Mercado de Carbono: o protagonismo brasileiro

Coluna

Esg

30 de março de 2026

Mercado de Carbono: o protagonismo brasileiro

Brasil tem o ativo mais valioso, a natureza, mas ainda precisa consolidar a governança para liderar de maneira sustentável

Existe um tema que deixou de ser pauta técnica para ocupar o centro das decisões estratégicas de governos e empresas: o mercado de carbono. E, como já vimos em outras agendas ESG, o desconforto aqui também é necessário, porque ele revela tanto o potencial quanto as fragilidades de um sistema ainda em construção.

A discussão amadureceu, ganhou escala global e, mais recentemente, foi tensionada na COP30. O Brasil, que historicamente oscila entre protagonismo e atraso regulatório, agora tenta assumir um papel mais ativo, ainda que em meio a desafios estruturais e regulatórios (PWC, 2025; EY, 2025).

O que é o mercado de carbono

De forma simples, o mercado de carbono é um mecanismo que atribui valor financeiro à redução de emissões de gases de efeito estufa. Ele funciona a partir de créditos de carbono, em que cada crédito representa uma tonelada de CO₂ que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera (G1, 2025; BNDES, s.d.).

Na prática, empresas ou países que emitem menos do que o permitido podem vender esses créditos para aqueles que ultrapassam seus limites. Trata-se de uma lógica que combina regulação ambiental com incentivo econômico (BNDES, s.d.).

Existem dois grandes modelos. O mercado regulado, que é obrigatório e possui metas definidas por governos, e o mercado voluntário, no qual empresas compram créditos para compensar suas emissões, muitas vezes por estratégia de reputação ou compromisso climático (G1, 2025).

A promessa é poderosa, transformar sustentabilidade em linguagem de mercado. O risco também existe, transformar impacto em ativo financeiro sem a devida integridade, algo que já vem sendo questionado em crises recentes no mercado voluntário (Capital Reset, 2024).

O Brasil ocupa uma posição única nesse debate. Com sua matriz energética relativamente limpa e vasto capital natural, especialmente na Amazônia, o país tem potencial para ser um dos maiores fornecedores globais de créditos de carbono (PWC, 2025).

Nos últimos anos, houve avanços importantes. Destacam-se discussões mais estruturadas sobre um mercado regulado nacional, maior envolvimento do Ministério da Fazenda na pauta climática e crescente mobilização do setor privado (Brasil, 2026).

Empresas brasileiras já operam no mercado voluntário, especialmente em projetos ligados à conservação florestal e agricultura regenerativa. No entanto, ainda enfrentamos desafios relevantes, como a falta de regulamentação clara e consolidada, riscos socio-fundiários, especialmente em projetos que envolvem territórios tradicionais, e questionamentos sobre a credibilidade dos créditos (Jornal da USP, 2024).

O Brasil tem o ativo mais valioso, a natureza, mas ainda precisa consolidar a governança para transformar esse ativo em liderança sustentável, e não apenas em oportunidade econômica de curto prazo.

Cenários europeu e americano

Enquanto o Brasil estrutura seu modelo, outros mercados já operam em estágios mais avançados, oferecendo aprendizados importantes.

Na Europa, a União Europeia lidera o mercado regulado com um sistema robusto e em constante ajuste. O modelo demonstra maturidade institucional, com mecanismos para controle de oferta de créditos e estabilidade de preços, ainda que enfrente desafios diante de crises econômicas e pressões industriais (Investing, 2025).

Nos Estados Unidos, o cenário é mais fragmentado. Não há um mercado nacional unificado, mas sim iniciativas regionais e forte atuação do mercado voluntário, com protagonismo do setor privado (EY, 2025). Essa diferença revela um ponto relevante. Não existe um modelo único, mas uma necessidade comum de credibilidade, transparência e padronização.

Net Zero

Se o mercado de carbono é o instrumento, o objetivo por trás dele é claro: alcançar o chamado Net Zero — atingir um equilíbrio entre as emissões de gases de efeito estufa geradas e aquelas removidas da atmosfera, de modo que o impacto líquido seja zero (UN, 2024; Net Zero Climate, s.d.). Na prática, isso implica reduzir drasticamente as emissões e compensar apenas uma pequena parcela residual com soluções como florestas, tecnologias de captura ou outros mecanismos de remoção (UN, 2024).

Esse conceito se tornou central na agenda climática global, porque está diretamente ligado à meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Para isso, o mundo precisa reduzir emissões quase pela metade até 2030 e atingir o Net Zero até 2050 (UN, 2024; Net Zero Climate, s.d.).

No Brasil, essa agenda também começa a ganhar força, inclusive com iniciativas governamentais e setoriais que buscam acelerar a descarbonização, reconhecendo o papel da natureza como aliada estratégica nesse processo (MMA, 2026; Poder360, 2025).

No entanto, assim como no mercado de carbono, o desafio não está apenas na meta, mas na credibilidade do caminho. Compromissos de Net Zero sem planos concretos podem se tornar apenas discursos.

COP30

A COP30 marcou um momento relevante para o Brasil no cenário climático global. O país apresentou a proposta de integração mundial dos mercados de carbono, defendendo maior conexão entre sistemas nacionais e internacionais (COP30 Brasil, 2025).

A proposta busca criar um ambiente mais fluido, com maior escala e eficiência nas transações de créditos. No entanto, o tema expôs divergências importantes, especialmente em torno do Artigo 6, que trata das trocas de carbono entre países.

O ponto de discordância central está na integridade dessas transações. Surgem questionamentos sobre como evitar a dupla contagem de créditos, como garantir que uma redução de emissão seja contabilizada de forma justa entre países e como assegurar que esses créditos representem impacto real (Capital Reset, 2025). A crítica é legítima. Sem regras claras e fiscalização robusta, o mercado pode perder sua credibilidade. E, sem credibilidade, perde valor ambiental e financeiro.

O mercado é inevitável, mas precisa ser confiável

O mercado de carbono não é uma solução perfeita, mas é cada vez mais uma solução inevitável. Ele conecta clima e economia de forma pragmática, cria incentivos, mobiliza capital e, se for bem estruturado, pode acelerar a transição para uma economia de baixo carbono (BNDES, s.d.; G1, 2025).

Mas é importante deixar claro: o mercado de carbono não é um fim. Ele é um meio para alcançar um objetivo maior, o Net Zero. E esse é o ponto central da discussão. Não basta criar mecanismos financeiros ou estabelecer metas ambiciosas. É preciso garantir que estamos, de fato, reduzindo emissões de forma consistente e estrutural.

O Brasil tem a chance de ser protagonista. Possui ativos naturais, capacidade técnica e relevância política. Mas protagonismo exige mais do que discurso, exige consistência regulatória, segurança jurídica e compromisso real com impacto (PWC, 2025).

A COP30 deixou claro que o mundo quer um mercado de carbono global. Mas também trouxe um alerta importante: sem confiança, esse mercado não se sustenta (EY, 2025). No fim, a pergunta que fica não é apenas sobre mercado. É sobre direção. Estamos usando o mercado de carbono como ferramenta real para chegar ao Net Zero, ou apenas como um atalho conveniente para adiar decisões mais difíceis?

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Quem publicou esta coluna

Rodrigo Thomaz

Especialista em negócios, pessoas, sustentabilidade, governança e marketing, tem mais de 13 anos de experiência em organizações de grande porte. Atua de forma sistêmica na liderança de projetos estratégicos, na estruturação de indicadores para a tomada de decisão executiva e na articulação com stakeholders complexos. É fundador do Instituto Rumo, onde liderou iniciativas de alto impacto socioeconômico, e atua como consultor e articulador institucional, com foco em inovação, eficiência organizacional e geração de valor sustentável no longo prazo.

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