Engajamento, emoções e performance: oportunidades estratégicas

Coluna

Engajamento

11 de maio de 2026

Engajamento, emoções e performance: oportunidades estratégicas

Organizações brasileiras podem avançar na gestão de pessoas criando práticas organizacionais mais estruturadas

O engajamento no trabalho tem se consolidado, nas últimas décadas, como um dos principais constructos explicativos da performance organizacional, especialmente em contextos de transformação tecnológica acelerada. O relatório “State of the Global Workplace 2026”, da Gallup, oferece evidências robustas de que, apesar dos avanços tecnológicos, sobretudo no campo das inteligências artificiais, o fator humano permanece central para a geração de valor nas organizações. Nesse sentido, o engajamento dos colaboradores emerge não apenas como indicador de bem-estar, mas como variável estratégica diretamente relacionada à produtividade, à lucratividade e à capacidade adaptativa das empresas.

O relatório aponta que houve uma queda no engajamento global para 20% em 2025, após um pico de 23% em 2022, configurando o nível mais baixo desde 2020. Esse declínio, ainda que aparentemente marginal em termos percentuais, possui implicações macroeconômicas significativas: estima-se que o baixo engajamento tenha gerado uma perda de aproximadamente US$ 10 trilhões em produtividade global, o equivalente a cerca de 9% do PIB mundial. Tal dado reforça a compreensão do engajamento como um ativo organizacional crítico, cuja ausência impacta não apenas os resultados internos, mas o desempenho econômico em escala global.

Um dos achados mais relevantes do estudo refere-se à queda acentuada (análise global) no engajamento de gestores, que diminuiu nove pontos percentuais desde 2022. O relatório indica que essa retração não é aleatória, mas está associada a transformações estruturais no desenho organizacional e nas exigências impostas à função gerencial. Entre os principais fatores, destaca-se o achatamento organizacional (organizational flattening), com redução de níveis hierárquicos e consequente diminuição do número de gestores, o que amplia o escopo de responsabilidade daqueles que permanecem.

Esse movimento leva ao aumento do span of control, ou seja, gestores passam a liderar equipes maiores, o que, segundo evidências da própria Gallup, está diretamente relacionado à redução do engajamento, especialmente quando não há suporte, capacitação ou redistribuição adequada de recursos. Além disso, o contexto de transformação digital, impulsionado pela adoção de inteligência artificial, tem gerado pressões adicionais sobre os gestores, que precisam simultaneamente conduzir mudanças tecnológicas, sustentar resultados e apoiar suas equipes em processos de adaptação, muitas vezes sem preparo suficiente.

Soma-se a isso o fato de que os líderes apresentam níveis mais elevados de estresse, ansiedade e sobrecarga no cotidiano, o que contribui para a deterioração de sua experiência no trabalho. Assim, a queda no engajamento dos gestores pode ser compreendida como resultado de uma combinação de fatores estruturais, emocionais e contextuais, reforçando a necessidade de repensar o suporte organizacional oferecido à liderança intermediária.

O Brasil, dentro desse relatório, está inserido na região da América Latina e Caribe, que figura entre as mais bem posicionadas em termos de engajamento global. Em 2025, essa região apresentou 30% de colaboradores engajados, posicionando-se entre as mais altas do mundo, significativamente acima da média global, de 20%. O Brasil aparece com 32% de engajamento.

O relatório também traz importantes dados emocionais globais dos trabalhadores. No caso do Brasil, verifica-se um quadro complexo e altamente relevante para a compreensão do engajamento no trabalho. Observa-se, inicialmente, que 45% dos trabalhadores brasileiros relatam vivenciar estresse diariamente, índice superior à média global (40%) e da região (43%), indicando um ambiente de trabalho marcado por alta pressão e exigência contínua.

Essa análise se aprofunda quando se observam os demais indicadores emocionais. O percentual de trabalhadores que relatam tristeza diária no Brasil é de 19%, abaixo da média global (23%), sugerindo menor incidência de estados emocionais associados ao abatimento prolongado. De forma ainda mais expressiva, os índices de raiva (17%) e solidão (10%) situam-se significativamente abaixo das médias globais (22% para ambos), indicando um ambiente em que emoções de caráter mais socialmente disruptivo, como isolamento e hostilidade, aparecem com menor intensidade.

Esse conjunto de evidências aponta para uma configuração emocional bastante específica: o trabalhador brasileiro parece operar em um contexto de alta ativação emocional (estresse elevado), mas com baixa incidência relativa de emoções de desconexão social, como solidão, e menor presença de reatividade emocional negativa, como a raiva.

Tal dinâmica pode ser interpretada de diversas formas e, inclusive, estar relacionada a características culturais que valorizam a interação, a proximidade e os vínculos interpessoais, funcionando como fatores de proteção emocional mesmo em cenários de elevada exigência. Ainda assim, a manutenção desse equilíbrio é delicada, pois o estresse crônico, quando não gerido adequadamente, pode evoluir para quadros de desgaste mais profundos, comprometendo o engajamento sustentável em longo prazo.

Outro fator emocional que aparece no relatório é o thriving, utilizado como um indicador de bem-estar subjetivo amplo, baseado na metodologia de avaliação de vida da Gallup. Trata-se de uma medida que combina duas dimensões centrais: a percepção do indivíduo sobre sua vida no presente e sua expectativa em relação ao futuro, normalmente operacionalizadas por meio da chamada “escada da vida” (Cantril Ladder).

Nessa abordagem, indivíduos classificados como thriving são aqueles que avaliam positivamente sua situação atual e, simultaneamente, projetam um futuro favorável, indicando não apenas satisfação momentânea, mas também esperança, perspectiva e sentido de progresso. Diferentemente de indicadores emocionais pontuais (como estresse ou tristeza no dia anterior), o thriving captura uma visão mais estruturante da experiência humana, funcionando como um proxy de qualidade de vida e de bem-estar sustentável.

Quando esse conceito é aplicado ao contexto brasileiro, os dados revelam um cenário particularmente interessante. O Brasil apresenta 58% de trabalhadores classificados como thriving, percentual significativamente superior à média global, de 34%. Esse resultado indica que, apesar dos desafios cotidianos evidenciados por níveis elevados de estresse, a maioria dos trabalhadores brasileiros mantém uma avaliação positiva de sua trajetória de vida e expectativas otimistas em relação ao futuro.

Em termos analíticos, isso sugere que o bem-estar no Brasil não pode ser compreendido apenas a partir das emoções diárias, mas deve ser interpretado à luz de fatores mais amplos, como sentido atribuído ao trabalho, relações sociais, resiliência individual e contexto cultural.

Diante desse cenário, torna-se evidente que as organizações brasileiras possuem uma oportunidade concreta de avançar de forma estratégica na gestão do engajamento. Os dados indicam que já existem bases positivas, como altos níveis de thriving, forte conexão social e percepção otimista da vida, que podem ser potencializadas por práticas organizacionais mais estruturadas, como melhor distribuição do trabalho; fortalecimento de culturas organizacionais que valorizem pertencimento, propósito e relações de confiança; e implementação de práticas contínuas de escuta e acompanhamento do clima e das emoções no trabalho.

Há ainda outro ponto que precisa ser mencionado: se de um lado as empresas são chamadas para atuar de forma mais intencional, com práticas que fortaleçam e impulsionem o engajamento, de outro, garantir condições estruturais para que os próprios líderes não entrem em processos de esgotamento será fundamental, o que inclui suporte organizacional, capacitação contínua e revisão realista das demandas impostas à função gerencial. O desafio, portanto, não está apenas em engajar pessoas, mas em criar sistemas organizacionais capazes de sustentar esse engajamento sem comprometer aqueles que são, justamente, seus principais mediadores.

Quem publicou esta coluna

Denise de Moura

É consultora de Recursos Humanos com 27 anos de experiência; atuou em pequenas, médias e grandes empresas como Petrobras SA e Lojas Americanas. É professora convidada do MBA USP/Esalq desde 2013, doutora em administração; tem mestrado em sistemas de gestão e pós-graduação em gestão da qualidade total. Escreveu o livro “Cansei de Sofrer no Trabalho” (Qualitymark Editora, 2012) e idealizou o site www.dicasinfaliveis.com.br.

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade