Imagem Derivativos e ACC como estratégias de hedge para exportadores no Brasil

06 de fevereiro de 2026

Derivativos e ACC como estratégias de hedge para exportadores no Brasil

Humberto Ricardo Fernandes Pinto; Adalberto Zorzo

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa as estratégias de hedge de exportadores brasileiros, focando no uso de derivativos cambiais e Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio (ACC) para proteger receitas em moeda estrangeira, com base em um estudo de caso. A investigação avalia os desafios e benefícios dessas estratégias, a funcionalidade de instrumentos como contratos a termo (NDF) e o papel dos ACCs como ferramenta de proteção e gestão de liquidez. O trabalho examina a eficácia das operações de hedge implementadas e sua influência na estabilidade das receitas e na redução da exposição à volatilidade cambial.

O comércio exterior brasileiro, com exportações superiores a US$ 332 bilhões em 2023, principalmente em commodities, expõe as empresas à volatilidade cambial. Flutuações nas taxas de câmbio podem impactar as receitas futuras em moeda estrangeira, gerando incerteza financeira (Mauad, 2023). O regime de câmbio flutuante pode levar a perdas, especialmente com a desvalorização da moeda local frente ao dólar (Krewer e Rodrigues, 2022). Nesse contexto, estratégias de hedge são essenciais para garantir a estabilidade das operações de exportação, tornando a gestão de risco cambial um pilar da governança corporativa.

Para mitigar essa exposição, exportadores utilizam instrumentos como derivativos e Adiantamentos sobre Contratos de Câmbio (ACC). Derivativos, como contratos futuros e opções, permitem fixar o valor de uma moeda para uma data futura, protegendo contra flutuações (Kothe, 2017). O ACC funciona como uma operação de crédito na qual o exportador antecipa o recebimento de vendas internacionais, proporcionando liquidez e travando a taxa de câmbio (Costa & Pereira, 2020). Ambos os mecanismos são fundamentais para a proteção das receitas e a saúde financeira das empresas.

A utilização de derivativos é uma alternativa eficiente para proteção cambial, mas envolve custos e complexidade (Silva e Lima, 2020). Os ACCs, embora mais simples, podem não cobrir integralmente a exposição. A literatura sobre a implementação prática e comparativa dessas estratégias no contexto de exportadores brasileiros apresenta lacunas. A hipótese central é que a adoção combinada de derivativos e ACCs constitui uma abordagem robusta, promovendo a proteção das receitas e otimizando a gestão de liquidez. O estudo examina a dinâmica de uso desses instrumentos, sua eficácia e influência na estabilidade das receitas, buscando fornecer insights para gestores. A análise também considera como o hedge natural, pela compensação entre receitas e despesas na mesma moeda, pode ser complementado por instrumentos financeiros para evitar proteção ineficiente (Pimentel e Costa, 2019).

A metodologia é um estudo de caso aplicado, descritivo e com abordagem mista, analisando duas operações de hedge de uma empresa exportadora: uma via Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) e outra via contrato a termo de moeda (NDF). O estudo de caso permite investigar o fenômeno em seu contexto real (Yin, 2015), captando as especificidades das operações (Gil, 2019).

A coleta de dados baseou-se em pesquisa bibliográfica e documental (Lakatos e Marconi, 2017). A primeira etapa foi a análise dos dois contratos, avaliando valores, prazos, taxas de juros e outras cláusulas (Gil, 2002; Severino, 2007). A seleção dos contratos foi deliberada, pois eram representativos das práticas da empresa e possuíam documentação completa, caracterizando um “caso instrumental” (Yin, 2015).

A segunda etapa analisou indicadores financeiros e operacionais. Foram avaliadas métricas quantitativas como valor concedido, prazo, custo financeiro, spread bancário e índice de cobertura do ACC, para aferir a eficiência das operações (Mattar, 2005; Richardson, 2011). Também foram observados indicadores operacionais, como tempo de aprovação, e de risco, como a exposição cambial (Securato, 2019; Damodaran, 2020).

A análise incluiu uma reconstrução analítica das operações, reprocessando os fluxos financeiros com base nas taxas pactuadas. Isso incluiu o cálculo do valor presente dos adiantamentos e a comparação entre valores líquidos antecipados e recebimentos potenciais à taxa de mercado. A integração dos dados permitiu uma triangulação das fontes, visando gerar orientações práticas sobre a otimização do uso de instrumentos de hedge para proteger as receitas futuras em moeda estrangeira.

A análise dos resultados inicia-se com a Operação 1, um hedge via contrato a termo de dólar (NDF), celebrado em 7 de outubro de 2022, com vencimento em 25 de janeiro de 2023. A empresa negociou a venda futura de US$ 100.000, fixando uma taxa de R$ 5,20 por dólar. No vencimento, a cotação à vista era de R$ 5,07. A liquidação financeira resultou em um ganho de R$ 13.000,00, representando a diferença entre o valor garantido pelo NDF (R$ 520.000,00) e o que seria obtido no mercado à vista (R$ 507.000,00). O resultado demonstra a eficácia do NDF para compensar a desvalorização cambial e assegurar a previsibilidade das receitas, corroborando as conclusões de Santos e Oliveira (2021) sobre a capacidade do hedge em estabilizar fluxos financeiros.

A Operação 2 envolveu um Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), contratado em 26 de setembro de 2022, com vencimento em 3 de março de 2023. A empresa antecipou US$ 1.000.000 de uma exportação a uma taxa de R$ 5,30. A operação foi estruturada com juros de 6,5% ao ano para um prazo de 158 dias. O custo financeiro foi de R$ 172.186,60, resultando em um valor líquido antecipado de R$ 5.127.813,40. Na data de liquidação, o dólar estava cotado a R$ 5,07, o que resultaria em uma receita sem proteção de R$ 5.070.000,00. O ACC não apenas protegeu a empresa contra a desvalorização da moeda, mas também injetou recursos em seu caixa, demonstrando sua dupla função como instrumento de hedge e de gestão de liquidez, conforme destacado por Mauad (2023) e Sun (2025).

A comparação direta entre os instrumentos revela suas finalidades distintas. O NDF é um derivativo focado exclusivamente na proteção contra a volatilidade cambial, garantindo uma taxa futura sem gerar caixa imediato. Sua vantagem é a flexibilidade e a proteção direta, mas exige conhecimento técnico. O ACC é um financiamento atrelado à exportação que combina a fixação da taxa de câmbio com a antecipação de recursos. Sua grande vantagem é a geração de liquidez, crucial para empresas com ciclos de produção longos, embora incorra em custo financeiro (juros) e esteja sujeito a riscos operacionais da exportação. A eficácia do hedge, portanto, deve ser medida não apenas pela redução da volatilidade, mas por sua contribuição para a flexibilidade financeira (Silva e Lima, 2020).

Cenários hipotéticos reforçam o trade-off. Com a taxa de câmbio a R$ 5,07 no vencimento, o NDF (travado a R$ 5,20) geraria um ganho. Em um cenário de valorização do dólar para R$ 5,44, o mesmo NDF resultaria em uma perda de oportunidade, pois a empresa receberia R$ 520.000,00 em vez dos R$ 544.000,00 do mercado à vista. O ACC, por sua vez, garante a liquidez antecipada de R$ 5.127.813,40 independentemente da cotação futura, sendo desejável quando a prioridade é o capital de giro. Isso evidencia que a escolha do instrumento está ligada às variações cambiais esperadas e, principalmente, ao perfil de risco e às necessidades de liquidez da empresa (Martins, 2017; Securato, 2019).

A discussão dos resultados, à luz da literatura, aprofunda o entendimento sobre a aplicação estratégica desses instrumentos. O NDF, ao proporcionar previsibilidade, alinha-se com estudos que destacam a maior estabilidade nos fluxos de caixa de empresas que utilizam derivativos (Lopes, Schiozer e Sheng, 2014). A operação analisada confirmou que o contrato a termo neutralizou os efeitos da desvalorização cambial, mas também expôs sua limitação: o risco de perda de oportunidade em cenários de valorização da moeda estrangeira. Este é um custo implícito da previsibilidade; a empresa abre mão de ganhos potenciais em troca da certeza.

O ACC demonstrou ser uma ferramenta multifacetada, posicionando-se como uma solução estratégica de financiamento e gestão de liquidez. A antecipação de mais de R$ 5 milhões no caso estudado exemplifica como o ACC pode ser vital para o capital de giro, permitindo que a empresa financie sua produção. Este achado é consistente com a literatura que aponta o ACC como uma ferramenta amplamente utilizada no Brasil não apenas pelo hedge, mas pelo acesso a financiamento competitivo (Silva, 2022). Contudo, a eficácia do ACC depende da gestão logística e documental da exportação, um risco operacional que pode expor a empresa a penalidades.

A teoria financeira sustenta que políticas de hedge que estabilizam os fluxos de caixa podem criar valor ao reduzir a probabilidade de escassez de recursos para investimentos (Froot; Scharfstein; Stein, 1993). As operações analisadas ilustram essa teoria. O NDF estabilizou a receita de uma exportação, enquanto o ACC estabilizou o caixa da empresa ao antecipar recursos. A decisão de usar um ou outro deve ser integrada à política de financiamento. Empresas com maiores restrições financeiras e oportunidades de investimento tendem a obter ganhos mais significativos com a redução da volatilidade das receitas (Allayannis; Weston, 2001).

A combinação de ACC com derivativos cambiais, como sugerido por Sun (2025), pode constituir uma prática avançada. Essa abordagem integrada permite a antecipação de receitas e uma proteção mais abrangente. Por exemplo, uma empresa poderia usar o ACC para garantir liquidez de parte de suas exportações e utilizar opções de câmbio para cobrir o restante, limitando o risco ao prêmio pago e permitindo a captura de ganhos em caso de movimentos favoráveis do câmbio (HULL, 2018). A eficácia do hedge está atrelada à aderência entre a escolha do instrumento e o perfil de risco, liquidez e governança da empresa, reforçando a necessidade de uma política formal de gestão de riscos (Souza, 2021).

As operações analisadas evidenciaram que o NDF e o ACC são instrumentos eficazes para mitigar riscos cambiais. O NDF assegurou a previsibilidade das receitas, neutralizando a desvalorização cambial, mas apresentou o risco de perda de oportunidade em cenários de valorização da moeda. O ACC destacou-se como instrumento de proteção e, principalmente, como ferramenta de financiamento e gestão de liquidez, antecipando recursos apesar de seu custo financeiro. A análise demonstrou que a eficácia do hedge depende da aderência entre o instrumento escolhido e o perfil de risco e liquidez da empresa, conclusão reforçada pela literatura. A gestão de riscos e a atualização das práticas de hedge são cruciais para a competitividade dos exportadores brasileiros.

Este estudo possui limitações, como a análise de apenas duas operações em um período específico. Estudos futuros poderiam ampliar a amostra, incluindo diferentes instrumentos e cenários, e analisar os reflexos da governança corporativa na adoção de ACCs e derivativos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a combinação estratégica de derivativos cambiais (NDF) e Adiantamentos sobre Contrato de Câmbio (ACC) constitui uma abordagem eficaz para exportadores brasileiros mitigarem o risco cambial e gerenciarem a liquidez.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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