Resumo Executivo

29 de abril de 2026

Produção orgânica no Noroeste Paulista: conhecimento e desafios

Jaine de Souza Mariano; Ricardo Osorio de Oliveira

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A produção agrícola sustentável tem conquistado um espaço cada vez mais relevante no cenário contemporâneo, impulsionada por uma preocupação crescente com a preservação dos recursos naturais e pela demanda por alimentos que promovam a saúde e o bem-estar. Nesse contexto, a agricultura orgânica se apresenta como uma alternativa robusta ao modelo convencional, fundamentando-se em práticas que respeitam os ciclos biológicos, fomentam a biodiversidade e eliminam completamente o emprego de insumos químicos sintéticos, como agrotóxicos e fertilizantes altamente solúveis. De acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, a comercialização de produtos sob o selo orgânico no território brasileiro exige rigorosamente a obtenção de certificação por meio de um Organismo de Avaliação da Conformidade Orgânica credenciado ou, alternativamente, a organização em grupos de venda direta sem certificação formal, desde que devidamente cadastrados (Brasil, 2023). A transição para esse modelo produtivo, no entanto, não depende apenas da vontade do agricultor, mas de um conjunto complexo de conhecimentos técnicos e suporte institucional que viabilize a viabilidade econômica e produtiva das propriedades rurais.

A região de Araçatuba, situada no noroeste do estado de São Paulo, destaca-se historicamente por sua vocação agropecuária, com forte predominância da pecuária de corte e do cultivo da cana-de-açúcar. Contudo, a produção de hortaliças e frutas desempenha um papel vital na diversificação da matriz econômica local e no suprimento das demandas alimentares dos centros urbanos regionais. O clima tropical da região, caracterizado por verões intensamente quentes e chuvosos seguidos de invernos secos, oferece condições favoráveis para o desenvolvimento de sistemas agrícolas diversificados, desde que haja um manejo adequado dos recursos hídricos e do solo (IBGE, 2025). A infraestrutura logística desenvolvida na região também facilita o escoamento da produção, mas a implementação de sistemas orgânicos ainda enfrenta desafios estruturais e culturais que limitam sua expansão em larga escala (SEADE, 2025). Para que a transição agroecológica ocorra de forma eficiente, é imperativo que os produtores dominem conceitos fundamentais que vão além da simples substituição de insumos, abrangendo o gerenciamento sustentável do solo, o controle biológico de pragas e doenças, a rotação de culturas e a compreensão profunda dos processos de certificação.

Instituições de pesquisa e extensão, como a Embrapa Hortaliças, têm desempenhado um papel crucial na oferta de treinamentos voltados à regulamentação e à aplicação de procedimentos sustentáveis na agricultura nacional (Embrapa, 2024). A sistematização de sistemas orgânicos de produção, especialmente voltada para a agricultura familiar, serve como um guia para que os produtores possam identificar lacunas em seus processos e buscar capacitação específica (EMBRAPA, 2018). Os elementos básicos que definem um produtor como orgânico, segundo padrões internacionais, incluem o conhecimento dos princípios éticos e ecológicos, a competência técnica para aplicar métodos como a compostagem e a adubação verde, além da capacidade de planejamento e gerenciamento da produção em longo prazo (IFOAM, 2020). Sem essa base teórica e prática, a adesão ao sistema orgânico torna-se vulnerável a falhas produtivas e burocráticas que podem desestimular a continuidade da atividade. Diante desse panorama, torna-se essencial avaliar o nível de compreensão dos produtores locais sobre tais processos, identificando os principais obstáculos que impedem a conversão definitiva para modelos mais sustentáveis de cultivo.

O delineamento metodológico adotado para a análise do cenário produtivo na região noroeste paulista pautou-se por uma abordagem mista, integrando métodos qualitativos e quantitativos para garantir uma visão holística do objeto de estudo. O processo foi estruturado em três etapas fundamentais, iniciando-se pela caracterização detalhada dos produtores participantes, abrangendo sua experiência prévia em atividades agrícolas, o nível de envolvimento com sistemas orgânicos e o histórico de participação em eventos de capacitação técnica. Na sequência, realizou-se uma consulta a dois especialistas com vasta experiência no setor, incluindo consultores de empresas multinacionais e profissionais com atuação direta no Ministério da Agricultura. Esses especialistas forneceram o embasamento teórico necessário para estabelecer os critérios de classificação do produtor orgânico e ajudaram a validar os instrumentos de coleta de dados, garantindo que as questões abordadas refletissem os desafios reais enfrentados no campo. A terceira etapa consistiu na aplicação de questionários e na realização de entrevistas estruturadas, fundamentadas nos princípios de produção ecológica sistematizados por órgãos de referência (EMBRAPA, 2018).

A seleção dos participantes foi realizada de forma criteriosa, focando em produtores de hortaliças e frutas da região de Araçatuba que já apresentavam algum interesse ou experiência prévia com a certificação orgânica. A amostra foi composta por clientes fixos de um importante viveiro de mudas da região, o que garantiu o acesso a produtores ativos e engajados na atividade comercial. Os critérios de inclusão exigiam que o participante estivesse atuando diretamente na produção de hortifruti na região e concordasse voluntariamente em compartilhar informações detalhadas sobre sua rotina operacional. A coleta de dados utilizou três estratégias complementares para assegurar a fidedignidade das informações. Primeiramente, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas de forma remota, utilizando um roteiro que explorava o conhecimento sobre princípios da agricultura orgânica, as técnicas de manejo de pragas e conservação do solo empregadas, e a percepção individual sobre os benefícios e riscos da conversão produtiva.

Complementarmente, os produtores responderam a um questionário estruturado com questões objetivas e subjetivas, organizado em torno de cinco pilares fundamentais descritos pelas normas vigentes (IFOAM, 2025; MAPA, 2025). O primeiro pilar focou no conhecimento das normas legais; o segundo, na capacitação técnica para o manejo sustentável; o terceiro, no planejamento e diversificação das culturas; o quarto, nos requisitos para a certificação; e o quinto, na participação em redes de associativismo. A aplicação desses formulários ocorreu por meio de plataformas digitais, permitindo que os agricultores respondessem conforme sua disponibilidade, minimizando interferências na rotina de trabalho. As entrevistas com os especialistas também seguiram um roteiro específico, abordando a importância da assistência técnica e os critérios essenciais para a comercialização de produtos orgânicos no Brasil, servindo como um contraponto técnico às respostas fornecidas pelos produtores.

A análise dos dados coletados foi realizada por meio de estatística descritiva para as variáveis quantitativas e análise de conteúdo para os relatos qualitativos. Esse procedimento permitiu identificar tendências de comportamento, níveis de conhecimento técnico e as principais carências de treinamento na região. As percepções dos especialistas foram integradas à análise para fundamentar as sugestões de melhoria nos programas de extensão rural. Todo o processo operacional foi detalhado para permitir a replicabilidade do estudo em outras regiões com características similares, garantindo que cada etapa, desde o contato inicial até o processamento final das respostas, seguisse rigorosos padrões de integridade científica. A utilização de softwares de formulários digitais facilitou a tabulação dos dados, permitindo a correlação entre o tempo de experiência do produtor e seu grau de abertura para novas tecnologias de base ecológica.

Os resultados obtidos a partir da aplicação da pesquisa a 15 produtores de hortaliças e frutas revelaram um perfil demográfico predominantemente masculino, representando 73,3% da amostra, com uma concentração significativa na faixa etária entre 25 e 40 anos, que abrange 60% dos entrevistados. Os produtores estão distribuídos em diversos municípios da região noroeste, como Coroados, Guararapes, Jacutinga, Barretos, Piacatu, Guaraçaí, Araçatuba, Neves Paulista e Fernandópolis. No que diz respeito à experiência profissional, observou-se uma variação considerável, com 46,7% dos participantes atuando no cultivo de hortaliças há mais de seis anos, enquanto o restante se divide entre iniciantes e produtores com experiência intermediária. As culturas mais frequentes nas propriedades visitadas incluem folhosas, raízes e frutas diversas, com destaque para a produção de alface, cenoura, mandioca e pimentão, que formam a base do abastecimento local.

Ao analisar o conhecimento sobre agricultura orgânica, constatou-se que 80% dos produtores afirmaram já ter ouvido falar sobre o tema, indicando que o conceito possui uma difusão inicial ampla na região. Entretanto, apenas 40% relataram já ter praticado algum tipo de agricultura orgânica em suas propriedades, e um dado ainda mais alarmante revela que somente três produtores possuem uma certificação orgânica válida, emitida por órgãos como o IBD. Essa discrepância entre o conhecimento teórico superficial e a aplicação prática certificada evidencia a existência de barreiras significativas que impedem o avanço do setor. A maioria dos entrevistados conseguiu identificar corretamente elementos associados ao sistema orgânico, como a não utilização de agrotóxicos e o respeito ao meio ambiente, o que demonstra um alinhamento com os princípios éticos da agroecologia (IFOAM, 2020). Contudo, a compreensão técnica profunda sobre como manejar o sistema sem os insumos convencionais ainda é limitada.

A origem do conhecimento dos produtores sobre o tema é diversificada, mas revela uma carência de canais oficiais. A troca de saberes com outros agricultores e a experiência própria foram citadas como as principais fontes de aprendizado, seguidas por pesquisas em redes sociais e internet. Cursos e treinamentos formais aparecem em uma posição secundária, o que sugere um processo de aprendizado informal e muitas vezes desconectado das recomendações técnicas oficiais. Em conversas diretas, os produtores apontaram que a falta de acessibilidade a cursos presenciais, a baixa qualidade da internet em áreas rurais e a rigidez dos horários de treinamento inviabilizam o aperfeiçoamento técnico. Esse cenário resulta em uma transmissão de conhecimento baseada na tentativa e erro ou em tradições familiares que nem sempre atendem às exigências rigorosas da legislação orgânica atual.

A carência de orientação técnica é um dos pontos mais críticos identificados na pesquisa. Aproximadamente 66,7% dos produtores afirmaram nunca ter recebido uma visita técnica especializada em sua propriedade voltada para a produção orgânica. Além disso, 60% dos entrevistados não participaram de nenhum curso, palestra ou treinamento específico sobre o tema nos últimos anos. Essa ausência do poder público e das instituições de extensão rural reflete diretamente na baixa adesão à certificação, uma vez que o processo burocrático e técnico para a obtenção do selo exige um acompanhamento constante que o produtor, isoladamente, dificilmente consegue suprir. Conforme destacado em estudos anteriores, o fortalecimento da agricultura orgânica depende intrinsecamente de uma capacitação técnica contínua e de um suporte que vá além da teoria, alcançando a prática cotidiana no campo (EMBRAPA, 2018).

Os desafios que inviabilizam a certificação orgânica foram detalhados pelos participantes, sendo que a falta de informação sobre o processo e a ausência de demanda firme por produtos orgânicos na região foram citadas por 46,2% dos produtores. Outros obstáculos relevantes incluem o custo elevado para obter e manter a certificação (38,5%) e a burocracia excessiva envolvida nos trâmites legais (30,8%). Essas dificuldades estão em total consonância com as observações de órgãos reguladores, que identificam a falta de acesso a mercados e a infraestrutura precária como entraves recorrentes para o desenvolvimento da agricultura orgânica no Brasil (MAPA, 2023). A percepção dos produtores sobre o comportamento do consumidor local também é um fator desestimulante; a maioria acredita que os consumidores da região não reconhecem o valor agregado do alimento orgânico e não estão dispostos a pagar um preço superior que cubra os custos de produção mais elevados.

Apenas 26% dos produtores demonstraram otimismo em relação ao potencial de crescimento do mercado orgânico regional por meio de campanhas de conscientização. No que tange ao papel governamental, a insatisfação é quase unânime, com 80% dos entrevistados afirmando que faltam incentivos financeiros, técnicos e logísticos para estimular a produção. Essa percepção reforça a necessidade urgente de políticas públicas estruturadas, como as propostas no Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, que visam integrar as ações de fomento à produção com a abertura de canais de comercialização (MAPA, 2021). A ausência de políticas de incentivo local e a baixa demanda percebida criam um ciclo de estagnação, onde o produtor não investe por falta de mercado e o mercado não se desenvolve por falta de oferta constante e diversificada.

A discussão dos dados revela que, embora exista um interesse latente e uma percepção positiva sobre os benefícios ambientais da agricultura orgânica, a transição efetiva é freada por uma lacuna de conhecimento técnico e por um ambiente institucional pouco favorável. A dependência de fontes informais de informação pode levar a erros de manejo que comprometem a produtividade e a qualidade dos alimentos, reforçando o preconceito de que o sistema orgânico é menos eficiente que o convencional. A implicação social desse cenário é a manutenção de um modelo produtivo dependente de insumos externos, com maiores riscos para a saúde do produtor e do consumidor, além de maior impacto ambiental na região noroeste paulista. Para reverter esse quadro, é fundamental que as estratégias de capacitação sejam descentralizadas e adaptadas à realidade do campo, utilizando metodologias que valorizem o saber local mas que integrem as inovações tecnológicas e as exigências legais.

O reconhecimento das limitações deste estudo aponta para a necessidade de pesquisas futuras que explorem de forma mais detalhada as barreiras econômicas específicas de cada cultura e que realizem estudos comparativos entre diferentes regiões do estado para identificar modelos de sucesso que possam ser replicados. A organização de redes locais de produtores e a criação de circuitos curtos de comercialização, como feiras orgânicas e compras públicas para merenda escolar, surgem como estratégias viáveis para superar a falta de demanda e reduzir a dependência de intermediários. O fortalecimento da produção orgânica na região de Araçatuba dependerá, portanto, de uma articulação coordenada entre o poder público, as instituições de pesquisa, as associações de produtores e os consumidores, visando a construção de um sistema alimentar mais justo, sustentável e resiliente.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que se identificou que os produtores de hortifruti da região noroeste de São Paulo possuem um conhecimento inicial sobre a produção orgânica, mas enfrentam lacunas técnicas e estruturais profundas que impedem a certificação e a expansão do sistema. A pesquisa evidenciou que a falta de assistência técnica regular, os altos custos de certificação e a ausência de políticas públicas de incentivo são os principais obstáculos para a transição agroecológica. Observou-se que o interesse dos agricultores existe, porém a insegurança quanto à demanda de mercado e a complexidade burocrática desestimulam a adesão formal ao modelo orgânico. Portanto, o fortalecimento do setor na região depende obrigatoriamente de investimentos em programas de extensão rural, simplificação dos processos de certificação e campanhas de conscientização que valorizem o produto orgânico junto ao consumidor local, garantindo a viabilidade econômica e a sustentabilidade socioambiental da atividade agrícola.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Regularização da produção orgânica. Brasília, DF, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/organicos/regularizacao-da-producao-organica. Acesso em: 24 mar. 2025.

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BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO). Brasília, DF, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/programa-agro-brasil-sustentavel. Acesso em: 24 mar. 2025.

EMBRAPA. Hortaliças e produção orgânica. Brasília, DF, 2024. Disponível em: https://www.embrapa.br/hortalicas/producao-organica. Acesso em: 24 mar. 2025.

EMBRAPA. Sistematização de sistemas orgânicos de produção de agricultores familiares do Circuito das Frutas – Estado de São Paulo. Brasília, DF, 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1103107/sistematizacao-de-sistemas-organicos-de-producao-de-agricultores-familiares-do-circuito-das-frutas-estado-de-sao-paulo. Acesso em: 10 jun. 2025.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Araçatuba – SP. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/sp/aracatuba.html. Acesso em: 24 mar. 2025.

IFOAM – ORGANICS INTERNATIONAL. The four principles of organic agriculture. Bonn, 2020. Disponível em: https://www.ifoam.bio/why-organic/shaping-agriculture/four-principles-organic. Acesso em: 10 jun. 2025.

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SEADE – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Perfil Regional de Araçatuba. Disponível em: https://www.seade.gov.br/. Acesso em: 24 mar. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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