Imagem Desafios e oportunidades na inclusão de pessoas com deficiência no ambiente corporativo

02 de fevereiro de 2026

Desafios e oportunidades na inclusão de pessoas com deficiência no ambiente corporativo

Danielle Dantas Sandi; Willian Melo

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada á sinstese e redação.

O modelo social da deficiência, proposto por teóricos como Michael Oliver (1990), desloca o foco do impedimento individual para as barreiras impostas pela sociedade, argumentando que é o ambiente social, econômico e cultural que “incapacita” as pessoas ao não prover acessibilidade e igualdade de oportunidades. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 15% da população mundial seja composta por pessoas com deficiência, das quais 80% estão em idade laboral. No Brasil, o marco legal mais significativo é a Lei nº 8.213/1991, conhecida como Lei de Cotas, que em seu artigo 93 obriga empresas com 100 ou mais empregados a preencher de 2% a 5% de seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas com deficiência habilitadas.

Apesar da inegável relevância e do avanço que esta legislação representou, a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho ainda é uma realidade distante para muitos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE (2022) apontam a existência de aproximadamente 17 milhões de pessoas com deficiência em idade laboral no país, mas a taxa de participação desse grupo na força de trabalho é significativamente inferior à da população sem deficiência, e as taxas de desemprego são consistentemente mais altas. O cenário é agravado pela dificuldade de acesso ao trabalho formal, com muitas PCDs sendo relegadas a vagas informais, com baixa remuneração, pouca segurança e sem perspectivas de desenvolvimento profissional, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade econômica e exclusão social.

Este estudo, portanto, se propôs a investigar em profundidade a realidade de um programa de inclusão em uma empresa de médio porte com 400 funcionários, atuante no setor de energia elétrica. A organização, motivada pela necessidade de cumprir a legislação, lançou um programa específico que envolveu a alta gestão e diversas áreas funcionais. A pesquisa buscou responder às seguintes questões: Quais são as oportunidades e os desafios percebidos pelos colaboradores com deficiência participantes do programa? De que forma a cultura organizacional e as práticas de gestão de pessoas influenciam a experiência de inclusão? E como a contrapartida do empregador se materializa para garantir não apenas a contratação, mas uma inclusão efetiva, que promova o desenvolvimento profissional e a sensação de pertencimento?

Para alcançar os objetivos propostos, adotou-se uma abordagem de pesquisa qualitativa e analítica, método que se mostra particularmente adequado para explorar a complexidade das experiências humanas e os significados que os indivíduos atribuem às suas vivências. A natureza qualitativa permitiu uma imersão profunda no contexto estudado, capturando nuances, percepções e emoções que métodos quantitativos dificilmente conseguiriam revelar. A coleta de dados foi realizada em uma empresa de médio porte localizada na cidade de São Paulo, SP, por meio de entrevistas semiestruturadas com cinco colaboradores com deficiência. A seleção dos participantes foi intencional, um critério de amostragem não probabilístico que busca selecionar casos ricos em informação para o estudo aprofundado do fenômeno.

Os critérios para a seleção incluíram: ser um colaborador com deficiência contratado através do programa de inclusão da empresa e ter, no mínimo, seis meses de experiência na organização, tempo considerado suficiente para ter uma percepção consolidada sobre a cultura e as práticas internas. As entrevistas, com duração média de 40 a 60 minutos cada, foram conduzidas em um ambiente reservado dentro da própria empresa, garantindo privacidade e conforto para os participantes. Um roteiro semiestruturado guiou as conversas, abordando temas como o processo de recrutamento e seleção, a recepção pela equipe e gestor, as adaptações no ambiente de trabalho, as barreiras enfrentadas no dia a dia, as oportunidades de desenvolvimento e as aspirações de carreira. A flexibilidade do roteiro permitiu que os entrevistados discorressem livremente sobre os tópicos que consideravam mais relevantes, trazendo à tona questões não previstas inicialmente.

Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, com o consentimento prévio dos participantes, e posteriormente transcritas na íntegra para análise. Foi assegurado o total anonimato e a confidencialidade das informações, com a utilização de códigos para identificar os participantes nos registros da pesquisa. Os dados coletados foram tratados por meio da técnica de análise temática, que consiste na identificação, análise e relato de padrões (temas) recorrentes nos dados. O processo analítico seguiu etapas rigorosas, iniciando com a familiarização com o material transcrito, seguida pela geração de códigos iniciais, a busca por temas a partir dos códigos, a revisão e o refinamento desses temas, e, por fim, a sua definição e nomeação. As categorias analíticas, portanto, emergiram diretamente dos relatos dos participantes, em um processo indutivo, sendo posteriormente articuladas com o referencial teórico da pesquisa.

Para embasar a análise e a discussão dos resultados, foi realizada uma revisão bibliográfica abrangente sobre os temas da deficiência, mercado de trabalho, legislação brasileira, capacitismo e práticas organizacionais de inclusão. A empresa objeto deste estudo, com um quadro total de 400 colaboradores, possui atualmente oito funcionários com deficiência, o que corresponde a 2% do seu efetivo. Este número está abaixo da cota mínima de 3% estipulada pela Lei nº 8.213/1991 para empresas com 201 a 500 empregados. Este dado inicial já é revelador e corrobora pesquisas de maior abrangência, como a realizada pelo Instituto Ethos (2010), que consistentemente apontam para a baixa representatividade de PCDs no mercado de trabalho formal e a dificuldade generalizada das empresas em atingir as metas legais.

A sub-representação sugere uma lacuna significativa entre a intenção da lei e a sua aplicação prática, reforçando o argumento de que a efetividade da inclusão depende de um compromisso organizacional genuíno com mudanças culturais e a criação de oportunidades reais, e não apenas do cumprimento numérico para evitar sanções legais (Scartezini, 2023). O perfil dos entrevistados, composto por indivíduos jovens na faixa etária de 20 a 40 anos e todos com ensino superior completo ou em andamento, indica um alto potencial profissional e intelectual. Essa característica influencia diretamente suas expectativas em relação à carreira e, consequentemente, suas frustrações com as barreiras encontradas. Os relatos revelaram a profunda heterogeneidade da experiência da deficiência, que é atravessada por múltiplos marcadores. A distinção entre a origem da deficiência (congênita ou adquirida) e sua visibilidade emergiu como um fator central.

Participantes com deficiência congênita relataram uma maior naturalidade e adaptação à sua condição ao longo da vida, mas, em contrapartida, descreveram um histórico de preconceito e exclusão desde o ambiente escolar, o que corrobora as premissas do modelo social da deficiência (Oliver, 1990), que localiza a deficiência nas barreiras sociais. Já os colaboradores com deficiência adquirida descreveram um processo de adaptação psicossocial complexo, marcado pelo luto, pela reconstrução da identidade e pela resistência do mercado de trabalho em aceitá-los de volta após o evento que originou a deficiência. A distinção entre deficiências visíveis (como o uso de cadeira de rodas) e não visíveis (como deficiências auditivas, visuais parciais ou condições ocultas) também se mostrou extremamente relevante. Enquanto as deficiências visíveis tendem a gerar um preconceito mais direto e imediato, muitas vezes baseado em estereótipos de incapacidade, as deficiências não visíveis trazem outros tipos de desafios.

As percepções sobre carreira e desenvolvimento profissional foram notavelmente distintas entre os entrevistados, refletindo suas trajetórias e aspirações individuais. Alguns participantes valorizaram imensamente a estabilidade e a segurança proporcionadas pela inserção no mercado de trabalho formal, vendo o emprego como uma conquista fundamental para sua autonomia financeira e social. Outros, no entanto, manifestaram uma forte motivação para o crescimento profissional, buscando ativamente qualificações adicionais e almejando cargos de maior complexidade e responsabilidade. Apesar dessas diferentes aspirações, um sentimento comum a todos foi o orgulho pelo espaço conquistado e um alto nível de comprometimento com a empresa, demonstrando um desejo de contribuir e ser reconhecido por suas competências. As barreiras para a inserção e ascensão no mercado de trabalho constituem um desafio central e multifacetado. Os relatos apontaram de forma unânime o preconceito em processos seletivos como o primeiro grande obstáculo.

Muitos descreveram entrevistas em que os recrutadores focavam excessivamente na deficiência, duvidando de sua capacidade de realizar as tarefas, um fenômeno conhecido como capacitismo (Mello, 2016), que é a discriminação e o preconceito social contra pessoas com deficiência. Outro obstáculo recorrente foi a escassez de vagas compatíveis com suas qualificações. As empresas, muitas vezes, limitam-se a oferecer cargos de nível inicial, como auxiliar administrativo ou posições operacionais, com salários “pífios” e sem planos de carreira claros, tratando a contratação de PCDs como uma obrigação a ser cumprida da forma mais barata possível. A falta de preparo dos processos seletivos, com plataformas de inscrição inacessíveis e a ausência de programas de qualificação profissional que sejam verdadeiramente acessíveis, também foram citados como barreiras significativas. Um desafio frequentemente invisibilizado, mas de grande impacto na vida dos colaboradores, é a questão da acessibilidade no trajeto entre a residência e o local de trabalho.

Nenhum dos entrevistados mencionou qualquer tipo de apoio ou subsídio da empresa para o deslocamento, cuja responsabilidade recai integralmente sobre o colaborador. Esta omissão funciona como um mecanismo de exclusão indireta, pois a dificuldade de locomoção em cidades com infraestrutura de transporte público precária e inacessível pode inviabilizar a manutenção do emprego. Um profissional relatou a necessidade de usar o cordão de girassol, um símbolo para identificar deficiências ocultas, para evitar constrangimentos e conflitos no transporte público lotado, revelando as barreiras atitudinais da sociedade que tornam a simples locomoção uma jornada desgastante. A falta de infraestrutura urbana acessível é, portanto, uma barreira implícita e sistêmica que antecede a chegada à empresa e que o mundo corporativo frequentemente ignora. Apesar dos inúmeros desafios, experiências positivas dentro da empresa atual foram destacadas e valorizadas pelos participantes.

O acolhimento por parte das equipes e as adaptações realizadas no ambiente de trabalho foram pontos frequentemente mencionados. Um profissional com deficiência auditiva, por exemplo, relatou com entusiasmo que sua gestora, antes de sua chegada, preparou toda a equipe, explicando as melhores formas de comunicação e sensibilizando os colegas sobre suas necessidades específicas. Essa atitude proativa e empática criou um ambiente de respeito e segurança psicológica; ele se sentiu valorizado como profissional, e não como um mero número para cumprir a cota. Tais experiências demonstram que a inclusão é um processo de mão dupla, que supera o antigo paradigma de “suporte e serviços”, focado apenas em prover o mínimo necessário, para um modelo de “empoderamento” e parceria; a organização e o indivíduo colaboram para o sucesso mútuo (Brunstein & Serrano, 2008).

A pesquisa revelou que, apesar da existência de ações formais e da boa vontade de alguns indivíduos, a inclusão na empresa estudada ainda se mostra parcial e frágil. A sub-representação de PCDs no quadro de funcionários, somada à persistência de barreiras estruturais, culturais e atitudinais, limita significativamente o desenvolvimento profissional e a plena integração desses colaboradores. Os relatos indicam que a inclusão, em muitos aspectos, ainda se restringe ao cumprimento formal de cotas, sem um investimento robusto e estratégico em políticas de valorização da diversidade que permeiem toda a organização. Contudo, a disposição positiva, a busca por qualificação e a notável resiliência demonstrada pelos colaboradores com deficiência indicam um imenso potencial de transformação que está sendo subaproveitado. A efetivação da inclusão, portanto, exige muito mais do que ações pontuais; demanda uma profunda revisão da cultura organizacional, com o compromisso da alta liderança e o engajamento de todos os níveis hierárquicos.

Para a área de Gestão de Pessoas, os achados deste estudo apontam para a necessidade urgente de desenvolver ações mais estruturadas e intencionais. Isso inclui programas de sensibilização e treinamento para todas as equipes e, especialmente, para as lideranças; a revisão dos processos de recrutamento e seleção para focar em competências e eliminar vieses inconscientes; e a criação de planos de carreira equitativos e acessíveis.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a inclusão efetiva de pessoas com deficiência transcende o cumprimento de cotas, dependendo fundamentalmente de mudanças culturais profundas e da superação de barreiras atitudinais no ambiente corporativo para que o potencial de cada indivíduo possa ser plenamente realizado.

Referências:
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Brunstein, J.; Serrano, C. A. 2008. Vozes da diversidade: um estudo sobre as experiências de inclusão de gestores e PCDs em cinco empresas paulistas. Cadernos EBAPE. BR 6(3).
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Mello, Anahi Guedes de. Deficiência, capacitismo e interseccionalidade. Ciência & Saúde Coletiva, v. 21, n. 10, p. 3261–3270, 2016.
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Pereira, L. 2011. Estudo de caso sobre representatividade de pessoas com deficiência em cargos gerenciais. Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
RAIS – Relação Anual de Informações Sociais / MTE. 2010. Estatísticas sobre emprego formal de pessoas com deficiência. Brasília, DF, Brasil.
Rodrigues, P. S.; Pereira, E. L. 2018. A percepção das pessoas com deficiência sobre o trabalho e a Lei de Cotas: uma revisão da literatura. Trabalho, Educação e Saúde 16(3): 959-974.
Scartezini, D. 2025. Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho: prioridade estratégica. Instituto Ethos, 24 mar. Disponível em: https://www. ethos. org. br. Acesso em: 21 set. 2025.
Shakespeare, T. 2006. Disability rights and wrongs. Routledge, London, UK.
Shakespeare, T. 2013. Disability: the basics. Routledge, London, UK.
Silva, R.; Pereira, A. 2011. Políticas de inclusão de pessoas com deficiência em organizações brasileiras. Revista de Administração Pública 45(6): 1455–1476.
Tette, R. P. G.; Carvalho-Freitas, M. N.; Oliveira, M. S. 2014. Relações entre significado do trabalho e percepção de suporte para pessoas com deficiência em organizações brasileiras. Estudos de Psicologia (Natal) 19(3): 217-227.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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