Pensar global, agir caipira

Coluna

Marketing

28 de abril de 2026

Pensar global, agir caipira

Inovação territorial e estratégias de posicionamento no interior paulista

Durante décadas, a narrativa da inovação no Brasil foi dominada pelas grandes capitais, que representavam os imaginários mais comuns quando o assunto era tecnologia, startups e economia do conhecimento. Nos últimos anos, porém, uma cidade do interior paulista passou a aparecer com frequência crescente em reportagens, eventos e debates sobre inovação: Piracicaba.

O motivo é simples — e estratégico: a cidade vem consolidando um ecossistema de tecnologia voltado ao agronegócio que passou a ser conhecido como “Vale do Silício caipira”. A expressão pode parecer apenas uma metáfora simpática, mas traduz um movimento real de transformação econômica e simbólica do território.

O chamado AgTech Valley (ecossistema de tecnologia para o agronegócio) reúne universidades, centros de pesquisa, multinacionais e startups que desenvolvem soluções para o setor agrícola. A cidade abriga hubs (centros de inovação), programas de aceleração e iniciativas de conexão entre empresas e tecnologia, formando um ambiente colaborativo que impulsiona novos negócios.

O fenômeno é mensurável. Levantamentos do Radar AgTech Brasil 2020/2021 citados pelo UOL indicam que o país conta com mais de 1.500 startups voltadas ao agronegócio, sendo que cerca de 60 estão concentradas em Piracicaba. Esse número revela um nível elevado de especialização para um município do interior, o que posiciona a cidade como um dos principais polos de inovação agro no país.

Ecossistema de inovação

A transformação de Piracicaba não aconteceu por acaso. Ela resulta de um fenômeno que pesquisadores chamam de ecossistema de inovação — um ambiente no qual diferentes atores econômicos e institucionais interagem para gerar conhecimento, tecnologia e novos negócios, conceito amplamente discutido na literatura de inovação e desenvolvimento regional.

No caso piracicabano, esse sistema reúne universidades, empresas, hubs de inovação, centros de pesquisa e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento tecnológico. A cidade passou a consolidar um ambiente estruturado de inovação, com presença de multinacionais, startups e instituições de ensino atuando de forma integrada, o que reforça seu posicionamento como polo estratégico do agronegócio tecnológico no país, conforme apontam reportagens recentes sobre o desenvolvimento do chamado “Vale do Silício caipira”.

Um dos principais pontos de articulação desse ecossistema é o Parque Tecnológico de Piracicaba, criado com a missão de aproximar empresas, startups e pesquisadores em torno de soluções tecnológicas para o agronegócio. O parque funciona como uma infraestrutura estratégica de inovação, abrigando incubadoras, laboratórios e hubs empresariais que conectam startups a grandes empresas e investidores, além de promover programas de aceleração e transferência de tecnologia.

Esse tipo de estrutura é central nas teorias contemporâneas de inovação regional. O sociólogo Henry Etzkowitz, por exemplo, propôs o modelo Triple Helix (interação entre universidade, governo e indústria), segundo o qual a inovação surge da interação entre três atores principais: universidade, governo e indústria. Quando essas três esferas trabalham de forma integrada, criam condições mais favoráveis para o desenvolvimento tecnológico e econômico.

Já o economista Ronald Boschma, referência nos estudos de inovação regional, argumenta que proximidade territorial e redes de colaboração favorecem a circulação de conhecimento e o surgimento de novos empreendimentos.

Essa lógica também dialoga com o cenário contemporâneo do marketing. Relatório da GoAd Media, publicado em 2025, sobre tendências para 2026, aponta que marcas e organizações operam cada vez mais em sistemas integrados, nos quais tecnologia, cultura, experiência e dados precisam estar conectados para gerar valor consistente.

Em outras palavras: inovação raramente acontece de forma isolada. Ela emerge de redes. E, nesse sentido, Piracicaba conseguiu transformar sua vocação histórica no agronegócio em uma plataforma contemporânea de inovação tecnológica.

Construção de capital social

Outro elemento frequentemente invisível na formação de ecossistemas inovadores é o papel das comunidades profissionais. Se hubs e universidades fornecem infraestrutura e conhecimento, são as comunidades que criam circulação de ideias, conexões e oportunidades.

Eventos, meetups e encontros profissionais funcionam como espaços de troca informal, nos quais os projetos começam a nascer. É nesses ambientes que surgem parcerias, startups e iniciativas que depois ganham escala.

Comunidades como a DevPira também cumprem esse papel. Voltada à conexão entre desenvolvedores, designers e profissionais de tecnologia da região, a iniciativa fortalece o ecossistema local por meio de troca de conhecimento, de encontros e de seu festival anual, que reúne a comunidade tech de Piracicaba em torno de debates sobre inovação, carreira e desenvolvimento.

No interior paulista, esse movimento já tem algumas iniciativas acontecendo, como o World Creativity Day, um festival colaborativo global voltado à economia criativa. Realizado neste ano entre os dias 19 e 23 de abril, em Piracicaba, o evento tem inserido a cidade em uma agenda internacional de inovação, conectando atores locais a redes globais de criatividade, empreendedorismo e desenvolvimento.

Eventos independentes e de nicho também ganham protagonismo. Conferências como a CDX (Caipira Design Experience), voltada à discussão sobre experiência digital, produto e construção de comunidades, têm ampliado a agenda local de inovação; sua próxima edição está prevista para 30 de maio de 2026, também em Piracicaba. Essas iniciativas mostram como a articulação entre criadores, profissionais de tecnologia e empreendedores vem construindo uma camada ativa de troca e colaboração no território. Não se trata apenas de agenda, mas de formação contínua de uma rede.

Esse fenômeno dialoga diretamente com o conceito de capital social, amplamente discutido por Robert Putnam, ao demonstrar que relações de confiança, reciprocidade e colaboração dentro de uma comunidade geram vantagens competitivas concretas para os territórios. Essa dinâmica também se aproxima das discussões sobre comunidades de marca, que mostram de que maneira o valor pode ser construído coletivamente pelos próprios participantes, como proposto por Muñiz e O’Guinn ao analisar como consumidores formam redes sociais estruturadas em torno de marcas.

Marketing

Sob a perspectiva do marketing, o aprendizado é direto: ecossistemas não se sustentam apenas por infraestrutura, mas por densidade relacional e circulação de narrativas. E essas narrativas não são construídas por campanhas — são construídas por pessoas, encontros e histórias compartilhadas.

Em um cenário em que comunidades passam a ocupar papel central na construção de valor — como apontam tendências contemporâneas associadas à economia dos criadores (creator economy) e ao conceito de community-led growth — territórios que conseguem ativar suas redes locais de forma consistente ampliam não apenas sua capacidade de inovação, mas também sua relevância simbólica.

O community-led growth, nesse contexto, refere-se às estratégias em que o crescimento de marcas, produtos ou ecossistemas é impulsionado pela própria comunidade, por meio de engajamento, cocriação e circulação de valor entre seus membros, reduzindo a centralidade das ações institucionais e ampliando o protagonismo dos participantes — uma lógica que dialoga diretamente com as dinâmicas observadas nas comunidades de marca.

Branding territorial

Existe uma área inteira de estudos dedicada a entender como as cidades constroem reputação e identidade no cenário global. Esse campo é conhecido como place branding (branding territorial).

Pesquisadores como Simon Anholt, Gregory Ashworth, Mihalis Kavaratzis e Sebastian Zenker defendem que territórios, assim como empresas, precisam desenvolver estratégias de comunicação e posicionamento para se diferenciarem em um mundo cada vez mais competitivo. A lógica é simples: cidades também disputam atenção.Elas competem por: investimentos, empresas, talentos, turistas e eventos internacionais.

Nesse sentido, narrativas territoriais tornam-se ferramentas estratégicas. A expressão “Vale do Silício caipira” funciona exatamente dessa maneira. Ela cria uma ponte simbólica entre dois universos aparentemente distintos: o Vale do Silício, referência global de inovação tecnológica, e o interior paulista, historicamente associado ao agronegócio.

O resultado é uma narrativa poderosa: ela comunica inovação, mas preserva identidade. Para profissionais de marketing, essa construção oferece um aprendizado valioso: posicionamento não é apenas sobre o que você faz, mas sobre a história que você conta.

Pensar global, agir caipira

A expressão “pensar global, agir local” tornou-se um mantra nas discussões sobre inovação e desenvolvimento. No interior paulista, porém, essa ideia vem sendo reinterpretada em uma formulação que chama atenção: pensar global, agir caipira.

O termo não surge de forma isolada. Ele já aparece em debates institucionais e acadêmicos sobre desenvolvimento territorial, como no evento “Think Global, Act Caipira”, promovido pela University Global Coalition, e em iniciativas do Núcleo ODS, que discutem o papel das identidades locais na construção de soluções globais.

Nesse contexto, a expressão deixa de ser apenas uma adaptação linguística e passa a sintetizar um princípio estratégico: a capacidade de territórios de se inserirem em redes globais de inovação sem romper com suas bases culturais, produtivas e sociais.

Esse é um dos principais desafios das cidades médias contemporâneas. Participar de fluxos globais de conhecimento e tecnologia exige conectividade e ambição internacional. Mas a diferenciação competitiva, cada vez mais, nasce da capacidade de mobilizar especificidades locais — sejam elas econômicas, culturais ou institucionais.

Esse equilíbrio é cada vez mais relevante. No cenário atual, inovação não acontece apenas em laboratórios ou startups. Ela depende da construção de ambientes que favoreçam experimentação, colaboração e circulação de conhecimento, elementos profundamente enraizados no território.

Entidades internacionais como a Organização das Nações Unidas reforçam essa perspectiva ao incluir inovação, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico entre suas prioridades — como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 9 (ODS 9), da Agenda 2030 da ONU. Ou seja: inovação não é apenas uma pauta econômica. Ela também é uma estratégia de desenvolvimento territorial. E, nesse cenário, “agir caipira” não representa limitação, representa posicionamento.

O que profissionais de marketing podem aprender

Para quem trabalha com marketing, branding ou estratégia de produto, observar o que acontece em ecossistemas como o de Piracicaba pode oferecer aprendizados valiosos.

Primeiro, porque mostra que posicionamento não é exclusivo das marcas. Territórios também precisam construir identidade, reputação e narrativa estratégica. Segundo, porque reforça um princípio central do marketing contemporâneo: a diferenciação nasce da combinação entre contexto, cultura e estratégia.

Por fim, vale lembrar algo que muitas vezes esquecemos no universo corporativo: inovação não acontece apenas em grandes centros. Às vezes, ela começa em lugares que ainda não estavam no radar. E quando isso acontece, o desafio deixa de ser apenas tecnológico, passa a ser também narrativo.

No fim das contas, territórios inovadores não são apenas aqueles que criam novas tecnologias — mas aqueles que conseguem contar uma boa história sobre o futuro que estão construindo.

Para ter acesso às referências desse texto clique aqui

Quem publicou esta coluna

Natasha Barreto de Oliveira

Gerente de Marketing de Produto no Pecege, venceu seu primeiro concurso de redação aos 10 anos e, desde então, nunca mais parou de transformar ideias em palavras. Formada em Marketing Digital pelo IESB e pós-graduada em Marketing pelo MBA USP/Esalq. Pesquisa convergências entre criatividade, IA, marketing e comportamento.

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade