13 de outubro de 2026
Determinantes do desempenho de estudantes no ENEM em São Paulo
Determinantes do Desempenho de Estudantes no Enem em São Paulo
Muriel Figueiredo Maia; José Erasmo Silva
DOI: 10.22167/2675-6528-202603290
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O estudo analisou fatores associados ao desempenho de estudantes no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), considerando a relevância histórica da avaliação educacional no Brasil. Seu objetivo foi avaliar o desempenho preditivo do modelo XGBoost e identificar as variáveis mais associadas ao desempenho médio dos participantes. Utilizaram-se microdados do Enem de 2015 a 2023, restritos ao estado de São Paulo, organizados em níveis de aluno, escola e questionário socioeconômico. Após limpeza e padronização, construiu-se uma base final com 1.886.735 registros. O modelo XGBoost foi configurado com hiperparâmetros para equilibrar capacidade preditiva e generalização, incluindo tratamento nativo de variáveis categóricas. Os resultados indicaram que o XGBoost apresentou desempenho compatível com estudos educacionais. A interpretação por valores de contribuição internos revelou a predominância de fatores institucionais e socioeconômicos na explicação do desempenho, com destaque para a dependência administrativa da escola e variáveis relacionadas ao contexto familiar. A pesquisa demonstrou que abordagens preditivas baseadas em árvores foram capazes de capturar padrões relevantes sem a necessidade de modelos hierárquicos tradicionais, oferecendo uma alternativa metodológica para a compreensão de desigualdades educacionais. Concluiu-se que a combinação de grande volume de dados, técnicas de aprendizado de máquina e interpretação por contribuições permitiu identificar fatores relevantes para o desempenho no Enem e forneceu subsídios para reflexões sobre políticas educacionais.
Palavras-chave: Aprendizado de máquina; Desempenho educacional; Enem; Fatores socioeconômicos; XGBoost.
1. Introdução
O processo de avaliação possui uma trajetória extensa, com registros de práticas iniciadas na China voltadas à seleção de oficiais, e ao longo do tempo passou a assumir diferentes funções, incluindo a mensuração do desempenho de estudantes. Esse processo se consolidou com estudos realizados na Inglaterra e na França e, com o desenvolvimento de modelos influentes nos Estados Unidos ao longo do século XX (Carvalho, 2017). Na América Latina, as pesquisas sobre desempenho escolar avançaram mais tardiamente, entre as décadas de 1980 e 1990, quando o Brasil passou a desenvolver instrumentos voltados não apenas à verificação do desempenho dos alunos, mas também à análise dos fatores que o influenciam. Nesse contexto, surgiram avaliações como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica [SAEB] e, como uma de suas vertentes, o Exame Nacional do Ensino Médio [Enem] (Carvalho, 2017).
Criado em 1998, o Enem tinha como objetivo inicial avaliar estudantes ao final da educação básica, sendo posteriormente reformulado em 2009 para também servir como mecanismo de acesso ao ensino superior (INEP, 2025). O desempenho escolar, por sua vez, tem sido amplamente estudado, e um dos modelos mais reconhecidos é o de Walberg (1984), que identificou nove fatores determinantes do rendimento dos alunos, organizados em três dimensões: características individuais, fatores escolares e fatores ambientais.
A influência desse modelo pode ser observada em estudos posteriores, como a análise de fatores socioeconômicos e demográficos por meio de ANOVA, destacando o impacto de gênero, raça, renda familiar, tipo de escola, região e escolaridade dos pais sobre o desempenho (Carvalho, 2017). Estudos adicionais, como os realizados na região Nordeste, identificaram elementos que favorecem ou dificultam o rendimento, incluindo escolaridade dos pais, acesso a recursos tecnológicos, idade e renda, por meio de regressão linear (Souza et al., 2021). Além desses trabalhos, há também pesquisas que utilizaram modelos multinível para analisar o desempenho de estudantes da terceira série do Ensino Médio, evidenciando a importância de considerar a estrutura hierárquica dos dados (Andrade et al., 2007).
Apesar da diversidade metodológica, observa-se uma lacuna: grande parte desses estudos concentra-se em modelos explicativos tradicionais, enquanto abordagens preditivas capazes de lidar com relações não lineares e interações complexas ainda são menos exploradas na análise do desempenho no Enem. Além disso, embora os dados apresentem estrutura hierárquica envolvendo alunos e escolas, o objetivo deste estudo não é estimar efeitos aleatórios, mas identificar padrões gerais e variáveis mais associadas ao desempenho médio.
Nesse cenário, torna-se importante compreender quais fatores se destacam na explicação do desempenho médio dos participantes do Enem e de que maneira um modelo preditivo baseado em árvores, como o XGBoost, consegue capturar esses padrões mesmo sem recorrer a modelos hierárquicos tradicionais. A relevância dessa abordagem está no fato de que, embora modelos multiníveis sejam amplamente utilizados em pesquisas educacionais, métodos preditivos capazes de lidar com relações não lineares e interações complexas ainda são menos explorados nesse tipo de análise. O uso do XGBoost oferece uma alternativa metodológica que permite explorar a estrutura dos dados de forma flexível, contribuindo para a compreensão dos fatores associados ao desempenho e fornecendo evidências que podem apoiar discussões sobre políticas educacionais e estratégias voltadas à redução das desigualdades. Assim, o estudo tem como objetivo avaliar o desempenho preditivo do XGBoost na identificação das variáveis mais associadas ao desempenho médio dos estudantes, considerando simultaneamente informações individuais e institucionais presentes nos microdados do exame.
2. Material e Métodos
O estudo foi conduzido no ambiente de desenvolvimento integrado Visual Studio Code (VS Code), empregando a linguagem de programação Python. Utilizaram-se bibliotecas como pandas e NumPy para manipulação e tratamento de dados, scikit-learn para divisão em conjuntos de treino e teste, validação cruzada e cálculo de métricas, e XGBoost para a construção do modelo preditivo. Os dados empregados originaram-se dos microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/MEC), contendo informações sobre aluno, escola, localidade da prova, resultados e perfil socioeconômico dos participantes.
A coleta de dados abrangeu o período de 2015 a 2023, com restrição aos participantes vinculados a escolas do estado de São Paulo. A amostra considerou estudantes do ensino médio que não haviam concluído essa etapa no ano de referência ou que a concluíram no ano da aplicação do exame, visando uniformizar o grupo de análise. A base de dados foi organizada em camadas hierárquicas, abrangendo informações do aluno, da escola, da prova e do questionário socioeconômico.
Procedimentos de limpeza foram aplicados, incluindo a exclusão de participantes ausentes em todas as provas, a remoção de registros com notas zero em todas as áreas e a eliminação de linhas com valores nulos na coluna referente ao nome do município. As variáveis do questionário socioeconômico, originalmente codificadas por letras, foram convertidas para valores numéricos. Similarmente, a variável de gênero foi padronizada, convertendo “F” e “M” para 0 e 1.
Essas conversões tiveram finalidade operacional, adequando as variáveis categóricas ao ambiente de execução do modelo sem alterar suas relações intrínsecas. A variável alvo, denominada MEDIA_GERAL, foi calculada como a média aritmética das notas obtidas pelos participantes nas cinco áreas avaliadas do exame. Após o pré-processamento, a base de dados final consistiu em 1.886.735 registros e 39 variáveis, sendo a média geral a única numérica.
Realizou-se uma exploração estatística da variável alvo, observando-se uma distribuição aproximadamente contínua e simétrica, sem necessidade de transformações adicionais para o treinamento do modelo. A multicolinearidade entre as variáveis socioeconômicas foi avaliada pelo cálculo do Fator de Inflação da Variância (VIF), com valores abaixo do limite de 5, critério adotado para garantir a estabilidade da estimação (O’Brien, 2007).
Correlações moderadas entre variáveis socioeconômicas foram observadas, especialmente aquelas relacionadas à posse de bens duráveis e à estrutura residencial, bem como entre a escolaridade dos pais. Essas correlações indicaram a necessidade de interpretar a importância das variáveis no modelo XGBoost de forma conjunta, e não isoladamente.
Optou-se pelo modelo XGBoost, uma abordagem baseada em árvores, por sua capacidade de lidar com relações não lineares e por não depender de baixa colinearidade entre preditores. O XGBoost, uma implementação eficiente de “boosting”, constrói sequencialmente árvores de decisão, corrigindo erros das anteriores e incorporando mecanismos de regularização (Bruce et al., 2025).
O modelo XGBoost foi configurado para equilibrar o desempenho preditivo e a generalização. Utilizou-se uma taxa de aprendizado reduzida para mitigar o sobreajuste e limitou-se a profundidade máxima das árvores. Técnicas de amostragem de observações e variáveis foram empregadas para aumentar a robustez e a estabilidade do modelo. O tratamento nativo de variáveis categóricas foi ativado, e configurações foram adotadas para garantir a reprodutibilidade (XGBoost Developers, 2024).
Para fins de comparação, desenvolveu-se um modelo de Regressão Linear, treinado e avaliado com o mesmo conjunto de dados (70% treino, 30% teste) e semente aleatória do XGBoost. As variáveis categóricas foram convertidas em códigos numéricos ordinais para a Regressão Linear, o que representou uma simplificação metodológica para essa comparação (Souza et al., 2021).
Adicionalmente, um modelo-base ingênuo (“baseline”), que previa a média da variável alvo observada no conjunto de treino, foi utilizado como referência para quantificar o ganho preditivo do XGBoost em relação à ausência de qualquer modelo preditivo. Essa abordagem permitiu contextualizar o desempenho dos modelos mais complexos.
A estabilidade dos resultados foi avaliada por meio de validação cruzada do tipo k-fold, com cinco partições (k = 5), aplicada ao modelo XGBoost, mantendo os hiperparâmetros originais. Esse procedimento assegurou a confiabilidade das estimativas, minimizando a dependência de uma única divisão dos dados e reforçando a robustez da avaliação.
A importância das variáveis foi estimada por meio dos valores SHAP (SHapley Additive exPlanations), uma técnica que quantifica a contribuição de cada variável para a previsão do modelo. Esses valores foram calculados internamente pelo XGBoost, permitindo mensurar o impacto médio das variáveis na predição, inclusive as categóricas tratadas nativamente, garantindo consistência com o modelo treinado.
3. Resultados e Discussão
A avaliação do desempenho preditivo do modelo XGBoost revelou um coeficiente de determinação (R²) de aproximadamente 0,32, indicando que o modelo foi capaz de explicar cerca de 31% da variabilidade observada no desempenho dos estudantes. Em termos práticos, isso significa que aproximadamente um terço das diferenças no desempenho entre os participantes pode ser atribuído às variáveis incluídas no modelo, como o perfil socioeconômico, as características da escola e os dados demográficos. Os dois terços restantes da variabilidade decorrem de fatores não capturados pela base de dados, como aspectos pedagógicos, emocionais e o preparo individual de cada estudante. Embora este R² não represente um nível de explicação extremamente elevado, ele é compatível com os resultados de modelos iniciais na área da educação, onde o desempenho é influenciado por uma multiplicidade de fatores que nem sempre são diretamente observáveis nos dados disponíveis.
As métricas de erro forneceram uma compreensão mais detalhada da precisão do modelo. O erro quadrático médio (MSE) foi de aproximadamente 6.539, e a raiz do erro quadrático médio (RMSE) foi de cerca de 80,86 pontos. Embora o MSE, por estar em escala quadrática, não tenha uma interpretação direta, o RMSE, ao retornar o erro à escala original da nota, facilita a compreensão. Um RMSE de 80,86 pontos sugere que a nota prevista pelo modelo se distancia da nota real do estudante, em média, em aproximadamente 80 pontos, para mais ou para menos. Por exemplo, um estudante com nota real de 550 pontos tenderia a ter uma previsão entre 470 e 630 pontos.
O erro absoluto médio (MAE) foi de aproximadamente 59,29 pontos, medindo a distância média entre a nota prevista e a nota real sem elevar as diferenças ao quadrado. A distinção entre o MAE e o RMSE é relevante: o MAE reflete melhor o erro que a maioria dos estudantes enfrenta, enquanto o RMSE, mais sensível a erros grandes, tende a ser mais alto quando há casos de erro elevado. Neste estudo, o fato de o MAE (59,29) ser visivelmente menor que o RMSE (80,86) indica que, embora a maioria das previsões apresente uma margem de erro relativamente pequena, existe um grupo menor de estudantes para os quais o modelo erra por margens consideravelmente maiores, o que eleva o RMSE.
A comparação do desempenho do XGBoost com outros modelos revelou sua superioridade. Em relação ao modelo-base ingênuo, que prevê a média geral para todos os estudantes, o RMSE do XGBoost caiu de 99,05 para 82,35 pontos, uma redução de 16,9%. Essa melhoria demonstra que a inclusão de informações socioeconômicas, escolares e demográficas melhora consistentemente a previsão. Comparado à Regressão Linear, o XGBoost também obteve um ajuste superior, com R² de 0,3088 contra 0,2514 e RMSE de 82,35 contra 85,70 pontos. Esse resultado era esperado, pois o XGBoost é capaz de capturar relações não lineares e interações entre variáveis que um modelo linear não consegue representar.
Ainda assim, a diferença moderada entre o XGBoost e a Regressão Linear sugere que uma parte significativa da relação entre as variáveis explicativas e o desempenho é aproximadamente linear, sendo capturada mesmo por uma abordagem mais simples. A correlação de Pearson entre os valores reais e os previstos pelo XGBoost foi de 0,56, indicando uma associação entre moderada e forte. Esse valor, em um patamar intermediário favorável, reforça que o modelo acompanha de maneira consistente a variação observada nas notas, mesmo com um R² moderado, o que é importante para a compreensão dos padrões gerais de desempenho.
Para verificar a estabilidade dos resultados e garantir que o desempenho não fosse um artefato de uma divisão específica dos dados, foi realizada uma validação cruzada do tipo k-fold, com cinco partições. O R² médio obtido nas cinco rodadas foi de 0,3080, com um desvio padrão de 0,0018, e o RMSE médio foi de 82,33 pontos, com desvio padrão de 0,23. Essa variação mínima entre as rodadas, com o R² variando entre 0,3062 e 0,3098 e o RMSE entre 82,10 e 82,56 pontos, indica que o desempenho do modelo se manteve estável independentemente de como os dados foram divididos. Essa consistência reforça a confiabilidade da avaliação realizada e a robustez do modelo XGBoost para este conjunto de dados.
A interpretação da importância das variáveis foi realizada por meio dos valores SHAP (SHapley Additive exPlanations), uma técnica que estima a contribuição média de cada variável para a previsão da nota de um estudante em relação à nota média geral. Quanto maior o valor SHAP de uma variável, maior sua influência nas previsões do modelo. Os valores foram obtidos através do cálculo interno de contribuições do XGBoost, permitindo mensurar o impacto médio de cada variável mesmo com variáveis categóricas tratadas nativamente pelo algoritmo, o que garante consistência entre o modelo e a interpretação dos resultados.
A análise da importância das variáveis revelou uma predominância de fatores institucionais e socioeconômicos. A variável TP_DEPENDENCIA_ADM_ESC, que representa a dependência administrativa da escola, apresentou a maior influência no modelo, com um impacto médio de 23,23 pontos na nota prevista. Isso significa que, em média, a dependência administrativa da escola de um estudante altera a nota prevista pelo modelo em cerca de 23 pontos, para mais ou para menos, um efeito consideravelmente maior do que o de qualquer outra variável analisada. Esse achado reforça a relevância da gestão escolar como fator determinante no desempenho dos estudantes.
A distribuição da nota geral por dependência administrativa da escola corrobora essa observação, evidenciando que escolas federais e privadas apresentam medianas de desempenho mais altas do que escolas estaduais e municipais. Embora as dispersões de desempenho entre os grupos sejam semelhantes, a diferença nas medianas é coerente com a magnitude do impacto identificado pelo SHAP para essa variável. Esse padrão sugere que a estrutura administrativa da instituição de ensino desempenha um papel crucial no desempenho dos alunos, possivelmente refletindo diferenças em recursos, infraestrutura e abordagens pedagógicas.
Entre os demais fatores de destaque, apareceram variáveis socioeconômicas do questionário do estudante, como Q006 (renda familiar), Q024 (posse de computador), Q001 (escolaridade do pai) e Q002 (escolaridade da mãe), e Q013 (posse de freezer). As contribuições dessas variáveis variaram entre 4,56 e 9,31 pontos, indicando que o contexto familiar e as condições de vida exercem influência significativa sobre os resultados. A escolaridade dos pais (Q001 e Q002) e a renda familiar (Q006) são indicadores clássicos do capital cultural e econômico que podem influenciar o ambiente de estudo e o acesso a recursos educacionais complementares, corroborando a literatura existente sobre desigualdades educacionais.
A posse de bens duráveis, como computador (Q024) e freezer (Q013), também se mostrou relevante, refletindo o nível socioeconômico da família e o acesso a recursos que podem facilitar o estudo e o desenvolvimento. A variável TP_ESCOLA, que indica o tipo de escola (pública, privada ou exterior), também apresentou impacto relevante, com média de 3,96 pontos, reforçando a importância do ambiente institucional. Já os atributos individuais, como faixa etária (6,09 pontos), raça ou cor (3,59 pontos), sexo (1,61 pontos) e nacionalidade, embora contribuam para a explicação do fenômeno, mostraram um peso relativo menor em comparação com os fatores institucionais e socioeconômicos.
A comparação dos resultados deste estudo com pesquisas anteriores demonstra convergências importantes sobre os fatores associados ao desempenho educacional. O estudo de Souza et al. (2021), realizado na região Nordeste, identificou diferenças expressivas entre grupos socioeconômicos, com uma distância de 88 pontos entre estudantes de baixa e não baixa renda. Esse padrão dialoga diretamente com os achados do presente trabalho, no qual a renda familiar (Q006) aparece entre as variáveis de maior contribuição no modelo. Além disso, Souza et al. (2021) identificaram que a escolaridade dos pais, o acesso a computador e internet, e o tipo de escola influenciam o desempenho, fatores que também surgem entre as variáveis mais importantes do XGBoost, como TP_DEPENDENCIA_ADM_ESC, Q001, Q002, Q024 e TP_ESCOLA.
É importante notar que Souza et al. (2021) utilizaram Regressão Linear como método de análise, e, embora o XGBoost tenha apresentado desempenho preditivo superior ao da Regressão Linear neste trabalho, a diferença foi moderada. Isso sugere que parte considerável da relação entre as variáveis explicativas e o desempenho dos estudantes já é capturada por uma abordagem linear mais simples. O fato de fatores semelhantes despontarem como relevantes tanto na modelagem linear quanto na abordagem não linear adotada neste trabalho reforça a robustez desses achados, mais do que evidenciar uma vantagem metodológica acentuada do XGBoost em termos de acurácia preditiva isolada.
O estudo de Carvalho (2017), que analisou o desempenho na redação do Enem, também destacou fatores socioeconômicos e demográficos, incluindo renda familiar, escolaridade dos responsáveis, tipo de escola, raça e região. Embora o foco de Carvalho (2017) tenha sido uma área específica da prova, as variáveis que se mostraram relevantes são equivalentes às que apareceram entre as principais contribuições do modelo preditivo utilizado aqui. Isso reforça que as desigualdades socioeconômicas e institucionais se manifestam de forma consistente em diferentes componentes do Enem, indicando uma influência transversal desses fatores no desempenho geral dos estudantes.
Por fim, a pesquisa baseada em modelagem multinível de Andrade e Laros (2007) mostrou que 17% da variância do desempenho escolar pode ser atribuída ao nível da escola, evidenciando que diferenças institucionais explicam parte relevante dos resultados. Essa conclusão converge com o presente estudo, no qual a variável institucional mais influente foi justamente a dependência administrativa da escola (TP_DEPENDENCIA_ADM_ESC). A capacidade do XGBoost de capturar relações não lineares e interações complexas entre as variáveis, sem a necessidade de modelos hierárquicos tradicionais, oferece uma alternativa metodológica valiosa para a compreensão de desigualdades educacionais, mesmo com a limitação de não estimar efeitos aleatórios.
Apesar da robustez do modelo XGBoost, algumas limitações metodológicas devem ser consideradas. A comparação com a Regressão Linear exigiu a conversão das variáveis categóricas em códigos ordinais, uma simplificação que pode ter subestimado o desempenho desse modelo. Além disso, a ausência de informações pedagógicas, emocionais e contextuais mais detalhadas na base de dados limitou o alcance preditivo do XGBoost, cujo R² de aproximadamente 0,31 reflete essa lacuna. No entanto, o valor do XGBoost neste trabalho reside menos em produzir previsões drasticamente melhores do que os métodos tradicionais e mais em oferecer uma abordagem capaz de capturar relações não lineares sem comprometer a identificação consistente dos fatores institucionais e socioeconômicos que efetivamente explicam o desempenho educacional.
Em síntese, os resultados da pesquisa indicaram que fatores ligados à estrutura escolar e ao contexto familiar tiveram o maior peso na predição do desempenho dos estudantes no Enem, enquanto características individuais, como sexo, raça e idade, apresentaram influência menor. O modelo XGBoost demonstrou desempenho preditivo superior ao modelo-base ingênuo e à Regressão Linear, e a validação cruzada k-fold confirmou a estabilidade e confiabilidade desses achados. A identificação da dependência administrativa da escola e de variáveis socioeconômicas como renda familiar e escolaridade dos pais como os principais fatores associados ao desempenho médio dos estudantes atende ao objetivo do estudo e fornece subsídios importantes para reflexões sobre políticas educacionais voltadas à redução das desigualdades.
4. Conclusão
O presente estudo buscou avaliar o desempenho preditivo do modelo XGBoost na identificação das variáveis mais associadas ao desempenho médio dos estudantes no Exame Nacional do Ensino Médio, considerando informações individuais e institucionais. Verificou-se que o modelo XGBoost apresentou um desempenho preditivo compatível com a área educacional, explicando cerca de 31% da variabilidade observada nas notas e superando modelos de referência como a regressão linear e o modelo-base ingênuo. A estabilidade e a confiabilidade desses achados foram confirmadas por meio de validação cruzada k-fold. A análise da importância das variáveis, realizada por valores de contribuição internos, revelou a predominância de fatores institucionais e socioeconômicos. A dependência administrativa da escola destacou-se como a variável de maior influência, indicando que a gestão escolar exerce um papel crucial no desempenho. Variáveis como renda familiar, escolaridade dos pais e posse de bens duráveis também se mostraram relevantes, reforçando a influência do contexto familiar e das condições de vida. Atributos individuais, como faixa etária e raça ou cor, apresentaram um peso relativo menor. Esses resultados convergem com a literatura existente, que aponta a consistência das desigualdades socioeconômicas e institucionais no desempenho educacional.
Apesar da robustez do modelo XGBoost, algumas limitações foram identificadas. A comparação com a regressão linear exigiu a conversão de variáveis categóricas em códigos ordinais, o que pode ter subestimado o desempenho desse modelo. Além disso, a ausência de informações pedagógicas, emocionais e contextuais mais detalhadas na base de dados limitou o alcance preditivo do XGBoost. Contudo, a principal contribuição do estudo reside em demonstrar que abordagens preditivas baseadas em árvores são capazes de capturar padrões relevantes e identificar consistentemente os fatores institucionais e socioeconômicos que explicam o desempenho educacional, mesmo sem a necessidade de modelos hierárquicos tradicionais. Para estudos futuros, sugere-se a inclusão de variáveis pedagógicas, emocionais e contextuais, bem como a aplicação de técnicas de codificação mais robustas para variáveis categóricas em modelos comparativos, visando ampliar a capacidade preditiva e a comparabilidade entre as abordagens. Este trabalho oferece, assim, uma alternativa metodológica valiosa e subsídios para o aprimoramento de políticas educacionais voltadas à redução das desigualdades.
Referências Bibliográficas
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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