Imagem Impactos financeiros e estratégicos da fusão entre duas empresas do setor alimentício na BRF

02 de março de 2026

Impactos financeiros e estratégicos da fusão entre duas empresas do setor alimentício na BRF

Geovanna Alves Pereira; Vivian Caroline Lapini Rocha

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa investiga os impactos financeiros e estratégicos da fusão entre Sadia S. A. e Perdigão S. A., que criou a Brasil Foods S. A. (BRF), uma das maiores corporações globais de alimentos. A análise dos indicadores financeiros pré e pós-fusão busca elucidar as transformações na estrutura de capital, rentabilidade e solvência da nova entidade, detalhando os desafios e benefícios de operações de grande magnitude. O estudo responde como a integração das duas rivais impactou o desempenho da companhia resultante, considerando cenários macroeconômicos e eventos corporativos.

A união entre Sadia e Perdigão, iniciada em 2009 e concluída em 2011, foi um evento marcante na história corporativa brasileira. A operação reuniu duas líderes de mercado com trajetórias ligadas ao agronegócio no Sul do Brasil (Cordeiro, 2013). A Perdigão, fundada em 1934, consolidou-se com gestão conservadora e eficiência operacional, garantindo sólida posição financeira. Em contraste, a Sadia, criada em 1944, adotou uma postura arrojada e inovadora, pioneira em congelados, mas sua expansão agressiva veio com riscos financeiros elevados. A fusão empresarial, como estratégia, visa expandir mercado, elevar eficiência e fortalecer a posição competitiva, integrando ativos para gerar sinergias e valor para acionistas (Severino e Carvalho, 2024).

O catalisador da fusão foi a crise financeira de 2008, que expôs a vulnerabilidade da Sadia. A empresa realizou operações especulativas com derivativos, apostando na estabilidade do dólar. A valorização da moeda norte-americana resultou em prejuízos bilionários que comprometeram sua saúde financeira, levando-a à beira da insolvência (Silva Pereira, 2016). Nesse contexto, a fusão emergiu como uma solução dupla: uma saída para a crise da Sadia e uma oportunidade para criar uma gigante global com portfólios complementares em carnes, lácteos e processados, capaz de competir internacionalmente.

O governo brasileiro, via BNDES, apoiou a operação, projetando a BRF como a terceira maior exportadora do país. Contudo, a magnitude da fusão gerou preocupações concorrenciais, levando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) a impor restrições. A aprovação final em 2011 foi condicionada à alienação de ativos e marcas como Batavo e Elegê, além de restrições temporárias ao uso das marcas Sadia e Perdigão em certos segmentos (Romano e Almeida, 2015). A efetividade de uma operação dessa complexidade deve ser avaliada por seus impactos financeiros e estratégicos ao longo do tempo.

A relevância desta pesquisa reside na contribuição para o entendimento dos desafios e benefícios financeiros em fusões de grande escala. A análise dos indicadores pré e pós-fusão oferece uma base empírica para avaliar a criação de valor e as dificuldades de integração, fornecendo lições para futuras operações. A trajetória da BRF, com períodos de sucesso e crises, serve como estudo de caso sobre a interação entre estratégia, finanças e governança (Ritta e Lavarda, 2022).

A metodologia foi um estudo de caso com abordagem mista, combinando análises quantitativas e qualitativas. A etapa quantitativa centrou-se na análise de dados financeiros secundários da B3 e de relatórios das empresas. A análise pré-fusão considerou os relatórios de 2007 e 2008 da Sadia e Perdigão, período anterior à crise que precipitou a união. A análise pós-fusão abrangeu os dados consolidados da BRF de 2009 a 2024, permitindo observar a evolução de longo prazo da companhia, incluindo crescimento, crises e reestruturações. A análise de indicadores de atividade e liquidez é fundamental para compreender a saúde financeira de uma organização (De Barros et al., 2022).

As técnicas de análise envolveram o cálculo e a comparação de indicadores de liquidez (corrente, seca, imediata), rentabilidade (margem bruta, líquida) e retorno (Retorno sobre o Patrimônio Líquido – ROE e Retorno sobre o Ativo – ROA). Os dados foram organizados em planilhas e submetidos a análises descritivas, com gráficos comparativos para visualizar tendências. A interpretação desses indicadores é crucial, embora existam limitações inerentes que devem ser consideradas (Campos et al., 2018). A abordagem qualitativa complementou a análise com o exame de comunicados ao mercado, relatórios da administração e notícias sobre eventos como a “Operação Carne Fraca”. A evolução do preço das ações da BRF (BRFS3) foi analisada para correlacionar o desempenho financeiro com a percepção do mercado de capitais. A combinação de métodos permitiu interpretar as causas e consequências das mudanças nos indicadores, fortalecendo a confiabilidade das avaliações.

A análise dos indicadores de liquidez pré-fusão revelou grande disparidade na saúde financeira entre Perdigão e Sadia. A liquidez corrente, que mede a capacidade de honrar obrigações de curto prazo, mostrou a Perdigão com um índice estável de 1,94 em 2007 e 2008. Em contraste, a Sadia, que em 2007 apresentava um índice de 2,20, sofreu um colapso em 2008, com o indicador despencando para 0,91. Essa queda foi consequência das perdas com derivativos cambiais, que fizeram seu passivo circulante saltar de R$ 2,6 bilhões para R$ 8,4 bilhões em um ano.

A liquidez seca, indicador que exclui os estoques (Vieira, 2019), reforçou o cenário de crise. Enquanto a Perdigão manteve um índice de 1,00 em 2008, o da Sadia desabou de 1,68 em 2007 para 0,68 em 2008, sinalizando dificuldade em saldar dívidas sem depender da venda de produtos. A liquidez imediata, que considera apenas o caixa, confirmou a deterioração: o índice da Sadia caiu de 1,18 para 0,42, indicando que a empresa dispunha de recursos imediatos para cobrir menos da metade de suas obrigações de curto prazo.

No período pós-fusão, a liquidez da BRF foi volátil. Entre 2010 e 2015, a liquidez corrente foi robusta, atingindo pico de 1,83 em 2014. No entanto, a crise a partir de 2016, intensificada pela “Operação Carne Fraca”, provocou uma deterioração do indicador, que atingiu seu ponto mais baixo em 2019, com 1,13. A liquidez seca da BRF também refletiu esses desafios, caindo abaixo de 1,0 em 2017 e atingindo a mínima de aproximadamente 0,8 entre 2021 e 2022. A recuperação a partir de 2023, com a liquidez corrente subindo para 1,48 e a seca para 1,15 em 2024, sinaliza o sucesso das medidas de reestruturação.

A análise das margens de rentabilidade também ilustra a trajetória da BRF. A margem bruta, que mede a lucratividade da operação principal (De Mello e Schnorrenberger, 2014), sofreu contração para ambas as empresas em 2008. Na BRF, essa margem demonstrou alta volatilidade, com picos em 2014 (29,34%) e 2015 (31,34%), seguidos por uma queda para 16,12% em 2018. A melhora para 25,80% em 2024 é reflexo do plano de eficiência BRF+, focado em otimização de portfólio e redução de custos.

A margem líquida, que reflete o lucro final (Oliveira et al., 2017), expôs o impacto da crise da Sadia, cujo indicador passou de 8,82% em 2007 para um prejuízo de -23,16% em 2008, enquanto a Perdigão se manteve positiva. Na BRF, os anos de 2014 e 2015 foram de alta lucratividade, com margens de 7,67% e 9,66%. Contudo, a empresa registrou prejuízos significativos em 2016, 2017, 2018 (com margem de -14,73%), 2022 e 2023. A recuperação para uma margem positiva de 5,24% em 2024 demonstra que a companhia conseguiu controlar suas despesas financeiras e operacionais.

Os indicadores de retorno, como o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), que mede a capacidade de gerar lucro a partir do capital dos sócios (Medeiros et al., 2012), contam uma história semelhante. O colapso do ROE da Sadia de 24,13% para -604,8% em 2008 foi o sinal da destruição de valor causada pelos derivativos. Na BRF, o ROE atingiu picos em 2015 (23,02%), mas despencou para -63,87% em 2018. A virada em 2024, com um ROE de 21,30%, representa uma recuperação impulsionada pelo lucro recorde. A influência da liquidez sobre a rentabilidade é um fator chave na análise de desempenho (Marques e Milani, 2017).

O Retorno sobre o Ativo (ROA), que mede a eficiência da empresa em gerar lucro a partir de seus ativos, também seguiu essa tendência. A BRF apresentou valores negativos em diversos anos, com destaque para 2018 (-10,50%). A recuperação para 5,13% em 2024, alinhada aos demais indicadores, sugere um melhor aproveitamento dos ativos, impulsionado pela integração com a Marfrig e expansão das exportações. A análise de determinantes de rentabilidade como ROA e ROE é essencial para a gestão financeira (Lima, 2017). A evolução das ações da BRF no mercado refletiu a percepção dos investidores. A fusão em 2009 foi recebida com otimismo. Em contrapartida, a “Operação Carne Fraca” em 2017 provocou uma queda acentuada. A entrada da Marfrig como acionista em 2021 reacendeu expectativas, e o lucro líquido recorde de R$ 3,7 bilhões em 2024 levou as ações ao seu patamar máximo histórico, confirmando a correlação entre desempenho e valor de mercado.

A fusão entre Sadia e Perdigão, que resultou na BRF, foi motivada pela iminente insolvência da Sadia e pela visão de criar uma competidora global. A análise dos indicadores demonstrou que a operação foi essencial para a sobrevivência da Sadia. No período pós-fusão, a BRF navegou por um ciclo de volatilidade, alternando forte desempenho (2014-2015) com prejuízos expressivos (2016-2019), quando crises de governança e reputacionais impactaram a empresa. A recente recuperação, com resultados recordes em 2024, evidencia a resiliência da companhia e a eficácia de sua reestruturação. A trajetória das ações acompanhou de perto esses movimentos, reforçando como a percepção do mercado é sensível aos resultados e eventos estratégicos.

Este estudo possui limitações, como a análise restrita a dados secundários e o recorte temporal. Sugere-se que pesquisas futuras incorporem abordagens qualitativas, como entrevistas com gestores, e realizem análises comparativas. A experiência da BRF oferece uma lição valiosa: o sucesso de uma fusão não se garante apenas pela integração de ativos, mas depende de uma gestão de riscos eficiente, da capacidade de adaptação a crises e da manutenção de práticas de governança corporativa robustas para traduzir sinergias em valor sustentável. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a fusão entre Sadia e Perdigão, embora essencial para a sobrevivência da primeira, resultou em uma entidade com elevada volatilidade financeira, cujos resultados foram profundamente impactados por crises de governança e dinâmicas de mercado.

Referências:
Angeli, A. P. ; Rebehy P. C. P. Wadhy; Junior, A. P. S.; Júnior, J. R. S.; Filho, C. R. B. 2024 Avaliação do comportamento dos bancos brasileiros em transações de fusão e aquisição. Revista Contabilidade & Finanças 35(95): 1747.
Campos, M. F. D.; Costa, M. J. G.; Canito, A. R. R. 2018. Análise de Balanço: uma discussão sobre as limitações na interpretação dos índices de liquidez. Negócios em Projeção 9(1): 14-27.
Cordeiro, R. A. 2013. Da Rivalidade a Parceria: analise financeira e estratégica do caso Sadia e Perdigao. Teoria e Prática em Administração (TPA) 3(1): 152-175.
Dalla Costa, A. J.; Souza-Santos, E. R. de. 2009. Brasil Foods: a fusão entre Perdigão e Sadia. Revista Economia & Tecnologia 5(2). Disponível em: <https://revistas. ufpr. br/ret/article/view/27274>. Acesso em: 10 ago. 2025.
De Barros, F. R.; Dos Santos, R. L.; Amaral, H. F. 2022. Análise dos Indicadores de Atividade, Liquidez e Dinâmicos de Três Empresas de Minas Gerais. RAGC, 10(44): 129-145.
De Mello, M. S.; Schnorrenberger, D. A. 2014. Influência do Valor da Marca no Grau de Intangibilidade e a Margem Bruta. In: XXI Congresso Brasileiro de Custos, 2014, Natal, RN, Brasil. Anais… p. 1-15.
Lima, V. de S. S. 2017. Determinantes dos índices de rentabilidade: ROA, ROE, ROI. Tese de Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Contábeis. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil.
Marques, G. T.; Milani, B. 2017. Influência da Liquidez sobre a Rentabilidade: análise das empresas listadas no INDX no período de 2005 a 2013. Estudos do CEPE 45: 143-159.
Medeiros, F. S. B.; Dalla Nor L. D.; Boligon J. A. R.; Denardin E. S.; Murini L. T. 2012. Gestão Econômica e Financeira: a aplicação de indicadores. Simpósio em Excelência em Gestão e Tecnologia. Disponível em: < https://www. aedb. br/seget/arquivos/artigos12/681653. pdf>. Acesso em Acesso em 10 ago. 2025.
Oliveira, J. F. da R.; Junior D. B. C. V.; Ponte, V. M. R.; Domingos, S. R. M. 2017. Indicadores de Desempenho e Valor de Mercado: uma análise nas empresas listadas na BM&FBOVESPA. Revista Ambiente Contábil 9(2): 240-258.
Ritta, C. de O.; Lavarda, C. E. F. 2022. Mudança nas Regras e Rotinas da Contabilidade Gerencial em Operações de Fusão e Aquisição. Revista Contabilidade & Finanças 33: 1479.
Romano, P. R.; Almeida, V. de S. e. 2015. Análise dos Efeitos em Mercado de Capitais Decorrentes de Fusões: o caso BRF SA. Revista de Administração Contemporânea 19(5): 606-625.
Severino, I. T. A.; Carvalho, F. de M. 2024. O Estado da Arte da Criação de Valor nas F&A: um estudo bibliométrico (1972-2021). Revista de Gestão e Secretariado 15(1): 617-636.
Silva Pereira, E. 2016. Análise do Impacto da Crise Financeira na Indústria Brasileira: um estudo de caso de uma grande indústria alimentícia a partir de suas demonstrações financeiras. Revista Mineira de Contabilidade 1(37): 6-11.
Vieira,I. F. de B.; 2019. Agronegócio Brasileiro: Análise Dos Indicadores De Empresas Listadas Na B3. Tese de Trabalho de Conclusão de Curso em Administração. Universidade Federal do Delta do Parnaíba, Parnaíba, PI, Brasil.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

Saiba mais sobre o curso; clique aqui:

Quem editou este artigo

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade