Imagem Precificação competitiva no varejo alimentar com coleta automatizada de dados da concorrência

06 de fevereiro de 2026

Precificação competitiva no varejo alimentar com coleta automatizada de dados da concorrência

Erica Fernanda Oliveira; Paula Bruzadelle Vieira

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa desenvolveu e implementou um algoritmo em Python para automatizar a coleta de preços e sortimento de concorrentes no marketplace iFood, com integração dos dados em planilhas Excel. A solução fornece à área de pricing da empresa analisada uma ferramenta para mensurar o Índice de Competitividade (IC%) e identificar lacunas de sortimento. O objetivo é subsidiar ajustes ágeis e fundamentados nas estratégias de preços e mix de produtos, alinhando o canal digital às dinâmicas de mercado. O estudo demonstra os benefícios de uma abordagem orientada por dados e de baixo custo, aponta limitações e sugere melhorias, como a orquestração de rotinas e a incorporação de variáveis competitivas mais complexas.

O varejo alimentar no Brasil enfrenta intensa competitividade, moldada por um novo perfil de consumidor e pressões de mercado. Relatórios indicam que, no pós-pandemia, aumentou a sensibilidade dos consumidores a preços e a busca por variedade, elevando a complexidade da gestão para supermercados (ABRAS, 2023; APAS, 2022). A precificação tornou-se pilar para equilibrar percepção de valor, competitividade e rentabilidade. Conforme Nagle e Müller (2018), a precificação eficaz exige compreensão do valor percebido pelo consumidor e do comportamento da concorrência. A capacidade de inovar em marketing e precificação é um fator determinante para a sustentabilidade do setor (Berkhout, 2020).

Apesar da importância de decisões orientadas por dados, muitas empresas do varejo ainda usam métodos baseados em intuição ou processos manuais (SA Varejo, 2022). O principal obstáculo é a dificuldade de obter informações confiáveis e atualizadas sobre concorrentes. Métodos tradicionais, como visitas a lojas ou pesquisas terceirizadas, são onerosos, limitados em escopo e frequência, e sujeitos a erros. Nesse cenário, o web scraping — extração automatizada de dados de websites — emerge como uma alternativa estratégica. Essa abordagem permite coletar informações de marketplaces em larga escala e tempo quase real, transformando dados públicos em inteligência competitiva (Mitchell, 2018). A aplicabilidade da técnica no setor de alimentos foi validada em estudos como o de Hillen (2019), que a utilizou para monitoramento de preços.

A literatura de negócios reforça os benefícios dessa abordagem. Análises da McKinsey & Company (2022) revelam que supermercados que ajustam preços com base em benchmarking competitivo sistemático têm até 15% mais chances de ampliar suas margens. A satisfação do cliente pode aumentar em até 20% quando as decisões são embasadas em dados (Harvard Business Review, 2023). Provost e Fawcett (2013) argumentam que decisões baseadas em dados reduzem vieses, alinhado ao princípio de Deming (1986) de que “o que não é medido não pode ser gerenciado”. No varejo alimentar, a qualidade dos dados impacta diretamente a rentabilidade (Fávero e Belfiore, 2019). Portanto, a integração de dados internos (ERP) com informações externas coletadas via web scraping configura um caminho robusto para uma gestão fundamentada em evidências (Deloitte, 2022).

O estudo foi conduzido em uma rede supermercadista de São Paulo com mais de 30 lojas físicas, das quais 14 operam no iFood. A pesquisa compara essas 14 lojas com 14 concorrentes diretos na mesma plataforma. Um fator crítico foi a política comercial da empresa para o canal digital, que estabelece uma taxa de 8% sobre o preço de cada produto. Esse markup cria um dilema: repassar a taxa afeta a competitividade, enquanto absorvê-la impacta as margens. Antes do projeto, o monitoramento da concorrência era manual, um processo ineficiente, demorado, propenso a erros e que não capturava diferenças de sortimento, fornecendo uma visão limitada da competitividade.

Para atingir os objetivos, foi implementado um algoritmo em Python para automatizar a coleta de dados no iFood e integrá-los com as bases internas da empresa. A metodologia foi dividida em quatro componentes: definição das fontes de dados, coleta automatizada, processamento e cruzamento das informações, e cálculo dos indicadores. O pipeline de dados desenvolvido abrange desde a extração no iFood até a consolidação de relatórios em Excel para a equipe de pricing. Ferramentas de orquestração como o Apache Airflow foram consideradas como uma evolução para viabilizar rotinas contínuas de coleta, alinhando-se às tendências de automação no varejo (NRF, 2023; Apache Software Foundation, 2023).

O projeto utilizou fontes de dados externas e internas. A fonte externa foi o marketplace iFood, especificamente os catálogos de produtos de concorrentes selecionados pela equipe de pricing. As fontes internas foram extrações do ERP da rede em formato Excel, incluindo: uma tabela de produtos com códigos de barras (EANs); uma tabela de cadastro mercadológico com a hierarquia de cada produto; uma tabela de sortimento por loja; e uma tabela de preços e custos internos.

A coleta automatizada foi realizada por web scraping. Cada loja concorrente possuía um ID único no iFood. A inspeção da interface web revelou um endpoint de API que retornava o catálogo completo de uma loja em formato JSON quando o ID era fornecido. Essa descoberta permitiu uma coleta mais eficiente do que a raspagem de HTML com BeautifulSoup (Richardson, 2023) ou a automação de navegação com Selenium (2023). Optou-se por consumir os dados da API via requisições HTTP GET, utilizando a biblioteca Requests em Python (Reitz & Cory, 2023). Para cada concorrente, os dados foram obtidos de forma programática, sem necessidade de autenticação, pois as informações do catálogo são públicas.

Após a coleta, os dados da concorrência foram cruzados com as bases internas da empresa usando o código EAN como chave. O DataFrame dos concorrentes foi mesclado com a tabela de EANs do ERP, identificando produtos equivalentes. Em seguida, foram adicionadas informações da árvore mercadológica para permitir análises segmentadas. O processo incluiu a integração da informação de qual loja da rede estava sendo comparada a cada concorrente e a incorporação de dados internos de preços e custos. Com a base unificada, calculou-se o Índice de Competitividade (IC%) pela fórmula: IC% = (Preço Rede iFood / Preço Concorrente iFood) × 100. Valores acima de 100 indicam que a rede está mais cara. O processamento foi realizado com a biblioteca pandas (McKinney, 2017), e o resultado exportado para um arquivo Excel.

A implementação do algoritmo gerou resultados acionáveis. O ganho mais imediato foi a redução do tempo para pesquisa de preços. O processo manual consumia cerca de 240 minutos para uma amostra limitada. Com a automação, a coleta completa e geração de relatórios passaram a ser realizadas em aproximadamente 10 minutos, uma economia de tempo superior a 95,8%. Essa eficiência permitiu aumentar a frequência de atualização de semanal para diária, alinhando a empresa às melhores práticas de inteligência de mercado (Provost & Fawcett, 2013; McKinsey & Company, 2022).

Houve também uma ampliação substancial no volume e cobertura dos dados. Em vez de dezenas de SKUs, a solução passou a abranger todo o sortimento dos concorrentes. A coleta de 21 de julho de 2025 resultou em 30.768 EANs únicos e 127.410 observações de preços. Essa abrangência revelou que aproximadamente 28,9% dos produtos ofertados pelos concorrentes não faziam parte do sortimento da rede em determinadas lojas. Essa lacuna abriu discussões sobre a incorporação de novos itens, beneficiando a gestão de sortimento, pois a variedade é um fator de decisão importante para o consumidor (APAS, 2022).

O cálculo do IC% forneceu uma visão quantitativa do posicionamento de preços. O IC% médio geral foi de 105,2%, indicando que os preços da rede no iFood estavam, em média, 5,2% acima dos concorrentes. A análise segmentada revelou variações significativas: em categorias como arroz, a rede era competitiva (IC médio de 88,8%), mas em carne bovina congelada, os preços estavam 30,8% acima, um risco de perda de clientes. Outras categorias com preços mais altos incluíam salgados e pratos prontos (IC 128,4%) e vinhos (IC 122,0%), enquanto café (IC 91,5%) e massas (IC 93,2%) demonstravam um posicionamento mais agressivo.

A distribuição dos itens por faixas de IC% mostrou que 47% dos produtos estavam na faixa “mais caro” (IC ≥ 1,05), 21% em posição “neutra” (0,98 < IC < 1,05), e 32% “mais baratos” (IC ≤ 0,98). Essa assimetria evidenciou que a política de markup fixo de 8% não era ótima. Com base nisso, foram propostas ações táticas: para categorias com IC elevado e margens saudáveis, sugeriu-se reduções de preço; para aquelas com IC elevado e margens apertadas, a recomendação foi renegociar custos ou ajustar o sortimento. Para itens já competitivos, a orientação foi proteger as margens e usá-los em ações de marketing.

A análise de sortimento revelou que a lacuna de 28,9% era tanto uma ameaça quanto uma oportunidade, instigando discussões sobre critérios de inclusão de novos produtos. A análise também permitiu identificar itens exclusivos da rede, que poderiam ser promovidos como diferenciais. Os dados de concorrência funcionaram como um benchmark de sortimento, fornecendo insumos para otimizar o equilíbrio entre profundidade e variedade, fator essencial para maximizar vendas e satisfação do cliente (Berman e Evans, 2018).

A acurácia dos dados foi validada por meio de comparações com coletas manuais, não sendo encontradas discrepâncias. Os preços capturados pelo algoritmo refletiam com precisão os valores no iFood, reforçando a confiabilidade do método (Mitchell, 2018; Provost & Fawcett, 2013). O armazenamento dos arquivos JSON brutos de cada coleta contribuiu para a rastreabilidade e auditoria dos dados, aumentando a confiança nos resultados.

Apesar do sucesso, foram identificadas limitações. A principal foi a ausência de EANs em categorias como frutas, legumes e verduras (FLV) e itens de peso variável, o que inviabilizou o pareamento automático. Outra limitação foi a ausência de orquestração automatizada da rotina de coleta, cuja execução ainda dependia de acionamento manual. A implementação de uma ferramenta como o Apache Airflow foi identificada como uma evolução necessária para garantir a coleta contínua de dados.

Os resultados confirmaram que a iniciativa gerou ganhos concretos. A empresa obteve redução nos custos e tempo de coleta, ampliação no volume de informações e a capacidade de tomar decisões de precificação e sortimento mais embasadas e proativas (Deloitte, 2022; NielsenIQ, 2023). A solução transformou a função de pricing de uma atividade reativa para um processo estratégico de inteligência competitiva, um diferencial no setor supermercadista (SA Varejo, 2022; ABRAS, 2023). A tomada de decisão tornou-se mais assertiva, em consonância com a visão de que a informação de mercado é central para a estratégia de marketing (Kotler & Keller, 2012).

Este estudo demonstrou que a automação da coleta de dados da concorrência é uma solução viável e de alto impacto para o varejo alimentar. A iniciativa respondeu ao problema de como monitorar a competitividade no canal digital, reduzindo em mais de 95% o tempo de coleta e ampliando a cobertura para todo o sortimento dos concorrentes. A contribuição prática reside na substituição de um processo manual por um fluxo automatizado, confiável e de baixo custo. Gerencialmente, o Índice de Competitividade (IC%) provou-se uma métrica clara para subsidiar ajustes estratégicos, reforçando que a precificação deve equilibrar fatores internos e o ambiente competitivo externo.

As limitações identificadas abrem caminhos para trabalhos futuros. Recomenda-se a incorporação de metodologias de pareamento baseadas em descrição de produtos para itens sem EAN, a adoção de ferramentas de orquestração como o Apache Airflow para automação plena, e a ampliação dos indicadores para incluir métricas como a elasticidade-preço da demanda. A solução desenvolvida provou ser tecnicamente viável, escalável e de baixo custo, confirmando o papel da inteligência de mercado como diferencial competitivo. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a automação da coleta e análise de dados da concorrência viabiliza o monitoramento competitivo contínuo e subsidia decisões de precificação mais ágeis e fundamentadas no varejo alimentar.

Referências:
ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados. Ranking ABRAS 2023: gestão de preços como fator crítico de competitividade. São Paulo: ABRAS, 2023.
APACHE SOFTWARE FOUNDATION. Apache Airflow Documentation. Apache, 2023.
APAS – Associação Paulista de Supermercados. Pesquisa APAS 2022: tendências de sortimento e comportamento do consumidor. São Paulo: APAS, 2022.
BERKHOUT, C. Estratégias de Marketing e Vendas no Varejo. São Paulo: Alta Books, 2020.
BERMAN, B.; EVANS, J. Retail Management: A Strategic Approach. 13. ed. New Jersey: Pearson, 2018.
DELOITTE. The Future of Retail: tendências e automação no varejo global. São Paulo: Deloitte, 2022.
DEMING, W. E. Out of the Crisis. Cambridge: MIT Press, 1986.
FÁVERO, L. P.; BELFIORE, P. Estatística Aplicada ao Varejo – Volume 1. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
HARVARD BUSINESS REVIEW BRASIL. Benchmarking e satisfação do cliente no setor supermercadista. São Paulo: HBR Brasil, ed. 5, 2023.
HILLEN, J. Web scraping for food price monitoring: methods, validity, and applications. Journal of Food Research, v. 8, n. 3, p. 45-59, 2019.
KOTLER, P.; KELLER, K. Administração de Marketing. 14. ed. São Paulo: Pearson, 2012.
McKINNEY, W. Python for Data Analysis: Data Wrangling with Pandas, NumPy, and IPython. 2. ed. Sebastopol: O’Reilly Media, 2017.
McKINSEY & COMPANY. Estratégias de precificação e aumento de margem no varejo alimentar. São Paulo: McKinsey & Company, 2022.
MITCHELL, R. Web Scraping with Python: Collecting Data from the Modern Web. 2. ed. Sebastopol: O’Reilly Media, 2018.
NAGLE, T.; MÜLLER, G. The Strategy and Tactics of Pricing: a guide to growing more profitably. 6. ed. New York: Routledge, 2018.
NIELSENIQ. Insights de competitividade e elasticidade no setor supermercadista. São Paulo: NielsenIQ, 2023.
NRF – National Retail Federation. NRF Big Show Report 2023: tendências globais do varejo. New York: NRF, 2023.
PROVOST, F.; FAWCETT, T. Data Science for Business: What You Need to Know about Data Mining and Data-Analytic Thinking. Sebastopol: O’Reilly Media, 2013.
REITZ, K.; CORY, T. Requests: HTTP for Humans – Documentation. Python Software Foundation, 2023.
RICHARDSON, L. Beautiful Soup Documentation. Crummy. com, 2023.
SA VAREJO. Inteligência de preços e estratégias de competitividade no varejo brasileiro. São Paulo: SA Varejo, 2022.
SELENIUM. Selenium WebDriver Documentation. SeleniumHQ, 2023.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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