
02 de fevereiro de 2026
Análise estratégica da divulgação científica digital no brasil via Matriz SWOT
David dos Santos Soares; Pablo Henrique Paschoal Capucho
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este trabalho objetiva levantar informações de mercado sobre a divulgação científica na internet brasileira, identificando padrões estratégicos, oportunidades, fraquezas, ameaças e forças (SWOT) do segmento. A pesquisa busca também mapear as fontes de renda dos divulgadores e sua relevância. A premissa é que, apesar do crescimento da área, há uma lacuna de conhecimento sobre seus modelos de negócio e estratégias, sendo fundamental compreender o cenário para avaliar sua sustentabilidade e expansão.
A divulgação científica, a comunicação de ciência em linguagem acessível (Vogt et al., 2018), migrou de mídias tradicionais (Massarani e Moreira, 2016) para plataformas digitais. As redes sociais já são a principal fonte de informação sobre ciência para quase 40% dos brasileiros (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2023). Essa migração amplificou o alcance da ciência, mas introduziu a competição com a desinformação e pseudociências, que se propagam rapidamente no mesmo ecossistema (Vosoughi et al., 2018).
Nesse contexto, a divulgação científica assume importância educacional e social, capacitando o público a tomar decisões informadas em áreas como saúde e meio ambiente. Essa missão é ameaçada pela desinformação, que explora apelos emocionais e deturpação de dados para gerar engajamento e lucro (Proença, 2024). A indústria da desinformação, incluindo a venda de produtos ineficazes e a manipulação da opinião pública, encontra terreno fértil nas pseudociências, que usam uma roupagem científica sem rigor metodológico (Orsi e Pasternak, 2019). Práticas como a homeopatia movimentam um mercado bilionário que explora a vulnerabilidade da população (Bacchi, 2025).
O trabalho do divulgador científico digital é complexo, exigindo domínio de conteúdo técnico e habilidades em marketing digital, produção audiovisual e gestão de negócios. O profissional precisa entender algoritmos, aplicar estratégias de tráfego e construir uma marca pessoal, enfrentando escassez de tempo, recursos e falta de formação em gestão (Bueno e Fonseca, 2020). A ausência de estudos sobre como os divulgadores brasileiros lidam com esses desafios justifica a abordagem exploratória desta pesquisa, que busca fornecer um panorama inédito sobre as estratégias do setor.
A relevância desta investigação está em oferecer um diagnóstico do ecossistema da divulgação científica digital no Brasil, identificando fatores de crescimento e barreiras. Ao mapear fontes de renda e percepções estratégicas, o estudo fornece subsídios para novos divulgadores e para o desenvolvimento de políticas de apoio. Compreender a matriz SWOT deste mercado é um passo para fortalecer um pilar da educação e da democracia em uma sociedade dependente da informação digital (Sagan, 1996).
A pesquisa adotou uma metodologia qualitativa-exploratória, adequada à natureza incipiente do tema, pois não existem estudos prévios sobre as estratégias de negócio dos divulgadores científicos brasileiros (Gil, 2010). O delineamento qualitativo foi escolhido para capturar as percepções subjetivas e motivações por trás das estratégias, permitindo uma compreensão profunda do contexto (Gil, 2002). O principal instrumento de coleta foram entrevistas semiestruturadas, realizadas remotamente via Zoom. A seleção dos participantes seguiu amostragem não probabilística, buscando divulgadores com atuação consolidada em ciências biológicas e da saúde. De quinze convites, quatro profissionais concordaram em participar. Os entrevistados são majoritariamente do gênero masculino, da região sudeste e com pós-graduação. Para garantir o anonimato, foram identificados como “divulgador 1” a “divulgador 4”.
O roteiro das entrevistas foi estruturado com base na matriz SWOT (forças, fraquezas, oportunidades, ameaças), uma ferramenta de planejamento estratégico (Cobra et al., 2017). Essa escolha organizou a coleta de dados e permitiu flexibilidade para os entrevistados. O uso de entrevistas com divulgadores já foi validado em outros estudos (Santos e Muller, 2022). As entrevistas foram gravadas com consentimento para transcrição e análise de conteúdo. O estudo dispensou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), enquadrando-se na Resolução CNS nº 510/2016, que isenta pesquisas sobre práticas profissionais sem identificação dos sujeitos. A análise dos dados buscou padrões e temas recorrentes, organizados na estrutura SWOT e na categorização das fontes de monetização.
A identificação das fontes de renda mostrou que a diversificação de receitas é uma estratégia central para a sustentabilidade financeira. As fontes analisadas incluíram venda de produtos próprios (livros, cursos), prestação de serviços (consultorias), financiamento coletivo, doações diretas, Google AdSense, marketing de afiliados e parcerias publicitárias diretas com marcas (“publis”). A prestação de serviços emergiu como a fonte mais consistentemente classificada como “muito importante” por todos os quatro entrevistados, indicando que a expertise do divulgador é um ativo altamente monetizável. Em seguida, a venda de produtos e as parcerias com marcas também foram citadas como muito relevantes, embora com menor unanimidade.
A análise sob a ótica do marketing digital revela que a divulgação científica funciona como topo de um funil de conversão. A produção de conteúdo gratuito em plataformas como YouTube e Instagram gera reconhecimento de marca, autoridade e engajamento. A partir dessa base, os divulgadores direcionam o público para ofertas pagas, como cursos e consultorias. Isso evidencia que a divulgação científica é uma ferramenta de marketing de conteúdo que transforma conhecimento em negócio. AdSense e financiamento coletivo foram geralmente classificados como fontes de renda secundárias, reforçando que a sustentabilidade depende de modelos de negócio mais ativos e diversificados.
A análise SWOT revelou um panorama complexo do ambiente da divulgação científica. No quadrante das forças, os entrevistados destacaram unanimemente a capacidade de facilitar e democratizar o acesso ao conhecimento científico. Essa característica posiciona o divulgador como uma figura de alta credibilidade e autoridade, um diferencial competitivo significativo em relação a outros influenciadores digitais (Liu et al., 2024). Consequentemente, outra força é o potencial de combate à desinformação e às pseudociências, oferecendo ao público ferramentas para o pensamento crítico.
Em contrapartida, o quadrante das fraquezas apresentou o maior número de queixas, sinalizando desafios internos. A necessidade de adaptação constante aos algoritmos das redes sociais foi citada por todos como um grande obstáculo. Outra fraqueza proeminente é a desvalorização e a ausência de fomento pela academia, com entrevistados relatando falta de reconhecimento institucional e de programas de formação para a comunicação com o público. Essa lacuna dificulta a profissionalização da atividade, a obtenção de renda principal e a capacidade de “furar a bolha” para alcançar públicos não especializados.
A complexidade do trabalho do divulgador, que exige competências em ciência, comunicação, marketing e gestão, foi apontada como uma barreira estrutural. Sem suporte institucional, muitos profissionais se sobrecarregam ou desistem por insustentabilidade financeira. Esse cenário sugere um desequilíbrio entre o investimento na produção de ciência e na sua comunicação, um paradoxo, visto que a eficácia de políticas públicas, como campanhas de vacinação, depende da compreensão popular (Santos et al., 2023).
Nas oportunidades, os divulgadores identificaram um campo para inovação. A integração da divulgação digital com espaços tradicionais como escolas e museus é uma oportunidade para criar experiências de aprendizado imersivas, refletindo a tendência de mercado por serviços omnichannel (Gerea et al., 2021). Paradoxalmente, o crescimento da desinformação também foi visto como uma oportunidade, pois aumenta a demanda social por fontes confiáveis, valorizando o trabalho do divulgador. Há também potencial no uso de ferramentas de marketing mais sofisticadas e na diversificação de formatos, como gamificação e produtos educacionais interativos.
Finalmente, o quadrante das ameaças revelou um ambiente externo hostil. A desinformação e o avanço das pseudociências foram citados como a principal ameaça, competindo pela atenção do público e criando desconfiança na ciência. O risco de assédio judicial movido por promotores de terapias ineficazes é uma ameaça concreta. A dependência das políticas de monetização das plataformas digitais gera instabilidade, pois mudanças nas regras podem comprometer a viabilidade financeira. A ascensão de discursos e governos anticiência representa uma ameaça sistêmica, manifestada na desvalorização da ciência e no corte de investimentos, como a manutenção de práticas pseudocientíficas no sistema público de saúde (Brasil, 2006; Ernst, 2002).
A síntese desses pontos evidencia uma dinâmica de mercado onde a divulgação científica e a indústria da desinformação atuam como concorrentes diretos. Enquanto a primeira “vende” informação embasada para empoderar o público, a segunda lucra com a manutenção da ignorância (Pinheiro et al., 2023). Essa disputa ocorre em um campo desigual; a desinformação se beneficia de maior apelo emocional e de algoritmos que priorizam o sensacionalismo. As questões de saúde mental, mencionadas como ameaça, são um reflexo da pressão e do ambiente adverso em que esses profissionais atuam.
A pesquisa alcançou seus objetivos ao mapear as fontes de renda e construir uma matriz SWOT do segmento de divulgação científica digital no Brasil. Os resultados indicam que, embora seja um campo com potencial social e educacional, sua sustentabilidade é frágil. As forças, como a democratização do conhecimento, coexistem com fraquezas significativas, como a dependência de algoritmos e a falta de apoio acadêmico. As oportunidades, como a integração com a educação tradicional, são contrabalançadas por ameaças graves, incluindo a desinformação, riscos jurídicos e a instabilidade das plataformas. A predominância de fraquezas e ameaças na percepção dos entrevistados reforça a urgência de mais estudos e políticas de apoio. Apesar das limitações do estudo, como o número reduzido de participantes, os achados oferecem uma base para futuras investigações e para o desenvolvimento de estratégias que tornem a divulgação científica mais profissionalizada e sustentável. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se um panorama inicial das estratégias, fontes de renda, forças, fraquezas, oportunidades e ameaças que caracterizam o segmento de divulgação científica digital no Brasil.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq
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