixos de engajamento neural e menor capacidade de relembrar o conteúdo, em comparação com aqueles que escreveram de forma autônoma (Kosmyna et al., 2025). Esse fenômeno se manifestou no projeto da crônica de humor: um aluno, usando o ChatGPT, produziu um texto coerente, mas sem humor e com vocabulário artificial para sua faixa etária, como “sediará”, admitindo dificuldade em se apropriar do conteúdo.
O projeto do mapa mental sobre “locução adjetiva” ofereceu um contraponto. A comparação entre um mapa gerado por IA e outro construído manualmente com post-its revelou a importância da cultura escolar na mediação entre tradição e inovação. A escolha de uma aluna pela produção manual não é um retrocesso, mas evidencia que a aprendizagem significativa está ligada à intencionalidade pedagógica. Conforme Sacristán (2000), o currículo se materializa nas práticas cotidianas. Essa abordagem está em sintonia com Charlot (2000), para quem aprender envolve uma relação de sentido com o saber, e Chartier (1998), que destaca como o suporte material influencia a apropriação do conhecimento.
Essa convivência de diferentes modos de aprender reforça que a inovação pedagógica reside na capacidade da escola de promover experiências autorais e significativas (Nóvoa, 2017), e não apenas na adoção de tecnologias. O desafio está na falta de uma pedagogia crítica que oriente o uso responsável da IA (Selwyn, 2021). Intervenções como comparar textos autorais e gerados artificialmente podem ressignificar a ferramenta, transformando-a em um recurso para a reflexão. O risco de uma cultura de imediatismo compromete o desenvolvimento de competências da BNCC e reforça a importância da mediação para que a tecnologia seja um apoio, e não um substituto do pensamento (Pimenta et al., 2024).
Para os professores, a IA é uma aliada estratégica para otimizar tarefas burocráticas, permitindo que se concentrem na mediação da aprendizagem (Moran, 2023; Vicari et al., 2023). Sistemas de tutoria inteligente (ITS) podem sugerir planos de aula personalizados (Jacovina & McNamara, 2016), e pesquisas compiladas por Alsaeed (2022) demonstram o potencial da IA para identificar estudantes em risco e apoiar decisões pedagógicas. No entanto, o uso acrítico por educadores é um risco, podendo resultar em práticas descoladas da realidade dos alunos (Galafassi et al., 2023). Isso evidencia a necessidade de atualização profissional constante para que a escola não permaneça em atraso em relação às transformações sociais (Cortella, 2018).
A discussão sobre o futuro da docência afasta-se da ideia de substituição do professor. A prática educativa envolve dimensões humanas insubstituíveis como a escuta e o vínculo. O papel do professor se redimensiona para o de um orientador de trajetórias formativas, que guia os estudantes no uso ético das tecnologias (Pscheid, 2023). Isso exige a reinvenção do currículo, alinhando-o às competências da BNCC e superando a memorização (Bacich, 2015). A aprendizagem se torna mais efetiva quando o aluno se envolve ativamente, mobilizando cognição e afetividade (Wallon, 2007; Freire, 1996; Vygotsky, 2000; Ferreiro, 2001), o que é crucial para alcançar os níveis mais elevados da Taxonomia de Bloom, como analisar, avaliar e criar (Anderson & Krathwohl, 2001).
Metodologias ativas, como Aprendizagem Baseada em Projetos e Gamificação, colocam o aluno no centro do processo e podem ser potencializadas pelas tecnologias (Pscheid, 2024). Dados do Cetic (2022) mostram que, embora a integração de tecnologias aumente nos níveis mais avançados, há potencial a ser explorado nos anos iniciais. A aplicação da IA também revela desigualdade global. Enquanto países como Singapura e China avançam, e iniciativas em nações como Coreia do Sul, Gana, Índia, Uruguai e Espanha mostram potencial adaptativo (Cialfo, 2023; Zatsarenko et al., 2021; Oh & Ahn, 2024; Bardia & Agrawal, 2025; Silva, 2012; Gras & Martínez, 2024), o Brasil enfrenta desafios de infraestrutura e formação docente (EBIA, 2023; Cetic, 2010).
Para a gestão escolar, a IA oferece potencial para otimizar processos administrativos e qualificar a tomada de decisão (Pscheid, 2024; Holmes et al., 2019). A automação de tarefas operacionais permite que a equipe gestora se dedique a ações estratégicas. No entanto, a implementação deve ocorrer dentro de uma perspectiva de gestão democrática (LDB, 1996), envolvendo toda a comunidade. A IA pode influenciar positivamente a qualidade da educação, mas também apresenta riscos, como a ampliação das desigualdades de acesso (Chen et al., 2020). Portanto, a formação contínua de todos os profissionais é fundamental para que a tecnologia seja vista como um apoio ao trabalho humano.
A análise das experiências e dos referenciais demonstrou que a integração da IA na educação exige uma postura crítica e ética. O debate sobre sua regulamentação no Brasil, como o Projeto de Lei 2.338/2023, evidencia a necessidade de um avanço tecnológico pautado pela criticidade e pela formação contínua. A escola contemporânea tem a missão de ressignificar o novo com intencionalidade pedagógica, garantindo que as tecnologias estejam a serviço do desenvolvimento humano. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que cabe ao gestor escolar assumir papel estratégico na mediação da adoção da Inteligência Artificial, equilibrando inovação e criticidade, para que a tecnologia contribua de fato para a formação integral dos estudantes e para o fortalecimento da prática docente.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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