
06 de fevereiro de 2026
Gestão escolar e o equilíbrio entre diferenciação pedagógica e valores coletivos
Érica Sá Pereira Lopes; Renato Alessandro dos Santos
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo objetivou compreender como a gestão escolar pode equilibrar a diferenciação pedagógica, que exige escuta das necessidades individuais de alunos e famílias, com a preservação do senso de coletividade, essencial à formação cidadã. A pesquisa partiu do desafio da escola em responder às singularidades dos estudantes em um cenário social personalizado, sem abdicar de sua função como espaço de socialização e construção de valores comuns. Buscou-se identificar as percepções e práticas de docentes sobre como a liderança escolar pode articular essas dimensões, garantindo que inclusão e equidade coexistam com o fortalecimento da comunidade escolar e a preparação para a vida democrática, focando no papel da gestão como mediadora de tensões e promotora de uma cultura que valorize o desenvolvimento individual e o bem coletivo.
A crescente personalização na sociedade, impulsionada pela tecnologia, gera expectativas por um ensino individualizado. Essa abordagem pode favorecer a motivação e o engajamento, permitindo que os alunos aprendam em ritmos próprios, o que é essencial para uma aprendizagem significativa (Ausubel, 1982). Contudo, essa tendência coexiste com o papel fundamental da escola como espaço coletivo, um microcosmo onde se aprende a conviver e a construir um senso de pertencimento, exercendo papel insubstituível na formação de cidadãos para uma sociedade democrática (Dewey, 1979). O risco é que uma ênfase excessiva na individualização fragilize o projeto coletivo da escola, transformando-a em uma mera prestadora de serviços e desmotivando a equipe pedagógica.
Neste contexto, a diferenciação pedagógica é definida como a prática docente que ajusta o planejamento da turma para atender a necessidades específicas de alunos, sejam elas decorrentes de laudos, previstas em lei ou identificadas na prática. A abordagem se distingue da personalização por focar na adaptação de estratégias dentro de um grupo heterogêneo, não na criação de percursos isolados (Júnior e Silva, 2021). Sua relevância é sustentada por teorias como a das múltiplas inteligências (Gardner, 1983) e modelos de estilos de aprendizagem (Schimtt e Domingues, 2016). A gestão da heterogeneidade é uma competência fundamental para o professor (Perrenoud, 2000) e encontra respaldo na legislação brasileira, como na LDB (Lei nº 9.394/1996) e na BNCC (2017), que preconizam a flexibilidade curricular e o respeito à diversidade.
O desafio contemporâneo, intensificado pela pandemia de Covid-19, é garantir que a diferenciação pedagógica fortaleça a inclusão sem fragmentar a comunidade. O isolamento social impactou a saúde mental de jovens, com aumento de ansiedade e depressão (Vazques et al., 2021), gerando novas demandas por estratégias diferenciadas. O ensino remoto também alterou a dinâmica da relação família-escola, podendo ter enfraquecido essa parceria (Silva, 2022) e gerado em algumas famílias a percepção de maior autoridade para intervir nas decisões pedagógicas. Nesse cenário, a escola precisa se fortalecer para transmitir valores essenciais à vida coletiva, promovendo a coesão social (Durkheim, 1978), uma educação para a participação libertadora (Freire, 1997) e preparando os jovens para responsabilidades em um mundo compartilhado (Arendt, 2005).
Nesse ponto, a gestão escolar assume papel decisivo. A organização e a gestão conferem sentido ao trabalho pedagógico e asseguram a função social da instituição (Libâneo, 2001). Para articular as demandas individuais e coletivas, a gestão precisa adotar uma perspectiva que promova a democratização das relações e uma cultura participativa (Lück, 2018). Cabe à gestão criar as condições organizacionais e pedagógicas para que o professor diferencie de forma justa, preservando a unidade do projeto político-pedagógico e atuando como força articuladora para que a escola permaneça um espaço de inclusão, cidadania e convivência.
A metodologia adotou uma abordagem híbrida, com características de estudo de caso, combinando pesquisa bibliográfica e empírica. Os dados foram coletados por meio de um questionário online anônimo, elaborado no Google Forms, garantindo a voluntariedade e a confidencialidade dos participantes. O questionário foi direcionado a docentes de uma instituição de ensino privada no Rio de Janeiro, que atua da Educação Infantil ao Ensino Médio. A escola, com aproximadamente 700 alunos e proposta bilíngue, foi selecionada por adotar práticas consistentes de diferenciação pedagógica. A escolha de ouvir os professores justifica-se por seu papel central no processo e por vivenciarem diretamente as tensões entre o individual e o coletivo.
O instrumento foi estruturado em três partes: dados demográficos, questões de múltipla escolha sobre a frequência da diferenciação e a percepção do equilíbrio, e uma questão discursiva aberta sobre o papel da gestão. A análise dos dados quantitativos utilizou estatística descritiva, enquanto a questão discursiva foi submetida à análise de conteúdo para identificação de categorias temáticas. Este processo permitiu uma compreensão aprofundada das percepções dos participantes sobre o papel da gestão escolar.
A análise dos dados de 12 docentes revelou um perfil experiente: 11 relataram mais de 11 anos de atuação, e oito, mais de 20 anos. Essa trajetória sugere uma visão consolidada sobre os desafios educacionais, incluindo o período pandêmico. Sobre a frequência de aplicação de estratégias de diferenciação, 50% dos docentes afirmaram utilizá-las “frequentemente” e 16,7% “sempre”, totalizando 66,7% que lidam com a diferenciação de forma constante em seu cotidiano, o que reforça a pertinência do tema.
Questionados sobre o equilíbrio entre atendimento individual e ações coletivas, 66,7% dos participantes (oito professores) responderam “parcialmente”. Apenas 16,7% (dois) afirmaram que o equilíbrio existe, e outros 16,7% (dois) que ele não está presente. Este dado indica que, embora a diferenciação seja frequente, a articulação entre o individual e o coletivo é um desafio institucional não resolvido. Isso reflete a complexidade de administrar a heterogeneidade (Perrenoud, 2000), tarefa que exige competência docente e suporte estruturado da gestão escolar.
A análise qualitativa da questão discursiva sobre o papel da gestão identificou quatro categorias centrais. A mais recorrente, com 41,7% das respostas, foi a oferta de “Condições e recursos”, incluindo tempo para planejamento, apoio de mediadores e formação continuada. A segunda, com 25%, foi a “Escuta e participação ativas dos professores na gestão”, refletindo o desejo de maior envolvimento nas decisões. Em terceiro, com 16,7%, surgiu a “Flexibilidade pedagógica”, ressaltando a importância de a gestão apoiar planejamentos e adaptações curriculares. Por fim, também com 16,7%, a “Articulação entre escola e família” foi apontada como essencial para alinhar responsabilidades e expectativas.
A proeminência da categoria “Condições e recursos” se alinha ao déficit na formação inicial de professores para lidar com a diversidade (Saviani, 2010) e à precarização do trabalho docente, que limita o tempo para planejamento. Contudo, a inclusão não é apenas uma questão de recursos, mas de uma mudança de concepção sobre o papel da escola (Mantoan, 2015). O discernimento do professor para tomar decisões pedagógicas é o elemento central da prática educativa (Libâneo, 1994), e a gestão deve fomentar essa autonomia.
A demanda por “Escuta e participação ativas” reflete o anseio por uma gestão democrática, princípio da LDB (Lei nº 9.394/1996). Quando os docentes se sentem ouvidos, o engajamento aumenta, fortalecendo a valorização profissional (Tardif, 2002). A implementação de uma gestão participativa enfrenta desafios como a falta de tempo e o risco de a participação ser meramente formal (Paro, 2016). A liderança da gestão deve ser distribuidora, atuando como mentora no desenvolvimento de habilidades em toda a equipe (Lück, 2009), criando condições reais de participação.
A categoria “Flexibilidade pedagógica” aponta para a necessidade de a gestão encorajar adaptações curriculares, metodológicas e avaliativas. Essa flexibilidade pode ser operacionalizada por instrumentos como o Plano Educacional Individualizado (PEI), previsto na Lei nº 13.146/2015, mas deve implicar uma transformação mais ampla do trabalho pedagógico, favorecendo aprendizagens significativas em um ambiente de cooperação (Vasconcellos, 2013). Quando as adaptações são orientadas por critérios coletivos, a equidade é promovida sem romper o senso de comunidade. Um currículo que contempla a diferenciação como norma torna-se intrinsecamente mais inclusivo.
A ênfase na “Articulação entre escola e família” revela que a educação é um processo compartilhado. As fronteiras entre as responsabilidades da escola e da família tornaram-se mais fluidas, exigindo cooperação. Parcerias efetivas ampliam a confiança e melhoram os resultados de aprendizagem (Epstein, 2011). Embora o professor seja uma peça-chave, é a gestão que deve estabelecer os canais de comunicação e mediar os diálogos, alinhando as expectativas com o Projeto Político-Pedagógico e construindo uma parceria baseada na união de esforços (Caetano, 2014).
As quatro categorias convergem para uma visão integrada do papel da gestão. Para equilibrar diferenciação e coletividade, é necessária uma atuação sistêmica que combine a provisão de recursos, a promoção de uma cultura participativa, o incentivo à flexibilidade pedagógica e o fortalecimento da parceria com as famílias. Juntas, essas ações permitem que a escola cumpra sua dupla função: atender às necessidades específicas de cada estudante e consolidar-se como espaço de socialização e formação para a cidadania.
A gestão escolar enfrenta o desafio de equilibrar a valorização das necessidades individuais com a preservação do caráter coletivo da escola. A diferenciação pedagógica é indispensável para a equidade, mas sua condução requer uma liderança articuladora que evite a fragmentação do projeto educativo. Este estudo ressaltou quatro dimensões fundamentais para a gestão promover esse equilíbrio: oferta de condições e recursos, escuta e participação dos docentes, promoção da flexibilidade pedagógica e diálogo com as famílias. Essas dimensões representam escolhas éticas que reafirmam o compromisso da escola com uma formação integral e cidadã.
Em um mundo marcado pela aceleração, individualismo e pelas consequências da pandemia, a escola deve se reafirmar como espaço de socialização comum, formando cidadãos críticos e comprometidos com a vida coletiva. A busca por esse equilíbrio entre o individual e o coletivo é a potência da educação. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a gestão escolar, ao atuar de forma estratégica nas quatro dimensões apontadas pelos docentes, pode criar as condições para que a diferenciação pedagógica e a formação para a coletividade se fortaleçam mutuamente, em benefício do desenvolvimento pleno dos estudantes.
Referências:
Alencar, F. M. R.; Paraíso, M. A. 2018. A dimensão política da escola: reflexões sobre currículo e gestão. Educação em Revista, Belo Horizonte, 34: 1-20.
Arendt, H. 2005. Entre o passado e o futuro. Perspectiva, São Paulo, SP, Brasil.
Ausubel, D. P. 1982. A aprendizagem significativa. Moraes, São Paulo, SP, Brasil.
Brasil. 1996. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Seção 1, p. 2-3.
Brasil. 2015. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 jul. 2015. Seção 1, p. 1-3.
Brasil. Ministério da Educação. 2017. Base Nacional Comum Curricular. MEC, Brasília, DF, Brasil.
Caetano, L. 2014. A parceria entre família e escola: desafios e possibilidades. Revista Portuguesa de Educação, Braga, 27 (1): 141-158.
Dewey, J. 1979. Democracia e educação. Nacional, São Paulo, SP, Brasil.
Durkheim, É. 1978. Educação e sociologia. Melhoramentos, São Paulo, SP, Brasil.
Epstein, J. 2011. School, family, and community partnerships: Preparing educators and improving schools. 2ed. Routledge, New York, NY, USA.
Freire, P. 1997. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra, São Paulo, SP, Brasil.
Gardner, H. 1983. Frames of mind: The theory of multiple intelligences. Basic Books, New York, NY, USA.
Henrique, A. 2011. A diferenciação pedagógica: uma resposta às diferenças individuais. Educação e Pesquisa, São Paulo, 37 (2): 345-360.
Libâneo, J. C. 1994. Didática. Cortez, São Paulo, SP, Brasil.
Libâneo, J. C. 2001. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Alternativa, Goiânia, GO, Brasil.
Lima Júnior, A. B.; Silva, L. T. G. 2021. O que é educação personalizada, afinal? Educação, UFSM, 46: 1-21.
Lopes, A. et al. (org.). 2016. Educação, família e sociedade. Artmed, Porto Alegre, RS, Brasil.
Lück, H. 2009. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Positivo, Curitiba, PR, Brasil.
Lück, H. 2018. Gestão educacional: uma questão paradigmática. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Mantoan, M. T. E. 2015. O desafio das diferenças nas escolas. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Oliveira, D. A. 2004. Reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação & Sociedade, Campinas, 25 (89): 1127-1144.
Paro, V. H. 2016. Gestão democrática da escola pública. 4ed. Cortez, São Paulo, SP, Brasil.
Perrenoud, P. 2000. Dez novas competências para ensinar. Artmed, Porto Alegre, RS, Brasil.
Saviani, D. 2010. História das ideias pedagógicas no Brasil. Autores Associados, Campinas, SP, Brasil.
Schmitt, C. S.; Domingues, M. J. C. S. 2016. Estilos de aprendizagem: um estudo comparativo. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior (Campinas), Campinas, 21: 361-386.
Silva, A. M. 2022. A parceria família-escola no pós-pandemia: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, 103 (264): 215-235.
Tardif, M. 2002. Saberes docentes e formação profissional. 13ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Vasconcellos, C. S. 2013. Planejamento: Projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico. 24ed. Libertad, São Paulo, SP, Brasil.
Vazques, A. C. S. et al. 2021. Efeitos da pandemia de Covid-19 sobre a saúde mental de adolescentes: revisão de literatura. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, 21 (2): 495-504.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
Saiba mais sobre o curso; clique aqui:






































