
02 de fevereiro de 2026
Indicadores de desempenho no varejo e sua influência na precificação de ações
Danilo Cipriano; Mariana Titoto Marques
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa é avaliar os principais indicadores de desempenho das empresas do varejo e sua relação com a viabilidade econômico-financeira e o preço das ações. Em um cenário de volatilidade no mercado de capitais e concorrência intensa, a análise de métricas financeiras é um pilar para a decisão estratégica de gestores e investidores. O estudo busca correlacionar o desempenho operacional e financeiro de companhias do setor com a resposta do mercado, expressa na valoração de seus ativos, investigando como a eficiência na gestão de ativos, a estrutura de capital e a geração de lucro se conectam às expectativas dos investidores, materializadas no preço das ações.
A análise se justifica pelo contexto econômico brasileiro, marcado pelo crescimento de investidores pessoa física na B3, que saltou de 700 mil em 2018 para aproximadamente 5 milhões em 2024. Este período coincidiu com alta volatilidade, influenciada por fatores macroeconômicos como a política monetária. A taxa Selic passou de 4,50% em 2019 para um pico de 13,75% em 2022, recuando para 12,25% em 2024, o que impactou a atratividade da renda variável (Receita Federal, 2025). Tal cenário de incerteza exige dos investidores uma análise mais criteriosa e fundamentada.
O setor varejista, foco do estudo, é central na economia brasileira. Em 2023, movimentou cerca de R$ 3,95 trilhões e ultrapassou 10 milhões de trabalhadores formais, representando mais de 10% dos postos de trabalho no país (SEBRAE, 2023; FGV, 2024). Contudo, é um setor competitivo que enfrenta desafios como mudanças no comportamento do consumidor e a concorrência do comércio transfronteiriço, o que pressiona as margens e exige excelência na gestão financeira e operacional para garantir a sustentabilidade.
Nesse ambiente, indicadores de desempenho financeiro são ferramentas essenciais para avaliar eficiência e criação de valor. Métricas como Retorno sobre o Investimento (ROI), Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), Valor Econômico Agregado (EVA) e Margem EBITDA são cruciais na análise fundamentalista. Conforme Damodaran (2012), essa abordagem permite uma compreensão profunda da empresa, avaliando seus fundamentos, estratégia e perspectivas de longo prazo. A aplicação da análise fundamentalista no varejo possibilita a identificação de empresas financeiramente saudáveis, auxiliando investidores a tomarem decisões embasadas.
A literatura acadêmica reforça a correlação entre desempenho financeiro e valoração de mercado. Trindade (2022), ao analisar varejistas brasileiras, constatou que fatores como excesso de estoque, queda na rentabilidade e aumento do endividamento impactaram negativamente a confiança do mercado, resultando em desvalorização das ações. A abordagem deste trabalho, que integra análise financeira e estratégia, é respaldada por teorias como a de mercados eficientes de Fama (1970) e a de desenvolvimento econômico de Schumpeter (1997), que reconhecem a importância dessa integração para a criação de valor. A investigação propõe, assim, uma análise que conecta os indicadores de desempenho à formação do valor empresarial.
A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa e descritiva, que, segundo Lakatos e Marconi (2003), visa observar e correlacionar fenômenos sem manipulá-los, permitindo o tratamento estatístico dos dados. A metodologia baseou-se na análise documental e no estudo de casos múltiplos para uma comparação aprofundada entre empresas do setor. Os dados foram coletados de relatórios financeiros (Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício) de três grandes varejistas listadas na B3, obtidos da Central de Resultados da B3, abrangendo o período de 2020 a 2024. Este período foi escolhido por englobar a pandemia de Covid-19 e a subsequente recuperação econômica, um intervalo que testou a resiliência das empresas.
A análise foi estruturada em torno de indicadores de desempenho selecionados. O Retorno sobre o Investimento (ROI) mede a eficiência em gerar lucro a partir dos ativos totais (Assaf Neto, 2012). O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) indica o retorno para os acionistas (Damodaran, 2012). O Valor Econômico Agregado (EVA) mede a criação de riqueza ao calcular o lucro que excede o custo de capital, indicando criação ou destruição de valor (Assaf Neto, 2012; Damodaran, 2007). A Margem EBITDA avalia a lucratividade operacional, sinalizando a capacidade de geração de caixa da atividade principal (Assaf Neto, 2012).
Adicionalmente, foram analisados indicadores de estrutura de capital e liquidez. O Grau de Alavancagem Financeira (GAF) mostra o efeito da dívida sobre o retorno dos acionistas e o risco financeiro (Assaf Neto, 2002). O Índice de Endividamento Geral (EG) revela a proporção dos ativos financiada por capital de terceiros (Instituto Assaf, 2024). A Liquidez Imediata mede a capacidade de pagar dívidas de curto prazo com os recursos mais líquidos (Martins, 2010). O Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) representa a taxa de retorno mínima que a empresa precisa gerar para remunerar seus credores e acionistas (Assaf Neto, 2002).
Os resultados revelam perfis distintos entre as empresas estudadas, denominadas R, M e C. A empresa R, do segmento de moda, demonstrou gestão financeira superior. Em 2024, apresentou um ROI de 5,88% e um ROE de 11,11%, indicadores que, segundo Damodaran (2012), a posicionam como eficiente. Sua margem EBITDA de 8,72% reforça a eficiência operacional. A estrutura de capital mostrou-se equilibrada, com endividamento geral de 47,10% e alavancagem financeira de 1,05, indicando uso prudente de capital de terceiros. Seu EVA foi negativo em R$ 777 mil, o menor prejuízo entre as analisadas, sugerindo maior proximidade da criação de valor.
A empresa M, focada no varejo de eletrônicos, apresentou um quadro intermediário, com sinais de recuperação. Em 2024, seu ROI foi de 1,20% e o ROE de 3,96%, valores considerados moderados que indicam necessidade de otimização. A margem EBITDA de 4,11% sinaliza recuperação na eficiência operacional. O ponto de atenção é a estrutura de capital: o endividamento geral elevado de 69,66% e a alavancagem de 3,48 sugerem maior risco financeiro. A baixa liquidez imediata (0,11) indica potenciais dificuldades para honrar compromissos de curto prazo. O EVA negativo de R$ 2,2 milhões confirma a destruição de valor.
A empresa C, do segmento de bens duráveis, enfrenta uma situação financeira crítica. Os indicadores de 2024 foram alarmantes: ROI negativo de -3,08% e ROE de -42,19%, evidenciando severa destruição de valor para os acionistas. A empresa registrou a maior destruição de valor econômico, com um EVA de -R$ 2,9 milhões. A estrutura de capital é o ponto mais crítico, com um índice de endividamento geral de 92,69%, o que indica risco de insolvência. A combinação de endividamento excessivo, baixa liquidez imediata (0,11) e margem EBITDA reduzida (1,87%) caracteriza um risco financeiro estrutural que exige reestruturação urgente.
A análise comparativa do período 2020 a 2024 reforça essas conclusões. A empresa R demonstrou consistência, mantendo indicadores positivos e estrutura de capital saudável. A empresa M mostrou recuperação, com seu ROI e ROE saindo de território negativo em 2023 para positivo em 2024, embora seu endividamento permaneça um desafio estrutural. Já a empresa C apresentou deterioração contínua, com endividamento crescente e rentabilidade em queda, refletindo problemas operacionais e financeiros persistentes.
Essa disparidade no desempenho financeiro refletiu-se na percepção de valor pelo mercado, analisada pela Taxa de Crescimento Anual Composta (CAGR) do valor de mercado entre 2020 e 2024. Todas as empresas registraram CAGR negativo, refletindo um período desafiador para o setor. Contudo, a intensidade da queda variou significativamente. A empresa R, com gestão robusta, teve a melhor performance relativa com um CAGR de -22,14%. A empresa C teve um CAGR de -70,33%. A empresa M registrou o pior desempenho, com um CAGR de -81,33%, indicando que o mercado penaliza severamente seu alto endividamento e prejuízos acumulados, apesar dos sinais de recuperação operacional em 2024.
A análise integrada dos dados demonstra que a empresa R se destaca com um modelo de negócio sustentável, traduzido em rentabilidade consistente, estrutura de capital equilibrada e maior resiliência no mercado de ações, alinhada aos preceitos de Damodaran (2007). A empresa M representa um caso de potencial recuperação, mas com riscos associados. A melhoria na rentabilidade é positiva, mas o alto endividamento explica a forte desvalorização de suas ações, exigindo ajustes estratégicos para converter a recuperação operacional em uma estrutura financeira sólida. A situação da empresa C exemplifica como a deterioração dos fundamentos financeiros leva à destruição de valor. A combinação de rentabilidade negativa e endividamento insustentável, conforme os alertas de Assaf Neto (2002), cria um ciclo vicioso que compromete a viabilidade do negócio e representa alto risco para investidores.
Em suma, a análise dos indicadores revela uma forte correlação entre a saúde financeira interna e a valoração externa pelo mercado de capitais. A metodologia permitiu distinguir uma empresa com gestão superior (R), de uma em recuperação com desafios estruturais (M) e de uma em situação financeira crítica (C). Os resultados confirmam a importância da análise fundamentalista como ferramenta para avaliar a viabilidade empresarial e para a tomada de decisões de investimento no competitivo setor varejista.
Como limitação, a pesquisa se restringe ao período de 2020 a 2024 e foca em indicadores quantitativos, não contemplando aspectos qualitativos como governança corporativa, força da marca ou inovação, que também influenciam a performance. Estudos futuros poderiam expandir a análise incorporando essas variáveis não-financeiras. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que os indicadores de desempenho possuem uma relação direta e significativa com a viabilidade econômico-financeira e a precificação das ações no setor varejista, revelando cenários de superioridade, recuperação e crise entre as empresas analisadas.
Referências:
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Assaf Neto, A. Valuation: métricas de valor. 2ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil, 2012.
Assaf Neto, A. Mercado financeiro. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
Damodaran, A. Finanças corporativas: teoria e prática. 2ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil, 2007.
Damodaran, A. Como avaliar empresas e escolher as melhores ações. 2ed. Eselvier, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2012.
Fama, E. F. Efficient Capital Markets: A Review of Theory and Empirical Work. The Journal of Finance, 25(2): p. 383-417, 1970.
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Lakatos, E. M.; Marconi, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 5ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil, 2003.
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Schumpeter, J. A. Teoria do desenvolvimento econômico. 3ed. Nova Cultura, São Paulo, SP, Brasil, 1997.
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequena Empresa [SEBRAE]. Estudos & notícias: o varejo na economia brasileira. Disponível em: <https://sebrae. com. br/sites/PortalSebrae/artigos/estudos-noticias-o-varejo-na-economia-brasileira,cdf0126117ee5810VgnVCM1000001b00320aRCRD >. Acesso em: 2 abr. 2025, 2023.
Trindade, S. C. Análise econômico-financeira: estudo de caso das empresas Magazine Luiza e Lojas Americanas. Trabalho de Conclusão de Curso no Bacharelado em Ciências Contábeis. Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS, Brasil, 2022.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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