08 de abril de 2026
Sustentabilidade farmacêutica e a decisão de compra do consumidor
Carolina Bettini Pirró; Vanessa Martins dos Santos
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A crescente conscientização sobre a finitude dos recursos naturais e o consequente impacto global tem levado à adoção de soluções inovadoras e sustentáveis por parte das organizações, assim como à adesão a hábitos de consumo mais responsáveis por parte dos indivíduos (Nogueira et al., 2023). Sob essa ótica, empresas de diferentes segmentos, incluindo as indústrias farmacêuticas, antes focadas exclusivamente em resultados financeiros e na geração de receita, passaram a incorporar práticas sustentáveis em suas estratégias corporativas. O objetivo central dessa mudança reside na minimização dos impactos socioambientais e no fortalecimento da imagem institucional perante um mercado cada vez mais vigilante (Santiago et al., 2023). Segundo Dias (2014), o receio quanto à escassez de recursos naturais, aliado à pressão política e social, impulsionou as corporações a adotarem estratégias de gestão ambiental alinhadas às práticas de desenvolvimento sustentável. O conceito de desenvolvimento sustentável refere-se à capacidade de atender às necessidades da geração atual sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades, respeitando rigorosamente as limitações impostas pela natureza (Dias, 2014).
Nesse contexto, a sustentabilidade consolida-se como um dos principais objetivos estratégicos a serem alcançados, exigindo não apenas uma maior conscientização sobre a interdependência entre o ser humano e o meio ambiente, mas também uma nova forma de conduzir os negócios. Essa nova mentalidade fundamenta-se na responsabilidade social e na gestão responsável dos recursos naturais (Betanin et al., 2022). Em 2015, a Organização das Nações Unidas estabeleceu uma política com alcance global denominada Agenda 2030, na qual foram definidos dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Esses objetivos visam promover o desenvolvimento por meio de três pilares fundamentais: o econômico, o social e o ambiental. No cenário corporativo, as empresas assumem compromissos ao lado do Estado para alcançar essas metas, com destaque para o objetivo 12, que visa assegurar padrões sustentáveis de consumo e de produção (Nogueira et al., 2023). A sustentabilidade empresarial envolve agir com ética e transparência, gerando valor para acionistas, comunidades e o ecossistema. Tal abordagem vai além dos resultados financeiros imediatos, considerando os impactos sociais e ambientais com foco no aproveitamento de oportunidades e na gestão de riscos (Betanin et al., 2022).
Simultaneamente, intensifica-se a conscientização dos consumidores sobre práticas sustentáveis e o compromisso com o consumo consciente. Observa-se uma renovação de valores e a adoção de comportamentos alinhados a essa temática, em que o perfil do consumidor moderno busca produtos que causem menos impactos negativos ao meio ambiente. Essa mudança influencia diretamente as decisões estratégicas das empresas na adoção de medidas mitigadoras (Dias, 2014). Para Solomon (2016), os consumidores estão mais exigentes e atentos à qualidade dos produtos e à reputação das marcas. Nota-se, também, uma integração entre a preocupação com a saúde pessoal e a saúde global. Ao adotar ações de sustentabilidade e responsabilidade social, as empresas estreitam suas relações com o público (Pales-Quaresma e Oliveira, 2024). O comportamento do consumidor é influenciado por diversos fatores, como cultura, posição social, características individuais e o contexto situacional. Variáveis socioeconômicas, como sexo, idade e renda, também impactam as escolhas, refletindo não apenas a reação aos produtos, mas ao ambiente em que o indivíduo está inserido (Oliveira et al., 2020). Fatores psicológicos, como motivações, percepções, atitudes e valores, orientam as decisões e preferências, destacando-se o altruísmo e a responsabilidade social como motores de escolhas mais conscientes (Queiroz et al., 2024).
Para estruturar a investigação sobre esse fenômeno, realizou-se uma pesquisa aplicada quantitativa do tipo survey. Esta modalidade de pesquisa tem como finalidade interrogar um grupo expressivo de pessoas para conhecer o comportamento acerca do problema estudado e obter conclusões mediante análise estatística dos dados coletados (Prodanov, 2013). Inicialmente, elaborou-se uma matriz de amarração para garantir a adequação dos objetivos e a definição precisa das questões de pesquisa. Esse recurso matricial permitiu identificar de forma clara os objetivos e as limitações do levantamento (Telles, 2001). O público-alvo compreendeu pessoas residentes no Brasil, com idade igual ou superior a 18 anos, que possuíam o hábito de adquirir medicamentos para si ou para terceiros e demonstravam interesse por temas relacionados à sustentabilidade. A seleção dos participantes ocorreu por meio de amostragem por conveniência, método que consiste em escolher os respondentes mais acessíveis, permitindo ampliar a amostra com economia de tempo, embora não assegure a representatividade total do universo pesquisado (Gil, 2024).
A pesquisa foi estruturada na plataforma Google Forms e aplicada remotamente por meio de um questionário online composto por 15 questões fechadas, de múltipla escolha e em escala do tipo Likert. O instrumento possibilitou definir variáveis relacionadas ao perfil sociodemográfico, ao nível de conhecimento sobre sustentabilidade e às práticas específicas da indústria farmacêutica. Também direcionou a percepção sobre hábitos de consumo, preço de medicamentos e a relevância de fatores sustentáveis na intenção de compra. A coleta de dados ocorreu entre 30 de maio e 08 de junho de 2025, alcançando 198 respondentes. Para caracterizar a amostra, utilizaram-se distribuições de frequência e tabelas dinâmicas para realizar o cruzamento dos dados, possibilitando uma compreensão detalhada das características dos participantes. Por se tratar de uma pesquisa de opinião pública sem interação direta ou coleta de dados pessoais sensíveis, o estudo seguiu as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados, sendo isento de submissão ao Comitê de Ética.
O detalhamento metodológico incluiu a análise de cinco seções principais: a definição do perfil sociodemográfico; a percepção e valorização do tema; o nível de conhecimento sobre as práticas do setor farmacêutico; a influência dessas práticas na decisão de compra; e os principais achados com recomendações. Na primeira etapa, o perfil sociodemográfico revelou que 142 participantes, correspondendo a 71,7% da amostra, identificaram-se com o gênero feminino, enquanto 55 participantes, ou 27,8%, identificaram-se com o gênero masculino. Apenas um respondente optou por não informar o gênero. No que se refere à faixa etária, a maior parte da amostra concentrou-se em dois grupos: indivíduos entre 30 e 44 anos, totalizando 76 respondentes (38,4%), e aqueles entre 45 e 64 anos, com 83 respondentes (41,9%). O grupo de jovens entre 18 e 29 anos representou 12,1% da amostra, e os indivíduos com 65 anos ou mais totalizaram 7,6%.
Quanto à escolaridade, verificou-se um nível elevado entre os participantes, sendo que 56 deles (35,2%) possuíam mestrado, doutorado ou pós-doutorado, enquanto 45 (28,3%) possuíam pós-graduação lato sensu. O ensino superior completo foi declarado por 21,4% dos respondentes. Em relação à renda e região de residência, ao restringir a análise aos grupos etários majoritários, constatou-se que 133 participantes (83,6%) residiam na região Sudeste. No que tange aos ganhos mensais, 48 indivíduos (30,2%) declararam rendimentos entre 8001 e 15000 reais, enquanto 62 participantes (39%) informaram renda superior a 15000 reais. Esses dados indicam uma concentração em uma faixa economicamente ativa e com alto nível educacional, o que impacta diretamente no nível de conhecimento e sensibilidade em relação ao tema, conforme aponta a literatura sobre o papel fundamental da educação na conscientização ambiental (Piao e Managi, 2023).
A segunda seção dos resultados abordou a valorização e a importância atribuídas à sustentabilidade. Os dados evidenciaram que 122 participantes (76,7%) reconheceram o tema como muito importante, enquanto apenas um indivíduo (0,6%) o classificou como pouco importante. Entretanto, ao indagar se costumavam considerar o histórico de ações de sustentabilidade das empresas antes de realizar uma compra, observou-se que 29 participantes (18,2%) raramente levam esse aspecto em consideração e cinco (3,1%) afirmaram nunca o fazer. Em contrapartida, 20 respondentes (12,6%) indicaram que sempre analisam o histórico da empresa e 45 (28,3%) relataram fazê-lo frequentemente. A resposta predominante foi a opção às vezes, assinalada por 60 participantes (37,7%). Notou-se, portanto, que embora a relevância do tema seja amplamente reconhecida, isso nem sempre se traduz de forma consistente no comportamento de busca por informações antes da compra.
Questionou-se também se os participantes já haviam deixado de adquirir uma marca em favor de outra reconhecidamente mais sustentável. Nesse cenário, 49 respondentes (30,8%) afirmaram nunca ter refletido sobre o tema, 50 (31,4%) declararam que não realizaram a troca e 60 (37,7%) relataram já ter efetuado a substituição por essa motivação. Esses resultados demonstram que existe uma parcela significativa da população que ainda não foi plenamente sensibilizada para a questão, mesmo possuindo conhecimento sobre os impactos sociais (Damázio et al., 2020). No contexto específico da indústria farmacêutica, a terceira seção revelou um desconhecimento expressivo. A maior parte da amostra, composta por 84 participantes (52,8%), declarou não conhecer as práticas sustentáveis adotadas pelo setor. Outros 40 respondentes (25,2%) não souberam precisar e somente 35 indivíduos (22%) afirmaram possuir conhecimento efetivo sobre o tema.
Apesar desse desconhecimento, a indústria farmacêutica tem buscado o equilíbrio entre aspectos econômicos, sociais e ambientais para assegurar que a produção esteja alinhada ao bem-estar ecológico em longo prazo (Mastrantonas et al., 2024). O segmento está sujeito a normas rigorosas, como a legislação ambiental e as boas práticas de fabricação, com atenção especial ao descarte de resíduos e ao controle da poluição (Nogueira et al., 2023). Aos que declararam conhecer as ações do setor, solicitou-se a identificação das práticas conhecidas. As medidas mais mencionadas foram o controle e tratamento adequado de resíduos (19,4%) e a redução na emissão de carbono (16,7%). Outras ações reconhecidas incluíram o uso de energia renovável (12,5%), gestão eficiente da água (11,1%), logística reversa de medicamentos (11,1%), incentivo à diversidade e inclusão (11,1%) e ações sociais ligadas à saúde (15,3%).
Quanto às fontes de informação, a maioria relatou obter conhecimento por meio das redes sociais (30,7%), seguidas pela mídia tradicional (23,9%), sites institucionais (23,9%) e interações com profissionais de saúde (21,6%). As práticas adotadas pelas empresas abrangem diferentes dimensões do Environmental, Social and Governance, estando alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas. Exemplos reais do setor demonstram esse compromisso. A Indústria 1, eleita a mais responsável no ranking Merco Responsabilidade ESG de 2024, destaca-se pela redução de gases poluentes e uso de eletricidade renovável. A Indústria 2 estabeleceu como meta a redução de até 80% das emissões de carbono até 2030. A Indústria 3 foca em diversidade, inclusão e logística reversa para descarte seguro de medicamentos. A Indústria 4 mantém desde 2020 a produção com 100% de energia renovável. A Indústria 5 foi pioneira com o selo +Verde e embalagens com 30% de papel reciclado. Por fim, a Indústria 6 adota a estratégia Ambição Carbono Zero, utilizando no Brasil 100% de energia proveniente de fontes renováveis (Astrazeneca, 2024; Eurofarma, 2024; GSK, 2024; Novartis, 2024; Novo Nordisk, 2024).
Na quarta seção, tratou-se do reflexo da sustentabilidade na decisão de compra. Verificou-se que 24 participantes (15,1%) afirmaram sempre considerar tais práticas, enquanto outros 24 (15,1%) declararam nunca levar esse aspecto em conta. A resposta às vezes foi a mais frequente, com 28,3%. Em um cenário comparativo, diante de dois medicamentos com o mesmo preço e eficácia, 70 participantes (44%) optariam por aquele produzido pela indústria com maior adesão a práticas sustentáveis. No entanto, 35 respondentes (22%) seguiriam a prescrição médica independentemente de outras variáveis, 33 (20,8%) indicaram o preço como fator decisivo e 21 (13,2%) apontaram a familiaridade com a marca. Esses dados sugerem que a sustentabilidade pode ser um diferencial competitivo, mas não se sobrepõe isoladamente a fatores como confiança, custo e orientação profissional.
A sensibilidade ao preço ficou evidente quando questionados sobre a disposição de pagar mais por um medicamento sustentável. Apenas 14 respondentes (8,8%) aceitariam pagar um valor superior. A grande maioria, 111 participantes (69,8%), afirmou que a decisão dependeria da situação, enquanto 34 (21,4%) declararam que não pagariam a mais. De acordo com Elmor (2022), embora os consumidores demonstrem motivação em relação a empresas responsáveis, esses achados raramente se refletem na prática, pois fatores como preço acessível e confiança prevalecem no momento da escolha. No que diz respeito ao valor agregado à marca, 53 respondentes (33,3%) atribuíram nota máxima ao critério de que a sustentabilidade valoriza o produto, enquanto apenas cinco (3,1%) atribuíram nota mínima.
A análise dos dados permite concluir que indivíduos economicamente ativos e com alto nível de escolaridade possuem maior consciência sobre o tema, mas tal fator não é suficientemente forte para determinar a escolha do produto de forma isolada. No setor farmacêutico, o reconhecimento das iniciativas ainda é baixo, visto que mais da metade dos participantes desconhece as ações realizadas. Recomenda-se que as empresas intensifiquem a comunicação, utilizando as redes sociais para disseminar exemplos concretos de impacto. É fundamental reduzir a lacuna entre percepção e prática, tornando a sustentabilidade um fator mais influente. O estudo apresentou limitações, como a concentração da amostra na região Sudeste e o uso de questionário de autorrelato, o que sugere a necessidade de pesquisas futuras com perfis sociodemográficos mais diversificados para explorar a disposição de pagamento e o engajamento do consumidor.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que se analisou o nível de conhecimento dos consumidores sobre as práticas de sustentabilidade da indústria farmacêutica, evidenciando que, embora o tema seja valorizado e percebido como um agregador de valor à marca, sua influência efetiva na decisão de compra de medicamentos permanece limitada por fatores como preço, confiança na marca e prescrição médica, além de um expressivo desconhecimento por parte do público sobre as ações reais implementadas pelas empresas do setor.
Referências Bibliográficas:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq
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