13 de outubro de 2026
“Marca”: viabilidade econômica para moda sustentável LGBTQIA+ em São Paulo
“Marca”: Viabilidade Econômica para Moda Sustentável Lgbtqia+ em São Paulo
Milena Bottega; Lidiane Mendes Barbosa
DOI: 10.22167/2675-6528-202603299
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O cenário atual da moda, marcado pelo consumo excessivo de “fast fashion” e pela exclusão de corpos dissidentes, evidenciou a necessidade de marcas focadas em conscientização, “upcycling” e transmutação têxtil. Neste contexto, o estudo objetivou analisar a viabilidade econômica de uma marca de moda sustentável e inclusiva, direcionada ao público LGBTQIA+ na cidade de São Paulo. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso quantitativo, fundamentado na aplicação de um questionário para aferir o comportamento de consumo e na projeção de cenários financeiros para um quinquênio. Os resultados revelaram um ticket médio viável de R$200,00 e confirmaram a rentabilidade da operação com um Valor Presente Líquido de R$ 47.699,49, uma Taxa Interna de Retorno de 343,70% e uma Taxa Interna de Retorno Modificada de 115,80%. A análise de sensibilidade comprovou a solidez do projeto, demonstrando retorno positivo mesmo em simulações pessimistas. O empreendimento mostrou-se viável, indicando que a união entre valores de sustentabilidade, economia social e estrutura financeira eficiente resulta em um negócio de baixo risco.
Palavras-chave: Análise de investimentos; Economia circular; Empreendedorismo; Impacto socioambiental; Vestuário.
1. Introdução
O cenário atual da moda é marcado pelo modelo de produção conhecido como fast-fashion, que se estrutura sobre ciclos de vida curtos e baixa qualidade. Esse sistema intensifica o uso de recursos naturais e pressiona os sistemas de descarte, resultando em um ritmo acelerado de obsolescência do vestuário (Niinimäki et al., 2020). A produção global dobrou entre 2000 e 2015, enquanto a taxa de utilização de cada peça caiu 36% (Ellen MacArthur Foundation, 2021). Em 2024, o volume de roupas descartadas no mundo atingiu 120 milhões de toneladas métricas (Boston Consulting Group, 2025).
No Brasil, o descarte têxtil também representa um desafio significativo. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Ministério das Cidades, 2025) estima que a massa total de resíduos sólidos urbanos coletada em 2023 foi de 78,2 milhões de toneladas. Desse montante, quatro por cento são materiais têxteis, totalizando aproximadamente 3,13 milhões de toneladas anuais. Em contrapartida, observa-se uma mudança nos padrões de consumo, com a Geração Z e os Millennials demonstrando maior disposição a pagar por produtos sustentáveis (Deloitte, 2024). Esse engajamento ético alinha-se aos valores da comunidade LGBTQIA+, que tem integrado a responsabilidade ambiental em suas ações, como na Parada do Orgulho de São Paulo, onde 50% dos resíduos foram destinados à reciclagem (Câmara LGBT, 2025).
Nesse contexto, a moda circular emerge como uma tendência promissora, com projeções de alcançar 393 bilhões de dólares globalmente até 2030, superando o crescimento do mercado tradicional de vestuário (ThredUp, 2026). Esse movimento impulsiona a desaceleração do consumo em massa e a redução do desperdício (Ginko, Stroparo e Dall’Agnol, 2025). Uma abordagem central é o upcycling, que transforma resíduos em peças únicas com valor cultural e afetivo (Mostafiz, 2026). No Brasil, a transmutação têxtil, uma prática colaborativa que reaproveita descartes para criar roupas não binárias, une moda e ativismo LGBTQIA+, ressignificando materiais e existências (Epaminondas e Rodrigues Junior, 2023). Para o público LGBTQIA+, a moda é uma ferramenta de expressão de identidade, que a indústria de massa frequentemente falha em entregar, ignorando corpos dissidentes (Siddiqui e Rane, 2024; Salgueiro e Lima, 2022). O design participativo e a cocriação são essenciais para promover autonomia e empoderamento social (Cima e Barauna, 2026).
Apesar da eficácia das práticas sustentáveis, a consolidação da economia circular no mercado enfrenta desafios. Existem deficiências de infraestrutura para coleta e reaproveitamento de tecidos (Nogueira, 2025). Pequenas empresas de vestuário circular, embora apliquem o reaproveitamento, sofrem com a escassez de recursos financeiros e limitações para inovações tecnológicas (Czrnhak et al., 2025). A sobrevivência e saúde financeira desses empreendimentos dependem de práticas rigorosas de gestão (Nogueira, 2025). Além disso, o varejo convencional frequentemente ignora as individualidades corporais e identitárias, gerando alta insatisfação entre os consumidores (Siddiqui e Rane, 2024). Diante dessa lacuna, há uma clara oportunidade de mercado para modelos de negócios disruptivos e inclusivos, especialmente considerando o expressivo poder de compra do público LGBTQIA+ na cidade de São Paulo, estimado em movimentar R$18,7 bilhões anualmente no Brasil (NIQ, 2024; Câmara LGBT, 2025; SPTuris, 2022).
A necessidade de oferecer uma solução prática, viável e estruturada para a criação e gestão de uma marca de moda sustentável e inclusiva, que atenda às demandas de personalização e representatividade do público LGBTQIA+ em São Paulo, justifica a relevância deste estudo. O presente estudo objetivou analisar a viabilidade econômica da Marca, conhecer as perspectivas de compra do público-alvo e apresentar um plano de ação estratégico.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi delineado como um estudo de caso único, de natureza aplicada e abordagem quantitativa. Teve como objeto empírico uma nova empresa de confecção, denominada Marca, com foco em upcycling, cocriação, sustentabilidade e acessibilidade para o público LGBTQIA+ na cidade de São Paulo. A abordagem quantitativa justificou-se pela necessidade de mensurar o perfil do público-alvo e os indicadores de viabilidade econômica, conforme Prodanov e Freitas (2013).
A coleta de dados foi estruturada em fontes primárias e secundárias. As fontes primárias investigaram as perspectivas de compra do público-alvo e validaram a proposta de valor da Marca. As fontes secundárias subsidiaram a análise da viabilidade econômica e a compreensão do cenário de mercado.
Para a coleta de dados primários, aplicou-se um questionário estruturado via Google Forms, contendo onze perguntas em duas seções (Perfil e Comportamento de Consumo, e Viabilidade Financeira e Estratégica). As questões foram baseadas em literatura relevante (NIQ, 2024; Kotler e Keller, 2012, entre outros). A pesquisa foi direcionada a indivíduos brasileiros LGBTQIA+ residentes em São Paulo, coletada entre 16 de janeiro e 17 de março de 2026, por amostragem não probabilística por conveniência (bola de neve), totalizando 34 participantes após filtragem. Um pré-teste com nove acadêmicos verificou a clareza do instrumento antes da coleta oficial.
Os aspectos éticos da pesquisa foram observados em conformidade com a Resolução CNS n° 510/2016, que dispensou a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) por se tratar de estudo de opinião pública não identificada. Garantiu-se o anonimato dos participantes e o caráter voluntário da colaboração, mediante a apresentação prévia e a anuência obrigatória do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
A coleta de dados secundários incluiu pesquisa de mercado e levantamento de custos. Relatórios setoriais (Deloitte, 2024; ThredUp, 2026, entre outros) foram compilados para fundamentar o mercado consumidor e o potencial da moda circular. Para estimar o investimento inicial e os custos operacionais, realizaram-se cotações de preços em plataformas de e-commerce, sites de fornecedores e pesquisas de campo. A base de dados econômicos consultou índices de inflação do IBGE e da FGV. A Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de dez por cento ao ano foi calibrada via Capital Asset Pricing Model (CAPM), adotando-se um fluxo de caixa nominal.
A modelagem econômico-financeira foi estruturada no Google Sheets para um horizonte de cinco anos, visando aferir a viabilidade do investimento. Adotaram-se os indicadores propostos por Assaf Neto (2012): fluxo de caixa por período, Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR) e Payback. Uma análise de sensibilidade também foi realizada para aferir a robustez do projeto, testando cenários esperado, pessimista (redução de vinte por cento) e otimista (acréscimo de vinte por cento).
Para o desenvolvimento do plano de ação estratégico, utilizou-se a Matriz SWOT, conforme Kotler e Keller (2012), como ferramenta diagnóstica para mapear as variáveis internas e externas do negócio. O plano de ação foi estruturado com base no Balanced Scorecard (BSC), de Kaplan e Norton (1997), que integra as perspectivas financeira, do cliente, dos processos internos e de aprendizado e crescimento.
A metodologia incorporou o uso assistido de inteligência artificial, seguindo o protocolo de transparência do Manual de Boas Práticas no uso de IA da USP/Esalq. Modelos de Linguagem de Grande Escala (Gemini/LLMs) foram utilizados para suporte na prospecção de literatura, estruturação lógica, coesão textual e revisão. O Google NotebookLM foi empregado para processamento de dados, geração de resumos analíticos e mapeamento de conexões entre materiais bibliográficos.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados coletados forneceu a base primária para a validação do modelo de negócios da Marca, concentrando-se nas percepções do público LGBTQIA+ residente em São Paulo. Embora a pesquisa tenha abrangido 148 respondentes, a amostra final validada para este estudo foi de 34 participantes, selecionados para garantir o alinhamento com a proposta de valor da empresa. Essa filtragem assegurou o rigor e a pertinência dos achados em relação ao objeto de estudo, que visava compreender o perfil de consumo, as necessidades e as perspectivas desse nicho específico.
A delimitação da amostra, embora não generalizável para todo o país devido à sua natureza não probabilística por conveniência e à divulgação inicial em redes sociais da pesquisadora, mostrou-se robusta para validar as premissas do estudo de caso. O perfil demográfico revelou que a maioria dos respondentes, 85,29% (29 indivíduos), concentra-se na faixa etária entre 18 e 35 anos. Esse dado corrobora a literatura que aponta a Geração Z e os Millennials como consumidores mais engajados e dispostos a investir em produtos sustentáveis (Deloitte, 2024), reforçando a escolha de São Paulo como polo estratégico para marcas com foco na comunidade LGBTQIA+, um mercado de significativo potencial econômico (Câmara LGBT, 2025; NIQ, 2024).
Comportamento de consumo e insatisfação com o mercado
A investigação do comportamento de consumo revelou uma preocupação acentuada com o impacto ambiental. Uma maioria expressiva de 91,18% (31 respondentes) demonstrou um nível de preocupação de moderado a alto com as consequências ambientais de seu consumo, enquanto apenas 8,82% (3 indivíduos) relataram baixa ou nenhuma preocupação. Adicionalmente, constatou-se que 85,29% (29 participantes) já aderem ao consumo de peças de segunda mão ou “upcycled”, adquirindo roupas dessas categorias com frequência média a alta, ou seja, de três a mais de seis vezes ao ano.
Essa forte conscientização e a adoção de práticas de consumo circular por parte do público-alvo podem ser atribuídas ao seu engajamento em um ambiente socialmente mais politizado, historicamente construído na resistência e na luta por direitos (Bortoletto, 2019). A moda, para essa comunidade, transcende a funcionalidade e se estabelece como uma ferramenta poderosa para a expressão individual e para o questionamento de padrões sociais (Siddiqui e Rane, 2024). Nesse contexto, o “upcycling” emerge como uma alternativa que oferece exclusividade e sustentabilidade, distanciando-se do modelo de produção em massa do “fast fashion” (Salgueiro e Lima, 2022).
A pesquisa também avaliou a satisfação dos clientes com o mercado de moda atual, identificando dificuldades em encontrar peças que se adequassem ao corpo, tamanho e estilo. Os resultados indicaram que 91,18% (31 dos 34 respondentes) relataram enfrentar esse obstáculo, assinalando as opções “Sim” ou “Às vezes”. Esse alto índice de insatisfação demonstra que o varejo convencional frequentemente ignora as individualidades corporais e identitárias, corroborando a perspectiva de Siddiqui e Rane (2024) sobre a padronização excludente da indústria.
A insatisfação generalizada com o mercado tradicional de moda valida a proposta de valor da Marca, que se posiciona como uma alternativa inclusiva e personalizada. A dificuldade em encontrar vestuário adequado não é um problema isolado, mas sim uma questão estrutural que afeta a diversidade do público consumidor. Esse cenário reforça a necessidade de modelos de negócios que priorizem a representatividade e a adaptabilidade, elementos centrais na oferta da Marca para o público LGBTQIA+ em São Paulo.
Validação da proposta e disposição a pagar
Além de identificar as lacunas do mercado, o estudo buscou validar a cocriação como uma solução estratégica para o público-alvo. Verificou-se que 97,06% (33 respondentes) manifestaram interesse moderado a alto em participar ativamente do design de suas peças de vestuário. Esse achado ressalta o desejo do consumidor de atuar como um “participante-chave no ecossistema circular”, conforme apontam Ostermann e Nascimento (2021), indicando uma demanda por autonomia e personalização que a indústria convencional não atende.
Com a validação do interesse pela cocriação, a pesquisa avançou para avaliar a disposição a pagar (DAP) por peças “upcycled” exclusivas e cocriadas. A análise revelou que a maioria expressiva da amostra se concentra em duas faixas de preço principais: 35,29% dos respondentes estariam dispostos a pagar entre R$151,00 e R$200,00, e 23,53% entre R$201,00 e R$250,00, totalizando 58,82% (20 indivíduos) nessas categorias. Adicionalmente, 20,59% (7 respondentes) indicaram disposição a investir valores ainda mais altos, a partir de R$251,00.
Esses dados solidificam a projeção de um ticket médio de R$200,00 para a Marca, que será implementada com uma estratégia de precificação diversificada. Essa abordagem permitirá oferecer desde itens com menor complexidade produtiva até peças de maior valor agregado, democratizando o acesso e atendendo às diferentes capacidades de investimento do público. A flexibilidade na precificação é endossada por 2,94% (1 respondente) que declarou que sua disposição a pagar “depende da peça”, alinhando-se à parcela que valoriza peças mais elaboradas. Esse cenário de valorização corrobora o expressivo poder de compra e o potencial econômico do consumidor LGBTQIA+, conforme destacado pela NIQ (2024).
Análise de viabilidade econômica
A análise da viabilidade econômica da Marca iniciou-se com o levantamento do investimento inicial, totalizando R$1.700,00. Os investimentos fixos, que incluem uma máquina de costura reta (R$500,00) e uma mesa de corte (R$300,00), somaram R$800,00. Esses equipamentos, adquiridos seminovos, possuem vida útil estimada em cinco anos, resultando em uma depreciação anual de R$160,00. Para os investimentos pré-operacionais, destinou-se R$200,00 para marketing de lançamento, abrangendo a criação de identidade visual e campanha inicial.
O capital de giro inicial, orçado em R$700,00, foi subdividido em R$400,00 para estoque de insumos e R$300,00 para reserva de caixa, funcionando como uma margem de segurança para cobrir despesas imprevistas nos primeiros meses. A composição do investimento inicial, caracterizada por seu baixo custo, é um fator crucial que mitiga os riscos financeiros da operação, favorecendo uma rápida recuperação do capital investido. Essa estrutura enxuta reflete a proposta da Marca de operar com eficiência e sustentabilidade desde o seu início.
Os custos operacionais foram segmentados em fixos e variáveis. Os custos fixos mensais totalizaram R$1.365,00, incluindo o Pró-Labore da empreendedora (R$1.000,00), o DAS-MEI (R$75,00) para conformidade tributária, um investimento contínuo em marketing digital (R$200,00), despesas básicas de manutenção e limpeza (R$50,00) e energia elétrica (R$40,00). O valor do pró-labore foi estrategicamente calibrado, considerando que não é a única fonte de renda da gestora, priorizando a liquidez e o reinvestimento de caixa para a consolidação da Marca no quinquênio inicial.
Em relação aos custos variáveis, o custo direto por unidade confeccionada foi de R$48,00. Esse valor compreende R$15,00 para insumos de “upcycling” (garimpo, curadoria, desmonte e higienização), R$10,00 para aviamentos (linhas, botões, zíperes), R$3,00 para embalagens sustentáveis, R$10,00 para taxas de pagamento digital e R$10,00 para itens de experiência de “unboxing”. A dedução desse custo unitário do ticket médio projetado de R$200,00 resultou em uma margem de contribuição de R$152,00 por peça, equivalente a 76% do valor de venda, evidenciando a viabilidade comercial e a capacidade de geração de caixa. Para alcançar o ponto de equilíbrio e cobrir as despesas operacionais, a Marca necessita comercializar apenas nove unidades por mês.
A projeção de vendas para o primeiro ano considerou um crescimento gradativo, iniciando com oito peças no mês inaugural e atingindo quinze unidades ao final do ano. Essa estimativa, que totaliza 140 unidades comercializadas no primeiro ano, gerando uma receita bruta de R$28.000,00, fundamenta-se na capacidade produtiva de uma operação artesanal individual. Essa abordagem evita a sobrecarga física e produtiva da fundadora, especialmente na fase de maturação do negócio, onde a dedicação profissional ainda não é integral. Essa base de vendas sustentou a estruturação do fluxo de caixa do projeto para um horizonte de cinco anos.
A projeção do fluxo de caixa demonstrou que a estrutura enxuta de custos da Marca assegura saldos operacionais positivos desde o Ano 1, mesmo após honrar compromissos fixos. O fluxo de caixa acumulado registrou um saldo positivo de R$3.058,78 ao final do primeiro exercício, indicando baixo risco e um retorno quase imediato do investimento inicial de R$1.700,00. O modelo financeiro substituiu o ajuste de depreciação contábil pela variação do capital de giro e pela recuperação do valor residual do maquinário ao fim do quinquênio, que somam R$1.460,01 e R$160,00, respectivamente. Essa abordagem reflete de forma mais fiel as movimentações financeiras reais, tornando a projeção mais aderente à realidade do negócio.
Para atestar a viabilidade matemática, o projeto foi submetido à análise de indicadores financeiros com uma Taxa Mínima de Atratividade (TMA) de 10% ao ano. Os resultados foram altamente favoráveis: o Valor Presente Líquido (VPL) de R$47.699,49 indica um ganho líquido substancial. A Taxa Interna de Retorno (TIR) de 343,70% reforça o elevado potencial de ganho da operação. Para corrigir a distorção teórica da TIR, a Taxa Interna de Retorno Modificada (TIRM) de 115,80% foi aplicada, consolidando a viabilidade do projeto frente à TMA de 10%. O Payback Simples de 0,36 anos (aproximadamente quatro meses) confirma o baixo risco operacional e o rápido retorno do investimento inicial.
A análise de sensibilidade foi realizada para avaliar a robustez do projeto diante de oscilações de mercado, considerando três cenários: esperado, pessimista (redução de 20% na receita) e otimista (acréscimo de 20% na receita). Mesmo no cenário pessimista, o projeto manteve sua viabilidade econômica, com VPL de R$37.819,59, TIR de 285,53% e TIRM de 106,38%. Todos esses valores superam a Taxa Mínima de Atratividade de 10%, comprovando a rentabilidade robusta da operação mesmo em condições adversas. No cenário otimista, os retornos foram ainda maiores, com VPL de R$57.579,38, TIR de 401,19% e TIRM de 123,81%, atestando a solidez da estrutura de custos da Marca para operar com êxito.
Proposta de plano de ação estratégico
Com base nos diagnósticos obtidos, estruturou-se um Plano de Ação fundamentado no Balanced Scorecard (BSC) de Kaplan e Norton (1997). Essa metodologia, que integra as perspectivas financeira, do cliente, dos processos internos e de aprendizado e crescimento, transcende o mero acompanhamento de métricas de rentabilidade. No contexto da Marca, o BSC viabiliza a gestão integrada do impacto socioambiental e inclusivo, articulando a sustentabilidade financeira com a satisfação do público LGBTQIA+ por meio da cocriação.
O modelo assegura que a eficiência dos processos internos, pautados no “upcycling” e no desperdício zero, seja diretamente sustentada pela capacitação contínua da comunidade em ateliês colaborativos. Isso converte os propósitos institucionais em entregas práticas e mensuráveis. Na perspectiva financeira, o objetivo é garantir a sustentabilidade econômica da operação, mantendo uma estrutura de custos enxuta, com a meta de atingir o ponto de equilíbrio comercializando no mínimo nove peças ao mês. O indicador de acompanhamento é o volume de vendas mensal e a receita bruta, e a iniciativa proposta é o controle rigoroso do fluxo de caixa e a manutenção do ticket médio projetado de R$200,00.
Na perspectiva do cliente, o objetivo é fortalecer a fidelização do público-alvo por meio da cocriação, solucionando a insatisfação de 91,18% dos consumidores com o mercado tradicional. A meta é alcançar 90% de índice de satisfação com o caimento e a exclusividade das peças nos primeiros seis meses. Os indicadores incluem o Net Promoter Score (NPS) e o índice de satisfação pós-venda, com a iniciativa de implementar um formulário online para interessados em cocriar e uma rotina de feedback contínuo.
Para os processos internos, o objetivo é otimizar a técnica do “upcycling” e da transmutação têxtil, garantindo a máxima eficiência produtiva e sustentabilidade. A meta é alcançar o patamar de desperdício zero, reaproveitando 100% dos retalhos gerados na produção. O indicador é a taxa de reaproveitamento e o índice de desperdício têxtil. As iniciativas propostas são padronizar o desmonte das peças de segunda mão e transformar todos os resíduos em embalagens ecológicas ou em itens de experiência do cliente.
Na perspectiva de aprendizado e crescimento, o objetivo é expandir a capacidade produtiva da Marca, capacitando a comunidade LGBTQIA+ em técnicas de “upcycling” e promovendo a geração de renda. A meta é realizar uma oficina ou mentoria presencial ao mês para integrar novos talentos e produzir peças colaborativas. Os indicadores são a quantidade de pessoas capacitadas e o número de peças colaborativas inseridas no e-commerce. A iniciativa central é implementar um programa de ateliê colaborativo, fornecendo infraestrutura e ensino para que convidados costurem e comercializem suas peças.
A Matriz de Integração do Plano de Ação detalha o cronograma tático-operacional para os primeiros cinco meses de implantação, as responsabilidades e os orçamentos atrelados a cada entrega. As três primeiras iniciativas estipuladas, como o controle do fluxo de caixa, a implantação da plataforma online de cocriação e a transformação de resíduos têxteis, refletem a sustentabilidade financeira do negócio e o baixo investimento inicial. A quarta iniciativa, a implantação do programa de ateliê colaborativo, tem um custo estratégico de R$500,00, previsto para o quinto mês.
A estruturação da Matriz de Integração demonstra a capacidade da Marca de financiar seu próprio crescimento de forma orgânica. O acúmulo de saldo positivo nos primeiros meses de operação permite o reinvestimento no negócio, como a aquisição de um novo maquinário no quinto mês, viabilizando a implantação do ateliê colaborativo sem a necessidade de capital de terceiros. Os resultados desta pesquisa atestam que o modelo de negócios avaliado atende plenamente às premissas de viabilidade econômica, mercadológica e estratégica, estando apto para sua implementação no mercado.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar a viabilidade econômica de uma marca de moda sustentável e inclusiva, direcionada ao público LGBTQIA+ na cidade de São Paulo, conhecer as perspectivas de compra desse público-alvo e apresentar um plano de ação estratégico. Verificou-se que o público LGBTQIA+ em São Paulo demonstra alta preocupação com o impacto ambiental do consumo e uma significativa adesão a peças de segunda mão ou “upcycled”. Identificou-se também uma insatisfação generalizada com o mercado de moda tradicional, que falha em atender às individualidades corporais e identitárias, e um elevado interesse em participar ativamente da cocriação de vestuário. A análise de viabilidade econômica confirmou a rentabilidade da operação, com um investimento inicial baixo, custos operacionais enxutos e uma margem de contribuição robusta, resultando em um Valor Presente Líquido de R$ 47.699,49, uma Taxa Interna de Retorno de 343,70% e um Payback Simples de 0,36 anos. A análise de sensibilidade atestou a solidez do projeto, mantendo a viabilidade mesmo em cenários pessimistas. Assim, a união de valores de sustentabilidade, economia social e uma estrutura financeira eficiente configura um negócio de baixo risco e alto potencial de impacto socioambiental.
A principal contribuição deste estudo reside na demonstração de um modelo de negócio disruptivo e inclusivo, que oferece uma alternativa lucrativa e necessária às práticas insustentáveis do mercado de moda, ao mesmo tempo em que promove a representatividade e o empoderamento da comunidade LGBTQIA+ por meio da cocriação e da transmutação têxtil. Para guiar a implementação, foi estruturado um Plano de Ação estratégico, fundamentado no Balanced Scorecard, que integra as perspectivas financeira, do cliente, dos processos internos e de aprendizado e crescimento, incluindo a proposta de um ateliê colaborativo para capacitação e geração de renda. Contudo, a pesquisa apresentou como limitação a natureza não probabilística da amostra, que, embora robusta para o estudo de caso, não permite a generalização dos resultados para todo o país. Sugere-se, para estudos futuros, a realização de pesquisas longitudinais que acompanhem a implementação prática de modelos de negócio semelhantes e de ateliês colaborativos, avaliando o impacto social gerado e a influência da cocriação na fidelização do consumidor a longo prazo, além de estudos comparativos com outros públicos e regiões.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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