
04 de fevereiro de 2026
Análise dos determinantes da inflação em Angola com modelos VAR e regressão linear
Celso Sorte da Silva Cuango; Maurício Acconcia Dias
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi identificar os fenômenos que influenciaram o comportamento da taxa de inflação em Angola de 2001 a 2023, utilizando o método econométrico de Vetores Autorregressivos (VAR) e comparando seus resultados com os de um Modelo de Regressão Linear Múltipla (RLM). A investigação buscou preencher uma lacuna na literatura sobre Angola; a aplicação de modelos dinâmicos multivariados para analisar a inflação é escassa, fornecendo uma análise que considera as interdependências dinâmicas entre variáveis macroeconômicas. A persistência inflacionária é um grande desafio para nações emergentes dependentes de commodities, como Angola. Nesse contexto, choques externos, como a volatilidade dos preços do petróleo, e choques internos de política econômica frequentemente comprometem a estabilidade de preços, impactando o poder de compra e o ambiente de negócios.
A inflação, como variável macroeconômica, reflete o desempenho de uma economia. O aumento generalizado de preços corrói o valor da moeda, gera incerteza, afeta o consumo e compromete o bem-estar. Em cenários severos, autoridades monetárias podem adotar políticas contracionistas que elevam o desemprego para conter a inflação (Dornbusch et al., 2013). A trajetória de Angola no século XXI ilustra essa dinâmica. Após a guerra civil, o país teve períodos de estabilidade, mas a vulnerabilidade a choques no mercado de petróleo provocou surtos inflacionários. Um exemplo ocorreu a partir de 2015, quando o reajuste nos preços dos combustíveis contribuiu para que a inflação atingisse 42% em 2016 (Universidade Católica de Angola, 2016).
Diante dessa complexidade, a escolha da metodologia é fundamental. O modelo de Vetores Autorregressivos (VAR), popularizado por Sims (1980), é uma ferramenta para analisar como componentes da economia interagem no tempo. Diferente de modelos estruturais, o VAR trata todas as variáveis como endógenas, permitindo que as inter-relações dinâmicas sejam estimadas a partir dos dados sem impor restrições teóricas rígidas sobre a causalidade (Bueno, 2012). A abordagem é útil para análises de política monetária e previsões (Stock e Watson, 2020). No contexto angolano, poucos estudos aplicaram essa metodologia, com a exceção de Afonso (2019), que identificou um forte efeito de repasse cambial (pass-through) para a inflação.
Em contraste, a Regressão Linear Múltipla (RLM) analisa a relação de dependência de uma variável quantitativa em relação a outras, assumindo uma relação linear (Fávero e Belfore, 2025). Estudos anteriores sobre Angola com RLM apontaram a inércia inflacionária, a taxa de câmbio e a expansão monetária como determinantes da inflação (Tomás et al., 2025; Carvalho et al., 2012). Contudo, modelos estáticos podem não capturar a dinâmica temporal e os mecanismos de feedback de sistemas macroeconômicos. A presente investigação justifica-se pela necessidade de uma análise mais dinâmica dos determinantes da inflação em Angola. Ao comparar o desempenho de modelos VAR com RLM, o estudo oferece uma perspectiva mais completa sobre o processo inflacionário, explorando canais de transmissão, persistência de choques e memória inflacionária para subsidiar políticas de estabilidade de preços.
A investigação seguiu uma abordagem quantitativa e explicativa, focada na análise econométrica de séries temporais de Angola. Foram utilizados dados macroeconômicos anuais do Banco Mundial de 2001 a 2023, período que engloba fases distintas da economia angolana, como o pós-guerra, o crescimento impulsionado pelo petróleo, crises cambiais e a pandemia. As quatro variáveis selecionadas foram: Taxa de Inflação (variação anual do IPC), Taxa de Juros de Empréstimo (TJ), Taxa de Câmbio oficial (TC, USD/AKZ) e Agregado Monetário Amplo (AM).
O processo de modelagem iniciou-se com pré-processamento e análise exploratória dos dados. Esta fase incluiu a preparação da base de dados, tratamento de valores ausentes, conversão para séries temporais e visualização gráfica. A análise exploratória gerou estatísticas descritivas e mapas de correlação. Um passo crucial foi a aplicação de testes de estacionariedade, como o de Dickey-Fuller Aumentado (ADF), pois a não estacionariedade pode levar a regressões espúrias (Gujarati e Porter, 2011). Para corrigir isso, foram aplicadas transformações como logaritmos, diferenciação e a transformação de Box-Cox para estabilizar a média e a variância das séries.
A modelagem econométrica foi implementada em Python. A biblioteca Pandas foi usada para manipulação de dados (McKinney, 2017), Matplotlib e Seaborn para visualização (Hunter, 2007), e Statsmodels para a estimação de modelos VAR e de regressão (Seabold e Perktold, 2010). A biblioteca SciPy foi empregada para a transformação Box-Cox (Virtanen et al., 2020), e a Scikit-learn para seleção de variáveis no modelo de regressão via método stepwise (Pedregosa et al., 2011).
A metodologia do modelo VAR seguiu um processo sequencial. Após garantir a estacionariedade das variáveis, determinou-se o número ótimo de defasagens (lags) com os critérios de informação de Akaike (AIC) e Bayesiano (BIC) (Tsay, 2010). Os parâmetros do sistema foram estimados por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). A análise do modelo envolveu o teste de causalidade de Granger, para investigar a direção das influências; as Funções de Resposta a Impulso (IRF), para traçar a reação de cada variável a um choque; e a Decomposição da Variância do Erro de Previsão (FEVD), para quantificar a importância relativa de cada variável (Bueno, 2012). Por fim, foram realizados testes de diagnóstico nos resíduos (Jarque-Bera para normalidade, Ljung-Box para autocorrelação, Breusch-Pagan para homocedasticidade) e a verificação da estabilidade do modelo (Lütkepohl, 2005).
A análise descritiva inicial revelou volatilidade considerável. O IPC apresentou média de 31,39% com desvio padrão de 37,08 e assimetria positiva de 2,39, sugerindo picos inflacionários. A Taxa de Câmbio (TC) e a Taxa de Juros (TJ) também exibiram distribuições assimétricas à direita, com máximos de 685,02 Kz/USD e 97,34%, respectivamente. O Agregado Monetário (AM) mostrou crescimento contínuo. O mapa de correlação de Pearson confirmou forte associação positiva entre IPC e TJ (0,87) e entre TC e AM (0,93). O teste de Dickey-Fuller Aumentado (ADF) confirmou que as séries de TC, TJ e AM eram não estacionárias em nível, necessitando de transformações.
O primeiro modelo foi um VAR com três defasagens (VAR(3)), selecionadas pelo critério AIC. As variáveis não estacionárias foram transformadas (logaritmo para AM, primeira diferença do logaritmo para TJ e segunda diferença do logaritmo para TC), mas o IPC foi mantido em sua forma original. O teste de causalidade de Granger indicou que a inflação (IPC) era causada pela Taxa de Câmbio (TC) e pelo Agregado Monetário (AM), enquanto a Taxa de Juros (TJ) não tinha poder preditivo sobre o IPC. Em sentido inverso, o IPC causava a TC e a TJ, sugerindo feedback e inércia. Contudo, a equação do próprio IPC não apresentou nenhum coeficiente estatisticamente significativo, indicando que o modelo, nesta especificação, não capturava os determinantes diretos da inflação, apesar dos altos R² para as equações da TJ (95,86%) e do AM (99,27%).
A avaliação diagnóstica do primeiro VAR revelou problemas. Embora os resíduos não apresentassem autocorrelação serial (Ljung-Box) nem heterocedasticidade (ARCH-LM), o teste de Jarque-Bera rejeitou a normalidade para os resíduos da equação do IPC. Criticamente, o teste de estabilidade mostrou que algumas raízes do polinômio característico estavam fora do círculo unitário, indicando que o modelo era estruturalmente instável (Lütkepohl, 2005). A Função de Resposta a Impulso (IRF) mostrou que o IPC reagia a choques cambiais e monetários, mas não aos juros. A Decomposição da Variância do Erro de Previsão (FEVD) corroborou que, a longo prazo, a variância do IPC era explicada por choques na TC e no AM. Contudo, a instabilidade e a não normalidade tornaram essas inferências pouco robustas.
Para superar essas limitações, foi estimado um segundo VAR(3), aplicando a transformação de Box-Cox na variável IPC para estabilizar sua variância e melhorar a normalidade dos resíduos (Lütkepohl e Proietti, 2011). As demais variáveis mantiveram suas transformações. Esta especificação resultou em uma mudança drástica na causalidade de Granger: o IPC transformado deixou de ser causado por qualquer outra variável, mas passou a causar significativamente a TC e a TJ. Este resultado sugere que, uma vez estabilizada, a dinâmica inflacionária em Angola se revela predominantemente exógena e inercial; a inflação passada é o principal motor da inflação futura.
A estimação do VAR com Box-Cox no IPC confirmou essa forte inércia: o coeficiente da primeira defasagem do próprio IPC em sua equação foi positivo, significativo e próximo de 1 (1, 0026), indicando alta persistência. O R² para a equação do IPC foi de 0,71, um avanço substancial. As equações para as outras variáveis mostraram que a TJ era explicada pela inflação passada (confirmando o caráter reativo da política monetária) e que o AM respondia negativamente aos juros. A avaliação diagnóstica deste segundo modelo foi superior: os resíduos de todas as equações passaram nos testes de ausência de autocorrelação, normalidade e homocedasticidade. Embora o teste de estabilidade ainda indicasse algumas raízes fora do círculo unitário, a melhoria geral na consistência estatística tornou este modelo mais confiável. A IRF e a FEVD reforçaram a dominância da inércia inflacionária.
Em paralelo, foram testados três modelos de Regressão Linear Múltipla (RLM). O primeiro, sem transformações, apresentou alto R² ajustado (0,737), mas violou todos os pressupostos clássicos, tornando seus resultados inválidos. O segundo, com Box-Cox apenas no IPC, melhorou o cumprimento dos pressupostos, mas ainda apresentou problemas. O terceiro modelo, com Box-Cox no IPC e as mesmas transformações do VAR nas variáveis independentes, foi o único que atendeu satisfatoriamente aos pressupostos, mas seu poder explicativo foi extremamente baixo, com um R² ajustado de apenas 0,083, indicando que as variáveis independentes, em uma estrutura estática, explicavam menos de 9% da variação da inflação.
A comparação evidencia a superioridade do modelo VAR com transformação Box-Cox. Enquanto a RLM, mesmo na sua especificação mais robusta, falhou em capturar a dinâmica do fenômeno, o modelo VAR modelou com sucesso a interdependência temporal e a forte memória da inflação em Angola. O VAR sem Box-Cox, embora apontasse para a relevância dos choques cambiais e monetários, sofria de instabilidade. O modelo VAR aprimorado cumpriu os requisitos de diagnóstico e revelou a inércia como o principal determinante da inflação, com o câmbio e a liquidez monetária atuando como fatores secundários. Esta descoberta está parcialmente alinhada com estudos anteriores que destacaram a inércia (Tomás et al., 2025), mas a modelagem dinâmica quantificou sua dominância de forma mais precisa.
A análise comparativa demonstra que a inflação em Angola é um fenômeno complexo, impulsionado primariamente por sua própria trajetória passada. Choques não se dissipam rapidamente, mas se incorporam às expectativas e à formação de preços, criando um ciclo de persistência. A taxa de câmbio e a liquidez monetária não são as causas primárias, mas canais de transmissão que amplificam os efeitos dos choques. A taxa de juros, por sua vez, atua de forma reativa, respondendo à inflação em vez de a controlar proativamente no período analisado.
Em suma, a aplicação de modelos VAR, especialmente ajustados por transformações como a de Box-Cox, oferece uma compreensão mais rica e precisa da dinâmica inflacionária em Angola do que modelos estáticos. O modelo VAR com Box-Cox no IPC destacou-se por seu maior poder explicativo, consistência estatística e capacidade de capturar a forte inércia inflacionária. A Regressão Linear, apesar de metodologicamente válida em sua versão transformada, revelou-se insuficiente para explicar um fenômeno tão dinâmico.
A principal contribuição deste estudo reside na demonstração empírica de que a memória inflacionária é o fator dominante, com a vulnerabilidade a choques cambiais e monetários atuando como mecanismos de propagação secundários. Esta conclusão tem implicações para a política econômica, sugerindo que estratégias de contenção da inflação devem ser multifacetadas e persistentes, focando não apenas em controlar o câmbio e a liquidez, mas também em quebrar o ciclo de inércia por meio de medidas que ancorem as expectativas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o modelo de Vetores Autorregressivos com transformação Box-Cox é a ferramenta mais adequada para identificar a forte inércia inflacionária e os mecanismos de transmissão monetária como determinantes da inflação em Angola.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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