Resumo Executivo

13 de maio de 2026

Framework Multicritério: De Monólitos a Microsserviços

Rafael Megda Isidoro; Lucas José de Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A aceleração da transformação digital no cenário corporativo contemporâneo impõe às organizações a necessidade constante de reavaliar sistemas legados para sustentar a entrega de novas funcionalidades com agilidade, escalabilidade e resiliência. Nesse contexto, a migração de arquiteturas monolíticas para estruturas baseadas em microsserviços consolidou-se como uma estratégia fundamental para empresas que buscam reduzir o tempo de disponibilização de produtos no mercado (Knoche e Hasselbring, 2018). As aplicações monolíticas caracterizam-se pela concentração de toda a funcionalidade em uma unidade única de implantação, geralmente composta por uma interface cliente, um banco de dados para persistência e uma camada de servidor que centraliza as regras de negócio (Fowler e Lewis, 2014). Embora essa estrutura simplifique o desenvolvimento inicial, a coesão excessiva gera desafios significativos para a manutenção da modularidade, elevando o tempo de desenvolvimento e a probabilidade de regressões durante mudanças evolutivas (Newman, 2022). Qualquer alteração no código exige a compilação e a implantação integral da aplicação, o que limita a evolução técnica e amplia o risco de impactos indesejados na operação do negócio.

Como resposta a tais limitações, a arquitetura de microsserviços propõe a decomposição da aplicação em serviços autônomos, modelados segundo capacidades de negócio e comunicando-se por mecanismos leves, como interfaces de programação de aplicações (APIs). A adoção dessa abordagem favorece a especificação de funcionalidades e o uso de tecnologias heterogêneas, facilitando a automação de fluxos de entrega contínua e conferindo autonomia às equipes de engenharia (Fowler e Lewis, 2014). No entanto, a transição para microsserviços introduz complexidades inerentes a sistemas distribuídos, incluindo desafios de observabilidade, governança de APIs e a necessidade de elevada maturidade técnica e organizacional. Apesar de grandes corporações terem adotado essa arquitetura com sucesso, a decisão de migrar não é trivial e frequentemente carece de avaliações sistemáticas. Muitos profissionais demonstram hesitação por não conseguirem mensurar de forma clara os benefícios e os custos envolvidos, sendo muitas vezes influenciados por experiências passadas sem uma análise rigorosa dos equilíbrios necessários para cada cenário específico (Taibi et al., 2017).

Para que a migração gere resultados efetivos, é imperativo compreender os objetivos a serem atingidos tanto para a aplicação quanto para a organização. Torna-se evidente a carência de ferramentas estruturadas que auxiliem na tomada de decisão, ponderando riscos e ganhos potenciais (Newman, 2020). Diante dessa lacuna, propõe-se o desenvolvimento de um framework multicritério que organiza fatores relevantes em três dimensões fundamentais: técnica, organizacional e estratégica. A utilização de uma matriz de decisão ponderada permite a análise comparativa e a priorização de elementos que influenciam a viabilidade da migração, fundamentando-se em padrões consolidados de migração incremental. A validação dessa estrutura ocorre por meio de uma avaliação conceitual junto a engenheiros de software com vasta experiência, visando oferecer uma ferramenta pragmática que aumente a previsibilidade das discussões arquiteturais e alinhe as decisões técnicas aos objetivos de negócio.

A fundamentação metodológica deste estudo classifica-se como pesquisa aplicada, adotando uma abordagem mista que combina elementos qualitativos e quantitativos de natureza exploratória (Gil, 2002). O processo de construção do framework iniciou-se com um levantamento teórico rigoroso em repositórios científicos de relevância global, incluindo Google Scholar, IEEE Xplore e ACM Digital Library. A busca utilizou termos abrangentes em língua inglesa, como arquitetura de microsserviços, modernização de sistemas e padrões de migração, resultando em um volume inicial de aproximadamente 10400 trabalhos. Para filtrar essa base, estabeleceram-se critérios de inclusão focados em princípios arquiteturais, estudos de caso de migração e guias práticos de construção de aplicações. Foram excluídos temas duplicados, publicações sem dados relevantes ou que não abordassem diretamente a transição de sistemas monolíticos. Após a triagem, selecionaram-se 10 artigos e dois livros de referência que serviram como base norteadora para a identificação de termos técnicos recorrentes e fatores essenciais (Newman, 2020; Newman, 2022).

A análise dos materiais envolveu a leitura dinâmica e a identificação de marcadores temáticos, agrupados por similaridade e contagem de frequência. Esse procedimento permitiu definir os principais fatores que compõem o framework, associando cada um a uma descrição detalhada e à sua respectiva base teórica. A estrutura foi então organizada em uma matriz de decisão multicritério (MCDA), método reconhecido pela capacidade de quantificar considerações complexas ao atribuir pesos relativos a diferentes fatores (Huang, Keisler e Linkov, 2011). Na aplicação prática do framework, cada fator é avaliado sob dois parâmetros: a importância, representada por um percentual de 0% a 100%, e a nota de aplicabilidade, variando em uma escala de um a cinco, onde um indica inexistência de aplicação e cinco representa aplicação total. A pontuação final de cada elemento resulta da multiplicação desses parâmetros, gerando um valor ponderado que reflete a capacidade de atendimento da organização aos requisitos de migração (Keeney e Raiffa, 1976).

Para validar a aplicabilidade e a clareza da ferramenta proposta, realizaram-se entrevistas individuais com cinco engenheiros de software especialistas, todos com experiência mínima de cinco anos em projetos de migração e ocupando cargos de liderança técnica em empresas de médio e grande porte. Durante as sessões, apresentou-se detalhadamente a estrutura do framework, seguida pela aplicação de um questionário estruturado conforme as diretrizes de coleta de dados qualitativos e quantitativos (Gil, 2002). O instrumento continha 12 questões, utilizando escalas de Likert e perguntas abertas para capturar percepções sobre a divisão dos critérios, a relevância dos fatores e a utilidade da matriz ponderada. Os dados coletados foram processados para garantir o anonimato e a padronização das respostas, sendo posteriormente analisados por meio de scripts desenvolvidos em linguagem Python com a biblioteca Pandas. Essa análise estatística permitiu calcular médias, medianas e desvios padrão, enquanto as respostas abertas foram submetidas a uma categorização manual para identificar críticas e sugestões de melhoria (Gibbs, 2009).

Os resultados derivados da revisão bibliográfica permitiram a consolidação de 16 fatores essenciais para a tomada de decisão. Na dimensão técnica, destacam-se os contextos delimitados, que orientam a modelagem de serviços em torno de capacidades de negócio para evitar decomposições prematuras (Indrasiri e Siriwardena, 2018). A coesão e o acoplamento também surgem como elementos críticos, exigindo a busca por alta coesão de código e baixo acoplamento para suportar mudanças evolutivas (Newman, 2020). Outro fator técnico de alta frequência na literatura é o monitoramento semântico e a observabilidade, fundamentais para compreender falhas e comportamentos em ambientes distribuídos (Newman, 2022). Além disso, a latência de rede e o desempenho tornam-se fatores críticos devido à natureza distribuída da arquitetura, exigindo avaliações precisas sobre o impacto na experiência do usuário.

Na dimensão organizacional, a autonomia da equipe e o alinhamento cultural são apontados como tão vitais quanto os aspectos técnicos, exigindo transformações na estrutura da empresa (Fowler e Lewis, 2014). A infraestrutura de DevOps e a automação de pipelines de entrega contínua surgem como facilitadores indispensáveis para gerenciar a complexidade de múltiplos serviços independentes (Indrasiri e Siriwardena, 2018). A governança de APIs, abrangendo orquestração e estilos de comunicação síncrona e assíncrona, apresentou a maior frequência de citações, evidenciando-se como um dos aspectos mais desafiadores da migração. No âmbito estratégico, a escalabilidade e a eficiência de custos são os principais benefícios almejados, embora demandem investimentos iniciais significativos em ferramentas e capacitação (Newman, 2022). A segurança, incluindo autenticação e autorização distribuída, embora com menor frequência quantitativa na literatura inicial, foi identificada como um requisito de design indispensável para a proteção de dados em redes abertas.

A validação com os especialistas revelou um perfil de respondentes altamente qualificado, com 40% atuando como especialistas de tecnologia e 40% como líderes técnicos, todos com histórico comprovado em migrações sistêmicas. A análise quantitativa das respostas indicou uma percepção positiva sobre o framework, com a divisão dos critérios atingindo uma média de 4,6 em uma escala de cinco, demonstrando que a separação entre dimensões técnica, organizacional e estratégica reflete adequadamente a realidade dos projetos. A relevância dos fatores listados obteve média de 4,4, confirmando que os elementos extraídos da literatura são aderentes aos desafios práticos enfrentados pelas equipes de engenharia. No entanto, a combinação entre peso e nota para avaliação da viabilidade apresentou a menor média entre os quesitos quantitativos, atingindo 3,6, o que sugere a necessidade de instruções mais detalhadas ou calibrações nos pesos para evitar subjetividades excessivas na matriz de decisão.

A clareza e a compreensibilidade do framework foram avaliadas com média de 4,2, indicando que a ferramenta é inteligível em sua forma de aplicação. Os especialistas concordaram, com média de 4,4, que o framework seria útil para orientar decisões em projetos reais, mesmo reconhecendo a necessidade de ajustes pontuais. A análise das questões abertas trouxe contribuições valiosas, como a sugestão de incluir métricas de negócio mais explícitas e detalhar a governança de dados. Observou-se que, embora a literatura enfatize a governança de APIs, os especialistas destacaram que a segurança e a conformidade regulatória são fatores que podem inviabilizar projetos em setores específicos, demandando maior peso na matriz estratégica. A dispersão dos dados, com desvio padrão de 0,89 em relação à relevância dos fatores, indica que, embora haja consenso geral, a importância de cada critério pode variar conforme o domínio de negócio da aplicação.

A discussão dos resultados evidencia uma convergência entre a teoria e a prática profissional, reforçando a premissa de que a migração para microsserviços não deve ser encarada apenas como uma mudança tecnológica, mas como uma evolução sociotécnica. A alta pontuação atribuída à utilidade do framework corrobora a visão de que ferramentas estruturadas reduzem a incerteza e promovem um debate mais qualificado entre gestores e desenvolvedores. A necessidade de equilibrar critérios técnicos, como o encapsulamento de dados, com critérios estratégicos, como o tempo de entrega de novas funcionalidades, é corroborada por estudos recentes que destacam a competitividade e a eficiência operacional como motores da migração (Blinowski et al., 2022). O framework proposto preenche uma lacuna ao oferecer um método de quantificação para variáveis que, de outra forma, seriam avaliadas de maneira puramente qualitativa ou intuitiva.

Apesar dos resultados positivos, reconhece-se que a validação ocorreu em nível conceitual, sem a aplicação em um estudo de caso em tempo real, o que constitui uma limitação desta análise. A variação nas notas de aplicabilidade sugere que a calibração dos pesos na matriz MCDA deve ser um processo contínuo e adaptável ao contexto de cada organização. Sugere-se que pesquisas futuras apliquem o framework em cenários reais de migração para verificar a precisão das predições de viabilidade e ajustar os fatores conforme novas evidências práticas surjam. A inclusão de dimensões adicionais, como a experiência do desenvolvedor e métricas específicas de custo de nuvem, poderia enriquecer ainda mais a ferramenta, tornando-a um instrumento de governança arquitetural abrangente.

Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio da proposição e validação conceitual de um framework multicritério que sistematiza a decisão de migração de sistemas monolíticos para microsserviços. A estrutura desenvolvida demonstrou ser clara, relevante e útil para profissionais da área, oferecendo uma base sólida para avaliar a prontidão técnica, organizacional e estratégica das empresas. A identificação de 16 fatores essenciais e a aplicação da matriz de decisão ponderada conferem pragmatismo ao processo, permitindo que engenheiros e gestores identifiquem riscos precocemente e priorizem investimentos. O estudo contribui para a área de engenharia de software ao fornecer uma ferramenta replicável que reduz a subjetividade em decisões arquiteturais críticas, alinhando a evolução tecnológica às necessidades de agilidade e escalabilidade do mercado contemporâneo.

Referências Bibliográficas:

Blinowski, G., Ojdowska, A. and Przybyłek, A. (2022). Monolithic vs. Microservice Architecture: A Performance and Scalability Evaluation. IEEE Access, vol. 10, pp. 20357-20374.

Fowler, M. and Lewis, J. (2014). Microservices, a definition of this new architectural term. Disponível em: <https://martinfowler.com/articles/microservices.html>. Acesso em 16-03-2025.

Gibbs, G. (2009). Análise de dados qualitativos. Artmed. Porto Alegre, RS, Brasil.

Gil, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. Editora Atlas. São Paulo, SP, Brasil.

Huang, B. I., Keisler, J. and Linkov, I. (2011). Multi-criteria decision analysis in environmental sciences: Ten years of applications and trends. Science of The Total Environment. Ed 19, Vol 409 pp. 3578-3594.

Indrasiri, K. and Siriwardena, P. (2018). Microservices for the Enterprise: Designing, Developing and Deploying. 1 ed. Apress. San Jose, CA, USA.

Keeney, R. L. and Raiffa, H. (1976). Decisions with Multiple Objectives: Preferences and Value Tradeoffs. New York: Wiley. Psychometrika. vol. 42. pp. 451–452.

Knoche, H. and Hasselbring, W. (2018). Using Microservices for Legacy Software Modernization. IEEE Software, vol 35, pp 44-49.

Newman, S. (2020). Migrando Serviços Monolíticos para Microserviços: Padrões Evolutivos para Transformar seu Sistema Monolítico. 1. ed. Novatec Editora. São Paulo, SP, Brasil.

Newman, S. (2022). Criando Microserviços: Projetando Sistemas com Componentes Menores e Mais Especializados. 2. ed. Novatec Editora, São Paulo, SP, Brasil.

Taibi, D., Lenarduzzi, V. and Pahl, C. (2017). Processes, Motivations, and Issues for Migrating to Microservices Architectures: An Empirical Investigation. IEEE Cloud Computing. vol 4. pp. 22-32.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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