Resumo Executivo

13 de maio de 2026

Sucessão rural e análise SWOT: estudo de caso em Vacaria/RS

Rafael Oliveira Amaral de Lemos; Nayara Barbosa da Cruz

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Nas últimas quatro décadas, o Brasil realizou uma transição estrutural de importador de alimentos para um dos maiores fornecedores globais, consolidando-se como protagonista no agronegócio internacional. Esse avanço foi impulsionado por ganhos expressivos de produtividade e produção, permitindo que se produza mais em cada hectare cultivado, o que é fundamental para a conservação dos recursos naturais (Embrapa, 2018). Entretanto, a modernização da agricultura brasileira convive com desafios persistentes, como a concentração de riqueza, a existência de milhões de hectares de solos degradados e a ineficiência na gestão administrativa e no uso de recursos hídricos. Dados recentes indicam uma vulnerabilidade crescente no setor; no segundo trimestre de 2025, houve um aumento de 31,7% nos pedidos de recuperação judicial em comparação ao mesmo período de 2024, totalizando 565 solicitações, o maior volume registrado desde o início do levantamento em 2021 (Serasa Experian, 2025). Nesse cenário de incertezas econômicas, a gestão de propriedades rurais que envolvem múltiplas famílias e herdeiros torna-se ainda mais complexa, exigindo estruturas formais de governança para evitar disputas e garantir a preservação do patrimônio a longo prazo.

A ausência de uma divisão clara de responsabilidades e de uma estrutura legal organizada coloca em risco a viabilidade econômica de empreendimentos familiares, especialmente diante de futuras partilhas de bens. O desenvolvimento do agronegócio nacional, intensificado a partir da década de 1970, transformou regiões de baixa produtividade em áreas de alto desempenho, fruto de políticas públicas e do empreendedorismo de agricultores de diversas escalas (Gomes et al., 2016). Contudo, a continuidade desse sucesso depende da capacidade das famílias em planejar a sucessão. O estudo de caso apresenta-se como uma investigação prática essencial para compreender fenômenos atuais dentro de seu ambiente real, permitindo uma análise profunda quando não há separação nítida entre o contexto e o objeto estudado (Yin, 2005). A sustentabilidade no agronegócio contemporâneo demanda, portanto, uma análise integrada que contemple aspectos jurídicos, financeiros e estratégicos, assegurando que a transição entre gerações ocorra de forma ordenada e eficiente.

Para fundamentar a análise da gestão e da sucessão, utiliza-se a matriz SWOT, ou FOFA, que adota uma visão integrada ao relacionar a organização aos fatores externos do ambiente. O objetivo dessa ferramenta é cruzar as forças internas e fragilidades do negócio com as oportunidades de mercado e ameaças externas, proporcionando uma leitura articulada da realidade organizacional que auxilia em decisões mais consistentes (Bjorn, 2008). A formulação de estratégias deve considerar variáveis como o objetivo principal do negócio, sua situação financeira e o contexto de atuação, mesmo em propriedades que não operam sob um CNPJ formal (Haile; Krupka, 2016). A compreensão das percepções e dinâmicas familiares é crucial para estruturar um protocolo de sucessão que mitigue riscos de divisão excessiva da terra e promova uma governança eficiente, capaz de suportar variações de preços de commodities e cenários macroeconômicos instáveis.

A metodologia adotada para a compreensão da realidade produtiva e sucessória baseia-se em um estudo de caso exploratório e qualitativo, focado em uma propriedade rural localizada em Vacaria, no Rio Grande do Sul. O processo de coleta de dados foi estruturado em três etapas principais: revisão bibliográfica sistemática, análise documental e entrevistas semiestruturadas. A revisão bibliográfica buscou fundamentar conceitos de governança em empresas familiares, gestão patrimonial e sucessão no agronegócio brasileiro, utilizando bases de dados como Scielo, Ipea e Embrapa. Os critérios de inclusão focaram em estudos dos últimos 25 anos que abordassem diretamente a gestão de pequenos e médios negócios rurais. A análise documental concentrou-se na verificação de escrituras, matrículas de imóveis, contratos de arrendamento e acordos de partilha, visando identificar a situação legal da propriedade e possíveis lacunas que pudessem comprometer a segurança jurídica das cinco famílias envolvidas na gestão compartilhada.

As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com seis participantes, incluindo representantes das cinco famílias gestoras e um funcionário da propriedade, durante duas visitas técnicas ocorridas em março e julho de 2025. O roteiro de perguntas abrangeu a capacidade produtiva, o número de herdeiros, a visão de futuro para o negócio, o relacionamento interpessoal entre os sócios e a percepção sobre a pressão de grandes grupos empresariais na região de Vacaria. Além disso, foram coletados dados sobre os ciclos sazonais da bovinocultura e das culturas de soja, milho e aveia. Para sistematizar as informações, utilizou-se um quadro comparativo que agrupou cláusulas contratuais e disposições sobre inventários, permitindo uma análise de conteúdo que revelou divergências entre os acordos verbais e a documentação formalizada. Esse detalhamento operacional foi fundamental para alimentar a matriz SWOT, categorizando elementos internos como forças ou fraquezas e elementos externos como oportunidades ou ameaças.

A aplicação da matriz SWOT seguiu critérios rigorosos de classificação. Aspectos como a estrutura produtiva, a disponibilidade de maquinário próprio e a expertise técnica dos herdeiros foram avaliados como forças. Por outro lado, a desatualização de registros patrimoniais e a falta de um protocolo formal de sucessão foram identificadas como fraquezas críticas. No ambiente externo, tendências de mercado e a proximidade de novas cooperativas foram listadas como oportunidades, enquanto a instabilidade dos preços das commodities, as mudanças climáticas e os riscos de conflitos jurídicos foram categorizados como ameaças (Bertaglia, 2009). A integração desses dados permitiu a elaboração de um diagnóstico preciso, que serviu de base para a proposição de estratégias de governança familiar e para a estruturação de um cronograma de medidas voltadas à mitigação de riscos e à valorização das potencialidades identificadas na unidade produtiva.

Os resultados demonstram que a propriedade em estudo possui uma área total de 850 hectares, caracterizando-se como um empreendimento de médio porte com produção diversificada. O uso do solo é distribuído entre 260 hectares para a criação de bovinos de corte, 320 hectares arrendados para o cultivo rotativo de soja e milho, 50 hectares destinados à silvicultura de pinheiros e 170 hectares preservados conforme as normas do Código Florestal. A análise financeira do exercício de 2024 revelou que a propriedade é autossuficiente, com a atividade pecuária cobrindo todos os custos anuais de manutenção. O rebanho apresentou indicadores produtivos sólidos, com 139 vacas prenhas de um total de 153 e baixas taxas de mortalidade. A comercialização de terneiros é realizada com valores de referência de R$ 13,00 por kg, enquanto as vacas de descarte são comercializadas a R$ 10,00 por kg. Essa estabilidade produtiva é reforçada por uma infraestrutura que inclui dois tratores próprios, um New Holland TS 110 avaliado em 120 mil reais e um Massey Ferguson 275 avaliado em 50 mil reais, o que reduz a dependência de serviços terceirizados.

A análise documental, no entanto, revelou fragilidades jurídicas significativas. Muitas escrituras e matrículas estão desatualizadas e não refletem a divisão real das frações ideais entre as famílias. A existência de acordos verbais para a gestão de áreas comuns e a falta de conclusão de inventários antigos geram insegurança jurídica, especialmente após o falecimento de uma das matriarcas durante o período do estudo, o que exigiu a abertura de novos processos de partilha. A recomendação técnica aponta para a necessidade urgente de averbação das matrículas e formalização de contratos internos de forma escrita e registrada em cartório. A ausência desses instrumentos amplia o risco de disputas futuras e dificulta a previsibilidade na gestão do negócio, podendo afetar a continuidade das atividades nas próximas gerações.

As entrevistas evidenciaram um contraste entre a competência técnica dos gestores atuais e a incerteza quanto ao engajamento dos herdeiros. Atualmente, quatro herdeiros participam ativamente da gestão, trazendo expertises complementares: um atua na presidência de uma instituição financeira com sólida experiência em gestão agrícola; o segundo é médico veterinário e professor, fornecendo suporte técnico-científico à pecuária; o terceiro possui histórico na gestão pública ambiental, facilitando a adequação às normas regulatórias; e o quarto é especialista em vendas de animais, com ampla rede de contatos no mercado regional. Apesar desse capital intelectual, há cerca de dez herdeiros diretos que residem em locais distantes, como Vancouver, Campo Grande e São Paulo, e não possuem vínculo profissional com o agronegócio. Esse distanciamento geográfico e setorial é um fator de risco, pois reduz as chances de um sucessor assumir a operação direta da fazenda.

Esse cenário de dispersão dos herdeiros reflete uma tendência nacional de êxodo rural. Entre 2010 e 2022, o Brasil perdeu aproximadamente 4,3 milhões de moradores no campo, reduzindo a população rural de 29,8 milhões para 25,6 milhões (IBGE, 2023). Estima-se que apenas 30% das propriedades rurais brasileiras cheguem à segunda geração e apenas 5% alcancem a terceira, sendo a falta de interesse das novas gerações e os conflitos familiares os principais entraves (Oliveira; Vieira Filho, 2018). Na propriedade em Vacaria, a resistência de parte da família em discutir abertamente o protocolo de sucessão agrava essa vulnerabilidade. A concentração de responsabilidades em poucos membros e a carência de processos profissionalizados de gestão administrativa e financeira emergem como pontos que necessitam de intervenção estratégica imediata para garantir a perenidade do negócio.

No âmbito das oportunidades, a recente abertura de uma cooperativa a apenas sete quilômetros da propriedade facilita o escoamento da produção e amplia as opções de comercialização. O acesso a linhas de crédito governamentais e a possibilidade de verticalização da produção, agregando valor por meio do beneficiamento próprio, são caminhos viáveis para aumentar a rentabilidade. A incorporação de tecnologias digitais de gestão também se apresenta como um diferencial competitivo. Contudo, as ameaças externas são severas, incluindo a volatilidade dos preços internacionais das commodities e a competição com grandes grupos empresariais que possuem maior escala e poder de negociação. Além disso, a deterioração das estruturas físicas da sede e dos galpões, construídos predominantemente em madeira, exige um plano de manutenção preventiva que ainda não foi formalizado pelos gestores.

A discussão dos dados sugere que a criação de um protocolo de sucessão é o instrumento central para a longevidade da propriedade. Esse documento deve definir claramente os papéis, diferenciando os herdeiros que atuarão na gestão direta daqueles que serão apenas investidores. O modelo proposto assemelha-se a uma holding familiar rural, permitindo que cada núcleo familiar gerencie sua área com autonomia, mas sob regras de governança comuns que incluam prestação de contas periódica e critérios objetivos para a distribuição de lucros e reinvestimentos. A transição deve ser gradual, iniciando com a implementação de mecanismos de transparência, seguida pela inserção dos herdeiros em cargos estratégicos e, finalmente, pela transferência formal da gestão, mantendo os fundadores em funções consultivas. A avaliação sistemática das forças e fraquezas é essencial para assegurar que as competências da família se adequem a um ambiente de mercado em constante mutação (Oliveira, 2004).

A sustentabilidade do negócio rural em Vacaria depende da capacidade de transformar os desafios sucessórios em oportunidades de profissionalização. A diversificação produtiva já existente funciona como um colchão de segurança contra oscilações de mercado, mas a solidez produtiva não é suficiente sem uma organização familiar robusta. O alinhamento de expectativas entre os herdeiros, considerando suas diferentes trajetórias profissionais, é indispensável para evitar conflitos que possam levar ao desmembramento da propriedade. A gestão compartilhada exige um compromisso coletivo com a transparência e com a renovação das práticas administrativas, garantindo que a tradição da família Lemos seja preservada através da inovação e do planejamento estratégico rigoroso.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise SWOT permitiu identificar que a propriedade possui alta capacidade produtiva e autossuficiência financeira, mas enfrenta riscos críticos devido à desatualização documental e à falta de um protocolo formal de sucessão. A diversificação das atividades entre pecuária, agricultura e silvicultura fortalece a resiliência do negócio, enquanto a expertise técnica dos gestores atuais representa uma força competitiva importante. No entanto, a dispersão geográfica dos herdeiros e a ausência de regras claras de governança ameaçam a continuidade da gestão compartilhada. A implementação de um protocolo de sucessão estruturado e a regularização jurídica do patrimônio são medidas indispensáveis para mitigar conflitos e assegurar a sustentabilidade econômica e familiar da propriedade ao longo das futuras gerações.

Referências Bibliográficas:

BERTAGLIA, P. R. Logística e gerenciamento da cadeia de abastecimento. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. 546 p.

BJORN, Anja. The Swot Analysis. Seminar paper – Berlin, 2008 – Amazon Kindle Edition

EMBRAPA. Visão 2030 : o futuro da agricultura brasileira. – Brasília, DF : Embrapa, 2018. 212 p. : il. color. ; 18,5 cm x 2

GOMES, M. P. et al. Agricultura mundial: evolução, avanços e novos desafios. In: AMPA; APROSOJA-MT; EMBRAPA; (Org). Desafios do cerrado: como sustentar a expansão da produção com produtividade e competitividade. Cuiabá: AMPA, 2016. p. 11-44.

Haile, M., & Krupka, J. (2016). Fuzzy Evaluation of SWOT Analysis. International Journal Of Supply Chain Management, 5(3), 172-179. Disponível em: https://www.ojs3.excelingtech.co.uk/index.php/IJSCM/article/view/1252 Acesso em 26 de set. de 2025.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2022: resultados gerais da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41901-censo-2022-87-da-populacao-brasileira-vive-em-areas-urbanas Acesso em: 29 set. 2025

OLIVEIRA, D. P. R. Planejamento estratégico: conceitos, metodologias e práticas. 21 ed. São Paulo: Atlas, 2004. 335 p.

OLIVEIRA, W. M, VIEIRA FILHO, J. E. R. 2018. Texto para Discussão (TD) 2385 : Sucessão nas fazendas familiares : problemas e desafios. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.- Brasília : Rio de Janeiro : Ipea

Serasa Experian. 2025. Recuperação Judicial: solicitações crescem quase 32% no agro em segundo trimestre de 2025, mostra indicador da Serasa Experian. Disponível em: https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/agronegocios/recuperacao-judicial-solicitacoes-crescem-quase-32-no-agro-em-segundo-trimestre-de-2025-mostra-indicador-da-serasa-experian/ Acesso: 28 set. 2025.

Yin, R. K. (2005). Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto Alegre, RS: Bookman.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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